OPINIÃO

O ASSOMBROSO PODER DA REFEIÇÃO FAMILIAR

 

 

Carolyn Moynihan

Aceprensa

 

 

Há cinquenta anos, antes da expansão das cidades gigantes, da globalização e dos casais em que ambos os cônjuges ganham o seu salário, havia um rito quotidiano chamado refeição familiar, que reunia pais e filhos em redor da mesa. Não só para comer, mas também para contarem como tinha corrido o dia, escutar os outros e estreitar os laços familiares.

 

Um mito? Talvez. Na verdade, também há cinquenta anos havia empregados com turno de noite, pais que viajavam muito e mães que trabalhavam fora de casa. Havia profissionais que saíam tarde do trabalho e pais que passavam pela taberna antes de ir para casa, também tarde. A conversa à mesa consistia, possivelmente, em disputas entre os rapazes e exortações dos pais: «olha para esses modos...», «habitua-te a comer o que há...»

Seja como for, o mito da refeição familiar encerra uma verdade essencial sobre a vida doméstica e o bem-estar pessoal que, no nosso mundo individualista e tecnificado, costumamos esquecer. Isto é o que descobriu a jornalista norte-americana Miriam Weinstein durante um estudo sobre alimentação e a levou a escrever O assombroso poder das refeições familiares: Como nos tornamos mais inteligentes, fortes, sãos e felizes comendo juntos *. A obra faz afirmações atrevidas, baseadas contudo, não em tradições e mitos, mas em estudos científicos, em grande parte sobre adolescentes.

Para prevenir problemas

Vejamos, por exemplo, o estudo que motivou o trabalho de Weinstein. O objectivo do Centro Nacional sobre Dependências e Drogas, da Universidade de Colúmbia, é que os jovens não caiam em comportamentos destrutivos (consumo de drogas, álcool e tabaco, assim como gravidezes de adolescentes). Em 1996, fez um estudo para ver se havia algo característico dos jovens que não apresentam tais problemas. Para surpresa dos investigadores, verificou-se que comer em família era mais importante do que a assistência à Igreja ou às aulas.

Desde então, o Centro tem vindo a repetir este inquérito todos os anos. O de 2003 mostra significativas diferenças entre dois grupos de adolescentes, de acordo com a frequência com que comem em família: duas ou, pelo menos, cinco vezes por semana. No segundo grupo, são mais os que dizem não ter nunca provado o tabaco (85%, contra 65% no primeiro grupo), o álcool (68% contra 47%), ou a marijuana (88% contra 71%). Esses mesmos jovens apresentam também menos problemas de ansiedade e tédio, e tiram melhores notas.

A resultados semelhantes chegaram Maria E. Eisenberg e os seus colegas (Universidade do Minnesota), os quais, em 1998-99, reuniram dados de 4.767 adolescentes de diferentes zonas. Segundo este estudo, comer em família contribui habitualmente para prevenir depressões e suicídios, especialmente entre as raparigas. A influência negativa de não comer em família mantém-se mesmo entre os rapazes que dizem ter «boas relações» com os pais, assim como, uma vez descontada a influência da situação matrimonial, o grau de instrução, a raça e o nível sócio-económico dos pais. Os autores do estudo aventuram-se em dizer que «talvez as refeições em família proporcionem aos pais uma ocasião, formal ou informal, de contribuírem para o bem-estar emocional dos seus filhos adolescentes, especialmente as raparigas».

Dos jovens estudados pelos investigadores do Minnesota, só uma quarta parte tinha sete ou mais refeições em família por semana, e um terço, uma ou duas, ou nenhuma. Mas há indícios de melhoria: os inquéritos do Centro de Colúmbia mostram um aumento da percentagem de adolescentes que comem em família pelo menos cinco vezes por semana: de 47% em 1998, para 61% em 2003.

Uma ocasião para falar

Se as refeições familiares não fizessem mais do que prevenir o consumo de drogas nos adolescentes, só por isso valeria a pena tê-las. Mas, naturalmente, fazem muito mais do que isso. Previnem males, porque antes cumpriram uma tarefa fundamental. Como diz Weinstein, «estas refeições permitem aos filhos comunicar regularmente com os pais, e aos pais comunicar com os filhos. Ligam-nos às nossas tradições religiosas, culturais e familiares».

Regularidade é o que, antes de tudo, tem em mente Weinstein quando chama «ritual» à refeição familiar. Não é algo que tenhamos de reinventar todos os dias, algo que nos exija empenho para que seja um tempo de convivência familiar com «qualidade»; é algo que praticamente qualquer um pode fazer, A refeição familiar «tira partido de necessidades biológicas e sociais básicas. Permite-nos realizar aquilo em que consiste uma família: cuidamos uns dos outros, partilhamos coisas, percorremos juntos o caminho da vida». Esta intimidade natural é a base sobre a qual depois se levanta a «qualidade». «Os investigadores descobrem que as nossas mais significativas recordações da infância não são grandes acontecimentos, como espectáculos ou eventos desportivos, mas antes o carinho mútuo, o partilhar, o passar o tempo juntos», diz Weinstein.

