Ascensão do Senhor

D. M. dos Meios de Comunicação Social

23 de Maio de 2004



RITOS INICIAIS


Cântico de entrada: Reinos da terra, cantai a Deus, F. da Silva, NRMS 109

cf. Actos 1, 11

Antífona de entrada: Homens da Galileia, porque estais a olhar para o céu? Como vistes Jesus subir ao céu, assim há-de vir na sua glória. Aleluia.


Diz-se o Glória.


Introdução ao espírito da Celebração


Em dia dedicado à Ascensão do Senhor, celebramos simultaneamente o Dia Mundial dos Meios de Comunicação Social.

Na realidade, ao convite de Jesus que dissera aos Apóstolos: «sereis minhas testemunhas… até aos confins da terra», a comunidade cristã deve, hoje como outrora, ir ter com os homens, anunciando a Boa Nova que Jesus Cristo lhes comunicou, dando testemunho do Senhor, continuando a Sua obra, tornando-O presente em todos os ambientes e lugares, por todos os meios ao seu alcance e, mais do que nunca, lançando mão das novas tecnologias da Comunicação. É este o papel da Igreja – que somos todos nós os baptizados –, é esta a prática que Ele nos mandou realizar até que volte de novo, para que seja «tudo em todos».

É neste espírito que vamos iniciar esta celebração, procurando centrar a nossa atenção naquilo que tem sido a nossa experiência testemunhal cristã, tendo a coragem de saber pedir perdão por aquilo que muitas vezes têm sido os nossos grandes pecados de omissão.


Oração colecta: Deus omnipotente, fazei-nos exultar em santa alegria e em filial acção de graças, porque a ascensão de Cristo, vosso Filho, é a nossa esperança: tendo-nos precedido na glória como nossa Cabeça, para aí nos chama como membros do seu Corpo. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.



Liturgia da Palavra


Primeira Leitura


Monição: A narração de Lucas, que iremos escutar, relata o último acto da existência terrena de Jesus. É o ponto de partida para o início da vida da Igreja. As palavras do Anjo aos Apóstolos constitui um convite a todos nós, os baptizados, a que vamos ter com os homens anunciando a Boa Nova que Jesus nos comunicou e, através do testemunho, a continuarmos a Sua obra.


Actos dos Apóstolos 1, 1-11

1No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar, desde o princípio 2até ao dia em que foi elevado ao Céu, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos que escolhera. 3Foi também a eles que, depois da sua paixão, Se apresentou vivo com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando-lhes do reino de Deus. 4Um dia em que estava com eles à mesa, mandou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, «da Qual – disse Ele – Me ouvistes falar. 5Na verdade, João baptizou com água; vós, porém, sereis baptizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias». 6Aqueles que se tinham reunido começaram a perguntar: «Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?» 7Ele respondeu-lhes: «Não vos compete saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade; 8mas recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra». 9Dito isto, elevou-Se à vista deles e uma nuvem escondeu-O a seus olhos. 10E estando de olhar fito no Céu, enquanto Jesus Se afastava, apresentaram-se-lhes dois homens vestidos de branco, 11que disseram: «Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu».


Lucas começa o livro de Actos com o mesmo facto com que tinha terminado o seu Evangelho; a Ascensão desempenha assim na sua obra um papel de charneira, pois assinala tanto a ligação como a distinção entre a história de Jesus que se realiza aqui na terra (o Evangelho) e a história da Igreja que então tem o seu início (Actos).

