TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

A IGREJA CATÓLICA E O DIÁLOGO

INTER-RELIGIOSO NA ÍNDIA

 

Cardeal Iván Dias *

Arcebispo de Bombay (Índia)

 

 

Sinto-me muito agradecido pelo convite que me fizeram os organizadores deste Colóquio comemorativo do quinto centenário do nascimento de São Francisco Xavier, o qual, com apenas 35 anos de idade, partiu de Belém, em Lisboa, e foi para a Índia como primeiro Legado Papal no Extremo Oriente e trabalhou incansavelmente até à sua morte, na ilha de Sanxian, às portas da China, em 1552. Tinha então apenas 46 anos de idade.

Este Colóquio oferece-nos a oportunidade de prestar homenagem a este grande apóstolo do Oriente e recordar os grandes desafios que ele abraçou com fé e zelo apostólico, os inúmeros sacrifícios que fez e os perigos que teve de afrontar na terra, no mar e no meio dos povos que ele encontrou durante a sua missão evangelizadora. O argumento que vamos tratar agora – o diálogo inter-religioso na Índia – certamente interessaria São Francisco Xavier, se ele pudesse estar hoje no meio de nós.

A realidade religiosa na Índia

A Índia de hoje apresenta-se como um mosaico de religiões e de tradições culturais: 80% do povo indiano - que conta hoje um bilião e duzentos milhões de pessoas - é hindu, 12% muçulmano, e os restantes 8% são jains, sikhs, parsis e cristãos. Tais são as estatísticas oficiais que, porém, inexactamente incluem no grupo maioritário hindu o grande número dos que têm crenças animistas ou tradições tribais. Os cristãos, no seu todo, são 2,3%, representando os católicos apenas 1,8%. Há também um pequeno grupo de judeus (apenas 5.000 pessoas), que são descendentes dos comerciantes hebreus que vieram para a Índia há três mil anos. A Providência quis servir-se deles para nos mandar os primeiros evangelizadores do cristianismo, os Apóstolos São Tomé e São Bartolomeu. 

Estes grupos religiosos são muito diversificados nas suas origens e crenças. Recordemos brevemente alguns seus traços principais, para constatar a grande variedade que existe entre eles, os valores positivos que contêm, e o desafio de convivência harmoniosa que põem aos cristãos que proclamam a Boa Nova de Jesus Cristo.

O hinduísmo é um sistema filosófico que começou há cinco mil anos, na civilização do vale Indus-Saraswati, e que tomou a forma actual há 2.500 anos. Os seus livros sagrados chamam-se os Vedas. O hinduísmo ensina aos seus adeptos como viver o ciclo da vida traçado deste modo: karma-sansara-moksha. Karma indica as acções duma pessoa vividas segundo as regras do dharma (que é o quadro dos deveres, as virtudes, as leis que regulam a vida duma pessoa na sociedade, as castas, as relações entre indivíduos). Estas acções, boas ou más, têm repercussões na vida seguinte daquela pessoa e provocam uma série de reencarnações (sansara), até ela chegar a ser completamente purificada e dissolvida no ser eterno, que é um ser impessoal; isto é chamado moksha (beatitude final). Para facilitar este caminho de purificação, há um sistema ascético-físico, bem conhecido hoje no mundo inteiro, chamado yoga, que tem diversas classificações. Os hindus crêem numa multiplicidade de manifestações divinas, chamadas avatares. Faz parte integrante do hinduísmo a divisão de todas as pessoas em castas, quer dizer, numa hierarquia social de categorias altas e baixas, na qual uma pessoa nasce e onde deve procurar a sua libertação pessoal (moksha), sem poder nunca sair da sua casta. Há, porém, alguns que ficam de fora de qualquer casta e são tratados como «lixo da sociedade». Às vezes, são chamados, com desprezo, pariahs (quer dizer, ilegítimos), mas Mahatma Gandhi, o Pai da Nação indiana, combateu em favor deles e chamou-lhes harijans, quer dizer, filhos de Deus (Hari).

