TEMAS LITÚRGICOS

Por que se canta na Liturgia?

 

 

 

 

Pedro Boléo Tomé

 

 

Todos associamos a presença do canto a uma celebração litúrgica solene, bem cuidada, preparada com esmero e carinho. Intuímos que o canto faz parte da celebração litúrgica, mas porquê? Será algo meramente cultural, uma espécie de herança que não se sabe bem onde começou? É apenas porque a Igreja o prescreve? Mas, qual a razão para o fazer? Haverá alguma justificação bíblica, teológica ou antropológica?

 

Quanto estudava em Roma fiz parte do coro do centro de formação onde residia. Era um coro numeroso, tínhamos vários ensaios semanais e cantávamos em muitas Eucaristias e cerimónias litúrgicas. Dessa época recordo um comentário que um dos meus colegas cantores fez e com o qual me lembro de concordar. Deveria ser depois de uma ordenação sacerdotal ou de uma cerimónia particularmente importante e bela:

- Foi maravilhoso, sem dúvida, mas sabes qual a celebração que mais me impressiona de todas as que participámos até agora?

E disse-me que se tratava da exposição com o Santíssimo na capela de Nossa Senhora dos Anjos.  Efetivamente, durante aquela celebração a capela enchia-se por completo e, por serem cânticos a que todos estavam habituados, toda a assembleia cantava. Não se calavam para que o coro cantasse. Cantávamos todos unidos, com o órgão a acompanhar. E parecia o Céu. Aquela unidade de todos, o canto que subia, junto com o incenso, para o alto, era algo que nos elevava, que nos remetia para a liturgia celeste.

Mas, o canto em uníssono não será a única forma de experimentar essa sensação. O Catecismo da Igreja Católica cita a experiência de S. Agostinho quando entrou pela primeira vez na catedral de Milão e contemplou uma comunidade que cantava hinos compostos por S. Ambrósio. Comoveu-se. E aquele cântico parece ter-lhe aberto o coração colocando-o na estrada que o levaria, depois, ao batismo:

«Como eu chorei ao ouvir os vossos hinos, os vossos cânticos, as suaves harmonias que ecoavam pela vossa igreja! Que emoção me causavam! Passavam pelos meus ouvidos, derramando a verdade no meu coração. Um grande impulso de piedade me elevava, e as lágrimas rolavam-me pela face; mas faziam-me bem»[1]

Felix Arocena não fica indiferente ao ver uma inteligência tão exímia como a de Agostinho aninhar-se num temperamento capaz de se estremecer até ao extremo quando escuta o canto dos fiéis de Milão e afirma: «O canto é o dardo – portador da palavra – que fere o coração. Em comparação com o canto, a linguagem exclusivamente falada é uma forma comunicativa relativamente atrofiada».[2]

Esta capacidade que o canto possui levou a Igreja a afirmar que «o canto sagrado, intimamente unido com o texto, constitui parte necessária ou integrante da liturgia solene»[3], e a assinalar mesmo que esta forma de arte excede todas as outras expressões. De facto, o canto não tem uma função decorativa, não procura preencher silêncios. E embora o canto nos possa mover, ele não surge, primariamente, como uma necessidade emotiva. O canto deriva da própria natureza teológica da celebração, por um lado, e responde a um fundamento antropológico, por outro.[4] A Igreja não deixa de cantar aos domingos, festas e solenidades porque sabe que, sem a música, realidades como a alegria da Ressurreição, a união com a liturgia celeste, a transformação do cosmos num canto de louvor à Trindade, etc., seriam facilmente reduzidas a “ideias” ou “conteúdos mentais”, quando na realidade se trata de realidades sobrenaturais, chamadas a implicar toda a pessoa, tanto na sua corporalidade, como na sua dimensão espiritual. Isto é, a Igreja quer que os seus filhos cantem a ação litúrgica não por capricho ou extravagância, mas porque há aspetos do mistério de Deus que foram confiados ordinariamente à mediação da experiência musical. [5]

É interessante comprovar que essa natureza teológica e antropológica do canto já se encontra presente na Antiga Aliança. O povo cantava para falar com Deus, para celebrar os seus rituais litúrgicos. Ratzinger assinala que a palavra “cantar” surge no Antigo Testamento 309 vezes e 36 no Novo. E porquê? 