3 «Aparecendo-lhes durante 40 dias». Esta precisão do historiador Lucas permite-nos esclarecer algo que no seu Evangelho não tinha ficado claro quanto ao dia da Ascensão, pois o leitor poderia ter ficado a pensar que se tinha dado no dia da Ressurreição. A verdade é que a Ascensão faz parte da glorificação e exaltação de Jesus; por isso S. João parece pretender uni-la à Ressurreição, nas palavras de Jesus a Madalena (Jo 20, 17), podendo falar-se duma ascensão invisível no dia de Páscoa, sem que em nada se diminua o valor do facto sucedido 40 dias depois e aqui relatado: a Ascensão visível de Jesus, que marca um fim das manifestações visíveis aos discípulos, «testemunhas da Ressurreição estabelecidas por Deus», engloba uma certa glorificação acidental do Senhor ressuscitado, «pela dignidade do lugar a que ascendia», como diz S. Tomás de Aquino (Sum. Theol., III, q. 57, a. 1). Há numerosas referências à Ascensão no Novo Testamento: Jo 6, 62; 20, 17; 1 Tim 3, 26; 1 Pe 3, 22; Ef 4, 9-10; Hbr 9, 24; etc.. Mas a Ascensão tem, além disso, um valor existencial excepcional, pois nos atinge hoje em cheio: Cristo, ao colocar à direita da glória do Pai a nossa frágil natureza humana unida à Sua Divindade (Cânon Romano da Missa de hoje), enche-nos de esperança em que também nós havemos de chegar ao Céu e diz-nos que é lá a nossa morada, onde, desde já, devem estar os nossos corações, pois ali está a nossa Cabeça, Cristo.

4 «A Promessa do Pai, da qual Me ouvistes falar». Na despedida da Última Ceia, Jesus não se cansou de falar aos discípulos do Espírito Santo: Jo 14, 16-17.26; 16, 7-15.

5 «Baptizados no Espírito Santo», isto é, inundados de enorme força e luz do Espírito Santo, cheio dos seus dons, dez dias depois (cf. Act 2, 1-4).

8 «Minhas Testemunha em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da Terra». Estas Palavras do Senhor são apresentadas por S. Lucas para servirem de resumo temático do seu livro; o que nos vai contar ilustrará como a fé cristã se vai desenvolver progressivamente seguindo estas 3 etapas geográficas: Act 2 – 7; 8 – 12; 13 – 28.


Salmo Responsorial Sl 46 (47), 2-3.6-7.8-9 (R. 6)


Monição: O cântico de meditação é a resposta festiva à proclamação do triunfo do Senhor. Bater palmas, aclamar, cantar, são sinais de alegria e festa que só se tornarão efectivos se houver uma atitude festiva interior de quem está em comunhão com Cristo e compreende a Sua missão e o Seu triunfo.


Refrão: Por entre aclamações e ao som da trombeta,

ergue-Se Deus, o Senhor.


Ou: Ergue-Se Deus, o Senhor,

em júbilo e ao som da trombeta.


Ou: Aleluia


Povos todos, batei palmas,

aclamai a Deus com brados de alegria,

porque o Senhor, o Altíssimo, é terrível,

o Rei soberano de toda a terra.


Deus subiu entre aclamações,

o Senhor subiu ao som da trombeta.

Cantai hinos a Deus, cantai,

cantai hinos ao nosso Rei, cantai.


Deus é Rei do universo:

cantai os hinos mais belos.

Deus reina sobre os povos,

Deus está sentado no seu trono sagrado.


Segunda Leitura


Monição: Pela fé, os cristãos possuem uma sabedoria que supera qualquer outro conhecimento. Sabem que Deus manifestou em Jesus Cristo a Sua força, destruindo todos os poderes que aprisionam a vida, e libertando os homens para uma esperança nova diante do futuro.


Efésios 1, 17-23

Irmãos: 17O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda um espírito de sabedoria e de luz para O conhecerdes plenamente 18e ilumine os olhos do vosso coração, para compreenderdes a esperança a que fostes chamados, os tesouros de glória da sua herança entre os santos 19e a incomensurável grandeza do seu poder para nós os crentes. Assim o mostra a eficácia da poderosa força 20que exerceu em Cristo, que Ele ressuscitou dos mortos e colocou à sua direita nos Céus, 21acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania, acima de todo o nome que é pronunciado, não só neste mundo, mas também no mundo que há-de vir. 22Tudo submeteu aos seus pés e pô-l’O acima de todas as coisas como Cabeça de toda a Igreja, 23que é o seu Corpo, a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos.