O budismo nasceu com Siddharta Gautama Budha na Índia, no século VI a.C. Tem os seus textos sagrados (Triptikas), que contêm os ensinamentos do fundador. É uma filosofia que rejeita o sistema de castas e propõe, por um lado, a renúncia a sentimentos negativos, como a inveja, a avareza e a ambição de possuir bens terrenos, e, por outro, a compaixão pelos que sofrem. Através duma série de reencarnações (karma-sansara), uma pessoa pode chegar ao nirvana, quer dizer, à felicidade de uma perfeita libertação e calma interior. O seu sistema de meditação ascética chama-se vipassana.

O jainismo começou há quase 3.500 anos, mas tomou a forma actual há uns 600 anos a.C. com Vardhamana Mahavir. O jainismo tem muito em comum com o hinduísmo, considerando como divinizados os que se libertaram dos laços materiais, mas não aceita o sistema de castas, as divindades e os sacrifícios do hinduísmo. A sua filosofia tem cinco princípios, começando por ahimsa, ou seja, não-violência, que respeita toda a vida humana, animal ou vegetal, porque todas as vidas são consideradas como sagradas, tendo uma alma eterna, potencialmente perfeita e santa, que deve ser libertada de todos os vínculos com a matéria. Por isso, os monges jains cobrem a boca com um lenço e escovam o assento antes de se sentarem, para não fazer mal a nenhum ser vivo, por mais pequenino que seja. Os outros princípios são: satya (verdade), asteya (não roubar), brahmacharya (castidade), e aparigraha (desapego de coisas terrenas). Os jains seguem uma vida de ascetismo rigoroso, jejuns, mortificações, meditação e estudo. Tal como os hindus e budistas, eles são rigorosamente vegetarianos.

O zoroastrismo foi fundado na Pérsia há 1.500 anos a.C. por Zoroastro ou Zaratrustra – e, por isso, os seus adeptos chamam-se parsis. Estes adoram um único ser supremo, chamado Ahura Mazda, cujo símbolo é o fogo sagrado. Crêem também nos anjos e respeitam os elementos primordiais da natureza: água, fogo, ar e terra. Eles não queimam os seus mortos como fazem os hindus, os budistas e os jains, nem os enterram como fazem os cristãos e os muçulmanos, mas deixam-nos ao ar livre para serem consumidos pelos abutres. O seu livro sagrado chama-se Avesta. Os parsis crêem numa luta permanente entre as forças do bem e do mal. Depois da morte, uma pessoa tem três dias para reflectir sobre a própria vida; se prevalecerem as suas acções boas, ela vai para o céu; caso contrário, vai para o inferno. Os adeptos do zoroastrismo acreditam que um salvador (saoshyant) nascerá duma virgem da família de Zaratustra, que ressuscitará os mortos e os julgará no último dia. Os parsis estão a diminuir lentamente no mundo inteiro, pois não aceitam conversões de pessoas de outras tradições religiosas e expulsam da comunidade quem casa fora dela. O princípio fundamental deles é: ter bons pensamentos, dizer boas palavras e fazer boas acções. 

O islamismo é bem conhecido no mundo inteiro: é uma religião monoteísta que iniciou com Maomé no século VI d.C. e tem em grande consideração o Alcorão, que contém princípios religiosos para a vida pessoal e a convivência social dos seus adeptos. As cinco colunas do islamismo são: a profissão de fé em Maomé como profeta de Deus; a oração feita cinco vezes por dia; a esmola dada aos pobres; o jejum rigoroso durante o mês do Ramadão; e a peregrinação a Mecca, ao menos uma vez na vida. 

O sikhismo é uma religião relativamente recente: foi fundada pelo Guru Nanak (1469-1538) apenas há 500 anos e toma inspiração do hinduísmo (bhakti) e do islamismo (sufi). É uma religião monoteísta que não aceita ídolos, imagens ou ícones, e propaga o amor e o serviço aos outros. Os sikhs têm um livro sagrado chamado Sri Guru Granth Sahib (ou Adi Granth) e têm modos e lugares próprios de orar e de adorar (gurudwaras), como também regras de vestir e de comportamento social. Por exemplo, são cinco as coisas que começam com a letra «k» e fazem parte do traje normal dum sikh: kesa (não cortam os cabelos nem a barba), kanjah (pente), kacha (calças curtas), kara (pulseira metálica), e kirpan (punhal cerimonial). Eles aceitam a doutrina da reencarnação (karma-sansara) e rejeitam o sistema de castas e, para chegar à união com a divindade, exigem uma vida íntegra e honesta que supere o próprio egoísmo e renuncie aos vícios como o álcool, o tabaco, os desejos impuros, etc.

