Solenidade do Pentecostes

Missa do Dia

4 de Junho de 2006

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Espírito de Deus enche o universo, M. Simões, NRMS 58

Sab 1, 7

Antífona de entrada: O Espírito do Senhor encheu a terra inteira; Ele, que abrange o universo, conhece toda a palavra. Aleluia.

 

Ou

Rom 5, 5; 8, 11

O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que habita em nós. Aleluia.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

O mistério da Páscoa do Senhor atinge o seu apogeu no Pentecostes, isto é, no quinquagésimo dia da Páscoa, tal é o significado da palavra grega pentecosté. O acontecimento do Pentecostes, com o envio do Espírito Santo aos Apóstolos, marca o início da vida da Igreja. Com a Virgem Maria e os primeiros Doze, disponhamo-nos a receber o Espírito Santo na riqueza dos seus dons.

 

Oração colecta: Deus do universo, que no mistério do Pentecostes santificais a Igreja dispersa entre todos os povos e nações, derramai sobre a terra os dons do Espírito Santo, de modo que também hoje se renovem nos corações dos fiéis os prodígios realizados nos primórdios da pregação do Evangelho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Prestemos atenção ao relato de S. Lucas, que narra a efusão do Espírito Santo sobre os Apóstolos, em forma de línguas de fogo.

 

Actos dos Apóstolos 2, 1-11

1Quando chegou o dia de Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar. 2Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. 3Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. 4Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem. 5Residiam em Jerusalém judeus piedosos, procedentes de todas as nações que há debaixo do céu. 6Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou muito admirada, pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua. 7Atónitos e maravilhados, diziam: «Não são todos galileus os que estão a falar? 8Então, como é que os ouve cada um de nós falar na sua própria língua? 9Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, 10da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, 11tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus».

 

1 «Pentecostes» significa, em grego, quinquagésimo (dia depois da Páscoa). Os Judeus chamavam-lhe festa das Semanas (em hebraico, xevuôth, 7 semanas depois da Páscoa). Era uma festa em que se ofereciam a Deus as primícias das colheitas, num gesto de acção de graças. Mais tarde, os rabinos também lhe deram o sentido da comemoração da promulgação da Lei no Sinai.

3 «Línguas de fogo que se iam dividindo». O fogo toma esta forma talvez para significar o dom das línguas. Esta nova divisão das línguas tem a finalidade de unir os homens numa mesma fé e não de os separar com aquela divisão das línguas de que se fala no Génesis (11, 1-9).

4 «Começaram a falar outras línguas». Jesus tinha anunciado este prodígio, até então desconhecido (cf. Mc 16, 17). Trata-se de um fenómeno sobrenatural, não dum simples fenómeno de exaltação. No entanto, não há total acordo entre os exegetas para explicar o milagre das línguas do Pentecostes. A explicação mais habitual é que os Apóstolos falaram então verdadeiros idiomas novos (cf. Mc 16, 17), mas em Actos não se fala de línguas novas (kainais), como em Marcos, mas de línguas diferentes (cf. v. 4: hetérais). Alguns dizem que o milagre estava nos ouvintes, que ouviam na própria língua das terras donde vinham (v. 8) aquilo que os Apóstolos diziam em aramaico. Outros, especialmente nos nossos dias, põe este milagre em relação com o dom das línguas, ou glossolalia, carisma de que se fala em 1 Cor 14, 2-33: seria um tipo de oração extática, especialmente de louvor, em que se articulavam sons ininteligíveis (algo parecido com aquele fenómeno místico a que Santa Teresa de Jesus chama «embriaguez espiritual, júbilo místico»); sendo assim, o que aconteceu de particular no dia do Pentecostes, foi que não era preciso um intérprete (como em 1 Cor 14, 27-28) para que os ouvintes entendessem o que diziam os Apóstolos: os ouvintes de boa fé receberam o dom de interpretar o que os Apóstolos diziam, ao passo que os mal dispostos diziam que eles estavam ébrios (v. 13). De qualquer modo, em Actos nunca se diz que a pregação de Pedro (cf. vv. 14-36) foi em línguas; o discurso aparece como posterior a este fenómeno referido no v. 4; em línguas poderia ser algum tipo de oração de louvor…