Neste texto temos um dos principais temas da epístola: a Igreja como Corpo (místico) de Cristo. A Igreja é a plenitude de Cristo, «o Cristo total» (S. Agostinho). A Igreja recebe da sua Cabeça, Cristo, não só a chefia, mas o influxo vital, a graça; vive a vida de Cristo. Jesus sobe ao Céu, mas fica presente no mundo, na sua Igreja.

17 «O Deus de N. S. J. Cristo». «O Pai é para o Filho fonte da natureza divina e o criador da sua natureza humana: assim Ele é, com toda a verdade, o Deus de N. S. J. C.» (Médebielle). «O Pai da glória», isto é, o Pai a quem pertence toda a glória, toda a honra intrínseca à sua soberana majestade. «Um espírito», o mesmo que um dom espiritual. Não se trata do próprio Espírito Santo; uma vez que não tem artigo em grego, trata-se pois de uma graça sua.

20-22 Ternos aqui a referência a um tema central já tratado em Colossenses: a supremacia absoluta de Cristo, tendo em conta a sua SS. Humanidade, uma vez que pela divindade é igual ao Pai. A sua supremacia coloca-O «acima de todo o nome», isto é, acima de todo e qualquer ser, de qualquer natureza que seja, e qualquer mundo a que pertença. Mas aqui a atenção centra-se num domínio particular de Cristo, a saber, na sua Igreja, da qual Ele é não apenas o Senhor, mas a Cabeça. A Igreja é o «Corpo de Cristo»; ela é o plêrôma de Cristo, isto é, o seu complemento ou plenitude: a igreja é Cristo que se expande e se prolonga nos fiéis que aderem a Ele. (Alguns autores preferem entender o termo plêrôma no sentido passivo: a Igreja seria plenitude de Cristo, enquanto reservatório das suas graças e merecimentos que ela faz chegar aos homens).

23 «Aquele que preenche tudo em todos». A acção de Cristo é sem limites, especialmente na ordem salvífica; a todos faz chegar a sua graça, sem a qual ninguém se pode salvar. No entanto, é mais corrente preferir, com a Vulgata, outro sentido a que se presta o original grego: «A Igreja é a plenitude daquele que se vai completando inteiramente em todos os seus membros»; assim, a Igreja completa a Cristo, e Cristo é completado pelos seus membros (é uma questão de entender como passivo, e não médio, o particípio grego plêrouménou, de acordo com o que acontece em outros 87 casos do N. T.).


Pode utilizar-se outra, como 2ª leitura:


Hebreus 9, 24-28; 10, 19-23

24Cristo não entrou num santuário feito por mãos humanas, figura do verdadeiro, mas no próprio Céu, para Se apresentar agora na presença de Deus em nosso favor. 25E não entrou para Se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote que entra cada ano no santuário, com sangue alheio; 26nesse caso, Cristo deveria ter padecido muitas vezes, desde o princípio do mundo. Mas Ele manifestou-Se uma só vez, na plenitude dos tempos, para destruir o pecado pelo sacrifício de Si mesmo. 27E como está determinado que os homens morram uma só vez – e a seguir haja o julgamento –, 28assim também Cristo, depois de Se ter oferecido uma só vez para tomar sobre Si os pecados da multidão, aparecerá segunda vez, sem aparência de pecado, para dar a salvação àqueles que O esperam. 19Tendo nós plena confiança de entrar no santuário por meio do sangue de Jesus, 20por este caminho novo e vivo que Ele nos inaugurou através do véu, isto é, o caminho da sua carne, 21e tendo tão grande sacerdote à frente da casa de Deus, 22aproximemo-nos de coração sincero, na plenitude da fé, tendo o coração purificado da má consciência e o corpo lavado na água pura. 23Conservemos firmemente a esperança que professamos, pois Aquele que fez a promessa é fiel.


