29º Domingo Comum

D. M. das Missões

22 de Outubro de 2006

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Aclamai o Senhor terra inteira, J. Santos, NRMS 98

Sl 16, 6.8.9

Antífona de entrada: Respondei-me, Senhor, quando Vos invoco, ouvi a minha voz, escutai as minhas palavras. Guardai-me dos meus inimigos, Senhor. Protegei-me à sombra das vossas asas.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

É o dia do Senhor. Vamos celebrar a Santa Missa, memorial da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.

Jesus deu a vida por todos. Mas nem todos têm conhecimento desta boa Nova. Hoje, Dia Mundial das Missões, somos convidados a lembrar os nossos irmãos que ainda não conhecem Jesus Cristo, único Salvador.

Todos havemos de tomar parte na cruzada gigantesca de aumentar a cristandade, fazendo crescer o corpo místico de Cristo, estendendo os limites do Reino de Deus a toda a redondeza da terra.

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, dai-nos a graça de consagrarmos sempre ao vosso serviço a dedicação da nossa vontade e a sinceridade do nosso coração. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Há algo de bom no sofrimento. Também a dor se pode conciliar com o amor de Deus. O sofrimento foi e continua a ser instrumento de salvação.

 

Isaías 53, 10-11

10Aprouve ao Senhor esmagar o seu Servo pelo sofrimento. Mas, se oferecer a sua vida como vítima de expiação, terá uma descendência duradoira, viverá longos dias, e a obra do Senhor prosperará em suas mãos. 11Terminados os sofrimentos, verá a luz e ficará saciado. Pela sua sabedoria, o Justo, meu Servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades.

 

Temos apenas 2 versículos do IV canto dos Poemas do Servo de Yahwéh (Is 52, 13 – 53, 12); de todos os quatro é o mais impressionante, o mais comentado e o mais meditado no cristianismo. Surpreende vivamente o leitor o facto de se apresentar o triunfo e glorificação do servo sofredor, precisamente por meio do seu sofrimento e humilhação; mais ainda, ele assume as nossas dores e misérias com o fim de as curar, a chamada «expiação vicária», uma concepção teológica deveras original. As tentativas de identificação deste «servo» passaram por várias fases. O judaísmo alexandrino viu nele o povo de Israel sofrendo as tribulações da diáspora, mas alentado pela esperança da sua exaltação, ao passo que o judaísmo palestino via na sua glorificação o futuro messias, mas os sofrimentos eram referidos ao castigo dos gentios; em Qumrã o texto era aplicado ao Mestre da Justiça, o provável fundador da seita. A interpretação cristã é unânime em reconhecer neste servo de Yahwéh a Jesus na sua dolorosa Paixão, Morte e Ressurreição pela salvação de todos. O texto é-nos proposto neste Domingo em função do Evangelho: «o Filho do Homem veio para servir e dar a vida pela salvação de todos» (Mc 10, 45). 

 

 

Salmo Responsorial      Sl 32 (33), 4-5.18-19.20.21 (R. 22)

 

Monição: Façamos deste salmo a nossa oração de confiança no Senhor.

 

Refrão:         Desça sobre nós a vossa misericórdia,

                      porque em Vós esperamos, Senhor.

 

A palavra do Senhor é recta,

da fidelidade nascem as suas obras.

Ele ama a justiça e a rectidão:

a terra está cheia da bondade do Senhor.

 

Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,

para os que esperam na sua bondade,

para libertar da morte as suas almas

e os alimentar no tempo da fome.

 

A nossa alma espera o Senhor:

Ele é o nosso amparo e protector.

Venha sobre nós a vossa bondade,

porque em Vós esperamos, Senhor.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Cristo é o Sumo Sacerdote capaz de se compadecer das nossas fraquezas. Por isso, a Ele havemos de recorrer, cheios de confiança.

