JORNADAS MUNDIAIS DA JUVENTUDE 2023

III

Pequena memória de um grande acontecimento

 

 

 

 (Continuação)

 

Acolhimento ao Santo Padre

 

Na quinta feira, 3 de agosto, às 17h45, teve lugar, na Colina do Encontro (Parque Eduardo VII), o emocionante encontro do Papa com os jovens. O grandioso Parque tornou-se um mar colorido de lenços e bandeiras que acenavam continuamente em sinal de festa e de alegria. O encontro, deu-se numa tarde cheia de sol, com o ar fresco a soprar das bandas do Tejo.

Quando o Santo Padre entrou em contacto visual com a multidão ali reunida, o entusiasmo dos jovens incendiou todo o ambiente.  Foi num clima festivo que o Papa Francisco percorreu todo o espaço até ocupar o lugar que lhe estava preparado, ao cimo da Colina.

Não se tratava de uma festa do desporto, ou comício de cariz político, mas de uma aclamação ao Vigário de Cristo na terra. A alegria e o entusiasmo brotavam espontaneamente de corações enamorados por Jesus Cristo, aclamando no Seu Vigário na terra.

Embora tenha sido muito breve, o primeiro encontro do Santo Padre com os jovens, foi cheio de carinho humano e entusiasmo daquela multidão de jovens do mundo inteiro.

O Santo Padre começou por dizer: «Bem-vindos! Bem-vindos e obrigado por estardes aqui. Fico feliz por vos ver! E feliz fico também ao escutar o simpático barulho que fazeis, contagiando-me com a vossa alegria. É belo estarmos juntos em Lisboa: para aqui fostes chamados por mim, pelo Patriarca – a quem agradeço as palavras que me dirigiu –, pelos vossos Bispos, sacerdotes, catequistas, animadores.»

Lembrou-lhes uma verdade muito grata: «Vós não estais aqui por acaso. O Senhor chamou-vos, não só nestes dias, mas desde o início dos vossos dias. Chamou-nos a todos desde o início da vida. Chamou-vos pelos vossos nomes. Como ouvimos na Palavra de Deus, Ele chamou-nos pelo próprio nome. Chamados pelo nome: tentai imaginar estas três palavras escritas em letras grandes e, em seguida, pensai que estão escritas dentro de vós, nos vossos corações, como que formando o título da vossa vida, o sentido daquilo que sois. Tu foste chamado pelo teu nome: tu… além, tu… ali, tu… aqui, e também eu, todos nós fomos chamados pelo próprio nome.»

E continuou: «Queridos jovens, nesta Jornada Mundial da Juventude, ajudemo-nos mutuamente a reconhecer esta realidade; sejam estes dias ecos vibrantes da chamada amorosa de Deus, porque somos preciosos a seus olhos, apesar do que às vezes os nossos olhos veem; é que às vezes os nossos olhos estão enevoados pela negatividade e ofuscados por tantas distrações»

Pronunciou, depois, a afirmação evangélica que ecoou no mundo: «Amigos, quero ser claro convosco, que sois alérgicos à falsidade e às palavras vazias: na Igreja há espaço para todos. Para todos. Na Igreja, ninguém é de sobra. Nenhum está a mais. Há espaço para todos. Assim como somos. Todos. Jesus di-lo claramente. Quando manda os apóstolos chamar para o banquete daquele senhor que o preparara, diz: «Ide e trazei todos», jovens e idosos, sãos, doentes, justos e pecadores. Todos, todos, todos! Na Igreja, há lugar para todos. «Padre, mas para mim que sou um desgraçado, que sou uma desgraçada, também há lugar?» Há espaço para todos! Todos juntos…»

Terminou pedindo que repetissem com ele: «Deus ama-nos».

 

Sexta-feira, 4, dia penitencial

 

A sexta-feira, como tem acontecido noutras Jornadas, tomou um caráter penitencial, como chamamento à conversão.

Poderíamos designar deste modo a sexta feira, 4 de agosto, pelas atividades que a enriqueceram.