A leitura é respigada do final da primeira parte de Hebreus em que o autor sagrado expõe a superioridade do sacrifício de Cristo sobre todos os sacrifícios da Lei antiga (8, 1 – 10, 18). Aqui Jesus é apresentado como o novo Sumo Sacerdote da Nova Aliança, em contraste com o da Antiga, que precisava de entrar cada ano – «com sangue alheio» –, no dia da expiação (o Yom Kippur: cf. Ex 16) «num santuário feito por mãos humanas», ao passo que Jesus entra «no próprio Céu» (v. 24), não precisando de o fazer «muitas vezes» (v. 25-26), pois, «uma só vez» bastou «para destruir o pecado pelo sacrifício de Si mesmo» (v. 26), por meio do seu próprio sangue. Como habitualmente, o autor aproveitando a exposição doutrinal para fazer ricas exortações práticas apela, um pouco mais adiante (10, 19-23), para a virtude da «esperança» de também nós podermos chegar ao Céu, apoiados na certeza das promessas de Cristo. A «água pura» é certamente a do Baptismo (cf. 1 Pe 3, 21), que não pode ser encarado à margem da fé e da pureza da consciência. Notar como a SS. Humanidade de Jesus – «o caminho da sua carne» – é focada como o véu do Templo, o que bem pode evocar a nuvem da Ascensão, que ao mesmo tempo esconde e revela a presença invisível de Cristo ressuscitado.


Aclamação ao Evangelho Mt 28, l9a.20b


Monição: Anunciar a Boa Nova a todos os povos é missão conferida a todo o cristão pelo sacramento do Baptismo. Este anúncio será acompanhado da presença do Senhor, que prometeu estar connosco em todos os momentos da nossa vida e até ao fim dos tempos.


Aleluia


Ide e ensinai todos os povos, diz o Senhor:

Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos.


Cântico: Aclamação – 3, F. da Silva, NRMS 50-51



Evangelho


São Lucas 24, 46-53

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois testemunhas disso. Eu vos enviarei Aquele que foi prometido por meu Pai. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos com a força do alto». Depois Jesus levou os discípulos até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-Se deles e foi elevado ao Céu. Eles prostraram-se diante de Jesus, e depois voltaram para Jerusalém com grande alegria. E estavam continuamente no templo, bendizendo a Deus.


Estes versículos finais do Evangelho de Lucas encerram como que uma síntese de todo o Evangelho: Jesus cumpre as profecias com a sua Paixão e Ressurreição, com que nos obtém o perdão dos pecados, que tem de ser pregado a todos os povos, a partir de testemunhas credenciadas, e com a força do Espírito Santo.

49 «Aquele que foi prometido», à letra, a Promessa do meu Pai, o Espírito Santo, segundo se diz em Act 2, 23 (cf. Jo 15, 26). Não deixa de ser curioso notar que, só pela leitura do Evangelho de S. Lucas poderíamos ser levados a pensar que a Ascensão se deu no Domingo de Páscoa. No entanto, possuímos dados suficientes, a partir de todos os restantes Evangelhos, para saber que não foi assim. O próprio S. Lucas, em Actos, diz que Jesus foi aparecendo durante 40 dias (Act 1, 3).

52-53 «Voltaram para Jerusalém». A terminar o seu Evangelho, Lucas mais uma vez deixa ver a importância teológica de Jerusalém: onde tinha começado a sua narração, com o anúncio do nascimento do Baptista, aqui culmina a obra salvadora de Jesus, com a sua Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão aos Céus, por isso Ele, «quando estava para se cumprir o tempo da sua partida, decidiu firmemente caminhar rumo a Jerusalém» (Lc 9, 51); daqui hão-de partir os discípulos para levar a boa-nova até aos confins da terra.


