TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

A  EUCARISTIA 

NO  MAGISTÉRIO  DE  S.S. O  PAPA  BENTO  XVI

 

D. Manuel Monteiro de Castro *

Núncio Apostólico em Espanha e Andorra

 

Introdução

A transformação de cada um de nós e a transformação da humanidade «está na frágil, branca hóstia consagrada, sacramento da presença de Jesus no mundo».

Estas palavras do Santo Padre Bento XVI e a sua figura, de joelhos, diante da Eucaristia, são a imagem chave do seu pontificado.

 

Ao seu primeiro livro publicado como Papa, Bento XVI deu o audaz título de «A Revolução de Deus», cujo objectivo é a transformação da nossa vida e a transformação do mundo. O coração e a fonte dessa transformação estão na «frágil hóstia branca consagrada».

Na Jornada Mundial da Juventude, celebrada com grande êxito em Colónia, na Alemanha, de 16 a 21 de Agosto de 2005, centrou a sua atenção na «Eucaristia, alimento fundamental da fé e do entusiasmo juvenil», lema que tinha escolhido o seu antecessor João Paulo II.

Além disso, presidiu à Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, convocada por João Paulo II e celebrada na Cidade do Vaticano, de 2 a 23 de Outubro passado, sobre «A Eucaristia, fonte e ápice da vida e da missão da Igreja».

Bento XVI, antes da sua eleição como Bispo de Roma, dedicou grande parte da sua reflexão teológica à centralidade da Eucaristia no mistério da Igreja e na vida do cristão. Trago à vossa memória alguns dos seus escritos que ajudarão, sem dúvida, a compreender melhor os seus ensinamentos e a sua pregação no exercício do seu serviço à Igreja como sucessor do Apóstolo Pedro. No ano de 2001, publicava «A Eucaristia centro da vida. Deus está perto de nós»; na referida obra, apresenta-nos uma profunda reflexão teológica em que se sublinha a presença eucarística como o sim do amor de Deus pela Humanidade, a sua surpreendente proximidade que nos leva à adoração e à celebração gozosa, que é fonte de toda a paz e a origem da grande festa que se torna visível e que a Igreja exprime liturgicamente na festividade do Corpus Christi; as meditações que o então Cardeal J. Ratzinger escreve sobre a forma e o conteúdo da oração e da liturgia eucarísticas na sua conhecida obra «A festa da fé» convidam-nos à adoração, à contemplação e à oração; o mistério pascal e as meditações sobre o sacerdócio no «Caminho Pascal»  – obra que recolhe os Retiros Espirituais pregados ao Santo Padre e

 

aos membros da Cúria Romana no começo da Quaresma de 1983 – ajudam-nos a penetrar na conexão entre a Última Ceia, a Cruz e a Ressurreição e a espiritualidade sacerdotal.

A celebração eucarística e a irrenunciável novidade do Domingo como o coração do culto cristão, fundamento do Templo que o Senhor edifica na história e onde se acolhe e cuida dos discípulos do Ressuscitado e Caminho que nos conduz à Jerusalém celeste, apresenta-se de uma forma muito bela em «Um canto novo para o Senhor». A Eucaristia como fonte da communio, da comunidade, da missão, do martírio, da vida cristã e do serviço apostólico que tem como pressuposto o escândalo da Cruz, é o Mistério que o então Cardeal J. Ratzinger apresentava, com profundidade teológico-espiritual, à contemplação e à fruição dos cristãos na obra que tem por título «Convocados para o caminho da Fé. A Igreja como comunhão».

Desde o início do seu pontificado, a 19 de Abril de 2005, Bento XVI proclamou que a Eucaristia deve estar no centro da vida de cada cristão e da Igreja. Jesus Cristo morto e ressuscitado, realmente presente na Eucaristia, é o caminho para que o homem vislumbre o sentido da própria existência. A transformação de cada um de nós e do mundo «está na frágil, branca hóstia consagrada, sacramento da presença de Jesus no mundo».

Esta transformação fundamental estática e dinâmica, de que nos fala o Santo Padre, particularmente na sua Homilia em Colónia, por ocasião da XX Jornada Mundial da Juventude, ajuda-nos a compreender melhor o tema deste Congresso: «A Eucaristia,. Coração da vida do cristão e fonte da missão evangelizadora da Igreja».