 

Hebreus 4, 14-16

Irmãos: 14Tendo nós um sumo sacerdote que penetrou os Céus, Jesus, Filho de Deus, permaneçamos firmes na profissão da nossa fé. 15Na verdade, nós não temos um sumo sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, excepto no pecado. 15Vamos, portanto, cheios de confiança ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno.

 

O autor, depois de já ter proclamado a superioridade de Cristo sobre os Anjos (1, 5 – 2, 18) e sobre Moisés (3, 1 – 4, 11), começa agora a expor que Ele – Sumo Sacerdote da Nova Aliança – é superior aos sacerdotes da antiga. Já tinha apresentado este sumo sacerdote da nossa fé como sendo «digno de crédito» (3, 1.6), o que nos estimula a que «permaneçamos firmes na fé que professamos» (v. 14); agora passa a apresentar outra sua qualidade, «a misericórdia», que nos inspira a máxima confiança. Com efeito, Jesus, ao contrário do sumo sacerdote da lei antiga, que era uma figura distante e separada dos pecadores (recordem-se as exigências do Levítico: Lv 21); Jesus é «capaz de se compadecer das nossas fraquezas», porque Ele mesmo «foi provado em tudo como nós, excepto no pecado» (cf. 1ª leitura do IV Canto do Servo de Yahwéh).

14 «Que penetrou os Céus». Jesus – o novo Josué (o nome hebraico é o mesmo: «Yehoxúa‘») segundo a referência do v. 8 – penetrou no descanso da nova terra prometida, os Céus, tendo-nos deixado aberta a entrada, que atingiremos, se não formos infiéis como os antigos israelitas (daí o apelo a conservar a fé, com firmeza). Por outro lado, o texto sugere uma referência ao Yom-Kipur, ou Dia da Expiação, em que o sumo sacerdote penetrava no Santo dos Santos (imagem dos Céus) através dos dois véus do santuário, a fim de expiar os pecados do povo.

16 «Trono da graça». Esta expressão parece inspirada no «trono da glória» de que se fala no A. T. (1 Sam 2, 8; Is 22, 23; Jer 14, 21; 17, 12; Sir 47, 11), o que terá influenciado a variante de dois códices da Vulgata, que registam thronum gloriæ. É interessante notar que, segundo os rabinos, Deus tinha dois tronos: o da justiça e o da misericórdia. O trono de Jesus, de que se falou em 1, 8, já não aparece como o trono de justiça do Salmo 45, 7 ali citado, mas é o da misericórdia, o «trono da graça», a que podemos recorrer «cheios de confiança».

 

Aclamação ao Evangelho          Mc 10, 45

 

Monição: Cristo morreu e ressuscitou para nossa salvação. Aclamemo-I'O com alegria.

 

Aleluia

 

Cântico: M. Faria, NRMS 16

 

O Filho do homem veio para servir

e dar a vida pela redenção de todos.

 

 

Evangelho *

 

Nota de rodapé

* O texto entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido.

 

*Forma longa: São Marcos 10, 35-45  Forma breve: São Marcos 10, 42-45

[Naquele tempo, 35Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir». 36Jesus respondeu-lhes: «Que quereis que vos faça?» 37Eles responderam: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda». 38Disse-lhes Jesus: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu vou beber e receber o baptismo com que Eu vou ser baptizado?» 39Eles responderam-Lhe: «Podemos». Então Jesus disse-lhes: «Bebereis o cálice que Eu vou beber e sereis baptizados com o baptismo com que Eu vou ser baptizado. 40Mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não Me pertence a Mim concedê-lo; é para aqueles a quem está reservado». 41Os outros dez, ouvindo isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João.]

42Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. 43Não deve ser assim entre vós: quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, 44e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; 45porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».

