TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

O PENSAMENTO FILOSÓFICO DE

KAROL WOJTYLA


Prof. Giovanni Reale



No dia 13 de Outubro passado, teve lugar uma conferência de imprensa no Vaticano, para a apresentação da obra «Metafisica della persona. Tutte le opere filosofiche e saggi integrativi di Karol Wojtyla», publicada pela Ed. Bompiani, no quadro da celebração do Jubileu do Papa João Paulo II. Intervieram o Prof. Giovanni Reale, o Prof. Tadeusz Styczen e o Prof. Rocco Buttiglione. Publicamos a seguir a primeira das intervenções (subtítulos da Redacção da CL).


Karol Wojtyla - como poucos - expressou-se naquelas três formas que Hegel entendia como as categorias supremas do Espírito absoluto, isto é, a «arte», a «filosofia» e a «religião». Começou precisamente a exprimir os seus pensamentos através da arte; depois escolheu a via religiosa do sacerdócio e expressou os seus pensamentos em dimensão teológica: em seguida, dedicou-se à filosofia, e expressou os seus pensamentos sobretudo como professor de filosofia moral na Universidade Católica de Lublim. Mas teve sempre uma paixão muito particular pela filosofia. Recordo um acontecimento particularmente eloquente. No começo dos anos 90, telefonou-me o Decano da Faculdade de Filosofia da Universidade Lateranense, dizendo que ao Sumo Pontífice agradaria (se eu estivesse de acordo) receber a Metafísica de Aristóteles e as obras sobre este escrito por mim cuidadas, que havia pouco eu tinha reeditado. Admirado com o pedido, respondi que já tinha enviado essas obras ao Vaticano. E o Decano disse-me: aquelas obras foram para a Biblioteca; mas o Pontífice, quando regressa das suas viagens cansativas, repousa lendo a Metafísica de Aristóteles e a Summa de S. Tomás, sublinhando e anotando os textos. Os amigos polacos informaram-me, depois, que quando era Cardeal de Cracóvia, nos poucos dias de repouso, convocava filósofos para debater sobre filosofia. E continuou a fazer o mesmo durante as suas férias de Verão em Castel Gandolfo.


Existe uma filosofia cristã?


Qual é, então, a atitude que Wojtyla assume em relação à filosofia? A resposta à pergunta é dupla. Wojtyla, como Pontífice, dá uma resposta. Wojtyla, como homem do século, dá outra, que é convergente, mas que se distingue de maneira clara.

A resposta do Pontífice é a seguinte: «A Igreja não propõe uma filosofia própria nem canoniza uma filosofia particular qualquer, em prejuízo de outras». De facto, a filosofia procede segundo os seus métodos e, portanto, tem a sua autonomia em relação à fé. Por conseguinte, não é tarefa do Magistério da Igreja criar uma filosofia própria, mas, sim, reagir contra aquelas teses filosóficas que levam à negação do dado relevado e privam a fé do espaço que lhe é próprio.

Mas, não se fala com frequência de «filosofia cristã»?

A expressão é correcta, mas unicamente se não se pretende com ela uma espécie de «filosofia oficial da Igreja», porque a «fé» não se identifica com a «filosofia». A este propósito, João Paulo II faz uma afirmação de grande alcance: «Falando de filosofia cristã, pretende-se abranger todos aqueles progressos importantes do pensamento filosófico que não se teriam realizado sem o contributo, directo ou indirecto, da fé cristã».


Eis agora como a resposta de Wojtyla como homem do século se distingue da de Wojtyla Pontífice. Na nova publicação das obras filosóficas por ele escritas como professor de filosofia moral na Universidade Católica de Lublim, ele impõe que seja escrito só o seu nome Karol Wojtyta e não, ou também, o de João Paulo II; de facto, como Wojtyla, fala como filósofo do século, ao passo que, como João Paulo II, fala como Sucessor de Pedro e, por conseguinte, como guarda e mensageiro da revelação de Cristo: por isso, os dois papéis devem permanecer emblematicamente diferentes. Com efeito, a fé tem um valor «metacultural».