9-11 Temos aqui uma vasta referência às diversas procedências dos judeus da diáspora: uns teriam mesmo vindo em peregrinação, outros seriam emigrantes que se tinham fixado na Palestina. De qualquer modo, esta enumeração bastante exaustiva e ordenada (a partir do Oriente para Ocidente) pretende pôr em evidência a universalidade da Igreja, que é católica logo ao nascer, destinada a todos os homens de todas as procedências, manifestando-se esta catolicidade na capacidade que todos têm para captar e aderir à pregação apostólica. Por outro lado, também a unidade da Igreja se deixa ver na única mensagem e no único Baptismo que todos recebem; como se lê na 2.ª leitura de hoje, (v. 13) «a todos nos foi dado beber um único Espírito».

 

Salmo Responsorial    Sl 103 (104), 1ab.24c.29bc-30.31.34 (R. 30 ou Aleluia)

 

Monição: O Salmo 103 é um hino de louvor a Deus pelo seu imenso poder e pela sua acção maravilhosa: dá o sopro de vida – o espírito – às suas criaturas e assim renova a face da Terra. Temos aqui uma imagem da acção do Espírito Santo nas almas em ordem à santificação de todas as realidades terrenas. Invoquemo-Lo cantando o refrão com fé e alegria.

 

 

Refrão:         Enviai, Senhor, o vosso Espírito

                      e renovai a face da terra.

 

Ou:                Mandai, Senhor o vosso Espírito,

                      e renovai a terra.

 

Ou:                Aleluia.

 

Bendiz, ó minha alma, o Senhor.

Senhor, meu Deus, como sois grande!

Como são grandes, Senhor, as vossas obras!

A terra está cheia das vossas criaturas.

 

Se lhes tirais o alento, morrem

e voltam ao pó donde vieram.

Se mandais o vosso espírito, retomam a vida

e renovais a face da terra.

 

Glória a Deus para sempre!

Rejubile o Senhor nas suas obras.

Grato Lhe seja o meu canto

e eu terei alegria no Senhor.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Paulo fala-nos agora da diversidade dos dons espirituais ou carismas, em ordem à edificação da Igreja, Corpo de Cristo, numa perfeita unidade.

 

1 Coríntios 12, 3b-7.12-13

Irmãos: 3bNinguém pode dizer «Jesus é o Senhor», a não ser pela acção do Espírito Santo. 4De facto, há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. 5Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. 6Há diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. 7Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. 12Assim como o corpo é um só e tem muitos membros e todos os membros, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim também sucede com Cristo. 13Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos baptizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo. E a todos nos foi dado a beber um único Espírito.

 

O contexto em que fala S. Paulo aos Coríntios é o de certa confusão que reinava na comunidade acerca dos carismas, em especial os de linguagem. Para começar avança com um critério de discernimento: que quem fala o faça de acordo com a verdadeira fé: «Jesus é o Senhor» é a confissão de fé na divindade de Jesus. Senhor equivale a Yahwéh na tradução grega dos LXX para o nome divino. Um acto de fé não se pode fazer só pelas próprias forças, é fruto da graça do Espírito Santo, que pelos seus dons, especialmente o do entendimento e o da sabedoria aperfeiçoam essa mesma fé.

4-5 Pertence à essência da vida da Igreja haver sempre, diversidade de dons espirituais (carismas), ministérios e operações. Estas três designações referem-se fundamentalmente aos mesmos dons de Deus em favor da edificação da Igreja, mas cada um destes três nomes foca um aspecto: a sua gratuidade, a sua utilidade e a sua manifestação do poder actuante de Deus. S Paulo apropria cada um destes aspectos a cada uma das três Pessoas divinas. Toda esta diversidade e variedade de dons procede da unidade divina e concorre para que a unidade a Igreja – um só Corpo (v. 13) – seja mais rica. O Concílio Vaticano II – L. G. 12 – recorda normas práticas acerca destes carismas, ou dons que Deus concede aos fiéis para «renovação e cada vez mais ampla edificação da Igreja, para o bem comum» (v. 7). E diz que os dons extraordinários não se devem pedir temerariamente, nem deles se devem esperar, com presunção, os frutos das obras apostólicas; e o juízo acerca da sua autenticidade e recto uso, pertence àqueles que presidem na Igreja, a quem compete de modo especial não extinguir o Espírito, mas julgar e conservar o que é bom (cf. 1 Tes 5, 12.19-21). Não se pode opor o carismático ao jerárquico: a vida da Igreja, que se expande pelos carismas, tem que se manter na esfera da verdade, garantida pela Hierarquia, a fim de que seja verdadeira vida, e não mera excrescência doentia e anormal, porventura um princípio de auto-destruição.