Sugestões para a Homilia



A alegria dos discípulos


A ascensão de Jesus ao céu não é mais do que uma consequência da ressurreição. O vencedor, aquele que está vivo, na sua vida nova, não podia estar destinado a uma vida condicionada pelo tempo e pelo espaço. Os discípulos compreenderam que Ele não permaneceu prisioneiro da morte, mas que a venceu. Demonstrou assim que tudo o que na terra acontece – sucessos, desgraças, sofrimento, morte, tudo aquilo que também fez parte da vida de Jesus – não se afasta do plano de Deus. Se este é o destino dos homens, então não há que ter medo da própria morte, porque Jesus a transformou em nascimento para a vida.

Por isso os discípulos se alegram


Presente no meio dos homens


Jesus não se afastou, não foi para outro lugar, mas ficou com os homens. Cristo ficou verdadeira e realmente connosco até à consumação dos séculos. Não foi para outro lugar, mas entrou na plenitude de seu Pai já como Deus e como homem. Foi exaltado, glorificado na sua humanidade. E, precisamente por isso, pôs-Se mais do que nunca em relação com cada um de nós.

Jesus não deixa de viver quando desaparece do meio dos homens, Ele continua vivo na sua Igreja. Vive na Eucaristia; vive na sua palavra; vive na comunidade civil e religiosa; vive em cada crente; vive em cada homem que luta por amar e viver; vive em todos nós que enfrentamos lutas, triunfos e feridas, fracassos e êxitos.

Com a ascensão, a sua presença não diminuiu, mas multiplicou-se. Eis o segundo motivo da alegria dos discípulos e da nossa própria alegria.

Isto foi sentido vivamente pelos primeiros cristãos. Quando Cristo desapareceu de junto deles é que eles O começaram a entender e a viver. E porque O entendiam, sentiam-n'O viver neles, a seu lado, experimentavam-n'O. Desde então a história deste Cristo presente, e todos os altos e baixos da comunidade cristã são também altos e baixos desta presença vivida na plenitude, ou obscurecida pela infidelidade.


Anuncia que a vida não se conclui neste mundo


É deste mistério de sabedoria de que S. Paulo fala na leitura que ouvimos proclamar. Não se trata de duma sabedoria humana, mas da inteligência para compreender o mistério da Igreja.

Pela fé, os cristãos possuem uma sabedoria que supera qualquer outro conhecimento: sabem que Deus manifestou em Jesus Cristo a Sua força, destronizando todos os poderes que até agora aprisionam a vida, e libertando os homens para uma esperança nova diante do futuro. É que a vida não está limitada pelos horizontes deste mundo. Embora sem deixarem de estar comprometidos nele, os cristãos sabem que o mundo não constitui morada permanente, mas que a todos está reservada uma morada eterna junto de Deus. Para a conseguir é exigida, a cada um de nós, uma conversão contínua do modo de viver as realidades terrenas que constituem o nosso dia a dia, sem cairmos numa espiritualidade irreal que nos afaste das nossas responsabilidades na construção de um mundo mais humano.


Fala o Santo Padre


MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II PARA A CELEBRAÇÃO

DO 38.º DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS


Os mass media na família: um risco e uma riqueza



Queridos Irmãos e Irmãs


1. O crescimento extraordinário dos meios de comunicação e a sua aumentada disponibilidade trouxeram oportunidades excepcionais para o enriquecimento da vida não apenas dos indivíduos, mas também das famílias. Ao mesmo tempo, hoje as famílias estão a enfrentar novos desafios, que derivam das mensagens, diversificadas e muitas vezes contraditórias, apresentadas pelos mass media. O tema escolhido para o Dia Mundial das Comunicações – «Os mass media na família: um risco e uma riqueza» – é um tema oportuno, dado que convida a uma reflexão sóbria sobre o uso que as famílias fazem dos meios de comunicação e, em contrapartida, do modo como os mass media tratam as famílias e as solicitudes familiares.

O tema deste ano recorda também a todos, tanto aos comunicadores como aos seus destinatários, que toda a comunicação tem uma dimensão moral. Como o próprio Senhor disse, é da abundância do coração que a boca fala (cf. Mt 12, 34-35). As pessoas crescem ou diminuem de estatura moral, de acordo com as palavras que elas pronunciam e com as mensagens que preferem ouvir. Consequentemente, a sabedoria e o discernimento no uso dos mass media são exigidos de maneira particular da parte dos profissionais das comunicações, dos pais e dos educadores, uma vez que as suas decisões influenciam enormemente as crianças e os jovens, por quem eles são responsáveis e que, em última análise, são o futuro da sociedade.