 

Jesus vai a caminho de Jerusalém (cf. 10, 32-33). Apesar dos três anúncios da Paixão, os discípulos, embora com uma certa sensação de medo (ibid.), não deixam de pensar que muito em breve o anunciado reino de Deus se irá manifestar (cf. Lc 19, 11), pois todo o seu interesse se fixava nisto. Antes que alguém lhes passe à frente, os dois irmãos, Tiago e João, sem atenderem à figura ridícula que faziam e à tensão e inveja a provocar nos colegas (v. 41), atrevem-se a tentar que o Mestre se comprometa com eles, garantindo-lhes os primeiros postos no reino, que imaginam terreno. Isto vai dar lugar a que Jesus os corrija, mas sem os humilhar, e deixe um ensinamento muitíssimo importante para todos e para sempre (vv. 42-45); neste sentido ensina o Vaticano II, GS 3: «Nenhuma ambição terrena move a Igreja, mas unicamente este objectivo: continuar (…) a obra de Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade (…), para servir, e não para ser servido». Assim também fica reprovado o servir-se da Igreja, em vez de a servir. A grandeza do discípulo de Cristo é servir desinteressadamente, como fez o Mestre (cf. Jo 13, 14-17).

38-39 «Beber o cálice… receber o baptismo», neste contexto, são duas imagens do sofrimento e da morte (cf. Lc 12, 50; Is 51, 17-23; Mc 14, 36; Salm 42, 8; 69, 2-3.15-15). A generosidade e audácia dos dois agradou a Jesus, que lhes promete virem a participar do seu destino doloroso – «beber o cálice» –, mergulhados no mistério do seu sofrimento – «baptismo». De facto, Tiago foi martirizado em Jerusalém pelo ano 44 (Act 12, 2), por Herodes Agripa I; João foi preso e flagelado em Jerusalém (Act 4, 3; 5, 40-41), sofreu mais tarde o exílio na ilha de Patmos (cf. Apoc 1, 9), mas nada se sabe de seguro sobre o seu problemático martírio.

40 «Não me pertence a Mim concedê-lo». A expressão não implica inferioridade de Jesus, como pretendiam os arianos; não é que falte poder a Jesus; Ele é que, fazendo tudo o que faz o Pai e com o mesmo poder, nada faz com independência do Pai (cf. Jo 5, 17-30). Segundo a explicação habitual, os dois dirigiram-se a Jesus como o Messias ao instaurar o reino, e, enquanto tal, Ele não faz mais do que executar o projecto divino.

 

Sugestões para a homilia

 

Jesus, o missionário da Boa Nova

Missa e Missão

Evangelizar é obrigação e não privilégio

Jesus, o missionário da Boa Nova

Nas leituras que acabamos de ouvir, Cristo é-nos apresentado como o servo do Senhor, o justo servo (1.ª Leit.) que expia com as suas dores os nossos pecados. Sendo rico faz-se pobre por nossa causa (2.ª Leit.) para nos tornar ricos, quer dizer para nos reconciliar com o Pai. Veio para servir e dar a vida como resgate pela multidão (3.ª Leit.).

Cristo, o Verbo feito carne e enviado do Pai, vem ao mundo para nos trazer uma grande nova: o Pai ama-vos (Jo 16,27). É este o princípio e o fundamento de todo o Cristianismo. Deus quer fazer de nós seus filhos adoptivos, a família de Deus na terra.

Deus quer que todos os homens se salvem (1 Tim 2,4). Este desejo foi eficaz, porque se concretizou no primeiro missionário que Deus Pai enviou à primeira infidelidade, o Verbo Encarnado que veio reconduzir a humanidade aos seus destinos perdidos. E com que seriedade tomou Ele esta missão, digam-no os seus trabalhos em busca dos pecadores, a Eucaristia, a Cruz e a instituição da Igreja.

– Que é que mudou para melhor? Porque é que tantos ainda não conhecem Jesus Cristo, ou vivem como se não O conhecessem? Já lá vão dois milénios de Cristianismo e o mundo continua muito mal.