12 «Assim como o corpo...». A comparação não é original, mas da literatura profana. S. Paulo adapta-a maravilhosamente à Igreja, concebida como um corpo onde não pode haver rivalidades e divisão: «um só corpo». Aqui está latente a doutrina do Corpo Místico explanada em Colossenses e Efésios, mas ainda não se considera de facto a Igreja universal, o Corpo de Cristo, apenas se considera que os cristãos de Corinto são um organismo – um corpo – dependente de Cristo e com a mesma vida de Cristo (v. 27).

13 «E a todos nos foi dado beber um único Espírito». Os exegetas em geral, tendo em conta que no v. anterior já se tinha falado do Baptismo, pensam haver aqui uma referência ao Sacramento da Confirmação, pois então estes Sacramentos se costumavam receber juntos (cf. Act 19, 5-6).

 

Sequência

 

Aclamação ao Evangelho       

 

Monição: Aclamemos o Evangelho, e escutemos como Jesus, no dia da sua Ressurreição, deixou aos Apóstolos o Espírito Santo para o perdão dos pecados no Sacramento da Reconciliação.

 

Aleluia

 

Cântico: M. Faria, NRMS 87

 

Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis

e acendei neles o fogo do vosso amor.

 

 

Evangelho

 

São João 20, 19-23

19Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». 20Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. 21Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». 22Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: 23àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

 

Este texto foi escolhido por nele se falar também de uma comunicação do Espírito Santo, esta no dia de Páscoa, e que permite à Igreja o exercício de uma das principais concretizações da sua missão salvífica: o perdão dos pecados por meio do Sacramento da Reconciliação. (Ver atrás os comentários feitos para o 2.º Domingo da Páscoa). Aqui limitamo-nos a citar um belo texto da Declaração Ecuménica das Igrejas Cristãs (Upsala 1968), baseada num conhecido texto patrístico: «Sem o Espírito Santo, Deus fica longe; Cristo pertence ao passado, o Evangelho é letra morta; a Igreja, mais uma organização; a autoridade, um domínio; a missão, uma propaganda; o culto, uma evocação; o agir cristão, uma moral de escravos. Mas, com o Espírito Santo, o cosmos eleva-se e geme na infância do Reino; Cristo ressuscita e é alento de vida; a Igreja é comunhão trinitária; e a autoridade, serviço libertador; a missão é Pentecostes; e o culto, memorial e antecipação; o agir humano torna-se realidade divina»

 

Sugestões para a homilia

 

         Jesus, na glória do Pai, cumpre a promessa de enviar o Espírito Santo, que leva à plenitude a obra de Jesus.

         O Espírito Santo é o Amor de Deus, que renova as almas no amor, o único meio capaz de levar à unidade e à paz todos os homens e todos os povos.

         Invocar o Espírito Santo, a sua luz e fortaleza, e ser dócil às suas inspirações.

 

Chegou o momento prometido por Jesus aos seus Apóstolos, o momento da verdade total, o momento da luz plenamente esclarecedora, o momento da força destemida, do testemunho corajoso. Aí está o Advogado, o Consolador, o Dom por excelência.

