aCONTECIMENTOS eclesiais

DA SANTA SÉ

 

 

SUPRESSÂO DO TÍTULO DE

«PATRIARCA DO OCIDENTE»

 

O Vaticano confirmou oficialmente que no Anuário Pontifício de 2006 não consta, na enumeração dos títulos do Papa, o de «Patriarca do Ocidente». Um comunicado do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos afirma que esta decisão «foi comentada de muitas maneiras e exige um esclarecimento».

 

«O título Patriarca do Ocidente, pouco claro desde o início, tornou-se obsoleto e, com o decorrer da história, praticamente impossível de voltar a utilizar. Parece, por isso, privado de sentido insistir na sua permanência», refere o comunicado.

«Actualmente, o significado do termo Ocidente refere-se a um contexto cultural que vai para além da Europa Ocidental, estendendo-se dos Estados Unidos da América até à Austrália e Nova Zelândia, diferenciando-se, assim, de outros contextos culturais. Obviamente, este significado do termo Ocidente não pretende designar um território eclesiástico, nem pode ser adoptado como definição de um território patriarcal», prossegue a nota oficial.

Numa aplicação do termo Ocidente à linguagem jurídica eclesial, o mesmo poderia ser entendido como referência à Igreja de rito Latino. A nota, contudo, esclarece que, após o II Concílio do Vaticano, a Igreja Latina já dispõe de «um ordenamento canónico adequado para as necessidades de hoje», na forma de Conferências Episcopais e das suas reuniões internacionais.

 

História

 

Os Patriarcas do Oriente eram os Bispos das grandes cidades de onde irradiou o Cristianismo, nos primeiros séculos, mantendo amplos poderes jurisdicionais na sua área de influência, o que foi confirmado pelos primeiros Concílios ecuménicos: Patriarcas de Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém, os quais, antes do cisma ortodoxo, reconheciam a primazia do Papa como Patriarca do Ocidente. O título de «Patriarca» foi utilizado pela primeira vez em referência aos chefes da Igreja pelos imperadores bizantinos, no século V.

A jurisdição directa dos Patriarcas vai para além de uma diocese, incluindo uma família ritual. A verdade é que, no Ocidente, o entendimento da autoridade eclesial foi sendo cada vez mais ligado à terminologia jurídica, e não à sacramental.

O CPPUC explica que, dum ponto de vista histórico, «os antigos Patriarcados do Oriente, fixados pelo Concílios de Constantinopla (381) e de Calcedónia (451), eram territórios bastante circunscritos, enquanto que o território da sede do Bispo de Roma permanecia vago».

Como assinala o documento vaticano, no Oriente, dentro do sistema eclesial imperial de Justiniano (527–565), ao lado dos quatro Patriarcas orientais (Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém), o Papa era visto como o Patriarca do Ocidente; no Ocidente, contudo, foi privilegiada a ideia das três «sedes episcopais petrinas»: Roma, Alexandria e Antioquia.

«Sem utilizar o título de Patriarca do Ocidente, o IV Concílio de Constantinopla (869–870), o IV Concilio de Latrão (1215) e o Concílio de Florença (1439) elencaram o Papa como o primeiro dos então cinco Patriarcas», lembra a nota.

O título de «Patriarca do Ocidente» foi adoptado em 642 pelo Papa Teodoro I, mas apenas raramente voltou a ser utilizado e nunca teve um significado claro. Ressurgiu nos séculos XVI e XVII, no quadro da multiplicação dos títulos do Papa; o Anúario Pontifício utiliza-o, pela primeira vez, em 1863.

 

Ecumenismo

 

A mudança tem potenciais consequências no diálogo ecuménico. A opção de Bento XVI foi acolhida como «sinal de sensibilidade ecuménica», mas poderia provocar reacções negativas se entendida como uma diminuição da autoridade patriarcal, dado que o Papa tem jurisdição universal. Assim, a nota observa que «a renúncia a este título quer exprimir um realismo histórico e teológico, ao mesmo tempo que pretende ser a renúncia a uma pretensão, renúncia que poderia ser útil para o diálogo ecuménico».

«Deixar o título de Patriarca do Ocidente não muda nada ao reconhecimento declarado pelo Concílio Vaticano II às antigas Igrejas patriarcais (Lumen gentium, 23). Muito menos pode querer dizer, tal supressão, que se subentendam novas reivindicações», precisa o documento.