A missão ainda «vai no adro». A missão de Cristo Redentor confiada à Igreja está ainda bem longe do seu pleno cumprimento, advertiu João Paulo II (RM 1). E o Evangelho recorda-nos que a semente cristã tem um dinamismo tão silencioso como imparável (Mc 4, 26). Cresce sem que dêmos por isso. O seu crescimento é tão modesto como diminutos são os grãos da mostarda. Mas depois se torna a árvore frondosa. Empenhemo-nos com todas as forças no seu crescimento. E não esqueçamos que o Evangelho é proposto num mundo que não o deseja, porque anuncia a honestidade, a justiça, o serviço.

Missa e Missão

Estamos a celebrar a Missa no dia mundial das missões. Missa e Missão, duas palavras que têm a mesma raiz: missio missão, envio. Na Missa, Jesus veio e vem, enviado do Pai – assim como o Pai me enviou (Jo 20, 21). Na Missão, Jesus envia e os missionários são os seus mensageiros - assim Eu vos envio a vós (Jo 20, 21).

Enviados a quem? Aos que nunca ouviram falar d'Ele? Ou às ovelhas perdidas da casa de Israel? A todos. Aos que nunca ouviram falar d'Ele: são milhões e milhões, a maior parte da humanidade. As ovelhas perdidas da casa de Israel, que serão aqueles que precisam de ser re-evangelizados: baptizados que perderam o sentido vivo da fé, já não se reconhecem como membros da Igreja e levam uma vida distante de Cristo e do Evangelho.

A Missa celebrou-a e celebra-a Cristo com o seu Corpo e Sangue. Na Missão, participamos todos, no corpo da Igreja de que fazemos parte, com o sangue das nossas veias, o sacrifício das nossas ofertas e a dedicação das nossas vidas.

No tempo da publicidade, da TV e dos computadores, nada substitui a voz que nos fala e a opção gostosa que temos de fazer e de renovar. Por isso, precisamos da Missa, da Missão, dos missionários, para que alguém, em nome de Alguém, nos mostre a verdade, nos faça olhar para ela, olhando também para nós mesmos. Convertendo-nos em primeira mão, ou reconvertendo-nos quando as crenças se diluem, ou a preguiça, ou a falta de seriedade as atraiçoam.

Evangelizar é obrigação e não privilégio

Ide e evangelizai, manda Jesus (Mc 16, 15). A ordem é para todos os seus discípulos e discípulos somo-lo pelo Baptismo. Todos: homens e mulheres, novos e idosos. Todos os cristãos são e devem ser missionários.

Muitos interrogar-se-ão: – E eu que posso fazer? Partir, eu? Estou noivo, tenho marido e filhos, o meu emprego, as minhas responsabilidades sociais...

Deus não nos pede que deixemos a família ou os trabalhos. Pede-nos, sim, que deixemos certo estilo de vida para estarmos disponíveis, para fazer apostolado, para ajudar as missões. Não é preciso ir para a praça pública fazer belos discursos. Basta o exemplo que damos por aquilo de que estamos convencidos. Podemos ser verdadeiros apóstolos, e da forma mais fecunda, também dentro das paredes do lar, no lugar de trabalho, na cama de hospital e na clausura dum convento, lembra o Santo Padre na sua mensagem para o dia de hoje.

A nossa missão será, por vezes, escutar e acolher aqueles que andam dispersos. Dar-lhes motivos para que regressem. Escutar os católicos não praticantes, ouvir as razões que os levaram a afastar-se da prática religiosa. Dar entusiasmo aos sem esperança. Emprestarmos os nossos braços, o nosso coração, para que eles possam ver um sentido em nossas vidas. Rezar e sacrificar-se pelas missões, como Teresa de Lisieux, declarada padroeira das missões e, agora, também Doutora da Igreja.