Porque o Espírito Santo é Deus infundindo-se, derramando-se na Sua plenitude sobre as mentes e os corações daqueles que O esperavam, pois Jesus lhes dissera antes de partir: «Dentro de pouco tempo vós sereis baptizados no Espírito Santo». Está concluída a Redenção. O mistério Pascal chegou ao fim. Anunciando os efeitos do Espírito naqueles que acreditassem, Jesus prometera um dia que do seio deles correriam rios de água viva; e S. João, que refere esta passagem, anota em seguida: «Jesus falava do Espírito que deviam receber os que n’Ele acreditassem; pois o Espírito ainda não viera, por Jesus não ter sido ainda glorificado.» (Jo 7, 37ss)

Pois bem, Jesus já foi glorificado – subiu à Cruz, desceu ao túmulo, ressuscitou e está na Glória do Pai. E de lá envia o Espírito Santo «para continuar no mundo a sua obra e consumar toda a santificação» – como diz a oração eucarística.

Uma das leituras da Missa da Vigília –a festa do Pentecostes tem uma Vigília semelhante à da Páscoa, com grande variedade de leituras – lembra o episódio da Torre de Babel – da confusão, do orgulho, da dispersão, do não mais os homens poderem entender-se.

A 1.ª leitura da Missa do dia põe em relevo a acção unificadora do Espírito Santo que, invertendo os efeitos de Babel, congrega povos de todas as raças e línguas, no assombro da contemplação das maravilhas de Deus, anulando todas as divergências a partir das maneiras da própria linguagem: «ouvimos, cada um, em nossas diversas línguas estes homens a proclamar as maravilhas de Deus». Já não há mais separação entre os povos. Esta é a obra fundamental do Espírito Santo: congregar na unidade, fazer de povos e homens diferentes um só povo, o povo de Deus, fundado no Amor, que o Espírito Santo veio derramar nos corações.

Esta obra, iniciada no dia de Pentecostes, está destinada a renovar a face da terra, desta pobre terra tão ameaçada por ódios, divisões, destruições e guerras.

E há-de fazê-lo substituindo todas as línguas por uma só – a linguagem do Amor – a única que pode congregar todos os homens, pois é acessível a todos – doutos ou ignorantes, do interior ou estrangeiros, crentes ou incrédulos.

Enviai Senhor o Vosso Espírito, e renovareis a face da terra…

 

 

Fala o Santo Padre

 

«Supliquemos continuamente ao Senhor

para que ele venha ao nosso encontro vencendo os nossos fechamentos.»

A primeira leitura e o Evangelho do Domingo de Pentecostes apresentam-nos duas grandes imagens da missão do Espírito Santo. A leitura dos Actos dos Apóstolos narra como, no dia de Pentecostes, o Espírito Santo, sob os sinais de um vento poderoso e de fogo, irrompe na comunidade orante dos discípulos de Jesus e dá assim origem à Igreja. Para Israel, o Pentecostes, de festa da sementeira, tornou-se a festa que recordava a conclusão da aliança no Sinai. Deus demonstrou a sua presença ao povo através do vento e do fogo e depois ofereceu-lhe a sua lei, a lei dos 10 mandamentos. Só assim a obra de libertação, que começara com o êxodo do Egipto, se tinha cumprido plenamente: a liberdade humana é sempre uma liberdade partilhada, um conjunto de liberdades.

Só numa ordenada harmonia das liberdades, que abre para cada um o seu âmbito, se pode ter uma liberdade comum. Por isso o dom da lei no Sinai não foi uma restrição ou uma abolição da liberdade mas o fundamento da verdadeira liberdade. E dado que um justo ordenamento humano se pode reger apenas se provém de Deus e se une os homens na perspectiva de Deus, para uma disposição ordenada das liberdades humanas não podem faltar os mandamentos que o próprio Deus dá. Assim Israel tornou-se plenamente povo precisamente através da aliança com Deus no Sinai. O encontro com Deus no Sinai poderia ser considerado como o fundamento e a garantia da sua existência como povo. O vento e o fogo, que atingiram a comunidade dos discípulos de Cristo reunida no cenáculo, constituíram um ulterior desenvolvimento do acontecimento do Sinai e conferiram-lhe uma nova amplitude. Naquele dia encontravam-se em Jerusalém, segundo quanto referem os Actos dos Apóstolos, «Judeus piedosos provenientes de todas as nações que há debaixo do céu» (Act 2, 5). E eis que se manifesta o dom característico do Espírito Santo: todos compreenderam as palavras dos apóstolos: «Cada um os ouvia falar na sua própria língua» (Act 2, 6). O Espírito Santo concede o dom da compreensão. Ultrapassa a ruptura que teve início em Babel a confusão dos corações, que nos faz ser uns contra os outros o Espírito abre as fronteiras. O povo de Deus que tinha encontrado no Sinai a sua primeira configuração, é agora ampliado até ao ponto de já não conhecer fronteira alguma.