1. Transformação fundamental

- da violência em amor

- da escravidão em liberdade

- da morte em vida

 

Em 21 de Agosto de 2005, na esplanada de Marienfeld, em Colónia, na Santa Missa, em que participavam um grande número de Bispos, sacerdotes e mais de um milhão de jovens, o Papa iniciou a sua homilia dizendo: «Ante a sagrada Hóstia (…) começámos ontem à tarde o caminho interior da adoração (…)». Lembrava, depois, a ceia pascal de Israel que Jesus Cristo tinha tido com os seus apóstolos, na Quinta-feira Santa, memorial da passagem – da Páscoa – do povo escolhido da escravidão para a liberdade, graças ao auxílio e ao poder de Deus. O Senhor Jesus «antecipa a sua morte, aceita-a no seu mais íntimo ser e transforma-a num acto de amor. O que exteriormente é violência brutal, interiormente transforma-se num acto de amor que se entrega totalmente». 

 Esta é a primeira transformação fundamental assinalada pelo Papa: transformação da violência em amor, da escravidão em liberdade, da morte em vida, isto é, na vida eterna.

Aos Bispos da Etiópia e da Eritreia falava-lhes dos seus povos que tinham experimentado a fome, a opressão e a guerra. Lembrava-lhes como «Cristo se entrega a si mesmo totalmente a nós para nos alimentar e transformar na sua imagem». E acrescentava: «Ajudai-os a descobrir na Eucaristia o acto central da única conversão que pode renovar verdadeiramente o mundo, transformando a violência em amor, a escravidão em liberdade e a morte em vida».

Esta transformação tem uma dimensão escatológica e dinâmica: «Esta é a transformação substancial que se realizou no Cenáculo e que estava destinada a suscitar um processo de transformações cujo último fim é a transformação do mundo até que Deus seja tudo em todos».

2. Transformação fundamental do pão e do vinho no Corpo e no Sangue do Senhor

À transformação da violência em amor e da morte em vida, segue-se outra transformação única e sem paralelo: Jesus fez-se pão para nós. O Senhor Jesus dá graças a Deus por tantos benefícios que o seu povo recebeu e, sobretudo, pelo indizível dom da Redenção que está a ponto de se realizar com a sua própria entrega na Paixão, Morte e Ressurreição.

No discurso do Pão da Vida, pormenorizadamente narrado pelo evangelista São João, lemos como Jesus Cristo prometeu que se daria a nós Ele mesmo como alimento e acrescentou: «O que come a minha carne e bebe o meu sangue permanecerá em mim e Eu nele».

O que prometeu realizou-o na Quinta-feira Santa, na Última Ceia. O Senhor Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: «Tomai e comei; isto é o meu Corpo. […] E tomando o cálice e tendo dado graças, deu-lhes, dizendo: bebei todos dele; porque este é o meu Sangue da nova aliança, que é derramado por muitos para remissão dos pecados».

Assim foi instituída a Eucaristia.

O que é a Eucaristia?

A palavra Eucaristia designa hoje a Santa Missa e também a Hóstia consagrada, na qual temos o Senhor Jesus realmente presente.

Eucaristia, palavra de origem grega, quer dizer louvor, acção de graças. No Antigo Testamento, a palavra Eucaristia significava uma exclamação litúrgica com que se louvava a Deus por algo que a Ele se implorava ou se lhe agradecia os benefícios recebidos.  No Novo Testamento, significa a acção de graças por excelência, quer dizer, a acção de graças da Quinta-feira Santa, elevada ao Pai por Jesus Cristo pela maravilhosa obra da Redenção, que estava a ponto de culminar com a sua morte, sepultura e ressurreição. O Verbo Divino, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnou no seio puríssimo da Virgem Maria, assumindo a natureza humana para a redimir. Deus faz-se homem em Jesus Cristo. Na Quinta-feira Santa e para sempre, Jesus Cristo faz-se presente no pão e no vinho oferecidos por Ele mesmo ao Pai em remissão dos pecados.

Além disso, a palavra Eucaristia, que é tradução da palavra grega beracha, significa «transformação a partir do Senhor».

Bento XVI, na sua primeira homilia do Corpus Christi na Basílica de São João de Latrão, sublinha que «o dom da Eucaristia, instituída no Cenáculo, se realiza em plenitude: Jesus dá realmente o seu corpo e o seu sangue. Cruzando o umbral da morte, converte-se em Pão vivo, verdadeiro maná, alimento inesgotável ao longo dos séculos. A carne converte-se em pão de vida».

Com as palavras da consagração, toda a substância do pão se transforma no Corpo de Cristo e toda a substância do vinho se transforma no Sangue de Cristo. A esta transformação chamamos transubstanciação.

Depois da consagração, o pão e o vinho deixaram de existir, de modo que o que temos diante de nós, nas nossas mãos ou no nosso coração, são o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Isto é um mistério.