O Pontífice esclarece: «uma cultura nunca se pode tornar critério de juízo e, ainda menos, critério último de verdade em relação à revelação de Deus». Para concluir: a fé cristã pode ser acolhida em todas as formas de cultura; mas, precisamente por isso, não pode estar limitada a uma cultura em particular.


Metafísica da pessoa com método fenomenológico


Passemos agora aos pontos-chave dos problemas tratados nas obras filosóficas completas contidas no livro que apresentamos.

De onde surge no homem a necessidade de filosofar? Wojtyla, como os filósofos gregos, põe em primeiro plano a «admiração» como origem da filosofia, mas indica de maneira específica o objecto da admiração já não, como os Gregos, nos fenómenos do cosmos, mas sim no «homem». O homem é «sujeito» e «objecto» de admiração.

Lê-se em Persona e atto: «O homem, descobridor de tantos segredos da natureza, deve ser incessantemente redescoberto. Permanecendo sempre de algum modo 'um ser desconhecido', ele exige continuamente uma expressão nova e cada vez mais madura da sua natureza [...]. O homem não pode perder o lugar que lhe é próprio naquele mundo que ele mesmo modelou». Wojtyla esclarece que como pensador depende, por um lado, dos sistemas da metafísica, da antropologia e da ética aristotélico-tomista, e por outro, da fenomenologia, sobretudo na interpretação de Scheler. O método fenomenológico com que Wojtyla estuda o homem em Persona e atto e nos ensaios seguintes - aplicado com agudeza, com análises minuciosas e descrições da experiência da consciência até aos mínimos pormenores - inverte o método da análise metafísica tradicional. Esta, de facto, centrava-se no estudo da estrutura ontológica da pessoa, deduzindo toda uma série de consequências relativas às suas acções; a análise fenomenológica que Wojtyla segue, não parte da pessoa, mas tem a pessoa como finalidade: estuda a acção humana e mostra como precisamente na acção e mediante a acção se revela a pessoa. A «pessoa» como tal, no pensamento helénico, não foi levada ao nível de absoluta superioridade axiológica no âmbito dos entes.

Aristóteles afirma que a inteligência do homem é o que há de mais elevado, e que a vida segundo a inteligência é vida divina porque Deus é Inteligência suprema. Contudo, escreve: «Existem outras coisas que, por sua natureza, são mais divinas do que o homem, como, para referir as mais visíveis, os astros de que se compõe o universo».

Assim pensam também os outros filósofos gregos, como por exemplo Plotino, o qual escreve: «o homem não é o melhor dos seres vivos». Platão escrevia inclusivamente: «Cada um de nós, seres vivos, é como uma admirável marioneta construída pelos deuses, não se sabe se por brincadeira ou por qualquer admirável motivo».

Unicamente com base na mensagem cristã o homem descobriu que tem um valor absoluto como pessoa. Já no Génesis se diz que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus; mas sobretudo com Cristo, o Filho de Deus que encarna no homem, é conferida ao próprio homem uma sacralidade de pessoa em sentido total. Foram os Padres da Igreja, gregos e latinos, que elaboraram com base nos textos sagrados o conceito de pessoa. Agostinho escreve em dois textos deveras provocantes e arrebatadores: «Se Cristo é a cabeça e nós os membros, o homem total é Ele e nós (totus homo, ille et nos)». «Deus fez-se homem; em que se tornará o homem, se, por ele, Deus se fez homem?», Tomás de Aquino escreve: «Persona signifícat id quod est perfectissimum in tota natura». Os livros de Wojtyla impõem-se como expressão emblemática de «metafísica da pessoa». Raramente foram escritas obras com uma defesa do homem tão forte e convicta.


O homem como pessoa


A concepção do homem que, pelo contrário, se difundiu na época moderna e se impôs na época contemporânea é «individualista», e centra-se na singularidade do homem como «indivíduo». Trata-se de uma concepção «apersonalista» ou até «anti-personalista», que se opõe à própria essência do homem como «pessoa, dado que está inscrito na própria natureza do homem a relação estrutural com os outros.