Muitos teólogos católicos defendiam que esta designação não tinha nenhum fundamento histórico ou teológico, para além de ser redutora, por se referir apenas ao Ocidente.

O Papa continuará a ter os títulos de Bispo de Roma, Vigário de Jesus Cristo, Sucessor do Príncipe dos Apóstolos, Sumo Pontífice da Igreja Universal, Primaz da Itália, Arcebispo Metropolita da Província Romana e Soberano do Estado da Cidade do Vaticano.

 

 

NOVOS CARDEAIS

 

No Consistório Público para a criação de 15 novos Cardeais, que se realizou na Praça de São Pedro no passado dia 24 de Março, Bento XVI destacou a importância dos Cardeais no governo da Igreja, lembrando que o Colégio Cardinalício é um importante organismo eclesial.

 

O Papa referiu-se às várias mudanças que a missão do Colégio Cardinalício foi sofrendo ao longo dos tempos, frisando que, contudo, não mudou nem a sua substância nem a sua natureza essencial.

«As suas raízes históricas, o seu desenvolvimento histórico e a actual composição fazem dele, verdadeiramente, uma espécie de Senado, chamado a cooperar com o Sucessor de Pedro, no cumprimento das missões ligadas à universalidade do seu ministério apostólico». Logo no início do pontificado, Bento XVI colocara entre as suas prioridades a colegialidade.

«Conto convosco – disse Bento XVI aos novos cardeais – para que o esforço comum no sentido de fixar o olhar no coração aberto de Cristo, torne mais seguro e expedito o caminho para a plena unidade dos cristãos. Conto convosco para que, graças á atenta valorização dos pequenos e dos pobres, a Igreja ofereça ao mundo de maneira incisiva o anúncio e o desafio da civilização do amor».

O Papa observou ainda o facto do Consistório ser um acontecimento que manifesta com grande eloquência a natureza universal da Igreja, espalhada pelo mundo inteiro para anunciar a boa nova.

No Consistório Público, o Papa criou 12 novos Cardeais eleitores e 3 outros Cardeais com mais de 80 anos, chegando neste momento ao número de 193 Cardeais, dos quais 120 são eleitores no Colégio Cardinalício.

Os novos Cardeais eleitores são: o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (Mons. William Joseph Levada), o da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica e o do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica; os arcebispos de Caracas, Manila, Bordéus, Toledo, Seul, Bóston, Cracóvia (Mons. Stanislaw Dziwisz) e Bolonha (Mons. Carlo Caffarra); e o Bispo de Hong Kong.

No dia anterior, o Papa tinha-se reunido com todos os Cardeais, à porta fechada, manifestando o desejo de que, embora aberto também a eventuais outros temas, fossem tratadas antes de mais temáticas muito actuais: em primeiro lugar, as interrogações que se sentem cada vez mais acerca da condição dos bispos eméritos; depois, a questão levantada por Mons. Lefebvre e os esforços para favorecer a comunhão eclesial dos membros da Fraternidade de S. Pio X; em terceiro lugar, a reforma litúrgica desejada pelo Concilio Vaticano II e a utilização do Missal de S. Pio V; e, finalmente, as questões ligadas ao diálogo entre a Igreja e o Islão, hoje.

 

 

O CAMINHO DA BELEZA

NA EVANGELIZAÇÃO E DIÁLOGO

 

A Igreja Católica nos nossos dias está colocada perante o desafio da multiculturalidade, a que não pode fugir. Esta é uma das grandes conclusões da Assembleia plenária do Conselho Pontifício da Cultura, que decorreu no Vaticano de 27 a 28 de Março, sobre «o caminho da beleza na evangelização e no diálogo».

 

No final dos trabalhos, o Cardeal Paul Poupard, presidente deste Conselho Pontifício, apresentou as conclusões do encontro, frisando que o tema discutido é decisivo «para enfrentar a situação cultural em que nos encontramos, em particular o desafio crucial da secularização». O mundo de hoje alertou – vive como se Deus não existisse.

Para ir ao encontro dessas pessoas, a Igreja deve retomar «o caminho da beleza» (Via Pulchritudinis), que tem uma longa tradição, mas que hoje precisa de ser redescoberto, «pois com frequência é esquecido e, em certas ocasiões, é mesmo combatido, por ser mal entendido».