O novo povo de Deus, a Igreja, é um povo que provém de todos os povos. A Igreja desde o início é católica, esta é a sua essência mais profunda. São Paulo explica e realça isto na segunda leitura, quando diz: «De facto, num só Espírito, fomos todos baptizados para formar um só corpo, judeus e gregos, escravos e livres, e todos bebemos de um só Espírito» (1 Cor 12, 13). A Igreja deve tornar-se sempre de novo aquilo que ela já é: deve abrir as fronteiras entre os povos e romper as barreiras entre as classes e as raças. Nela não podem haver esquecidos nem desprezados. Na Igreja existem unicamente irmãos e irmãs livres em Jesus Cristo. Vento e fogo do Espírito Santo devem infatigavelmente abater aquelas barreiras que nós homens continuamos a erguer entre nós; devemos sempre de novo passar de Babel, do fechamento em nós mesmos, para Pentecostes. Por isso, devemos continuamente pedir que o Espírito Santo nos abra, nos conceda a graça da compreensão, de modo que nos possamos tornar o povo de Deus proveniente de todos os povos ainda mais, diz-nos São Paulo: em Cristo, que como único pão a todos alimenta na Eucaristia e nos atrai para si no seu corpo martirizado na cruz, nós devemos tornar-nos um só corpo e um só espírito.

«A paz esteja convosco»: esta saudação do Senhor é uma ponte que ele lança entre céu e terra. A segunda imagem do envio do Espírito, que encontramos no Evangelho, é muito mais discreta. Mas precisamente por isso faz compreender toda a grandeza do acontecimento de Pentecostes. O Senhor Ressuscitado entra através das portas fechadas no lugar onde os discípulos se encontravam e saúda-os duas vezes dizendo: a paz esteja convosco! Nós, continuamente, fechamos as nossas portas; continuamente, queremos pôr-nos a salvo e não ser incomodados pelos outros nem por Deus. Portanto, podemos suplicar continuamente o Senhor por isso, para que ele venha ao nosso encontro vencendo os nossos fechamentos e trazendo-nos a sua saudação. «A paz esteja convosco»: esta saudação do Senhor é uma ponte, que ele lança entre céu e terra. Ele desce por esta ponte até nós e nós podemos subir, por esta ponte de paz, até Ele. Nesta ponte, sempre juntamente com Ele, também nós devemos alcançar o próximo, alcançar aquele que tem necessidade de nós. Precisamente descendo com Cristo, nós elevamo-nos até Ele e até Deus: Deus é Amor e por isso descida, abaixamento, que o amor nos pede, e ao mesmo tempo é a verdadeira subida. Precisamente assim, abaixando-nos, saindo de nós mesmos, nós alcançamos a altura de Jesus Cristo, a verdadeira altura do ser humano.

