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AS  CRISES

 

Hugo de Azevedo

 

Falamos da crise de sacerdotes, e há razões para isso. E falamos da crise do matrimónio, com muita razão também. Serão duas crises diferentes, ou serão a mesma? Que a primeira depende da segunda, não há dúvida: de lares desfeitos não saem sacerdotes, geralmente... É uma crise conjunta, mas a principal é a das famílias. Havendo mais famílias cristãs, fiéis, generosas, do seu meio sairão mais filhos capazes de se entregarem a Deus e às almas no celibato sacerdotal ou missionário, na vida consagrada, na dedicação ao apostolado laical, ou no próprio matrimónio, construindo novas e sãs «igrejas domésticas», e dando continuidade a todo o tipo de vocações cristãs.

Estão em crise a Ordem e o Matrimónio, note-se: os dois sacramentos «sociais», necessários para a Igreja, não para cada fiel. Não nos sugere isto um fácil diagnóstico: o individualismo? Tudo apela ao individualismo, ao egoísmo, à satisfação pessoal, à busca da felicidade própria, rápida, a curto prazo. Como é que os jovens cultivados em tal ambiente pressentirão a grandeza, a beleza e a felicidade do maior amor, do «ágape», de que nos fala o Santo Padre?

Casam para serem felizes!... Quando é que se disse que o fim da casamento era a felicidade? Mas aí vão eles, casando e «descasando», sempre em busca da sua felicidade... Muitos dos próprios cristãos caem nesse engano e, quando menos se espera, pensam em si, sentem-se infelizes, e dão com tudo a rodar.

Ninguém lhes terá explicado que o matrimónio é um sacramento para servir o outro, e os filhos; não para seu bem estar? Não. Tudo os estimula ao contrário, e consideram estranhos ou «fanáticos» os que cumprem a sua palavra, e antepõem a responsabilidade familiar à paixoneta do ano... Não está bem visto renunciar a nada, mas acaba-se por renunciar a tudo – a tudo o que permanece, a tudo o que vale a pena!

O romantismo de moda é um romantismo carnal, quase só carnal, «realista», pretendem. Mas onde está o realismo? Somos só carne? Olhem ao seu redor, e verão tanto amor generoso, gratuito, abnegado... De esposos fiéis, de pais heróicos, de serviçais dedicadíssimas, de filhos solícitos, de inúmeros voluntários a cuidar dos mais necessitados, de soldados valentes, de guardas capazes de darem a vida por quem quer que seja... Lembram-se do caso recente dos que salvaram um moço embriagado, morrendo um e ferindo-se o outro ao serem apanhados pelo comboio? E daquele outro que arriscou a vida para salvar um miúdo, a arder, por uma descarga eléctrica? Ouviram o que respondeu, com tanta simplicidade, quando lhe perguntaram o que sentia? - «Sinto-me realizado». Essa é a mais profunda e bela realização humana: dar-se, seja por quem for. Quanto mais por quem devemos!

O verdadeiro amor existe, graças a Deus, esteja de moda ou não. Mas sobrecarregam-nos com uma visão fútil do amor, com o «direito» ao egoísmo, e quase nos acusam de amar como sempre se amou, de sermos felizes por tornarmos felizes os outros, à imagem e semelhança de Deus, que por amor puro nos criou, e por nós morreu na Santa Cruz.

O Santo Padre foi ao cerne das «crises» que nos preocupam, recordando-nos a todos, com paciência e lucidez, a condição básica da autêntica felicidade humana, que Nosso Senhor resumiu tão claramente: «É melhor dar que receber». Só a partir daí se criam boas famílias, e brotam as mais generosas vocações.

 


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