Assim, por um lado, a Índia é rica de valores humanos e espirituais; mas, por outro, algumas das suas tradições religiosas ou práticas sociais contêm elementos que contrastam com a fé cristã: por exemplo, o sistema das castas, a lei da vingança, a condição subalterna das mulheres, o preconceito contra o nascimento duma menina e, por conseguinte, o grande número de abortos de crianças do sexo feminino, o trabalho forçado de crianças menores de idade (trabalho infantil), o fundamentalismo religioso... Por isso, o cristianismo tem tido muitos obstáculos para se implantar na Índia e não faltaram mártires e confessores da fé.

À vista dum tal panorama religioso, é evidente o grande desafio que os cristãos na Índia têm para descobrir a acção do Espírito Santo – quer dizer, as «sementes do Verbo», para utilizar palavras do Concílio Vaticano II (Ad Gentes, 11.15) - nessas tradições religiosas e para mostrar-lhes, sem nenhum complexo de superioridade, como chegar à plenitude de Vida e Verdade em Jesus Cristo, como tentou fazer o Apóstolo São Paulo quando falou ao povo que adorava «um Deus desconhecido» no areópago de Atenas (Act 17, 23). Os cristãos também podem recordar alguns valores da sua fé e prática religiosa que talvez tenham esquecido, mas que estão todavia presentes nas religiões não cristãs indianas, como por exemplo, o jejum, a meditação e a oração frequente de cada dia, o desapego das coisas terrenas, a castidade, o ascetismo rigoroso, etc. Esta interacção faz parte do diálogo inter-religioso.

Diversas expressões do diálogo inter-religioso

As expressões clássicas deste diálogo são o diálogo de ideias, de experiências, de vida e de acção. Na Índia, a Igreja Católica conduz este diálogo de diversas maneiras.

Diálogo de ideias e de experiências

O diálogo de ideias e de experiências é competência dos especialistas que conheçam bem tanto a fé católica como as tradições religiosas não cristãs indianas. Na Índia, há muitas pessoas e grupos católicos que dialogam com crentes de outras religiões, que tomam a iniciativa de se encontrar com eles e de falar sobre assuntos teológicos ou a vida ascética que são próprios de cada religião. A Conferência Episcopal da Índia tem uma Comissão para o diálogo inter-religioso e promove muitas iniciativas para reunir regularmente pessoas de diversas religiões, principalmente quando a harmonia inter-religiosa fica em perigo. Vários são os jornais e revistas publicados na Índia sobre este assunto.

Em Bombaim, temos a Universidade Somaya Vidyavihar que, apesar de ser hindu, tem uma Faculdade de Religião Comparada onde sacerdotes católicos ensinam o cristianismo. Esta instituição promove encontros regulares com teólogos da Pontifícia Universidade Urbaniana, de Roma, e com grupos contemplativos católicos de Itália, os Camaldulenses, para estudar pontos de convergência no âmbito da teologia e da contemplação e para mútuo enriquecimento. Temos também um Instituto de Cultura e um centro de diálogo inter-religioso, dirigido pelos Missionários do Verbo Divino, que forma especialistas nos valores culturais da Índia e investiga a maneira de os valorizar em ordem à evangelização. Há também um outro centro de diálogo inter-religioso chamado Anubhava, dirigido pelos Padres Carmelitas. O movimento eclesial dos Focolarinos - fundado pela bem conhecida Chiara Lubich - organiza com grande êxito encontros com os hindus, os muçulmanos e os budistas em várias regiões da Índia.

Como sabem, cada ano a Santa Sé manda uma mensagem aos hindus por ocasião da Festa da Luz (Diwali), aos budistas para a Festa de Vesaka, e aos muçulmanos no final do mês do Ramadão. Trata-se de três comunidades fortemente presentes na Índia. Na Arquidiocese de Bombaim, o Arcebispo também envia felicitações a estas comunidades em tais ocasiões e manda uma saudação aos judeus, aos sikhs, aos jains e a outros por ocasião das suas festas principais. São mensagens que muito agradam aos que as recebem, e que são retribuídas pelas nossas festas do Natal e da Páscoa.