 

As confissões. Às 9 da manhã, o Santo Padre ocupou um dos 150 confessionários alinhados na Cidade da Alegria (Praça do Império - Jardim Vasco da Gama), para atender de confissão alguns dos jovens presentes.

Assistiu-se, então a uma verdadeira corrida ao Sacramento da Reconciliação e Penitência. Os 150 sacerdotes presentes, atendendo os penitentes nas várias línguas, tornaram-se insuficientes para dar uma resposta eficaz aos que desejavam confessar-se. Abriram-se então muitas igrejas e qualquer lugar era apto para atender mais um penitente, enquanto as filas intermináveis se alinhavam em frente de cada confessionário, aguardando pacientemente a vez de se reconciliarem.

 

Visita ao Bairro da Serafina. Nesta mesma manhã, o Santo Padre visitou alguns centros sociais do Bairro da Serafina, onde a Igreja tem desenvolvido uma intensa e oportuna ação social.

O Santo Padre fez questão de que incluíssem no seu programa uma visita ao Bairro da Serafina, um dos bairros mais pobres da Capital, onde a Igreja desenvolve um amplo projeto de pastoral sócio-caritativa.

Os residentes comentavam que a visita do Santo Padre foi uma bênção, pela proximidade, carinho e interesse com que os visitou.

“Foi uma grande emoção ver o Papa Francisco, isto acontece uma vez na vida. Foi uma bênção na minha vida e na vida deste bairro”, disse Maria Adélia, empregada no Centro Paroquial e Social de São Vicente de Paulo daquela paróquia.

 “O grande problema é habitacional, uma desgraça com tantas casas degradadas e muita gente a viver sem água e sem esgotos”, lamenta o pároco.

O Centro Social e Paroquial de São Vicente de Paulo dá respostas sociais ao nível da infância, terceira idade e também a pessoas com deficiência e tem “170 trabalhadores, 800 pessoas atendidas diariamente e cerca 1200 refeições diárias”.

Depois de ter percorrido atentamente os diversos locais de ajuda, e de ter travado diálogo com muitas pessoas, o Santo Padre pronunciou um pequeno discurso, no qual, num tom muito familiar, apresentou um programa aliciante:

«Primeiro, fazer juntos o bem. «Juntos» é a palavra-chave, que foi repetida muitas vezes nas intervenções.»

«Segundo, agir no concreto. Também isto é importante. Como nos recordou o padre Francisco, inspirando-se em São João XXIII, a Igreja «não é um museu de arqueologia – alguns imaginam-na assim, mas não o é –; a Igreja é o antigo fontanário da aldeia que fornece água à geração de hoje» (São João XXIII, Homilia depois da Missa eslavo-bizantina, 13/XI/1960) como às futuras gerações.»

«Quando não se perde tempo a lamentar-se da realidade, mas se tem a preocupação de ir ao encontro das carências concretas, com alegria e confiança na Providência, acontecem coisas maravilhosas.»

«O terceiro aspeto: estar próximo dos mais frágeis. Todos somos frágeis e necessitados, mas o olhar feito de compaixão, próprio do Evangelho, leva-nos a ver as necessidades de quem mais precisa. Leva-nos a servir os pobres, os prediletos de Deus que Se fez pobre por nós (cf. 2 Cor 8, 9): os excluídos, os marginalizados, os descartados, os humildes, os indefesos. São eles o tesouro da Igreja, são os preferidos de Deus!»

 

Almoço com alguns dos jovens, na Nunciatura Apostólica. Dez jovens de diferentes idades (dos 24 aos 34 anos) e de diversas nacionalidades (portuguesa, brasileira, guineense, filipina e até palestina), escolhidos para renovar uma tradição que se repete há anos em cada Jornada Mundial da Juventude, almoçaram com o Santo Padre na Nunciatura Apostólica de Lisboa.

Também estiveram presentes no almoço o patriarca de Lisboa, cardeal D. Manuel Clemente, e o Bispo Auxiliar, D. Américo Aguiar, presidente da Fundação JMJ Lisboa 2023 criado cardeal no último consistório.