 

Fala o Santo Padre

 

MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI

PARA O LXXX DIA MISSIONÁRIO MUNDIAL

«A caridade, alma da missão»

 

Amados irmãos e irmãs

 

1. O Dia Missionário Mundial, que celebraremos no domingo, dia 22 do próximo mês de Outubro, oferece a oportunidade para reflectir este ano sobre o tema: «A caridade, alma da missão». Se não for orientada pela caridade, isto é, se não brotar de um profundo acto de amor divino, a missão corre o risco de se reduzir a uma mera actividade filantrópica e social. Com efeito, o amor que Deus nutre por cada pessoa constitui o coração da experiência e do anúncio do Evangelho e, por sua vez, quantos o acolhem tornam-se suas testemunhas. O amor de Deus, que dá vida ao mundo, é o amor que nos foi concedido em Jesus, Palavra de salvação, ícone perfeito da misericórdia do Pai celeste. Então, a mensagem salvífica poderia ser oportunamente resumida com as palavras do Evangelista João: «E o amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de nós: Deus enviou ao mundo o seu Filho unigénito para que, por Ele, tivéssemos a vida» (1 Jo 4, 9). O mandamento de difundir o anúncio deste amor foi confiado por Jesus aos Apóstolos depois da sua ressurreição, e os Apóstolos, interiormente transformados no dia do Pentecostes pelo poder do Espírito Santo, começaram a dar testemunho do Senhor morto e ressuscitado. A partir de então, a Igreja continua esta mesma missão, que constitui para todos os fiéis um compromisso irrenunciável e permanente.

2. Por conseguinte, cada comunidade cristã é chamada a fazer conhecer Deus, que é Amor. Foi sobre este mistério da nossa fé que desejei deter-me para reflectir na Encíclica «Deus caritas est». Com o seu amor, Deus permeia toda a criação e a história humana. Nas origens, o homem saiu das mãos do Criador como fruto de uma iniciativa de amor. Depois, o pecado ofuscou nele a marca divina. Enganados pelo maligno, os progenitores Adão e Eva faltaram ao relacionamento de confiança com o seu Senhor, cedendo à tentação do maligno, que neles infundiu a suspeita de que Ele era um rival e queria limitar a sua liberdade. Assim, ao amor divino gratuito eles preferiram-se a si mesmos, persuadidos de que desde modo confirmavam o seu livre arbítrio. Consequentemente, terminaram por perder a felicidade original e experimentaram a amargura da tristeza do pecado e da morte. Mas Deus não os abandonou e prometeu-lhes, bem como aos seus descendentes, a salvação, preanunciando o envio do seu Filho unigénito, Jesus, que teria revelado na plenitude dos tempos o seu amor de Pai, um amor capaz de resgatar toda a criatura humana da escravidão do mal e da morte. Por conseguinte, em Cristo foi-nos comunicada a vida imortal, a própria vida da Trindade. Graças a Cristo, Bom Pastor que não abandona a ovelha perdida, aos homens de todos os tempos é conferida a possibilidade de entrar em comunhão com Deus, Pai misericordioso, pronto a acolher novamente em casa o filho pródigo. Um sinal surpreendente deste amor é a Cruz. Na morte de Cristo na cruz escrevi na Encíclica Deus caritas est «cumpre-se aquele virar-se de Deus contra si próprio, com o qual Ele se entrega para levantar o homem e para o salvar o amor na sua forma mais radical [...] É lá que esta verdade pode ser contemplada. E começando de lá, pretende-se agora definir em que consiste o amor. A partir daquele olhar, o cristão encontra o caminho do seu viver e do seu amar» (n. 12).

