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CRISTO  REI

 

Hugo de Azevedo

 

É impressionante a consciência que tinham os primeiros cristãos da sua função vivificante do mundo. Sem outro horizonte histórico e social que não fosse o do velho império pagão em decadência moral e política, nem expectativa próxima ou remota de uma nova civilização – que só a partir de Constantino repentinamente se debuxou –, viam-se a si mesmos como cidadãos comuns, disseminados pelo mundo, «habitando cidades gregas ou bárbaras, segundo a sorte que a cada um tocou», conformando-se «aos usos e costumes de cada país», e apenas distintos dos outros pela sua conduta evangélica. Não possuíam nenhum projecto político-social, não professavam «nenhum ensinamento humano», e não dispunham de qualquer poder; pelo contrário, eram perseguidos, incompreendidos, condenados, empobrecidos, desonrados, malditos, castigados, detestados por judeus e gregos, embora os próprios inimigos «não saibam dizer o motivo do seu ódio», como regista o autor da Carta a Diogneto. «Mas, para dizer brevemente, o que é a alma para o corpo, isso é o que são os cristãos para o mundo (...) A alma ama a carne e os membros, que a detestam; e os cristãos também amam aqueles que os odeiam. A alma está encerrada no corpo, mas ela é que mantém o corpo unido (...) Tal é posto que Deus lhes confiou, e não lhes é lícito desertar dele».

Estavam plenamente convencidos de que a verdadeira História é a da Salvação. Desejariam, sem dúvida que os costumes e as leis respeitassem a Lei de Deus, e que todos os homens se salvassem, mas, sobretudo, queriam cumprir os desígnios divinos. Acontecesse o que acontecesse, a sua função era a de serem luz e sal do mundo através dos tempos, bem ou mal aceites, compreendidos e respeitados ou não. Cristo é o Senhor da História, «Rei dos reis, e Senhor dos senhores». O mundo está nas suas mãos; n’Ele está unida a Humanidade; só Ele sabe discernir o trigo do joio. Os cristãos não julgam nem condenam ninguém: «Vituperam-nos, e eles (os cristãos) bendizem-nos; injuriam-nos, e eles prestam-lhes honras...»

 

Passaram séculos, e o cristianismo penetrou de tal modo na cultura ocidental, e esta, por sua vez, nas restantes culturas, que os seus valores humanos – dignidade da pessoa e seus direitos inalienáveis, universalidade, liberdade, igualdade, fraternidade... – se tornaram património e linguagem global, embora por vezes tão desvirtuada que é difícil reconhecer-lhes a origem. Por outro lado, a experiência histórica da Igreja e a elaboração da sua «doutrina social» enriqueceram de tal modo, que os cristãos puderam sonhar realmente com um mundo mais justo, mais livre, mais pacífico, mais humano, em suma. Não faltou quem sonhasse inclusive com sistemas ou regimes «cristãos», e considerasse a sua promoção como a mais urgente missão da Igreja. Era o cristianismo convertido em ideologia. Felizmente (por dramáticos fracassos, é certo), as ideologias morreram, mas entrámos num processo civilizacional vertiginoso, de consequências imprevisíveis, que volta a colocar os cristãos em situação análoga à dos primeiros séculos.

Por muito superficial que seja esta breve análise, servirá para recordar o essencial: no plano mais profundo da realidade, os cristãos continuam sendo «a alma do mundo», isto é, o que lhe dá a autêntica unidade – em Cristo – e orienta a humanidade para a eterna felicidade, sem a esperança da qual a própria existência perde todo o seu sentido.

E a sua força é a mesma: a da união com Deus e a caridade para com todos, sejam amigos ou inimigos, que não deixam por isso de serem nossos irmãos e filhos queridos do nosso Pai que está nos céus. A admiração dos pagãos referida por Tertuliano – «Vede como eles se amam!» – não era apenas o espanto perante a intensidade desse amor fraterno; era a surpresa perante um amor nunca visto, que não olhava a diferenças de condição social, de tribo ou de raça. Um amor que anunciava também a presença neste mundo de um Reino nunca visto, «um Reino eterno e universal, reino de verdade e de vida, Reino de santidade e de graça, Reino de justiça, de amor e de paz». Um reino que atravessava - e continua atravessando - todas as incidências políticas, sociais, civilizacionais, e que constrói a verdadeira História da humanidade.

 

 

 

 


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