Todos os jovens que vieram, trouxeram um presente para o Papa Francisco. Pedro entregou-lhe uma carta na qual fazia a oferta da sua vida ao serviço da Igreja

Durante a refeição, o Papa manteve diálogo com os jovens presentes.  Não fez perguntas, mas ouviu as suas histórias, respondendo às perguntas que lhe faziam, esclarecendo dúvidas e oferecendo elementos para reflexão. Também os incentivou a serem sempre "felizes", como os santos que nunca estão tristes. Vários temas foram abordados por Francisco e pelos jovens convidados: a paz, a defesa da vida com referência também às questões do aborto e da eutanásia, os desafios que aguardam os jovens e as suas expectativas.

Um dos jovens confidenciava, emocionado: “Quando vi o Papa, senti uma paz interior. Pensei que iria chorar, mas isso só me acalmou. Fui o primeiro a cumprimentá-lo. No final do almoço, até tomamos café colombiano. Deus manifesta-se de maneiras estranhas".

 

Via-Sacra. Cuidadosa e artisticamente preparada, a celebração da monumental Via-Sacra destas Jornadas foi celebrada na Colina do Encontro (Parque Eduardo VII).

Num cenário grandioso, tendo no cimo da Colina do Encontro o palco da celebração e um cenário de fundo habilmente concebido, foram-se desenrolando as estações da Via Sacra, devidamente encenadas.

Em cada uma das Estações estava contemplado um sofrimento ou problema dos jovens: a negação do futuro, a guerra, as quedas, a solidão, a exclusão e a intolerância, o individualismo, a incerteza da vida neste planeta, o culto da aparência, situações desumanas, o mau acolhimento dos idosos e crianças, etc.

Cada uma das estações era encenada por jovens de modo que, se não percebessem o texto, recebiam a comunicação pela imagem.

Desempenhou um papel relevante a música de fundo e as diversas intervenções da assembleia, com cânticos apropriados.

No final da Via Sacra, o Santo Padre dirigiu a palavra aos jovens:

«Uma pessoa de grande fé dizia uma frase que me tocou muito: «Senhor, pela vossa inefável agonia, posso crer no amor». Sim, Senhor, pela vossa inefável agonia, posso crer no amor. E Jesus caminha, mas anela por qualquer coisa, espera a nossa companhia, aguarda o nosso olhar... Como hei de dizer? Espera abrir as janelas da minha alma, da tua alma, da alma de cada um de nós. Como são feias as almas fechadas, que semeiam dentro, sorriem dentro! Mas isto não tem sentido. Jesus caminha e espera com o seu amor, espera com a sua ternura, para nos dar consolação, enxugar as nossas lágrimas.

Agora faço-vos uma pergunta, mas não deveis responder em voz alta; cada um responda dentro de si mesmo. Choro eu de vez em quando? Há coisas na vida que me fazem chorar?»

 

A romagem a Fátima

 

Na manhã de sábado, 5 de agosto, o Santo Padre viajou de Lisboa a Fátima de helicóptero. Ali entra aguardado por cerca de um milhão de peregrinos, distribuídos, quer ao longo do caminho que ligava o heliporto ao Santuário, quer no grande recinto.

Para cobrir esta pequena distância, o Santo Padre necessitou de cerca de uma hora. Dos dois lados do trajeto alinhavam-se muitas mães com os filhos nos braços, elevando-os, â passagem do Santo Padre, para que os abençoasse e beijasse, evocando um cenário da Vida Pública de Jesus.

 Uma vez na Capelinha das Aparições, o Santo Padre rezou o Terço com os jovens deficientes. Depois, dirigiu-lhes a palavra:

«Pensemos que estes são os dois gestos de Maria: acolhe-nos a todos e indica Jesus. E fá-lo com solicitude, apressada. Nossa Senhora solícita, que nos acolhe a todos e nos indica Jesus. Lembremo-nos disto, sempre que aqui viermos. Aqui Maria tornou-Se presente dum modo especial, para que a incredulidade de tantos corações se abrisse a Jesus. Com a sua presença, indica-nos Jesus, sempre nos aponta Jesus. E hoje está aqui entre nós; Ela está sempre entre nós, mas hoje sentimo-La muito mais próxima. Maria solícita.»