À saudação de paz do Senhor seguem-se dois gestos decisivos para o Pentecostes: o Senhor deseja que a sua missão continue nos discípulos: «Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós» (Jo 20, 21). Depois disto, sopra sobre eles e diz: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos» (Jo 20, 23). O Senhor sopra sobre os discípulos, e assim dá-lhes o Espírito Santo, o seu Espírito. O sopro de Jesus é o Espírito Santo. Reconhecemos aqui, antes de mais, uma alusão à narração da criação do homem no Génesis, onde está escrito: «O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida» (Gn 2, 7). O homem é esta criatura misteriosa, que provém totalmente da terra, mas no qual foi posto o sopro de Deus. Jesus sopra sobre os apóstolos e dá-lhe de maneira renovada, maior, o sopro de Deus. Nos homens, não obstante todas as suas limitações, existe agora algo absolutamente novo o sopro de Deus. A vida de Deus habita em nós. O sopro do seu amor, da sua verdade e da sua bondade. Assim podemos ver aqui também uma alusão ao baptismo e à confirmação a esta nova pertença a Deus, que o Senhor nos concede. O texto do Evangelho convida-nos a isto: a viver sempre no espaço do sopro de Jesus Cristo, a receber vida d'Ele, de modo que ele inspire em nós a vida autêntica a vida da qual morte alguma pode privar. Com o seu sopro, com o dom do Espírito Santo, o Senhor relaciona o poder de perdoar. Ouvimos anteriormente que o Espírito Santo une, abate as fronteiras, guia uns para os outros. A força, que abre e faz superar Babel, é a força do perdão. Jesus pode conceder o perdão e o poder de perdoar, porque ele mesmo sofreu as consequências da culpa e dissolveu-as na chama do seu amor. O perdão vem da cruz; ele transforma o mundo com o amor que nos doa. O seu coração aberto na cruz é a porta pela qual entra no mundo a graça do perdão. E unicamente esta graça pode transformar o mundo e edificar a paz.

Se compararmos os dois acontecimentos de Pentecostes, o vento poderoso do 50º dia e o leve sopro de Jesus na noite de Páscoa, podemos recordar-nos do contraste entre dois episódios, que aconteceram no Sinai, dos quais nos fala o Antigo Testamento. Por um lado encontra-se a narração do fogo, do trovão e do vento, que precedem a promulgação dos 10 Mandamentos e a conclusão da aliança (cf. Êx 19 ss.); por outro, a narração misteriosa de Elias no Monte Oreb. Depois dos dramáticos acontecimentos do Monte Carmelo, Elias tinha-se salvado da ira de Acab e de Gezabele. Por conseguinte, seguindo o mandamento de Deus, peregrinou até ao Monte Oreb. O dom da aliança divina, da fé no Deus único, parecia ter desaparecido em Israel. Elias, de certa forma, deve reacender a chama da fé no monte de Deus e reconduzi-la a Israel. Ele experimenta, naquele lugar, vento, terremoto e fogo. Mas Deus não está presente em tudo isto. Então ele apercebe-se de um murmúrio doce e leve. E Deus fala-lhe com esse sopro leve (cf. 1 Re 19, 11-18). O que aconteceu na noite de Páscoa, quando Jesus apareceu aos seus Apóstolos para lhes ensinar o que se deseja dizer? Não podemos porventura ver nisto a prefiguração do servo de Jahwé, do qual Isaías diz: «Ele não gritará, não levantará a voz, não clamará nas ruas» (42, 2)? Não sobressai talvez assim a humilde figura de Jesus como a verdadeira revelação na qual Deus se manifesta a nós e nos fala? Não são porventura a humildade e a bondade de Jesus a verdadeira epifania de Deus? Elias, no Monte Carmelo, tinha procurado combater o afastamento de Deus com o fogo e com a espada, matando os profetas de Baal. Mas desta forma não pôde restabelecer a fé. No Oreb ele deve aprender que Deus não está no vento, no terremoto, no fogo; Elias deve aprender a compreender a voz leve de Deus e, assim, a reconhecer antecipadamente que venceu o pecado não com a força mas com a sua Paixão; aquele que, com o seu sofrimento, nos doou o poder do perdão. Esta é a forma com a qual Cristo vence. […]