Proclamamos na Santa Missa, depois da consagração: «mysterium fidei». A Eucaristia é verdadeiramente um mistério, que só pode ser acolhido na fé. Os teólogos ao longo dos séculos procuraram explicar a transubstanciação. Mas a inteligência humana tem limites; a razão humana não é capaz de abarcar o infinito.

Para perpetuar o sacramento da Eucaristia, Jesus Cristo, ao dizer aos Apóstolos, «fazei isto em Minha memória», instituiu o sacerdócio ministerial.

3. Transformação de nós mesmos e transformação do mundo

Na homilia, pronunciada em Bari, por ocasião do Congresso Eucarístico italiano, Bento XVI fez referência à resposta de um «certo Emérito» ao procônsul Anulino: «’Sine dominico non possumus’, quer dizer, sem nos reunirmos em assembleia ao domingo para celebrar a Eucaristia não podemos viver». A participação na Santa Missa dava aos cristãos as forças necessárias para a sua vida em casa, no trabalho, na comunidade e para a ordenar para a eternidade segundo os ensinamentos do seu Deus e Senhor.

No Angelus de 12 de Junho passado, o Santo Padre voltou a referir-se à Santa Missa dominical nestes termos: «A participação na missa dominical não tem que ser vivida pelo cristão como uma imposição ou um peso, mas como uma necessidade e uma alegria. Reunir-se com os irmãos, escutar a Palavra de Deus, alimentar-se de Cristo, imolado por nós, é uma experiência que dá sentido à vida, que infunde paz no coração. Sem o domingo, nós, os cristãos, não podemos viver».

O pão e o vinho transformados no Corpo e no Sangue do Senhor Jesus transformam-nos a nós próprios. São expressão sacramental da transformação a que estamos chamados quando o nosso corpo mortal se transforme em imortal, o nosso corpo corruptível se revista de incorruptibilidade. A transformação do pão e do vinho no Corpo e Sangue do Senhor pela invocação do Espírito Santo proclama e anuncia aquilo que o Espírito fará nos nossos corpos quando sejam glorificados. 

«Corpo e o Sangue de Cristo são-nos dados para que também nós mesmos sejamos transformados. Nós próprios devemos chegar a ser Corpo de Cristo, seus consanguíneos». Na expressão de um Santo do século II, poderíamos afirmar da Eucaristia que o Senhor «pelo seu amor sem medida se fez como nós para nos tornar perfeitos com a perfeição d’Ele».

Deus está em nós. Nós estamos unidos a Deus. «Jamais Adão escapa das Mãos de Deus», escreveu um Santo Padre da Igreja. Esta união com o Senhor deve reflectir-se na nossa vida. Deus está «dentro de nós, e nós estamos n’Ele. A Sua dinâmica penetra-nos e a partir de nós quer propagar-se aos outros e estender-se a todo o mundo, para que o seu amor seja realmente a medida dominante do mundo». Com palavras de Santo Ireneu: «A quantos perseveram no Amor por Ele, dá-lhes a sua comunhão. E comunhão de Deus é vida e luz e fruição dos bens a Ele inerentes».

O primeiro campo de acção deve ser a família e a paróquia. «Por este motivo, os pais estão chamados a fazer com que os seus filhos redescubram o valor e a importância da resposta ao convite de Cristo que convoca toda a família cristã para a missa dominical. Nesta caminhada educativa, uma etapa particularmente significativa é a Primeira Comunhão, autêntica festa para a comunidade paroquial, que acolhe pela primeira vez os seus filhos mais pequenos à mesa do Senhor».

O homem tem no mais profundo do seu ser um desejo de mais e mais, nada o satisfaz completamente. Tem aspiração a uma mudança, uma pretensão a ser transformado e a transformar o mundo. Pois bem, esta acção amorosa e redentora de Jesus Cristo é «o acto central da transformação capaz de renovar verdadeiramente o mundo: a violência transforma-se em amor e, portanto, a morte em vida».

Todos somos alimentados com o único Pão. Somos muitos, mas todos participamos da mesma Eucaristia. Recebemos o mesmo Senhor. Estamos reunidos com os nossos irmãos no mesmo Senhor. Esta união, fruto da comunhão com Cristo glorioso, traz à memória a Didaché ou «Ensinamento dos Doze Apóstolos», escrito nos fins do século I, que a propósito da Eucaristia nos deixou este texto orante: «Assim como este pedaço estava disperso pelos montes e, reunido, se fez um, assim também reúne a tua Igreja dos confins da terra no teu reino».

Qual é a resposta que nós damos ao Senhor?

A nossa resposta deve manifestar-se concretamente na solicitude amorosa pelas necessidades dos nossos irmãos e, sobretudo, pela sua vida espiritual.