Edgar Morin (que não é crente) faz algumas afirmações exactas, baseadas na mera análise dos factos, e escreve: «Tornando-se religião do homem, o humanismo rompe com o cristianismo que, sendo religião para o homem, não poderia basear-se no homem». E esclarece: «A absoluta laicização supõe de modo inconsciente a absoluta divinização do objecto laicizado», com as consequências que isto implica, ou seja, a eliminação do seu contrário. De facto, está-se a difundir cada vez mais - embora mascarado de várias formas - o pensamento de Nietzsche, que definia o homem como «o animal ainda não estabilizado», o que significa «animal incompleto», ainda não definido. Recordamos que Nietzsche dava do homem juízos negativos verdadeiramente impressionantes, como por exemplo os seguintes: o homem é «um dos mais requintados animais de caça», «a melhor fera», «o mais cruel dos animais», «uma das doenças da terra».

Nietzsche afirmava que já se tinha dado «a morte de Deus», e que o assassino de Deus tinha sido o próprio homem.

Michel Foucault, no seu livro Les mots et les choses, escreve: «Mais do que a morte de Deus - ou melhor, na esteira dessa morte e em profunda correlação com ela -, o pensamento de Nietzsche anuncia o fim do seu assassino». A morte de Deus implica, como consequência necessária, a morte do próprio homem.

Pode-se sair desta situação trágica somente recuperando o conceito de pessoa em todo o seu alcance. «Na filosofia greco-romana - foi dito justamente - o homem procurava explicar-se a si mesmo e a própria vida com o mundo, mas este permanecia mudo. Agora, pelo contrário, fala com Deus, e Deus fala ao homem. Neste diálogo o homem pode dizer 'Eu'; forma-se um homem novo». Agostinho, sobretudo nas Confissões, expressou este encontro entre «Deus como pessoa» e «o homem como pessoa» de maneira paradigmática.

Wojtyla reforça e precisa este conceito, afirmando quanto segue: «Deus, de modo particular, é Criador da pessoa, porque esta em certa medida reflecte Ele próprio. Criador da pessoa, Deus é, por isso mesmo, fonte da ordem personalista».

O homem é semelhante a Deus não só pela sua inteligência, mas precisamente como «pessoa»; e para ser verdadeiramente pessoa, deve instaurar uma relação de participação, solidariedade e comunidade com outras pessoas. A Interacção Absoluta das três Pessoas da Trindade constitui o paradigma, ou seja, o modelo, na constituição da pessoa humana, o «modelo» do qual o homem foi feito à imagem e semelhança.

Poderíamos resumir o valor absoluto da pessoa que emerge da obra de Wojtyla com um esplêndido aforismo de Gómez Dávila: «Aquilo que não é pessoa, no fundo, não é nada».

Mas, precisamente para compreender a importância que estas mensagens de Wojtyla têm hoje, convém recordar a posição antitética extremista de Sartre (e partilhada por muitos implicitamente, - e até explicitamente). Em 1944 foi representado em Paris o segundo drama sartriano com o titulo À porta fechada, no qual é defendida a tese da aversão implacável e radical que subsiste entre homem e homem. O personagem Garcin, condenado no Inferno à pena de viver juntamente com a Estrela e a Inês, a um certo ponto pede que lhe abram as portas e que o submetam a qualquer tortura, desde que não seja obrigado a conviver com aquelas duas mulheres, porque essa convivência é «tortura do cérebro, […] larva de sofrimento, que te roça, te atinge, e não para de fazer sofrer». E quase no fim, Sartre faz tirar a Garcin estas conclusões: «É isto, pois, o Inferno? Nunca o teria pensado. Recordais? O enxofre, a fogueira, a grelha... fanfarrices! Nenhuma necessidade de grelhas; o Inferno são os outros».

Desde o início, Wojtyla defendeu precisamente o contrário: o homem, para ser verdadeiramente homem e, por conseguinte, para se realizar como pessoa, não pode viver a não ser em comunhão com os outros e para os outros. Entramos, assim, no grande tema do amor, que constitui o outro eixo-base de toda a obra de Wojtyla, quer filosófica, quer poética, quer teológica.


