ENTREVISTA

 

 

DIÁLOGO CULTURAL E INTER-RELIGIOSO

 

Cardeal Paul Poupard

 

 

O Cardeal Paul Poupard, Presidente do Conselho Pontifício para a Cultura desde 1982, foi nomeado por Bento XVI também Presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, em 11 de Março passado. Numa entrevista concedida à Agência Veritas (Madrid), o Cardeal ilustra os desafios que o esperam no seu novo cargo.

 

- O Santo Padre acaba de tornar pública a sua nomeação como Presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso. A nomeação responde, segundo a nota da Sala de Imprensa, ao desejo «de favorecer um diálogo mais intenso entre os homens de cultura e os membros destacados das diferentes religiões». Eminência, poderia explicar a relação entre o diálogo inter-religioso e o diálogo intercultural?

 

- «O diálogo inter-religioso e intercultural é uma necessidade vital para o mundo de hoje». Disse isto o Papa em Colónia, recebendo os representantes da comunidade muçulmana, no marco da Jornada Mundial da Juventude. Para quem conhece em profundidade o pensamento de Bento XVI, esta eleição é lógica.

Na realidade, quando se fala de diálogo inter-religioso, pensa-se muitas vezes em uma reflexão de tipo doutrinal acerca de temas religiosos comuns, como a ideia de Deus, o pecado, a salvação, etc. Contudo, este diálogo doutrinal exige que haja alguma base comum, e isto nem sempre se dá com as outras religiões. Para um budista, por exemplo, Deus não é pessoa; para outros, a salvação consiste na dissolução do eu, enquanto que para um cristão é sempre a salvação da sua própria pessoa. Assim é muito difícil o diálogo. Este diálogo doutrinal tem sentido entre cristãos de diversas confissões, com quem compartilhamos a fé em Jesus Cristo.

Pelo contrário, com os crentes de outras religiões sempre é possível o diálogo sobre a base da cultura. Esta é a intuição que está na base do Conselho Pontifício da Cultura: que a cultura é um terreno comum no qual podem dialogar crentes e não-crentes, ou crentes de diferentes religiões. O tema comum que nos une, dizia João Paulo II na UNESCO, é o homem, e acerca dele sim que podemos dialogar.

O Papa Bento, portanto, quer levar o diálogo com os crentes de outras religiões ao terreno da cultura e das relações entre culturas. A cultura do Povo de Deus, que supera os limites nacionais, linguísticos, regionais, etc., entra em diálogo com outras culturas, impregnadas vitalmente por outras religiões. Neste diálogo produz-se um enriquecimento mútuo, e o Evangelho, encarnado em uma cultura concreta, pode curar e fecundar novas expressões culturais.

 

- Quais são as respostas que o cristianismo pode dar sobre esse tema?

 

- Jesus Cristo é a resposta aos grandes questionamentos do homem, a resposta definitiva. O Concílio di-lo com palavras lindas: «Na realidade, o mistério do homem só se esclarece no mistério do Verbo encarnado» (Gaudium et spes, 22).

Agora, esta mensagem não cai directamente do céu: chega por meio de homens e mulheres muito concretos, com uma história concreta e uma cultura concreta, que entram em comunicação com crentes de outras religiões. Na maneira de viver o cristianismo, há elementos essenciais e elementos acessórios. Os primeiros são imutáveis, enquanto que os segundos são contingentes.

Entre estes elementos essenciais, que encontraram a sua expressão filosófica e teológica, está o conceito de pessoa, a imagem da Trindade, a noção de comunhão, de sujeito, o princípio de liberdade e responsabilidade, a sobrevivência do eu depois da morte, a solidariedade entre os homens, a comum dignidade, etc. Estes são valores que se podem, que se devem compartilhar com crentes de outras religiões, na medida em que se possa. Dos crentes de outras religiões também podemos receber muito. Não quanto aos conteúdos da fé, naturalmente, pois em Jesus Cristo encontra-se a plenitude da revelação, mas quanto ao modo de vivê-la.

 

- O volume que escreveu em 1993, «Dicionário para as Religiões», constitui um texto obrigatório de estudo em História das Religiões. Crê que lhe é de ajuda para o seu novo cargo?

 

- Creio sim! Dirigir a elaboração deste Dicionário foi uma grande aventura intelectual e uma empresa editorial. Como coordenador, tive de ler todos os artigos que me iam enviando os autores das diferentes vozes, entre os que estavam os melhores especialistas. Tudo isso me proporcionou um panorama geral sobre as religiões no mundo e também uma compreensão mais profunda do facto religioso no homem. Algo disso deixei escrito em outro livrinho, Les religions, publicado na famosa colecção Que sais-je?, traduzido para mais de dez línguas, entre as quais o russo, o turco, o vietnamita e ultimamente o chinês, publicado por uma editorial de Pequim.