Pela festa do Natal, a Igreja Católica em Bombaim organiza um encontro inter-­religioso para festejar o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não é uma celebração religiosa, embora nela se cantem hinos natalícios juntamente com os participantes não cristãos. Nesta reunião tomam parte muitas pessoas hindus, muçulmanas e de outras religiões não cristãs, que se dizem felizes por estar connosco a manifestar a própria alegria e louvar esta Criança que é símbolo de paz celestial, fraternidade universal e amor divino.

Todos estes contactos inter-religiosos têm a finalidade de mostrar a nossa identidade cristã, esclarecer dúvidas, superar dificuldades e compreender melhor a crença dos nossos interlocutores. Estas iniciativas criam uma atmosfera de amizade e uma predisposição favorável ao diálogo de vida e de acção: por exemplo, para lutar conjuntamente pelos direitos do homem, para exprimir solidariedade àqueles que são perseguidos por causa da sua fé, para trabalhar juntos a fim de aliviar os que vivem na pobreza, para se ajudarem reciprocamente a controlar os nomes nas listas eleitorais preparadas pelo governo, para cuidar da limpeza da vizinhança e para levar socorro às vítimas de calamidades naturais, como aconteceu depois de terremotos em Gujarat (2001) e, há poucas semanas, em Kashmir, e depois do maremoto tsunami no Sul da Índia, no mês de Dezembro passado, e mais recentemente, quando as chuvas torrenciais caíram em Bombaim e noutras partes do nosso estado de Maharashtra no mês de Julho deste ano (2005). Uma senhora muçulmana - que foi salva pelos alunos do nosso seminário quando estava prestes a afogar-se no dilúvio e foi acolhida numa igreja católica - disse-nos: «Eu já sabia que existiam anjos, mas agora em vós tenho visto anjos em carne e osso.»

Quando o Papa João Paulo II veio à Índia, em Novembro do ano 1999, para nos entregar a Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Asia (E.A.), ele encontrou-se com os representantes de várias religiões não cristãs e disse-lhes: «Na Índia, o caminho do diálogo e da tolerância foi a via seguida pelos grandes imperadores Ashoka, Akbar e Chatrapati Shivaji, por homens sábios, tais como Ramakrishna Paramahamsa e Swami Vivekananda, e por figuras luminosas tais como o Mahatma Gandhi, Gurudeva Tagore e Sarvepalli Radhakrishnan, que compreenderam que servir a paz e a harmonia é uma tarefa santa. Tanto na Índia como noutras partes, existem pessoas que deram um significativo contributo ao incremento da consciência da nossa fraternidade universal e nos orientam rumo a um futuro no qual satisfaremos o nosso profundo desejo de cruzar a porta da liberdade, porque o faremos juntos. Escolher a tolerância, o diálogo e a cooperação como caminho para o futuro significa tutelar o que há de mais precioso no ingente património religioso da humanidade. Serve também para garantir que, no decurso dos próximos séculos, o mundo não permaneça sem aquela esperança que é a linfa vital do coração humano. Que o Senhor do céu e da terra no-lo conceda agora e sempre!». Antes disto, o Papa havia esclarecido: «O diálogo nunca é uma tentativa de impor as nossas opiniões ao próximo, porque um diálogo desta natureza tornar-se-ia uma forma de dominação espiritual e cultural. Isto não significa abandonar as nossas convicções. Significa que, firmes naquilo em que cremos, escutamos o próximo com respeito, procurando discernir o que é bom e santo e o que favorece a paz e a cooperação» (Vigyan Bhawan, New Delhi, 7 de Novembro de 1999). É bom sublinhar a frase do Papa: «firmes naquilo em que cremos», porque não se trata dum compromisso, mas duma maneira honesta de propor a nossa crença religiosa e escutar o que outros dizem da sua fé.