O amor como doação


Mais uma vez convirá recordar um modelo antitético - um grandioso «contra-modelo» - que nos faz compreender bem as novidades do conceito cristão de amor. Como se sabe, a interpretação mais elevada que foi dada do conceito de amor a nível da mera razão é a de Platão. Segundo o filósofo, Eros é uma força poderosa em contínua procura do belo e do bem, é a capacidade de adquirir e possuir o belo e o bem a um nível sempre mais elevado. Por conseguinte, o amor é uma força «de aquisição» e «de posse». Além disso, o amor cresce cada vez mais em proporção com a grandeza do objecto amado: é tanto maior o amor quanto maior for o seu objecto.

O amor cristão inverte radicalmente esta concepção: o ágape não é amor «de aquisição» mas sim «de doação»; a grandeza do amor é concebida até como inversamente proporcional à grandeza do objecto amado. Dois textos de Kierkegaard fazem-nos compreender bem a diferença estrutural das duas formas de amor e, por conseguinte, a posição assumida por Wojtyla. «Cristo nunca encontrou uma casa tão miserável que o impedisse de entrar com alegria, nunca encontrou um homem tão insignificante que o impedisse de estabelecer a sua morada no seu coração, assim como nunca renegou a sua autoridade divina. [...] Quando estiveres prestes a duvidar, no momento oportuno sentirás a certeza celeste».

«O silogismo do amor é o seguinte: o amor (isto é, o verdadeiro amor, e não o amor próprio que ama apenas o que é insigne, excelente, etc., e portanto não ama senão a si próprio) está em relação inversa respeito à grandeza e à excelência do objecto. Portanto, se eu sou mesmo uma nulidade, se na minha miséria me sinto o mais miserável de todos os miseráveis, então é certo, eternamente certo, que Deus me ama. Cristo diz: 'Nenhum pássaro cairá por terra sem o consentimento do Pai' (Mt 10, 29). Oh!, eu faço uma oferta ainda mais humilde: diante de Deus, sou menos do que um pássaro; quanto mais certo é que Deus me ama, tanto mais firmemente se cerra o silogismo. - Sim, o Czar das Rússias: poderíamos pensar que Deus nunca o descuidaria; Deus tem muitas outras coisas para ouvir! E o Czar das Rússias é muito importante. Mas um pássaro... não, não... porque Deus é amor, e o amor está em relação inversa com a grandeza e a excelência do objecto. - Quando te sentires abandonado no mundo, a sofrer, quando ninguém se ocupa de ti, concluis: 'Deus não se ocupa de mim'. Envergonha-te, néscio e caluniador, tu que falas assim de Deus. Não, precisamente quem está mais abandonado na terra, esse é mais amado por Deus».

Em toda a obra filosófica e poética de Wojtyla aparece em primeiro plano o conceito de amor como «doação». A «auto-realização» - isto é, a plena realização de si próprios - não se pode verificar a não ser mediante a «auto-transcendência» da pessoa, ou seja, mediante o agir juntamente com os outros e para os outros. Por conseguinte, a auto-realização pode realizar-se e completar-se unicamente no saber «doar-se» aos outros. E precisamente doando-se, o homem não só se torna plenamente ele próprio, mas enriquece-se a si mesmo.

Quando era jovem, Wojtyla já tinha compreendido bem a enorme importância do amor como doação, e ainda não tinha vinte anos quando escreveu: «O amor explicou-me todas as coisas, o amor resolveu-me tudo - por isso admiro este Amor onde quer que Ele se encontre».

E em Amor e Responsabilidade escreve a frase que caracteriza a figura moral e espiritual de Wojtyla de modo perfeito, precisamente na dimensão do amor-doação: «O homem chega à conclusão de que, para ser completamente justo com o Criador, deve oferecer-Lhe tudo o que tem em si, todo o seu ser…».

Foi precisamente isto que Wojtyla fez ao longo de toda a sua vida, e que - como vemos todos os dias - continua a fazer, sem tréguas nem limites.





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