3. Na vigília da sua Paixão, Jesus deixou como testamento aos discípulos, reunidos no Cenáculo para celebrar a Páscoa, o «novo mandamento do amor mandatum novum»: «É isto que vos mando: que vos ameis uns aos outros» (Jo 15, 17). O amor fraterno que o Senhor pede aos seus «amigos» tem a sua fonte no amor paterno de Deus. O Apóstolo João observa: «Quem ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus» (1 Jo 4, 7). Portanto, para amar segundo Deus é necessário viver nele e dele: Deus é a primeira «casa» do homem, e somente quem nele habita arde com o fogo da caridade divina, capaz de «incendiar» o mundo. Não é talvez esta a missão da Igreja de todos os tempos? Então, não é difícil compreender que a autêntica solicitude missionária, compromisso primordial da Comunidade eclesial, está vinculada à fidelidade ao amor divino, e isto vale para cada um dos cristãos, para cada comunidade local, para as Igrejas particulares e para todo o Povo de Deus. Precisamente da consciência desta missão conjunta haure vigor a generosa disponibilidade dos discípulos de Cristo, para realizar obras de promoção humana e espiritual que dão testemunho, como escrevia o amado João Paulo II na Encíclica Redemptoris missio, «da alma de toda a actividade missionária: o amor, que é e permanece o verdadeiro motor da missão, constituindo também 'o único critério pelo qual tudo deve ser feito ou deixado de fazer, mudado ou mantido. É o princípio que deve dirigir cada acção, e o fim para o qual deve tender. Agindo na perspectiva da caridade ou inspirado pela caridade, nada é impróprio e tudo é bom'» (n. 60). Deste modo, ser missionário quer dizer amar a Deus com todo o próprio ser a ponto de entregar, se for necessário, a vida por Ele. Quantos sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos, também nesta nossa época, deram o supremo testemunho do seu amor com o martírio! Ser missionário significa debruçar-se, como o bom Samaritano, sobre as adversidades de todos, de forma especial dos mais pobres e necessitados, porque quem ama com o Coração de Cristo não busca o seu próprio interesse, mas unicamente a glória do Pai e o bem do próximo. Aqui está o segredo da fecundidade apostólica da acção missionária, que ultrapassa as fronteiras e as culturas, alcança os povos e se espalha até aos extremos confins do mundo.

4. Estimados irmãos e irmãs, que o Dia Missionário Mundial constitua uma ocasião útil para compreender cada vez melhor que o testemunho do amor, alma da missão, diz respeito a todos. Com efeito, servir o Evangelho não deve considerar-se uma aventura solitária, mas um compromisso compartilhado por todas as comunidades. Ao lado daqueles que se encontram na linha de vanguarda nas fronteiras da evangelização e aqui penso com reconhecimento nos missionários e nas missionárias muitos outros, crianças, jovens e adultos, com a sua oração e a sua cooperação, contribuem de várias maneiras para a propagação do Reino de Deus na terra. Formulo bons votos a fim de que esta partilha aumente cada vez mais, graças à contribuição de todos. Aproveito de bom grado esta circunstância para manifestar o meu agradecimento à Congregação para a Evangelização dos Povos e às Pontifícias Obras Missionárias (P.O.M.) que, com dedicação, coordenam os esforços envidados em todas as regiões do mundo, em favor da acção de quantos se encontram na primeira linha nas fronteiras missionárias. A Virgem Maria, que com a sua presença aos pés da Cruz e a sua oração no Cenáculo, colaborou activamente nos primórdios da missão eclesial, sustente a sua acção e ajude os crentes em Cristo a serem cada vez mais capazes do amor verdadeiro, para que num mundo espiritualmente sequioso se tornem nascente de água viva. Formulo de coração estes votos, enquanto concedo a todos a minha Bênção.

Bento XVI, Vaticano, 29 de Abril de 2006.

 

 

 

Oração Universal

 

Por Jesus, nosso mediador junto do Pai,

apresentemos-Lhe confiantes as nossas súplicas.

 

1.  Pelo Papa, pelos Bispos, pelos Sacerdotes

e demais consagrados na Igreja:

para que, à imitação de Jesus,

façam da vida um contínuo serviço aos outros,

oremos, irmãos.

 

2.  Pelos governantes:

para que se convençam de que estão ao serviço dos seus súbditos

na prossecução do bem comum,

oremos, irmãos.

 

3.  Pelos casais:

para que tomem consciência

de que o Senhor os colocou ao serviço da vida

que nunca podem maliciosamente destruir,

oremos, irmãos.