Inculturação

Cabem neste diálogo inter-religioso de ideias e experiências as tentativas de alguns teólogos indianos para apresentar a nossa fé de um modo indiano compreensível aos não cristãos. A Igreja convida os teólogos a estudarem as culturas locais e a proporem uma teologia inculturada. O Papa João Paulo II insistiu neste ponto muitas vezes, encorajando os teólogos a realizar este trabalho «com coragem, fidelidade à Sagrada Escritura e à Tradição da Igreja, sincera adesão ao Magistério e conhecimento das realidades pastorais... O trabalho teológico deve procurar sempre respeitar a sensibilidade dos cristãos, para que, graças a um crescimento gradual para formas inculturadas de exprimir a fé, o povo nunca seja confundido nem escandalizado. Em todo o caso, a inculturação há-de ser marcada pela compatibilidade com o Evangelho e a comunhão com a fé da Igreja universal, em plena concordância com a Tradição da Igreja e com o intuito de fortalecer a fé do povo» (E.A., n. 22).

Estes princípios formulados pelo Papa João Paulo II no documento pós-sinodal Ecclesia in Ásia ao falar do tema da inculturação, do diálogo inter-religioso e da importância que este tem na proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, são particularmente relevantes para nós na Índia. Com efeito, a inculturação deve ser a expressão cultural da nossa fé e a expressão da fé na nossa cultura. A fé e a cultura devem relacionar-se de tal maneira entre si que gerem uma fusão harmoniosa aos olhos de Deus e dos homens.

A inculturação deve ter um significado não só para os fiéis da Igreja mas também para a cultura daquele povo. Isto representa um desafio muito especial para a Índia, que é um mosaico de culturas religiosas, de tal modo que não se pode falar duma só cultura indiana, antes convém falar das culturas indianas, pois são tantas e muito diferentes entre si. As palavras de São Paulo têm um significado importante aqui: Apreciai «tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama» nas culturas que vos rodeiam (Flp 4, 8). Isto pode servir como indicação para levar as culturas indianas às verdades eternas ensinadas por Nosso Senhor Jesus Cristo. O Papa João Paulo II aponta um critério de ouro para avaliar o sucesso da inculturação numa sociedade: «O teste de uma inculturação verdadeira é verificar se o povo adere mais à sua fé cristã porque a vê melhor com os olhos da sua própria cultura» (E.A., n. 22).

Os povos não cristãos esperam ver nos cristãos uma inculturação autêntica; não puramente cosmética ou superficial, mas que se traduza num ascetismo profundo, em oração, contemplação e, sobretudo, num sentido do sagrado.

Quero elogiar a obra de inculturação que os missionários do Verbo Divino fizeram e fazem ainda na Índia para proclamar a Boa Nova de Jesus Cristo com cantos nas línguas indígenas, representações cénicas, danças clássicas e populares indianas. Convém também mencionar alguns religiosos e religiosas que vivem uma experiência de ashram, quer dizer, uma vida contemplativa adaptada às formas de espiritualidade indiana.

Diálogo de vida e acção

Depois, temos o diálogo de vida e acção. Os cristãos na Índia procuram, nas relações que mantêm com as pessoas de outras tradições religiosas, mostrar o amor imenso de Deus por todos os homens. Os cristãos são apenas 2,3% numa população de mais de um bilião de pessoas, todavia cuidam de 20% de toda a educação primária no país, de 10% dos programas de alfabetização e de saúde nas comunidades rurais, dirigem 25% das casas para órfãos e viúvas e 30% das instituições para os portadores de deficiências físicas e mentais, leprosos e infectados de SIDA. A maior parte daqueles que beneficiam destes serviços de educação, saúde e assistência social não são cristãos. Por isso, eles admiram os cristãos pelo amor que demonstram para com todos, espalhando o perfume dos valores cristãos sem palavras e sem aparecerem nos títulos nos jornais.

Madre Teresa de Calcutá deixou-nos um exemplo extraordinário. Ela foi apreciada e admirada por todos – cristãos, membros de outras religiões, e mesmo por quem não professa nenhuma fé –, pelo seu amor heróico aos mais pobres dos pobres, sem pensar na casta, sexo, crença religiosa nem posição social ou filiação política dessas pessoas. O seu testemunho silencioso ao amor de Cristo presente em todos os que sofrem no mundo foi compreendido por todos e mereceu-lhe o Prémio Nobel da Paz, grande reconhecimento da parte do governo indiano e de organizações internacionais e ainda um funeral de Estado na Índia.

