TEMAS LITÚRGICOS

Mergulhar nas águas do Batismo

 

 

 

Pe. Ricardo Figueiredo

 

 

A liturgia quaresmal aponta e prepara para a celebração da solenidade mais importante para nós cristãos: a Páscoa. A Ressurreição de Jesus Cristo é um acontecimento ocorrido num determinado tempo da história da humanidade, mas o seu valor permanece inalterável para todas as gerações: se em Sábado Santo recordamos a descida de Cristo à mansão dos mortos em vista a evangelizar aqueles que faleceram antes da Sua vinda, na Vigília Pascal celebramos a evangelização permanente de todas as gerações, missão que a Igreja realiza correspondendo ao mandato do Senhor (cf. Mt 28, 19-20). Assim, podemos assinalar dois aspetos que percorrem toda a liturgia do Tempo Pascal: é celebração objetiva da Ressurreição de Jesus e é celebração subjetiva (isto é, na medida em que implica cada um pessoalmente, em particular, e a Igreja toda, em geral) da nossa vinculação a Cristo pelo sacramento do Batismo.

A liturgia quaresmal tem início com a imposição das cinzas, recordando que somos pó, mas que somos pó que Deus ama e sobre o qual derrama o Seu amor. Sem Ele seríamos algo efémero que passa, mas transformados pela graça progredimos como filhos de Deus: a consciência da nossa fragilidade e caducidade é a condição de possibilidade de recebermos de forma eficiente a graça divina. A Igreja serve à mesa da Palavra o apelo à conversão, à mudança de vida e à transformação do Senhor durante toda a Quaresma para recebermos «a graça de iniciar uma vida nova»[1]. Assim, «a liturgia quaresmal prepara para a celebração do mistério pascal tanto os catecúmenos, através dos diversos graus de iniciação, como os fiéis, por meio da recordação do Batismo e das práticas de penitência»[2]. Deste modo, é importante que toda a Quaresma seja vivida como catequese que conduz, pela mão, a uma tomada de consciência da nossa condição de filhos de Deus e das consequências concretas que isso deve ter.

Guiados pela Mãe Igreja até à celebração da Ressurreição do Senhor, chegamos à «Mãe de todas as santas vigílias», a Vigília Pascal, «na qual a Igreja espera em vigília a ressurreição de Cristo e a celebra nos sacramentos»[3]. A renovação solene das promessas batismais na noite pascal reveste-se de um sentido especial: recordamos aquele rito litúrgico pelo qual cada um dos cristãos foi vinculado a Cristo, mergulhado no mistério da Morte e Ressurreição do Senhor. Será importante determo-nos aqui um pouco. O círio pascal é sinal da luz da Ressurreição de Cristo, sinal do próprio Cristo, luz que dissipa todas as trevas: quando este é introduzido na água batismal simboliza a descida da virtude vivificante de Deus sobre a fonte batismal. Deste modo, a água torna-se meio e instrumento para a participação na vida de Jesus Cristo. Como Ele, que na Sua Morte e Ressurreição fez Páscoa, passou da morte à vida e inaugurou uma nova dimensão da existência, assim também nós, ainda «apenas» de forma sacramental, mas real, participamos dessa vida nova.

A renovação das promessas batismais é o marco entre o homem velho – escravo do pecado, das seduções do mal e do demónio – e o homem novo – introduzido na vida trinitária do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Há uma dimensão agónica que subjaz em tudo isto: a nossa participação é ainda sacramental – mas não menos real – e, por isso, toda a nossa vida é ainda uma renovação constante da vinculação a Cristo e da participação na sua vida. Esta dimensão de combate está subjacente ao rito da unção com o óleo dos catecúmenos no Batismo das Crianças ou nos degraus de preparação dos catecúmenos ao longo da Quaresma. Isso mesmo recentemente recordava o Papa Francisco: «Com efeito, a vida espiritual do cristão não é pacífica, linear, sem desafios; pelo contrário, a vida cristã exige um combate constante: o combate cristão para conservar a fé, para enriquecer os dons da fé em nós. Não é por acaso que a primeira unção que cada cristão recebe no sacramento do Batismo – a unção catecumenal – é sem perfume algum e anuncia simbolicamente que a vida é uma luta. Sim, na antiguidade os lutadores eram completamente ungidos antes da competição, quer para tonificar os músculos, quer para tornar o corpo esquivo às garras do adversário. A unção dos catecúmenos torna imediatamente claro que ao cristão não é poupada a luta, que o cristão deve lutar: também a sua existência, como a de todos, deverá descer à arena, pois a vida é uma sucessão de provações e tentações»[4].