No coração de cada cultura, encontra-se a aproximação ao mistério de Deus e do homem. Não há cultura que não seja essencialmente religiosa. A única excepção a esta regra universal parece ser a cultura ocidental actual, como assinala com frequência o Papa Bento e, já antes, o cardeal Ratzinger.

 

- O Senhor viveu em 1983 um processo similar ao actual quando o então Papa João Paulo II agregou o Conselho Pontifício para a Cultura e o Secretariado para os Não-Crentes. Qual é a diferença nesta ocasião?

 

- Efectivamente, há semelhanças, mas também diferenças. Como sabe, foi João Paulo II que me chamou a presidir o Secretariado para os Não-Crentes em Junho de 1980, com a intenção de estudar a criação do Conselho Pontifício da Cultura, o que aconteceu em 1982, e do qual me nomeou também Presidente. Desde 1982 até 1993, fui Presidente dos dois Dicastérios, que conservavam, contudo, a sua respectiva autonomia, tal e como sucede agora.

Em 1993, após a queda do muro de Berlim e o desaparecimento na Europa dos regimes comunistas, não pareceu que tivesse sentido manter o Secretariado para os Não-Crentes - que entretanto se havia transformado no Conselho Pontifício para o Diálogo com os Não-Crentes - e assim, em 25 de Março de 1993, o Papa juntou em um só os dois Dicastérios, mantendo as competências de ambos.

 

- Crê que, com este passo, o Papa pretende deixar em um só os dois Dicastérios do Vaticano?

 

- Isso não sabemos. O importante, em todo caso, não são as estruturas, mas o espírito que as anima. As estruturas da Cúria Romana são só meios para ajudar o Papa a desempenhar a sua missão como Pastor Universal. O que está claro é que terá de haver uma maior colaboração entre os dois Dicastérios que o Papa me pediu para presidir «por agora».

 

- Temos recente o aniversário dos atentados aos comboios em Madrid. A Espanha é uma nação com raízes católicas que alberga quase um milhão de muçulmanos. Hoje fala-se mais do que nunca de diálogo e atitude. Sabendo que a Igreja tem como missão a evangelização e o diálogo é só um meio, como vê o Senhor a situação espanhola com respeito ao diálogo inter-religioso e cultural? E como devem responder os católicos?

 

- Com respeito ao diálogo, há muitos equívocos. Em primeiro lugar, o diálogo verdadeiro estabelece-se entre pessoas religiosas, não entre religiões. Os crentes sinceros de toda a religião não têm dificuldade para se compreenderem, pois encontram-se nessa dimensão religiosa fundamental que é comum à humanidade.

Os problemas costumam vir quando entram em contacto duas comunidades ou grupos religiosos, que se manifestam precisamente no terreno da cultura. Isto é o que provoca dificuldades para a convivência, que há que resolver com muita delicadeza. No recente caso das caricaturas do Profeta, houve claramente uma ofensa religiosa, que os muçulmanos perceberam como uma blasfémia. Mas, depois, a violência que se desencadeou em muitos países muçulmanos não foi uma reacção religiosa, mas cultural, descaradamente manipulada por obscuros interesses.

Em segundo lugar, muitos pensam que o diálogo é um substitutivo da missão. E não é assim. Jesus Cristo não disse «Ide e dialogai», mas «Ide e anunciai o Evangelho a toda criatura». Esse mandato continua a urgir a todos os cristãos. O diálogo é só o meio com o qual se anuncia o Evangelho, um meio mais adaptado ao nosso tempo, que privilegia o respeito à pessoa e às convicções pessoais.

Quando se fala de diálogo com os crentes de outras religiões, falamos de uma atitude interior que me leva a tomar seriamente a pessoa com a qual falo e a sua situação, e a respeitar o ritmo da verdade, que não se impõe senão por si mesma e não admite pressões externas. Mas isso não pode significar um cambalacho de doutrinas, ou bem, um falso respeito que se acaba traduzindo necessariamente em indiferença com respeito à verdade, e, portanto, em relativismo.

Por isso, o problema principal, problema hoje para os espanhóis e em geral para a Europa, é o da Verdade. Os espanhóis, como os seus vizinhos europeus, parecem ter-se cansado da verdade, como se lhes parecesse impossível de alcançar. E, consequentemente, desconfiam das identidades claras e fortes, abandonando-se a uma deriva existencial e metafísica. O mundo muçulmano, ao contrário, colectivamente, não tem problemas de identidade alguma.

Nestas condições, não pode haver um verdadeiro diálogo: por um lado, uma sociedade que renuncia à sua própria identidade nacional e histórica; e por outro lado, uma imigração muçulmana que cresce, na qual se infiltram elementos fundamentalistas que rejeitam tudo aquilo que não seja o Islão. Mas isto não é diálogo, mas um suicídio cultural. Como dizia Romano Guardini, no trágico período da Alemanha entre guerras, a tarefa mais urgente é educar para a Verdade, e essa continua a parecer-me uma prioridade hoje em dia.


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