2. Graças à expansão sem precedentes do mercado das comunicações nas últimas décadas, numerosas famílias no mundo inteiro, mesmo as que dispõem de meios bastante modestos, agora têm acesso, no seu próprio lar, a recursos mediáticos imensos e diversificados. Por conseguinte, elas têm oportunidades virtualmente ilimitadas nos campos da informação, da educação, da expansão cultural e até mesmo do crescimento espiritual – oportunidades estas que excedem em grande medida as que eram disponíveis para a maioria das famílias no passado recente.

Não obstante, estes mesmos meios de comunicação possuem a capacidade de causar prejuízos graves às famílias, apresentando uma visão inadequada e mesmo deformada da vida, da família, da religião e da moral. Este poder, tanto para reforçar como para desprezar os valores tradicionais, como a religião, a cultura e a família, foi compreendido com clareza pelo Concílio Vaticano II, que ensinou que, «para o recto uso destes meios, é absolutamente necessário que todos os que se servem deles conheçam e ponham em prática, neste campo, as normas da ordem moral» (Inter mirifica, 4). Os mass media, em qualquer forma que seja, devem inspirar-se sempre no critério ético do respeito pela verdade e pela dignidade da pessoa humana.


3. Estas considerações dizem respeito de forma particular à abordagem das famílias pelos meios de comunicação. Por um lado, o matrimónio e a vida familiar são frequentemente descritos de maneira sensível e realista, mas também com simpatia, de modo a exaltar virtudes como o amor, a fidelidade, o perdão e a abnegação generosa em prol dos outros. Isto é também verdade no que se refere às apresentações dos mass media que reconhecem os fracassos e as desilusões, inevitavelmente experimentados pelos cônjuges e pelas famílias – tensões, conflitos, derrotas, escolhas negativas e actos prejudiciais – mas, ao mesmo tempo, fazem um esforço em vista de separar o justo do injusto, de distinguir o amor verdadeiro das suas imitações e de mostrar a importância insubstituível da família como unidade fundamental da sociedade.

Por outro lado, a família e a vida familiar são também, com muita frequência, descritas de maneira inoportuna pelos meios de comunicação. A infidelidade, a actividade sexual fora do matrimónio e a ausência de uma visão moral e espiritual do vínculo matrimonial são descritas de maneira não crítica, enquanto às vezes se apresentam de modo positivo o divórcio, a contracepção, o aborto e a homossexualidade. Estas visões, promovendo as causas contrárias ao matrimónio e à família, são prejudiciais para o bem comum da sociedade.


4. A reflexão conscienciosa sobre a dimensão ética das comunicações deveria conduzir a iniciativas concretas, destinadas a eliminar os riscos contra o bem-estar da família, apresentados pelos mass media, e assegurando que estes poderosos instrumentos da comunicação permaneçam como fontes genuínas de enriquecimento. Os próprios comunicadores, as autoridades públicas e os pais têm uma responsabilidade especial, a este propósito.

O Papa Paulo VI ressaltava que os comunicadores profissionais deveriam «conhecer e respeitar as necessidades da família, e isto pressupõe neles, por vezes, uma coragem verdadeira e sempre um elevado sentido de responsabilidade» (Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações de 1969). Não é fácil resistir às pressões comerciais ou às reivindicações de conformidade com as ideologias seculares, mas é isto que os comunidades responsáveis devem fazer. A aposta é grande, dado que cada ataque contra o valor fundamental da família constitui um ataque contra o verdadeiro bem da humanidade.