A índole batismal pode – pessoalmente diria: deve (!) – ser sublinhada durante os cinquenta dias de celebração pascal. Os formulários de aspersão dominical da água benta estão preparados com formulários próprio para este tempo, sublinhando este aspeto litúrgico. O formulário A sublinha a súplica de que aquela água que vai ser aspergida «nos faça reviver o Batismo que recebemos e nos leve a participar na alegria dos nossos irmãos, batizados na Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo»[5]. Por seu turno, o formulário B releva o aspeto da missão, após algumas invocações que recordam a redenção operada por Cristo na sua significação batismal[6]. Por outro lado, ao longo das semanas pascais, mas muito particularmente na Oitava da Páscoa, encontramos referências ao Batismo. Logo na segunda-feira a oração em que se pede para os batizados «a graça de serem fiéis na vida ao sacramento que pela fé receberam»[7]. Na terça-feira sublinha-se a dimensão escatológica, pedindo para os cristãos que «purificados pela graça do Batismo, mereçam alcançar a bem-aventurança eterna»[8]. Na quinta-feira emerge a dimensão eclesiológica, quando se pede que Deus conceda «àqueles que renasceram pela água do Batismo a graça de viverem unidos na fé e na caridade»[9]. Finalmente, no Domingo II de Páscoa é oferecida uma visão integral da vida nova que a Páscoa oferece, quando se pede que os cristãos compreendam «melhor as riquezas inesgotáveis do Batismo com que fomos purificados, do Espírito em que fomos renovados e do Sangue com que fomos redimidos»[10].

Neste tempo em que a Igreja está convocada para a caminhada sinodal, é importante recordar que o vínculo de unidade entre os cristãos e Deus e os cristãos entre si é o Batismo. O relatório da primeira sessão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos recorda que «a iniciação cristã é o itinerário através do qual o Senhor, mediante o ministério da Igreja, nos introduz na fé pascal e nos insere na comunhão trinitária e eclesial»[11]. De forma especial, o Batismo é estruturante para a vida da Igreja: «Antes de qualquer distinção de carismas e de ministérios, “todos nós fomos batizados num só Espírito, para sermos um só corpo” (1Cor 12,13). Por esta mesma razão, entre todos os batizados há uma igualdade autêntica de dignidade e uma responsabilidade comum pela missão, de acordo com a vocação de cada um»[12]. Assim, este convite a celebrar a índole batismal do Tempo Pascal é um convite a renovarmos cada vez mais a consciência de que somos filhos de Deus e responsáveis por levar a todos os homens e mulheres o alegre anúncio da vitória de Cristo sobre a morte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Missal Romano, Fátima, Conferência Episcopal Portuguesa, 2021, p. 236.

[2] «Normas gerais sobre o ano litúrgico e o calendário», n.º 27, in Missal Romano, p. 93.

[3] «Normas gerais sobre o ano litúrgico e o calendário», n.º 21, in Missal Romano, p. 93.

[4] Papa Francisco, Audiência geral, 3 de janeiro de 2024. Sobre isto, valia ainda a pena recordar o que escrevia São João Crisóstomo: «Ele sabe que doravante o Inimigo fica furioso, range os dentes e vagueia como leão rugidor, ao ver que aqueles que outrora estavam sob a sua tirania de repente o abandonaram, a ele renunciaram, passaram para Cristo». Continua mais à frente: «A partir desse momento, há luta e confrontação contra ele, e é por isso que, como atletas de Cristo, o sacerdote vos introduz, por esta unção, na arena espiritual» (São João Crisóstomo, Oito catequeses batismais, Catequese 2, 24).

[5] Missal Romano, p. 488.

[6] Cf. Missal Romano, p. 490-491.

[7] Missal Romano, p. 355.

[8] Missal Romano, p. 356.

[9] Missal Romano, p. 358.

[10] Missal Romano, p. 361.

[11] XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, Relatório da primeira sessão, cap. 3, a).

[12] XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, Relatório da primeira sessão, cap. 3, c).


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