TEMAS LITÚRGICOS

Ars celebrandi*

 

 

Prof. Alfonso Carrasco

Faculdade de Teologia «San Dámaso»(Madrid)

 

Desde o seu nascimento, depois dos acontecimentos pascais, a Igreja viveu sempre unida no mesmo pão e no mesmo cálice de salvação, fazendo memória do Senhor segundo o que Ele tinha estabelecido na Última Ceia. Os quatro relatos neotestamentários da sua instituição já manifestam a vontade apostólica de celebrar a Eucaristia segundo as palavras e factos essenciais do gesto realizado por Jesus, e oferecem assim, de facto, o primeiro testemunho da atitude constitutiva de una correcta celebração, completamente centrada no memorial do dom do Senhor.

Esse será sempre, desde então, o próprio núcleo da ars celebrandi: a fidelidade profunda que exprime o essencial da fé, o acolhimento do Senhor Jesus Cristo no dom eucarístico do seu Corpo e do seu sangue. A alma de uma boa celebração é, portanto, a fé, lúcida e consciente, fiel ao Senhor, que exprime o próprio assombro e a própria gratidão crente, na salvaguarda plena do tesouro oferecido Cristo aos seus, e que é Ele próprio, na sua morte e ressurreição. Por isso, o fundamento desta arte particular será sempre a intenção e o cuidado por celebrar aquele mesmo sacramento recebido e transmitido pelos apóstolos e, desde então, presente no seio da Igreja, como o seu bem mais precioso.

Consequência disso, será o respeito e o apreço das normas litúrgicas e canónicas em que se exprime o acolhimento e a transmissão fiel do dom do Senhor, por parte da Igreja. Esta fidelidade primária de todo o celebrante não pode ser substituída por nenhum princípio subjectivo de criatividade, sobretudo quando esta chega a afectar os traços fundamentais do sacramento, da sua natureza ou da estrutura harmónica da sua celebração – rompendo, por exemplo, a unidade entre a Palavra e o sacramento, ou até substituindo a Sagrada Escritura por outros textos, não respeitando a pregação eucarística, etc. Em geral, não seria aceitável tampouco uma forma de celebração que retirasse do centro da atenção a presença real e a entrega sacrificial do Senhor, para se ocupar de qualquer outra actividade ou necessidade humana.

Se a fé, lúcida e consciente, é o próprio princípio de uma boa ars celebrandi, compreende-se também a importância de tudo aquilo que serve para mantê-la viva e vigilante, particularmente a atitude de oração do sacerdote e de todos os participantes. Esta é a condição para poder realizar e viver os diferentes momentos da celebração, os seus gestos e palavras, segundo o seu verdadeiro sentido.

 

A forma e o cuidado do espaço reservado à celebração, assim como os ritmos da celebração, os cânticos, os momentos de silêncio, hão de estar ao serviço de uma participação activa e consciente de todos os fiéis no mistério que se celebra. Desta maneira será possível viver a celebração como um momento de encontro verdadeiro e real com Deus, que se entrega no sacramento, fundamento da plena comunhão com os irmãos.

Também o respeito das vestes litúrgicas deve ser entendido como expressão do peculiar serviço ministerial do sacerdote, o qual, pela graça sacramental, não celebra em nome próprio ou como delegado da própria comunidade, mas sim in persona Christi e em nome da Igreja. Com a sua simbologia própria, as vestes litúrgicas servem para sublinhar as verdadeiras dimensões da comunhão que é fruto da Eucaristia.

A colaboração de outros ministros litúrgicos também deve ser entendida, antes de mais, como  serviço do grande mistério que se celebra. Não pode ser reduzida a um mecanismo de promoção da responsabilidade dos fiéis laicos, que participam activamente, sobretudo enquanto chamados a estar à mesa da Palavra e da Eucaristia, a entrar na comunhão que o Senhor funda com o seu Corpo e com o seu Sangue, a oferecer com Ele o verdadeiro sacrifício agradável ao Pai, apresentando juntamente com Ele a própria existência com a liberdade de filhos. É de extraordinária importância viver adequadamente esta participação radical do fiel, para que a celebração não corra o perigo de um certo ritualismo, mas torne possível aos cristãos uma existência no meio do mundo, vivida no amor e no Espírito próprio da Eucaristia.

A participação consciente e activa do Povo de Deus será facilitada e encorajada por uma celebração adequada da Eucaristia, de modo a que todo.a ars celebrandi, os gestos e as palavras, os ritmos e os silêncios, ajudem os fiéis a reconhecer o mistério da presença e da entrega do Senhor, a responder com o gesto pessoal e livre da própria adesão, da própria participação pessoal na comunhão que Ele torna possível aos homens pela sua morte e ressurreição, e com o dom do seu Espírito.

 

 



* Videoconferência mundial organizada pela Congregação para o Clero sobre o tema A Eucaristia, fonte e cume da vida e da missão da Igreja, em 31-X-05, tomada da página na Internet da Congregação: www.clerus.org.


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