As próprias autoridades públicas têm o sério dever de promover o matrimónio e a família, para o bem da sociedade em geral. Contudo, hoje muitas pessoas aceitam e agem segundo as argumentações libertárias efémeras dos grupos que defendem práticas que contribuem para o grave fenómeno da crise da família e para o debilitamento do próprio conceito de família. Sem recorrer à censura, é imperativo que as autoridades públicas definam políticas de regulação e procedimentos para garantir que os meios de comunicação não ajam contra o bem da família. Os representantes da família deveriam fazer parte deste empreendimento político.

Os responsáveis pela política nos mass media e no sector público devem trabalhar também por uma distribuição equitativa dos recursos comunicativos a níveis nacional e internacional, enquanto respeitam a integridade das culturas tradicionais. Os meios de comunicação não deveriam parecer ter uma agenda hostil aos valores familiares sólidos das culturas tradicionais, ou a finalidade de substituir tais valores, como parte de um processo de globalização, com os valores secularizados da sociedade consumista.


5. Os pais, como os educadores primários e mais importantes dos seus filhos, são inclusivamente os primeiros a dar-lhes um ensinamento acerca dos meios de comunicação. Eles são chamados a formar os seus filhos no «uso moderado, crítico, atento e prudente dos mass media» em casa (Familiaris consortio, 76). Quando os pais o fazem de modo consistente e positivo, a vida familiar fica enormemente enriquecida. Até mesmo as crianças muito jovens podem receber lições importantes sobre os meios de comunicação: que os mesmos são produzidos por pessoas ansiosas de transmitir mensagens; que estas são com frequência mensagens para agir de um modo específico – para comprar um produto, para assumir um comportamento ambíguo – que não corresponde aos melhores interesses da criança, nem está em sintonia com a verdade moral; que as crianças não deveriam aceitar ou imitar sem crítica aquilo que encontram nos mass media.

Os pais precisam também de regular o uso dos meios de comunicação em casa. Isto incluiria um plano e uma programação do uso dos mass media, limitando estritamente o tempo que os filhos dedicam aos meios de comunicação, fazendo da diversão uma experiência familiar, eliminando de forma total alguns deles e, periodicamente, excluindo todos eles, em vantagem de outras actividades em família. Sobretudo, os pais deveriam dar bons exemplos aos filhos, através de um uso ponderado e selectivo dos mass media. Eles descobrirão com frequência que é útil reunir-se com outras famílias para estudar e debater sobre os problemas e as oportunidades apresentados pelo uso dos meios de comunicação. As famílias deveriam ser ouvidas, quando dizem aos produtores, aos publicitários e às autoridades públicas o que gostam e o que não gostam.


6. Os meios de comunicação social têm uma enorme potencialidade positiva para promover valores humanos e familiares sólidos e, desta maneira, contribuir para a renovação da sociedade. Considerando o seu grande poder de formar ideias e de influenciar comportamentos, os comunicadores profissionais deveriam reconhecer que têm uma responsabilidade moral não apenas para dar às famílias todo o encorajamento, assistência e apoio possíveis, em vista desta finalidade, mas também para exercer a sabedoria, o bom juízo e a justiça na sua apresentação das questões que dizem respeito à sexualidade, ao matrimónio e à vida familiar.

Os meios de comunicação são recebidos diariamente como hóspedes familiares em muitos lares e famílias. Neste Dia Mundial das Comunicações, encorajo tanto os comunidades profissionais como as famílias a reconhecer o privilégio e a responsabilidade singulares que isto comporta. Que todas as pessoas comprometidas no campo das comunicações reconheçam que são verdadeiramente «responsáveis e administradores de um poder espiritual enorme, que pertence ao património da humanidade e que está destinado a enriquecer toda a comunidade humana» (Discurso aos especialistas das comunicações, Los Angeles, 15 de Setembro de 1987, n. 8). E que as famílias sejam sempre capazes de encontrar nos mass media uma fonte de ajuda, de encorajamento e de inspiração, enquanto lutam para viver como comunidade de vida e de amor, para formar os jovens nos valores morais sólidos e para fazer progredir uma cultura de solidariedade, liberdade e paz.


