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EXCESSIVA  COMPREENSÃO

 

Hugo de Azevedo

 

 

 

Há cristãos tão compreensivos e «liberais», que declaram não se sentirem perturbados com a hipótese de um casamento de Jesus. Sabem perfeitamente que foi celibatário, mas acham que a sua fé em Cristo, em tal hipótese, se manteria tão firme como a receberam da Igreja. Não podia Nosso Senhor redimir-nos como muito bem quisesse? E haverá algo de pecaminoso no matrimónio?...

Sem dúvida: não só poderia redimir-nos de muitos outros modos, como podia inclusivamente não salvar-nos; e o matrimónio, de facto, não é apenas algo honesto, mas um «grande sacramento», na expressão do Apóstolo. Simplesmente, nesse caso, a Revelação, a economia da Redenção, e a vida e doutrinas da Igreja seriam profundamente diversas. A começar pela omissão do Evangelho da Infância, das exortações de Jesus a segui-Lo no celibato, e as de S. Paulo nesse mesmo sentido... Aliás, que autoridade seria a desse homem, se tentava arrastar os fiéis para a virgindade? E, ainda antes, se o modelo divino da perfeição incluía o casamento, que valor teria a virgindade de sua Mãe e de S. José? Seriam factos a esconder, mais do que publicitar... João Baptista seria um tipo estranho, a esquecer também, evidentemente, e pouco digno do título de Precursor....

Se o matrimónio fizesse parte da vida do Salvador, o estado matrimonial seria considerado superior ao celibato e à virgindade; logo, quem optasse pela renúncia a tal estado, que louvores mereceria da Igreja? Eremitas, cenobitas, monges, frades, consagrados... seriam marginalizados, e de modo algum abençoados! Tolerados, talvez, como pobres incapazes de imitarem radicalmente o Mestre. Que diferente teria sido a história da Igreja! Toda a teologia e a espiritualidade cristãs teriam perdido a extraordinária reflexão e elaboração dos contemplativos; a evangelização teria perdido a audácia sobrenatural dos missionários; o mundo inteiro, os prodígios de caridade de tantos e tantos homens e mulheres que, pelo celibato «propter regnum coelorum», se tornaram disponíveis para atenderem os desfavorecidos

O Mestre, com o seu exemplo, teria ensinado que a primeira caridade consistiria nos cuidados domésticos, e só em segundo lugar para com os não pertencentes à família... Os sacerdotes – seus primeiros representantes – deveriam casar, para oferecerem a mais perfeita imagem de Cristo, Sacerdote eterno... casado. Antes de mais, que se preocupassem com os familiares; nos tempos livres, com os demais... Os missionários seriam aconselhados a levarem consigo mulher e filhos... e sogros e pais em caso de necessidade.

Mais complicado ainda: teria nascido no mundo e na Igreja um clã supremo – o dos descendentes do Mestre! Entre os que possuíam «sangue divino» e os restantes, cavar-se-ia um fosso enorme; os primeiros cultivariam o tesouro precioso a sua árvore genealógica com mais empenho do que as mais elevadas aristocracias. Os segundos invejá-los-iam até extremos inimagináveis. A preocupação por casar com alguém desse clã «divino» seria o furor de qualquer fiel cristão...

Enfim, quem acha que tudo seria igual não sabe o que diz.

 


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