 

4.  Por todos nós:

para nos convencermos de que amar é ter o coração grande,

é sentir as preocupações de quantos estão à nossa volta,

é saber compreender e perdoar,

oremos, irmãos.

 

5.  Pelas vítimas da incompreensão, da injustiça e do ódio:

para que nunca cedam à tentação da violência,

oremos, irmãos.

 

6.  Pela renovação do ardor missionário:

para que todos os povos cheguem

ao conhecimento de Cristo Salvador.

 

Senhor, que nos mandais amar a todos, mesmo aos nossos inimigos,

ensinais-nos a ter, como Vós, um coração manso e humilde.

Vós que sois Deus com o Pai na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: A fé em Deus, F. da Silva, NRMS 11-12

 

Oração sobre as oblatas: Fazei, Senhor, que possamos servir ao vosso altar com plena liberdade de espírito, para que estes mistérios que celebramos nos purifiquem de todo o pecado. Por Nosso Senhor...

 

Santo: A. Cartageno, Suplemento ao CT

 

Monição da Comunhão

 

Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice «não só anunciamos a morte do Redentor» (1 Cor 11, 26), mas proclamamos também a sua ressurreição, enquanto esperamos a sua vinda gloriosa (João Paulo II).

 

Cântico da Comunhão: Não fostes vós que me escolhestes, Az. Oliveira, NRMS 59

Sl 32, 18-19

Antífona da Comunhão: O Senhor vela sobre os seus fiéis, sobre aqueles que esperam na sua bondade, para libertar da morte as suas almas, para os alimentar no tempo da fome.

Ou:  

Mc 10, 45

O Filho do homem veio ao mundo para dar a vida pela redenção dos homens.

 

Cântico de acção de graças: Cantarei ao Senhor pelo bem, F. da Silva, NRMS 98

 

Oração depois da Comunhão: Concedei, Senhor, que a participação nos mistérios celestes nos faça progredir na santidade, nos obtenha as graças temporais e nos confirme nos bens eternos. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Jesus Cristo Eucaristia para o mundo nos envia. Este mote deve ser para todos nós programa de vida. Unidos a Cristo, devemos sentir-nos comprometidos com os homens nossos irmãos.

 

Cântico final: Ide por todo mundo, M. Faria, NRMS 23

 

 

Homilias Feriais

 

29ª SEMANA

 

feira, 23-X: S. João Capistrano: As riquezas de Deus.

Ef. 2, 1-10 / Lc. 12, 13-21

Depois, direi à minha alma: Ó alma, tens muitos bens em depósito para longos anos. Descansa, come, bebe e regala-te.

Este homem rico pensou ter encontrado a felicidade na acumulação de bens materiais. No entanto, «a verdadeira felicidade não reside nem na riqueza ou no bem estar, nem na glória humana ou no poder, nem em qualquer obra humana, por útil que seja, como as ciências, as técnicas e as artes, nem em qualquer criatura, mas só em Deus, fonte de todo o bem e de todo o amor» (CIC, 1723).

Saibamos descobrir as riquezas de Deus: «Deus é rico em misericórdia… a riqueza da sua graça» (Leit.). S. João Capistrano abandonou a carreira jurídica para se dedicar ao Senhor, tendo contribuído muito para a reforma dos costumes.

 

feira, 24-X: S. António Mª Claret: Deus bate à nossa porta.

Ef. 2, 12-22 / Lc. 12, 35-38

Em Cristo, qualquer construção bem ajustada, cresce para formar um templo santo do Senhor.

«A Igreja é também muitas vezes chamada construção de Deus. O próprio Cristo a comparou à pedra que os construtores rejeitaram e que se tornou pedra angular (Leit.)» (CIC, 756).