«Onde há encontro entre Deus e Homem não há palavras, porque aí são despertadas as partes da sua existência que, por si, se tornam canto e música. O que o Homem possui não é suficiente nem para expressar aquilo que sente nem aquilo que ele tem de manifestar, de modo que convida a Criação inteira para cantar com ele:

Despertai, minhas entranhas, despertai, harpa e cítara; quero despertar-me com a aurora. Louvar-vos-ei entre os povos, Senhor, cantar-vos-ei salmos no meio das nações. O vosso amor chega até aos céus, sobre toda a terra se estende a vossa glória” (Sl 57, 9.11)»[6]

Assim o assinala o Catecismo da Igreja Católica:

«A composição e o canto dos salmos inspirados, muitas vezes acompanhados por instrumentos musicais, estavam já estreitamente ligados às celebrações litúrgicas da Antiga Aliança[7]

E recorda como a Igreja não fez mais do que continuar e desenvolver esta tradição:

«Recitai entre vós salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai e louvai ao Senhor no vosso coração».[8]

Estas razões teológicas e antropológicas levam a Igreja a recomendar o canto na instrução do Missal Romano:

«Deve fazer-se um grande uso do canto na celebração da Missa, de acordo com a índole dos povos e as possibilidades de cada assembleia litúrgica. Embora não seja necessário cantar sempre, por exemplo nas Missas feriais, todos os textos que, por si mesmos, se destinam a ser cantados, deve, no entanto, procurar-se com todo o cuidado que não falte o canto dos ministros e do povo nas celebrações que se realizam nos domingos e festas de preceito.

Na escolha das partes que efetivamente se cantam, dê-se preferência às mais importantes, sobretudo às que devem ser cantadas pelo sacerdote ou pelo diácono ou pelo leitor, com resposta do povo, bem como às que o sacerdote e o povo devem proferir conjuntamente.»[9]

A Igreja parece querer libertar-nos de dois erros opostos: o perfeccionismo e as soluções fáceis. Será necessário cuidar a celebração e investir na sua preparação e na formação dos fiéis, mas com o realismo de não exigir o Céu na terra. Por isso, insiste maternalmente neste aspeto sabendo que não se conseguirão desempenhos perfeitos, não é isso que procura, o que deseja é que o culto seja mais «verdadeiro». Que espelhe mais o que realmente se celebra (alegria da ressurreição, união com a liturgia celeste, etc.). Precisamos de cantar, a liturgia assim o exige, o mistério celebrado pede-o.[10] Claro que se conta com o senso comum dos responsáveis pelas comunidades celebrantes. Efetivamente, nalgum caso, a assembleia ou o sacerdote não estarão em condições de cantar. Porém, não por facilitismo ou por uma exigência desmedida. Se queremos celebrar a Liturgia como a Igreja no-lo pede teremos, verdadeiramente, de preparar as nossas celebrações, esmerar-nos e dar o melhor que temos para dar, pela razão de que é para o Senhor, para expressar o que celebramos e queremos ter no coração.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] S. AGOSTINHO, Confissões, 9, 6, 14, in CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 1157.

[2] AROCENA F., Teología Litúrgica, p. 117.

[3] SC 112

[4] Nós precisamos de cantar. Faz-nos bem cantar. Precisamos do canto para expressar sentimentos e para os fomentar. Cantar juntos une e cria laços.

[5] Cfr. REGO, J., Apontamentos de uma conferência para sacerdotes dada em Roma (16:XII.2023)

[6] RATZINGER, J., Introdução ao Espírito da Liturgia, p. 101.

[7] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 1156.

[8] Ef 5, 19.

[9] IGMR n. 40

[10] «Também por isso se inclui a música nos lugares próprios, onde o canto a reclama, para que na celebração – que deve ser modelar no dia do Senhor e nas festas da comunidade cristã – o canto seja mais a regra do que a exceção», CEP, nota pastoral, Celebrar e viver melhor a Eucaristia, n. 6


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