Tais testemunhos cristãos de boas obras lançam uma mensagem forte às pessoas de diversas tradições religiosas na Índia porque as obras falam mais alto que as palavras e dão aos cristãos a possibilidade de responder «a todo aquele que lhe perguntar a razão da sua esperança» (cf 1 Pe 3, 15). Para os hindus, por exemplo, que têm o sistema de castas como parte integrante do seu modo de viver e crêem que os sofrimentos desta vida são o resultado duma vida anterior mal vivida, que necessita de ser purificada por uma série de reencarnações (karma-sansara), a fé dos cristãos de que todos os homens são criados à imagem e semelhança de Deus e o serviço amoroso que eles prestam a todos os que sofrem sem olhar à casta deles (em que não acreditam), são verdadeiramente uma provocação e um embaraço. Os budistas, que aceitam passivamente os sofrimentos e mostram compaixão humana a todos os que sofrem, apreendem no testemunho cristão que os que sofrem devem ser amados desinteressadamente e ajudados com solidariedade porque Jesus se identificou com eles e disse: «Cada vez que fizestes isto a um dos meus irmãos mais pequenos, a mim fizestes» (Mt 25, 40). Para os muçulmanos, que tratam o sofrimento como se fosse uma fatalidade ou um destino inevitável, o testemunho cristão mostra que todos os sofrimentos das pessoas inocentes são preciosos aos olhos de Deus e podem ter uma recompensa celestial se forem aceites com paciência e amor, porque foram enobrecidos pelos sofrimentos, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Na Índia, temos muitos santuários marianos. Durante todo o ano, milhares de não cristãos vêm como peregrinos prestar homenagem a Maria Santíssima, Mãe de Deus. Na diocese de Bombaim, temos seis santuários marianos. Num deles, em Mahim, faz-se a novena às quartas-feiras durante todo o ano em honra de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Semanalmente, acorrem ali 70.000 pessoas, a maioria não cristãs, já que os católicos fazem esta novena na própria paróquia. Esses não católicos dizem-nos que se sentem fortemente atraídos pela nossa Mãe celestial porque Nossa Senhora tem uma aparência bondosa e, além disso, tem uma Criança nos braços, e isso diz muito a todas as mulheres e mães de família. Aproveitamos, então, a presença deles nos nossos santuários para lhes falar das verdades da nossa fé cristã. Eles ouvem-nos com interesse e atenção, cantam os nossos hinos religiosos, rezam connosco as orações nas quais professamos a nossa fé na Santíssima Trindade, em Jesus Cristo, único Salvador de toda a humanidade, em Maria Santíssima, Virgem Mãe de Deus, etc., e voltam para casa depois de terem recebido a Bênção do Santíssimo. Muitos procuram aprender a rezar o terço e recitam-no diariamente com muita devoção. E Nossa Senhora concede graças a todos, cristãos e não cristãos, pois é Mãe de todos. Temos outro santuário mariano na nossa diocese, em Korlai, dedicado à Virgem Maria, que é venerada com o título português de «Mãe de Deus», porque a sua imagem foi trazida há quase 500 anos pelos portugueses. Uma tradição local diz que São Francisco Xavier morou nos arredores desta capela. A guardiã deste pequeno santuário é uma senhora judia, que se sente profundamente agradecida a Nossa Senhora porque, pela intercessão dela, teve uma filha depois de muitos anos de matrimónio. Ainda recentemente ela contou-me que todas as pessoas daquela região – que são hindus, muçulmanas e de outras religiões indianas – são muito devotas desta Virgem Mãe que invocam como Padroeira. Por isso, disse ela, reina a paz e a harmonia naquela aldeia. Por ocasião das suas festas populares, todos vêm saudar Nossa Senhora. E, quando há um casamento, os noivos vêm solenemente com os seus parentes em procissão até junto desta imagem da Mãe de Deus para lhe prestarem a sua homenagem e quebrarem um coco aos pés dela: trata-se de um gesto social indiano que se faz ao começar qualquer obra nova para desejar bom sucesso, felicidade e prosperidade. Tais são os votos que, com tal gesto, esta povoação de maioria não católica formula aos noivos, entregando-os nas mãos da sua Padroeira, a Mãe de Deus. Verdadeiramente, Nossa Senhora é um agente muito poderoso do diálogo inter-religioso na Índia. O mesmo acontece em todos os outros santuários católicos dedicados a Nosso Senhor (Menino Jesus de Praga), a Maria Santíssima e aos Santos, como São Francisco Xavier, Santo António, São Judas Tadeu e outros.