E nós também estamos «integrados na construção» (Leit.). O Senhor vai bater à nossa porta (cf. Ev.) no momento da morte, e em muitos momentos do nosso dia: para nos pedir um trabalho melhor, uma oração com mais piedade, uma vida familiar com mais amor… Deus bateu à porta de S. António Mª Claret para fundar os Claretianos e ir pregar o Evangelho a Cuba.

 

feira, 25-X: Vigilância nas pequenas actividades.

Ef. 3, 2-12 / Lc. 12, 39-48

Feliz daquele servo a quem o Senhor, ao chegar, assim achar fazendo. Em verdade vos digo: há-de pô-lo à frente de todos os seus bens.

A vigilância que o Senhor nos pede está nas pequenas actividades de cada dia: levantar-se à hora certa, cumprir o horário de trabalho, não perder demasiado tempo em ver alguns programas de TV inúteis, fazer algum pequeno sacrifício à hora das refeições, chegar a casa com um sorriso… «Por cada vitória contra os pequenos inimigos, colocaremos uma pedra preciosa na coroa de glória que o Senhor preparou para nós» (S. Francisco de Sales).

Também a vigilância se poderia concretizar «na coragem da aproximação de Deus com toda a confiança» (Leit.). São os momentos dedicados diariamente a Deus.

 

feira, 26-X: A energia transformadora do Espírito Santo.

Ef. 3, 14-21 / Lc. 12, 49-53

Eu vim lançar fogo sobre a Terra e só quero que ele se tenha ateado.

«O fogo!... simboliza a energia transformadora dos actos do Espírito Santo… aquele Espírito do qual Jesus dirá: ‘Eu vim lançar fogo… (Ev.)» (CIC, 696).

Pedimos a Deus que o fogo do seu amor robusteça a nossa alma: «Ele vos dará, por meio do seu Espírito, a força de vos tornardes robustos no que há de mais íntimo em vós» (Leit.). Mas também cada um de nós há-de ser igualmente fogo, para transmitir aos outros «a largura, o comprimento, a altura e a profundidade deste mistério (Cristo que habita pela fé nos nossos corações)» (Leit.).

 

feira, 27-X: Alguns dos sinais dos nossos tempos.

Ef. 4, 1-6 / Lc. 12, 54-59

Hipócritas, sabeis apreciar o aspecto do céu e da terra; mas este tempo, como é que não o apreciais?

«…o homem esforça-se por interpretar os dados da experiência e os sinais dos tempos (cf. Ev.), graças à virtude da prudência, aos conselhos de pessoas sensatas e à ajuda do Espírito Santo e dos seus dons» (CIC, 1788).

Um dos sinais dos nossos tempos é recuperar a unidade de todos os cristãos e de todo o género humano, que é um dom de Cristo e um apelo do Espírito Santo (cf. CIC, 820) «Pela comunhão do Corpo de Cristo, a Igreja consegue ser cada vez mais… como que o sacramento ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» (J. Paulo II).

 

Sábado, 28-X: S. Simão e S. Judas: Participar na construção da Igreja.

Ef. 2, 19-22 / Lc. 6, 12-19

E, em união com Ele, também vós sois integrados na construção, para vos tornardes, no Espírito Santo, habitação de Deus.

A Igreja é apostólica porque está fundada sobre os Apóstolos. E continua a ser construída sobre o alicerce dos Apóstolos (cf. Leit.), testemunhas escolhidas e enviadas em missão pelo próprio Cristo (cf. CIC, 857). S. Simão e S. Judas participaram activamente na construção da Igreja. Segundo a Tradição, andaram pelas terras do Egipto, Mesopotâmia e Pérsia, onde sofreram o martírio.

Todos nós estamos integrados na construção da Igreja. «Toda a Igreja é apostólica, na medida em que é ‘enviada a todo o mundo’. Todos membros da Igreja, embora de diversos modos, participam deste envio» (CIC, 863).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         A. Barreto Marques

Nota Exegética:             Geraldo Morujão

Homilias Feriais:            Nuno Romão

Sugestão Musical:                  Duarte Nuno Rocha

 


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