Ressoa depois, no Evangelho que acabámos de escutar, uma segunda palavra do Ressuscitado: «assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós» (Jo 20, 21). Cristo diz isto, de modo muito pessoal, a cada um de vós. Com a ordenação sacerdotal vós inseristes-vos na missão dos apóstolos. O Espírito Santo veio, mas não é amorfo. É um Espírito ordenado. E manifesta-se precisamente ordenando a missão, no sacramento do sacerdócio, com o qual continua o ministério dos apóstolos. Através deste ministério, vós sois inseridos na grande multidão dos que, a partir do Pentecostes, receberam a missão apostólica. Vós sois inseridos na comunhão do presbitério, na comunhão com o bispo e com o Sucessor de São Pedro, que aqui em Roma é também o vosso bispo. Todos nós somos inseridos na rede da obediência à palavra de Cristo, à palavra daquele que dá a verdadeira liberdade, porque nos conduz nos espaços livres e nos horizontes amplos da verdade. Precisamente neste vínculo comum com o Senhor nós podemos e devemos viver o dinamismo do Espírito. Como o Senhor saiu do Pai e nos doou luz, vida e amor, assim a missão deve continuamente pôr-nos em movimento, tornar-nos inquietos, para levar a quem sofre, a quem está em dúvida, e também a quem hesita, a alegria de Cristo. Por fim, há o poder do perdão. O sacramento da penitência é um dos tesouros preciosos da Igreja, porque só no perdão se realiza o verdadeiro renovamento do mundo. Nada pode melhorar no mundo, se o mal não for vencido. E o mal pode ser vencido unicamente com o perdão. Sem dúvida, deve ser um perdão eficaz. Mas este perdão, só o Senhor o pode dar. Um perdão que não afasta o mal só com palavras, mas realmente o destrói. Isto pode verificar-se unicamente com o sofrimento e aconteceu realmente com o amor sofredor de Cristo, do qual nós haurimos o poder do perdão. […]

Bento XVI, Vaticano,15 de Maio de 2005

 

Oração Universal

 

(extraída do livro da Oração dos Fiéis para esta Solenidade do Pentecostes)

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Vinde, Espírito Divino, M. Borda, NRMS 35

 

Oração sobre as oblatas: Concedei-nos, Senhor nosso Deus, que o Espírito Santo, segundo a promessa do vosso Filho, nos revele plenamente o mistério deste sacrifício e nos faça conhecer toda a verdade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Prefácio

 

O mistério do Pentecostes

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte.

Hoje manifestastes a plenitude do mistério pascal e sobre os filhos de adopção, unidos em comunhão admirável ao vosso Filho Unigénito, derramastes o Espírito Santo, que no princípio da Igreja nascente revelou o conhecimento de Deus a todos os povos da terra e uniu a diversidade das línguas na profissão duma só fé.

Por isso, na plenitude da alegria pascal, exultam os homens por toda a terra e com os Anjos e os Santos proclamam a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

 

No Cânone Romano dizem-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) e o Hanc igitur (Aceitai benignamente, Senhor) próprios. Nas Orações Eucarísticas II e III fazem-se também as comemorações próprias.

 

Santo: F. da Silva, NRMS 36

 

 

Cântico da Comunhão: Voltai-vos para o Senhor, S. Marques, NRMS 58

Actos 2, 4:11

Antífona da comunhão: Todos ficaram cheios do Espírito Santo e proclamavam as maravilhas de Deus. Aleluia.

 

Cântico de acção de graças: Louvai ao Senhor, louvai, J. Santos, NRMS 37

 

Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, que concedeis com abundância à vossa Igreja os dons sagrados, conservai nela a graça que lhe destes, para que floresça sempre em nós o dom do Espírito Santo, e o alimento espiritual que recebemos nos faça progredir no caminho da salvação. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Escutámos no Evangelho de hoje Jesus a dizer-nos, que ao ser elevado na Cruz, havia de atrair todos a Ele. Que Jesus seja o centro de atracção dos nossos pensamentos, palavras e acções de todos os momentos da nossa semana que hoje começa.

 

 

Cântico final: Somos testemunhas, Az. Oliveira, NRMS 35

 

Na despedida do povo, o diácono ou o próprio sacerdote diz:

 

Ide em paz e o Senhor vos acompanhe. Aleluia. Aleluia.

 

O povo responde:

 

Graças a Deus. Aleluia. Aleluia.

 

Homilias Feriais

 

TEMPO COMUM

 

9ª SEMANA

 

feira, 5-VI: S. Bonifácio: Os frutos da entrega de Cristo e dos mártires.

2 Ped. 1, 2-7 / Mc. 12, 1-12

O homem tinha ainda alguém para enviar: o seu querido filho; e enviou-o por último.

Através desta parábola (cf. Ev.), Jesus faz uma síntese da história da salvação: são enviados os profetas (os servos) e, mais tarde o próprio Jesus (o filho do vinhateiro).

