DIREITO E PASTORAL

BEATIFICAÇÕES E PASTORAL

 

Bento Xvi

 

 

Oferecemos aos leitores outro excerto da entrevista concedida pelo Santo Padre (V. Secções «A Palavra do Papa» e «Documentação»), onde se manifesta a relação entre o direito e a pastoral.

 

 

Rádio Vaticana: Santo Padre, o seu Predecessor declarou bem-aventurados e santos um grandíssimo número de cristãos. Alguns pensam que terá sido demasiado. Esta é a minha pergunta: as beatificações e as canonizações são uma vantagem para a Igreja somente se essas pessoas podem ser consideradas como verdadeiros modelos. A Alemanha produz relativamente poucos santos e bem-aventurados, se comparada a outros países. Pode-se fazer alguma coisa para que esta dimensão pastoral se desenvolva, e para que a necessidade de beatificações e canonizações dê um verdadeiro fruto pastoral?

 

Bento XVI: No início, eu também tinha um pouco a ideia de que a grande quantidade das beatificações quase nos esmagava, e que talvez houvesse necessidade de escolher melhor: figuras que entrassem mais claramente na nossa consciência. Entretanto, descentralizei as beatificações, para tornar cada vez mais visíveis essas figuras nos lugares específicos a que pertencem. Talvez um santo da Guatemala interesse menos a nós, na Alemanha, e vice-versa, um de Altötting talvez não encontre tanto interesse em Los Angeles, e assim por diante. Neste sentido, creio que esta descentralização, que corresponde também à colegialidade do episcopado, às suas estruturas colegiais, é algo oportuno precisamente neste ponto. Os diversos países têm as suas próprias figuras, que ali podem desempenhar a sua eficácia. Observei também que essas beatificações nos diversos lugares sensibilizam numerosas pessoas, e a gente diz: «Finalmente, este é um de nós!», e recorre a ele e nele se inspira. O bem-aventurado pertence-lhes, e ficamos contentes que ali haja muitos. E se, gradualmente, com o desenvolvimento da sociedade mundial, também nós os conhecermos melhor, seria belo. Mas, antes de mais, é importante que também neste campo, haja multiplicidade. Neste sentido, é importante que também nós, na Alemanha, aprendamos a conhecer as nossas próprias figuras e a alegrarmo-nos com elas. Paralelamente, existem depois as canonizações das figuras maiores, que são de relevo para toda a Igreja. Eu diria que cada Conferência Episcopal deveria escolher, deveria ver quem é adequado para nós, quem nos diz verdadeiramente algo, e depois, deveria tornar visíveis essas figuras mais significativas, imprimindo-as na consciência, por meio da catequese e da pregação; talvez se pudesse até mesmo apresentá-las com um filme. Poderia imaginar alguns filmes muito belos. Naturalmente, eu conheço bem apenas os Padres da Igreja: fazer um filme sobre Agostinho, também um sobre Gregório Nazianzeno e a sua figura muito particular (a sua fuga repetida porque lhe davam muitas responsabilidades), e assim por diante, e demonstrar que não há sempre apenas situações desagradáveis em torno das quais se fazem tantos filmes, mas que há figuras maravilhosas da história, que não são de modo algum maçadoras, mas muito actuais. Em suma, é preciso procurar não carregar excessivamente as pessoas, mas tornar visíveis para muitos as figuras que são actuais e que nos inspiram.

 

DW: Histórias de humor também? Em 1989, em Mónaco, recebeu a condecoração da Ordem de Karl Valentin. Que papel tem na vida de um Papa, o humor e a descontracção?

 

Bento XVI: (o Papa ri) Não sou um homem que se lembra continuamente de anedotas. Mas, saber ver o aspecto divertido da vida e a sua dimensão alegre, e não tomar tudo tragicamente, isto considero muito importante, e diria que é até necessário para o meu ministério. Um escritor disse que os anjos podem voar porque não se tomam muito a sério. Talvez também nós pudéssemos voar um pouco mais, se não nos déssemos tanta importância.

 

Pergunta: Quando se desempenha uma tarefa importante como a sua, Santo Padre, naturalmente é-se muito observado. Os outros falam de si. Pelo que li, fiquei impressionado com o que dizem muitos observadores: que o Papa Bento XVI é uma personalidade diferente do Cardeal Ratzinger. Como vê a si mesmo, se posso permitir-me esta pergunta?

 

Bento XVI: Eu já fui seccionado diversas vezes: o professor do primeiro período e o do período intermédio, o primeiro Cardeal e o sucessivo. Agora, acrescenta-se outra divisão. Naturalmente, as circunstâncias e a situação e também os homens influenciam, porque se desempenham responsabilidades diversas. Mas - digamos assim - a minha personalidade fundamental e também a minha visão fundamental cresceram, mas em tudo o que é essencial permanecem idênticas. Fico contente por agora serem percebidos também aspectos que antes não eram tão notados.

 

 


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