«São muitas e múltiplas as formas de serviço que podemos oferecer ao próximo na vida de todos os dias, se prestamos um pouco de atenção. A Eucaristia converte-se deste modo no manancial da energia espiritual que renova a nossa vida em cada dia e, deste modo, renova o mundo no amor de Cristo. Testemunhas exemplares deste amor são os Santos, que tiraram da Eucaristia a força de uma caridade operante e com frequência heróica».

«Quem descobriu Cristo deve levar outros para Ele. Uma grande alegria não se pode guardar só para si mesmo. É necessário comunicá-la».

Por outro lado, se lançamos um olhar pelo mundo em que vivemos, encontramos desafios que estimulam fortemente a nossa reflexão e acção.

A humanidade está esmagada por inumeráveis problemas que provocam inquietações antropológicas e sociais. Pretender dar-lhes resposta sem ter na devida consideração a dimensão transcendental do homem, é um grave erro que manchou significativamente a história do passado século XX. Somos herdeiros da longa procura de um utópico progresso social, que custou muita dor humana, desde holocaustos e guerras fratricidas jamais vividas na história precedente, até fracassos estrepitosos que semearam miséria, ódios raciais, violação das mais elementares liberdades e, enfim, gravíssimas ofensas da dignidade da pessoa humana. Partindo da chamada ética civil, colocou-se a força da lei unicamente na maioria e assim se chegou na Alemanha à Constituição de Weimar, na União Soviética às conhecidas atrocidades de Estaline e de Lenine, na China às de Mão Tse Thung com a imposição do seu livro vermelho e às de Paul Pot no Cambodja, para mencionar somente as mais significativas.

Nos nossos dias, constatamos, juntamente com um pujante relativismo gnoseológico, filosófico, ético e moral, um crescente esquecimento de Deus.

Porém, as mudanças sem Deus «são superficiais e não salvam».

Dizia Bento XVI aos jovens, em Colónia: «Eu sei que vós como jovens aspirais a coisas grandes, que quereis comprometer-vos por um mundo melhor. Demonstraste-lo aos homens, demonstraste-lo ao mundo, que espera exactamente esse testemunho dos discípulos de Cristo e que, sobretudo através do vosso amor, poderá descobrir a estrela que, como crentes, seguimos».

Para o nosso Santo Padre, a Eucaristia é o «centro propulsor da acção evangelizadora da Igreja, como o é o coração no corpo humano. As comunidades cristãs (…) só na medida em que são «eucarísticas» podem transmitir Cristo aos homens, e não só ideias ou valores por mais nobres e importantes que sejam».

Só na medida em que sejamos comunidades eucarísticas podemos reflectir no meio do mundo o verdadeiro ícone de Cristo, servindo os irmãos até à morte. Unicamente com a Eucaristia podemos compreender a incrível força dos mártires e os testemunhos que nos legou uma conhecida testemunha de Cristo no século II, Santo Inácio de Antioquia: «Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras para me mostrar como pão de Cristo… Pedi a Cristo por mim para que… consiga ser sacrifício para Deus».

Conclusão

Bento XVI proclama que a Eucaristia deve estar no centro da vida de cada cristão e da Igreja. Jesus Cristo, morto e ressuscitado, realmente presente na Eucaristia, é o caminho para que o homem adquira o sentido da própria existência e possa esperar e gozar um mundo renovado.

A Eucaristia leva-nos a dar graças a Deus, a fazer-nos dom para os outros, a dar testemunho da obra redentora de Jesus Cristo e a ter como meta de todas as nossas actividades o encontro pleno com Cristo na morada de Deus. Porque Cristo glorificado «é que leva o homem à comunhão e unidade com Deus».

O sacramento da Eucaristia dá-nos a paz, a serenidade, a tranquilidade e as forças requeridas para nos comprometermos por um mundo melhor, por um mundo transformado.

Invoquemos a intercessão da Virgem Maria, Mãe de Jesus Cristo e nossa Mãe, para que nos obtenha a graça de ser instrumentos dóceis nesta transformação. Ela «está também com a Igreja e como Mãe da Igreja, em cada uma das nossas celebrações eucarísticas. (…) Ninguém melhor do que Ela nos pode ensinar a compreender e a viver com fé e amor a Santa Missa, unindo-nos ao sacrifício redentor de Cristo. Quando recebemos a santa Comunhão, como Maria e unidos a Ela, abraçamo-nos ao madeiro que Jesus com o seu amor transformou em instrumento de salvação e pronunciamos o nosso ’amen’, o nosso ’sim’ ao Amor sacrificado e ressuscitado».

A transformação de cada um de nós e a transformação do mundo estão «na frágil, branca hóstia consagrada, sacramento da presença de Jesus no mundo».



 


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