Mas o sentido religioso do «rito» não está fora de lugar quando falamos das refeições familiares, como aprenderam tantas gerações habituadas desde a infância a abençoar à mesa, e Weinstein, de tradição judaica, não receia falar disso. «Dedicarmos tempo, fazer da nossa mesa o que uma mulher que entrevistei chamava ‘um pequeno lugar santo’, constitui um oásis no nosso fatigante mundo», diz. Poderíamos ir mais além e dizer, com James Stenson na sua web Parent Leadership (www.parentleadership.com), que a refeição familiar é «um tempo sagrado para partilhar, no qual invocamos a benção de Deus sobre a família e nos tratamos com um respeito cordial».

Aprendizagem de virtudes

Stenson faz este comentário a propósito das boas maneiras à mesa, assunto que volta a estar na moda, agora que os pais criados nos tempos do «vale tudo», nos anos 60 e 70, se descobrem desprovidos de recursos para preparar os seus filhos para a vida social.

Uma refeição que reúne toda a família – e que não é sabotada pela televisão, telefone, mensagens de telemóvel, Internet, videojogos ou alguém que se levanta da mesa antes de tempo – é, sem dúvida, o ambiente ideal para aprender a comportar-se à mesa, Desde pequenos, as crianças irão aprendendo com o exemplo dos pais e irão adquirindo o hábito das boas maneiras (ou das más!).

Aprenderão, como salienta Weinstein, coisas tão elementares como a quantidade que é razoável servir ou em que consiste uma refeição equilibrada; a evitar de tomar algo fora das refeições, para que todos tenham apetite na altura de se sentarem à mesa; a fazer pausas para conversar e assim evitar comer depressa (o nosso organismo precisa de vinte minutos para ter a sensação de saciedade) e também os melindres. Deste modo, as crianças ficarão protegidas contra a obesidade e as raparigas, em especial, contra a anorexia e outros transtornos alimentares.

Comer em família também ensina as crianças a manterem uma conversa – a escutar e a falar – e, ao que parece, fornece-lhes a maior parte do seu vocabulário.

Além disso – e isto é mais importante –, as refeições são ocasiões naturais para assimilar a história e os valores da família, e para aplicar esses valores na vida quotidiana e aos problemas e oportunidades que encontrarão na sociedade. Muitos desses valores podem tornar-se virtudes em redor da própria mesa: estar atento às necessidades dos outros, levantar o ânimo com uma anedota divertida, generosidade para deixar a outro a melhor parte da sobremesa...; ou imediatamente antes e depois: quando as crianças ajudam a preparar a refeição e a levantar a mesa e lavar os pratos, aprendem a servir os outros e também a cuidar de si próprios.

Uma forma fácil de cuidar da família

Com tudo isto e muito mais a seu favor, por que terá entrado em decadência a refeição familiar? Há, por um lado, forças exteriores, como a concorrência da refeição rápida e das distracções electrónicas que tanto se multiplicaram. Por outro lado, também há factores como o trabalho das mães fora do lar (o estudo do Minnesota mostra uma correlação entre refeições familiares e mães que somente trabalham como donas de casa), horários de trabalho excessivos {sobretudo entre os pais), crianças com demasiadas actividades {treinos, natação, aulas de música...) e mães separadas ou sozinhas.

Mas, exceptuando o caso da mãe sozinha (um pai que vive algures, mas nunca está à mesa, é um obstáculo permanente, psicológico e também prático, para a refeição familiar), não serão, no fundo, meras desculpas todas ou quase todas as restantes razões para não comer em família?

Num artigo do Wall Street Journal, o editor nova-iorquino Cameron Stracher indicava uma razão que, em geral, não é reconhecida, sobre o declínio das refeições em família: os pais não querem comer com os seus filhos. Dizia Stracher: «Muitos homens dizem que, se tivessem de escolher entre tempo e dinheiro, optariam pelo tempo; na realidade, escolhem o dinheiro. Ao fim e ao cabo, quem quer ficar com uma criança de seis anos embirrenta? É muito mais cómodo ficar no escritório, encomendar o jantar, tomar uma cerveja e regressar a casa quando as crianças já estão a dormir».

Stracher decidiu cooperar: instaurou os «jantares com o papá», comprometendo-se a jantar com a mulher e os seus dois filhos, pelo menos cinco noites por semana durante um ano inteiro.

Ninguém deveria tirar importância às forças que hoje ameaçam a coesão da família e convertem os seus membros em companheiros do andar onde se vive, mas que comem sozinhos e têm a sua comunidade noutro lado. Comer juntos não é tudo, quando se trata de intimidade familiar e do bem estar dos pequenos; mas, sem dúvida, é uma parte e, como Weinstein sugere, a parte mais viável. Acrescentemos força de vontade e a refeição familiar irá retomar o seu lugar no lar.

 

 



* Miriam Weinstein, The Surprising Power of Family Meals. How Eating Together Makes Us Smarter, Stronger, Healthier and Happier, Steerforth, Hanover (EUA), 2005, 272 págs.


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