Vaticano, 24 de Janeiro de 2004, Festividade de São Francisco de Sales.


Oração Universal


Invoquemos com alegria Jesus Cristo

que se encontra junto do Pai e presente no meio de nós

aclamando com júbilo:

Ouvi-nos, Rei da eterna glória.


1. Senhor Jesus, presente na glória de Deus Pai,

ajudai o Santo Padre o Papa, os nossos bispos,

presbíteros e diáconos, a serem vossas testemunhas

em todas as realidades terrestres,

sem deixarem de lembrar a vida gloriosa junto de Cristo.


2. Senhor Jesus, ajudai todos os cristãos

a sentirem a religião como um estímulo

para se comprometerem concretamente na melhoria da vida humana.


3. Senhor Jesus, tocai o coração dos governantes das nações,

para que contribuam para a transformação

das estruturas sociais injustas.


4. Senhor Jesus, auxiliai os agentes da comunicação social

a serem formadores e informadores

em sinceridade e verdade, para transformação dos homens,

à luz dos valores essenciais da vida.


5. Senhor Jesus, que o conhecimento da vossa glória

se converta em amor, o amor em seguimento

e o seguimento em luta apaixonada pela difusão do vosso Reino.


6. Senhor Jesus, juiz dos vivos e dos que já partiram para o Pai,

fazei que um dia possamos, todos juntos,

participar da vossa glória que não tem fim.


Deus, Pai de misericórdia,

fazei-nos exultar de santa alegria interior,

pela ascensão ao Céu de Vosso Filho, nossa esperança,

e de nos juntarmos a Ele, como membros do Seu corpo.

Ele que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.



Liturgia Eucarística


Cântico do ofertório: Povos Batei Palmas, C. Silva, NRMS 48


Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, o sacrifício que Vos oferecemos ao celebrar a admirável ascensão do vosso Filho e, por esta sagrada permuta de dons, fazei que nos elevemos às realidades do Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.


Prefácio da Ascensão: p. 474 [604-716]


No Cânone Romano dizem-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) e o Hanc igitur (Aceitai benignamente, Senhor) próprios. Nas Orações Eucarísticas II e III fazem-se também as comemorações próprias.


Santo: M. Luis, NCT 297


Saudação da paz


Ao celebrar com alegria a glória de Cristo, não podemos esquecer a responsabilidade de sermos suas testemunhas através de provas de autenticidade da nossa fé, não nos alheando do compromisso de melhorarmos a vida concreta dos nossos irmãos. Deste modo sentiremos tranquilidade interior que nos convida a partilhá-la com todos os homens, beneficiando e favorecendo a verdadeira paz de Cristo.


Monição da Comunhão


Através da comunhão do Corpo de nosso Senhor Jesus Cristo, sintamos, como os primeiros cristãos, a Sua presença em nós, para assim O entendermos e vivermos, transfigurando-nos com a Sua luz e a Sua vida, a fim de sermos suas testemunhas na vida dos homens.


Cântico da Comunhão: Eu Estou Sempre Convosco, C. Silva, NCT 354

Mt 28, 20

Antífona da comunhão: Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos. Aleluia.


Cântico de acção de graças: Minha Alma Exulta, F. da Silva, NRMS 32


Oração depois da comunhão: Deus eterno e omnipotente, que durante a nossa vida sobre a terra nos fazeis saborear os mistérios divinos, despertai em nós os desejos da pátria celeste, onde já se encontra convosco, em Cristo, a nossa natureza humana. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.



Ritos Finais


Monição final


Ao deixarmos este templo para voltarmos à nossa vida de todos os dias, sejamos mensageiros da salvação, através da palavra e com a vida, dando testemunho de Cristo na fidelidade à missão que Ele nos confiou de sermos arautos da sua mensagem junto dos homens nossos irmãos.


Cântico final: Aclamai Jesus Cristo, F. da Silva, NRMS 65









Celebração e Homilia: António Elísio Portela

Nota Exegética: Geraldo Morujão

Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha


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