«A Igreja só pode propor a mensagem do Evangelho em toda essa beleza, que é capaz de atrair espíritos e corações, oferecendo através dos seus pastores e fiéis o testemunho de integridade de vida e de claridade da mensagem que reflectem», afirmou o Cardeal.

Na abertura dos trabalhos, o Cardeal Paul Poupard, considerara que o tema é «fascinante e complexo», apresentando o caminho da beleza como «uma via de acesso à redescoberta de Deus e à experiência de Cristo».

«A beleza favorece o encontro entre as diversas culturas e representantes das diversas religiões, num tempo caracterizado pelo relativismo filosófico e moral, bem como pela indiferença religiosa», apontou.

Citando a encíclica Ecclesiam suam, de Paulo VI, o Cardeal lembrou que a Igreja deve estabelecer um diálogo em três direcções: os irmãos cristãos separados, os fiéis de outras religiões e os não crentes.

Considerando que «o caminho da beleza» é acessível para todos, frisou que o mesmo não pode ser separado dos caminhos «da verdade e da bondade». O tema central do encontro foi debatido em volta de três questões: a beleza da natureza, a beleza da arte e a beleza da santidade cristã. «Num período de pouca atenção às verdades fortes, que coloca em dúvida a existência de um bem universal, a beleza pode aparecer como lugar de encontro entre pessoas de culturas diferentes, uma primeira etapa para a descoberta da verdade e do bem».

 

 

NOVO FILME SOBRE

JOÃO PAULO II

 

Bento XVI assistiu na tarde do dia 30 de Março, na Sala Paulo VI bem cheia, à projecção do filme «Karol. Um Papa que continuou a ser homem», do realizador italiano Giacomo Battiato, dedicado à vida de João Paulo II. Bento XVI tinha já assistido à primeira parte, «Karol, um homem que se tornou Papa», em Maio do ano passado, pouco tempo depois da morte de João Paulo II.

 

No final da projecção, o Papa agradeceu ao realizador, seus colaboradores e ao actor Piotr Adamczyk, que interpretou o papel de João Paulo II: «com sapiente mestria propuseram-nos os momentos centrais do ministério apostólico do meu venerado Predecessor».

O Papa acrescentou que, «com esta segunda parte da ficção, conclui-se a narração da aventura terrena do amado Pontífice. Ouvimos, de novo, o apelo inicial do seu Pontificado que ressoou tantas vezes ao longo dos anos: Abri as portas a Cristo! Não tenhais medo! As imagens mostraram-nos um Papa imerso no contacto com Deus e, por isso, sempre sensível às esperanças dos homens. O filme fez-nos pensar novamente nas suas viagens apostólicas por todas as partes do mundo; permitiu-nos reviver os seus encontros com tantas pessoas, com os grandes da terra e com simples cidadãos, com pessoas ilustres e pessoas desconhecidas. Entre elas, merece uma menção especial o abraço à Madre Teresa de Calcutá, unida a João Paulo II por uma sintonia espiritual íntima».

Segundo Bento XVI, este filme apresenta «a figura de um profeta incansável de esperança e de paz, que percorreu os caminhos do globo para comunicar o Evangelho a todos. Voltaram à nossa mente as suas vibrantes palavras para condenar a opressão dos regimes totalitários, a violência homicida e a guerra; palavras cheias de consolação e de esperança para manifestar proximidade aos familiares das vítimas de conflitos e atentados dramáticos, como o das Torres Gémeas de Nova York; palavras de valentia e de denúncia da sociedade consumista e da cultura hedonista, que pretendem construir um bem-estar puramente material que não pode satisfazer os desejos profundos do coração humano».

O filme, que se baseia no roteiro do escritor e jornalista Gian Franco Svidercoschi, começa com a eleição de Karol Wojtyla como bispo de Roma e abarca o transcurso do terceiro pontificado mais longo da história, em três horas (que na televisão se transmitirão em duas sessões). O então Cardeal Ratzinger não aparece senão no final, como sucessor de Wojtyla, porque, por pudor, os autores preferiram não remeter a sua figura para um papel secundário – explicou o realizador em conferência de imprensa.

 


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