Graças à sua paixão e morte «entrámos na posse das maiores e mais preciosas promessas, para nos tornarmos participantes da natureza divina» (Leit.), isto é, recebemos a graça da filiação divina e muitas outras graças. S. Bonifácio (séculos VI-VIII) foi enviado pelo Papa para evangelizar a Alemanha. Foi igualmente mal recebido, como filho do vinhateiro, mas, graças ao seu martírio, muitos alemães se tornaram participantes da natureza divina.

 

feira, 6-VI: S. Norberto: Os novos céus e a nova terra.

2 Ped. 3, 12-15 / Mc. 12, 13-17

Mas, de acordo com a promessa do Senhor, nós esperamos novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça.

«A esta misteriosa renovação, que há-de transformar a humanidade e o mundo, a Sagrada Escritura chama os ‘novos céus e a nova terra’ (cf. Leit. do dia). Será a realização definitiva do desígnio divino de reunir sob a chefia de Cristo todas as coisas que há no céu e na terra» (CIC, 1043).

Por isso, o homem não deve submeter a sua liberdade pessoal, de modo absoluto, a nenhum poder terreno, mas somente ao Pai e a Jesus: o César não é o Senhor (cf. Ev. do dia e CIC, 450). S. Norberto (século XI) fundou uma nova Ordem – dos Premonstratenses- para colaborar na missão da realização desta nova terra.

 

feira, 7-VI: A ressurreição de Cristo e a nossa.

2 Tim.1, 1-3. 6-12 / Mc. 12, 18-27

Ele não é Deus de mortos, mas de vivos!

Jesus fala claramente da sua ressurreição e também da nossa (cf. Ev.): «E aos saduceus, que a negavam, responde: ‘Não andareis vós enganados, ignorando as Escrituras e o poder de Deus’?» (Ev. Do dia). A fé na ressurreição assenta na fé em Deus, que ‘não é um Deus de mortos, mas de vivos’ (Ev. do dia)» (CIC, 993).

O Evangelho é o meio utilizado por Jesus, para fazer brilhar a imortalidade: «Ele destruiu a morte, e fez brilhar a vida e a imortalidade, por meio do Evangelho» (Leit.). Também através da Eucaristia recebemos a promessas de vida eterna: Quem come a minha carne… tem a vida eterna e eu ressuscitá-lo-ei no último dia».

 

feira, 8-VI: Consequências do amor a Deus e ao próximo.

2 Tim. 2, 8-15 / Mc. 12, 28-34

Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças.

Jesus confirma que é o ‘único Senhor e que é necessário amá-lo com todo o nosso ser (cf. Ev.).

Esta primazia no amor a Deus há-de levar-nos a uma entrega, até à morte: « se morremos com Cristo, também com Ele viveremos; se sofremos com Cristo, também com Ele reinaremos» (Leit.). Do mesmo modo, é preciso amar o próximo como a nós mesmos (Ev.). Poderemos oferecer igualmente os nossos sofrimentos pelos outros: «tudo suporto por causa dos eleitos para que obtenham a salvação que está em Cristo Jesus, com a glória eterna» (Leit.).

 

feira, 9-VI: Santo Efrém: O poder das Escrituras.

2 Tim. 3, 10-17 / Mc. 12, 35-37

Jesus, que estava a ensinar no Templo, tomou a palavra e perguntou…

O Senhor continua a falar-nos (cf. Ev.) a cada um de nós, aqui e agora. Escutemo-lo com fé, acreditando que só Ele tem palavras de vida eterna, que os seus ensinamentos são luz que guia os nossos passos.

Além disso, «toda a Escritura...é útil para ensinar, persuadir, corrigir e formar segundo a justiça» (Leit.). Não deixemos de lê-la diariamente e levá-la à prática, pois só assim seremos o «homem completo, bem preparado para todas as obras» (Leit.). Santo Efrém (século IV) fundou uma escola teológica e escreveu imensas obras para defender a fé contra os erros do seu tempo.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Nota Exegética:           Geraldo Morujão

Homilia:                                   Abel Figueiral (adaptação da Rádio por G. M.)

Homilias Feriais:                        Nuno Romão

Sugestão Musical:                     Duarte Nuno Rocha

 

 


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