A  abrir

A  superficialidade

 

Hugo de Azevedo

 

A Páscoa é a festa da nossa fé, porque Jesus ressuscitado nos garante que a nossa vida é uma festa; uma festa aqui iniciada, a caminho da eterna alegria do Céu. Tudo aqui nos conduz à felicidade divina, de que vamos participar. Coitado de quem não crê! Ou pretende que não crê...

Porque está de moda em bastantes círculos a declaração de agnosticismo, de um agnosticismo «superior e tolerante», como se a ignorância do sentido da existência fosse motivo de agudeza intelectual: a de espíritos críticos tão exigentes que nenhuma explicação transcendente dada até hoje, ao longo de milénios de pensamento, os satisfaz, e acreditam piamente que nenhuma hipótese de esclarecimento no futuro poderá vir a satisfazê-los. É, de facto, a mais extraordinária manifestação de pessimismo quanto ao valor da razão, e a mais estranha desistência de qualquer vida racional. Pois, se nada tem sentido nem jamais o terá, para que se dão ao trabalho de falar, de actuar, de julgar, de viver, em suma? E por que tanto se empenham em converter-nos ao seu niilismo, ao seu indiferentismo, à sua ignorância confessa? Talvez convencidos de que, eliminados todos os critérios de valor, haverá mais paz, mais tolerância mútua, neste mundo violento. Mas que interesse tem viver num mundo sem outro valor que não seja o de manter uma existência absurda?

Se nalguns casos esse agnosticismo exprime um autêntico drama interior, para a maioria serve simplesmente de teorização da superficialidade: «comamos e bebamos, que amanhã morreremos».

Acontece, porém, que um cristão não consegue ser superficial, por mais que se esforce: a fé iluminou de tal modo a sua inteligência, que nunca poderá esquecer o sentido mais profundo da vida e do mundo. É o amor de Deus: fomos criados pelo seu amor, e destinamo-nos ao seu amor. Uma criança da catequese sabe isso; uma velhinha piedosa analfabeta sabe isso; um filósofo que alguma vez aprendeu o Pai-Nosso também o sabe. Fazer de conta que o ignora talvez seja interessante especulativamente, para aprofundar no processo do conhecimento humano, mas geralmente não passa de uma cedência ao ambiente libertário, que foge da verdade como o diabo da cruz.

Para um cristão, a superficialidade será sempre uma ficção. Uma vez descoberto o sentido da existência, não consegue perdê-lo; apenas o pode ocultar aos outros. Para o próprio, tal superficialidade de viver por viver, de somente se entreter com a vida, mesmo que seja ao serviço de «grandes ideais» (vazios de conteúdo), saberá sempre a falsidade, a fingimento. Quanta experiência tem o sacerdote dessa ocultação quando é chamado a atender moribundos, naquela hora em que «o metafísico se torna real», como dizia o autor de «O Zero e o Infinito»! Quando as aparências já não contam, e o homem se vê perante o seu destino radical e absoluto, o seu fingido agnosticismo desaparece como por encanto!...

O mais humilde cristão goza de uma sabedoria excepcional, que é capaz de enervar os mais acérrimos agnósticos: como é que uma criatura «inculta» ousa ter maiores exigências intelectuais do que eles, recusando-se a viver ao acaso, frivolamente, a ponto de aspirar e de se familiarizar com uma visão transcendente do mundo? Como é possível? Graças a Deus e à sua infinita misericórdia, que nos revelou o maravilhoso sentido da nossa existência: uma longa e eterna «história de amor», na feliz expressão do Santo Padre na sua primeira encíclica «Deus Caritas est» (nº 17).

 


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