Para nós, na Índia, esta interacção dos católicos com pessoas de outras religiões é normal. Às vezes, no estrangeiro, alguns não compreendem bem a beleza de tal convivência e a criticam. Já no tempo de Jesus, havia alguns que O criticavam porque Ele lidava com publicanos, prostitutas e pagãos e não compreendiam o coração d’Ele, que queria salvar todos os homens. Como foi no caso do publicano Zaqueu: a Jesus não importou a curiosidade com que ele subiu ao sicómoro para O ver, mas, sim, os sentimentos com que ele desceu daquela árvore e regressou a casa com a paz na alma e um coração feliz e amigo de Deus (Lc 19, 1-10). Assim, também não importam as ideias com que os pagãos vêm aos nossos santuários para saudar Nossa Senhora e os outros Santos, mas os sentimentos de paz, alegria e amor com que eles voltam para casa. Por tanto, como o Apóstolo São Pedro apreendeu no caso do centurião romano Cornélio (cfr. Act 10, 1-11, 18), não tratemos como «impuros» os que Deus tem purificado e que esperam receber de nós o anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo.

Conclusão

Nas escrituras do hinduismo, aparecem estas frases que bem descrevem o desejo profundo da alma indiana: «Da não verdade conduz-me à verdade, da escuridão conduz-me à luz, da morte conduz-me à imortalidade» (Brihadaranyaka Upanishad, 1.3.28). Sabemos que só Jesus Cristo pode satisfazer plenamente este desejo íntimo de passar da «não verdade à verdade» pois Ele é a Verdade; de passar «da escuridão à luz», pois Ele é o Caminho e a Luz que ilumina todos os que vêm a este mundo; de passar «da morte à imortalidade», pois Ele é a Vida e Vida em abundância. «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida», disse Jesus aos seus Apóstolos na Última Ceia (Jo 14, 6), respondendo precisamente a uma interpelação de São Tomé, o Apóstolo que depois evangelizou a Índia.

Como sabemos, a evangelização é principalmente obra de Deus Espírito Santo, que tem espalhado «as sementes do Verbo» em todas as culturas desde a criação do universo. Foi Ele que preparou a Encarnação do Filho de Deus e o Seu sacrifício de Redenção por toda a humanidade, há dois mil anos. Foi Ele que deixou traços na história das culturas em todo o mundo (incluindo as da Índia), que podem conduzir os sedentos da Verdade e da Vida a encontrar a sua plenitude em Jesus Cristo. É Ele que atrai os povos do mundo inteiro a Jesus, Salvador do mundo.

Quando Jesus nasceu em Belém, o Espírito Santo utilizou uma pedagogia diferente com os judeus e com os pagãos. Com o povo eleito da Antiga Aliança, usou o método directo, mandando Anjos aos pastores que vigiavam os seus rebanhos naquela noite, para lhes anunciar que o Salvador do mundo tinha nascido em Belém. Com os pagãos, porém, Ele usou o método indirecto, fazendo aparecer uma estrela no céu do Oriente para indicar o acontecimento divino aos Reis Magos, que seguiram fielmente a estrela, superando dificuldades no palácio dum rei cruel, Herodes, e continuaram a viagem até que encontraram Jesus, Lhe prestaram a homenagem dos presentes que traziam consigo, e O adoraram. Aplicando isto ao povo indiano, temos que reconhecer e apreciar o tesouro precioso do património cultural e religioso que ele traz no seu seio, como também os esforços que faz para descobrir a Verdade seguindo as próprias escrituras, como se fossem estrelas a guiá-lo. Como os Reis Magos se sentiam inquietos enquanto não encontraram e adoraram Jesus, colocando os seus tesouros aos pés dele, assim também o povo indiano, com as riquezas das suas tradições religiosas e culturais, permanecerá inquieto até encontrar e adorar Jesus que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Como disse Santo Agostinho: «Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em Ti» (Confissões).

 

 



* Conferência pronunciada no Colóquio Cristianismo na Índia: Percursos e Proximidades, organizado pela Sociedade do Verbo Divino, em Fátima, de 3 a 4 de Dezembro de 2005.


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