Antes de terminar a breve alocução, o Papa interpelou os jovens: «Façamos um breve momento de silêncio e cada um diga em seu coração: «Mãe, o que é que me estás a indicar? O que há na minha vida que Te preocupa? O que há na minha vida que Te entristece? O que há na minha vida que Te chama a atenção? Indica-mo!» E Ela indica o coração, para que Jesus venha até ele. E assim como nos indica Jesus, a Jesus indica o coração de cada um de nós.»

 

Encontro privado com os membros da Companhia de Jesus. Ainda neste penúltimo dia das Jornadas, o Santo Padre reservou o fim da tarde para um encontro com os membros da Companhia de Jesus, no Colégio de S. João de Brito e manteve com eles um colóquio durante cerca de uma hora.

É a sua família espiritual e sempre costuma reunir-se com os membros da Companhia em todas as visitas aos diversos países onde ela tem trabalhos apostólicos.

Em Portugal, os jesuítas estão presentes "desde a sua fundação, tendo-se destacado pela sua presença no ensino, não só em cidades como Lisboa, Coimbra e Évora, mas também através de uma rede de colégios presente em todo o território", de acordo com a mesma fonte.

A Província Portuguesa da Companhia de Jesus conta atualmente com cerca de 130 membros, dos quais 95 padres, 20 irmãos e 15 jesuítas em formação.

 

Vigília de oração

 

À noite, pelas 20h45, no Campo da Graça (Parque Tejo) realizou-se uma velada de oração diante do Santíssimo Sacramento solenemente exposto sobre o altar da Celebração.

Foi um momento forte de oração através da arte, repleto de luzes e cores, cantos, coreografias, testemunhos e Adoração Eucarística.

O recinto foi espaço, também, de muita alegria e emoção: no testemunho do padre António Ribeiro de Matos, um sacerdote português de 33 anos, narrou o seu encontro com Deus e de que modo a sua vida mudou a partir daquele encontro; e também no testemunho de Marta Luís, jovem moçambicana de 18 anos, a história difícil de sua vida, num local flagelado pela guerra, e como Deus a foi sempre conduzindo do medo à esperança.

Estes testemunhos possuíam a tonalidade de verdadeiras confidências a Jesus Sacramentado ali presente.

Foi impressionante o silêncio daqueles muitos milhares de jovens, quando ele foi pedido, como momento de oração pessoal. As câmaras de televisão mostravam-nos profundamente recolhidos e em oração.

Inspirando-se no lema desta JMJ, Maria levantou-se e partiu apressadamente, o Santo Padre desenvolveu sua reflexão, perfazendo o percurso desta noite de Vigília: encontrar, levantar e partir. Ao sublinhar que Maria partiu apressadamente, lembrou que Ela realiza um gesto não solicitado e sem ser obrigada. Partiu simplesmente porque ama e "quem ama voa, corre feliz".

Maria não espera, toma a iniciativa: vai ajudar a prima Isabel e, sobretudo, apressa-se a dar-lhe o que há de mais precioso: a alegria. É missionária da alegria e por isso tem pressa, frisou o Pontífice. "A alegria é missionária!".

E acrescentou: «Às vezes, não temos vontade de caminhar, não temos vontade de nos esforçar, copiamos nas provas porque não queremos estudar e não conseguimos.»

Concluiu, por fim: «Deixo-vos com esta ideia: caminhar e, se caírem, levantar-se. Caminhar com uma meta. Treinar todos os dias na vida. Na vida, nada é gratuito. Tudo se paga. Só há uma coisa gratuita: o amor de Jesus. Portanto, com essa dádiva gratuita que temos, o amor de Jesus, e com o desejo de caminhar, caminhemos com esperança, olhemos para nossas raízes e sigamos em frente sem medo, sem medo. Não tenham medo!»

Um milhão e meio de pessoas presentes na Vigília acolheu em profundo recolhimento as palavras do Santo Padre.

 

 

 

 

Fernando Silva

(Continua)

 

 

 

 


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