Quinta-Feira Santa

28 de Março de 2024

 

 

Missa Vespertina da Ceia do Senhor

 

Segundo uma antiquíssima tradição da Igreja, são proibidas neste dia todas as Missas sem participação do povo.

De tarde, à hora mais conveniente, celebra-se a Missa da Ceia do Senhor, com plena participação de toda a comunidade local; nela, todos os sacerdotes e ministros exercem o seu ofício próprio.

Os sacerdotes que tiverem concelebrado na Missa crismal, ou tiverem celebrado para utilidade dos fiéis, podem novamente concelebrar nesta Missa vespertina.

Onde o exigir o interesse pastoral, o Ordinário do lugar pode permitir a celebração de outra Missa nas igrejas, oratórios públicos ou semipúblicos nas horas vespertinas e, em casos de verdadeira necessidade, até da parte da manhã, mas só para os fiéis que de nenhum modo podem tomar parte na Missa vespertina. Deve evitar-se, no entanto, que tais celebrações se façam em proveito de pessoas particulares ou possam prejudicar a Missa vespertina principal.

A sagrada comunhão só pode ser distribuída aos fiéis dentro da Missa. Aos doentes, porém, pode levar-se a comunhão a qualquer hora do dia.

O sacrário deve estar completamente vazio. Para a comunhão do clero e dos fiéis, consagre-se nesta Missa pão suficiente para hoje e amanhã.

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Toda a nossa glória – M. Simões, NRMS, 25

cf. Gal 6, 14

Antífona de entrada: Toda a nossa glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. N'Ele está a nossa salvação, vida e ressurreição. Por Ele fomos salvos e livres.

 

Diz-se o Glória. Enquanto se canta este hino, tocam-se os sinos, que não voltarão a tocar-se até à Vigília Pascal, a não ser que a Conferência Episcopal ou o Ordinário do lugar julguem oportuno estabelecer outra coisa.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A entrada no Tríduo Pascal faz-se por meio da Missa Vespertina da Ceia do Senhor. O convite é o de nos deixarmos incandescer de amor à medida que o Senhor Jesus revela como se cumpre o plano salvífico de Deus e como pelo cumprimento da vontade de Deus, Ele nos resgata para a nossa cidadania de vida eterna.

 

Oração colecta: Senhor nosso Deus, que nos reunistes para celebrar a Ceia santíssima em que o vosso Filho Unigénito, antes de Se entregar à morte, confiou à Igreja o sacrifício da nova e eterna aliança, fazei que recebamos, neste sagrado banquete do Seu amor, a plenitude da caridade e da vida. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O resgate do Povo de Israel é recordado como uma saída triunfal em que Deus faz sentir o poder do seu braço e contra todos os poderes, mostra a sua vontade de salvar Israel.

 

Êxodo 12,1-8.11-14

 

1Naqueles dias, o Senhor disse a Moisés e a Aarão na terra do Egipto: 2«Este mês será para vós o princípio dos meses; fareis dele o primeiro mês do ano. 3Falai a toda a comunidade de Israel e dizei-lhe: No dia dez deste mês, procure cada qual um cordeiro por família, uma rês por cada casa. 4Se a família for pequena demais para comer um cordeiro, junte-se ao vizinho mais próximo, segundo o número de pessoas, tendo em conta o que cada um pode comer. 5Tomareis um animal sem defeito, macho e de um ano de idade. Podeis escolher um cordeiro ou um cabrito. 6Deveis conservá-lo até ao dia catorze desse mês. Então, toda a assembleia da comunidade de Israel o imolará ao cair da tarde. 7Recolherão depois o seu sangue, que será espalhado nos dois umbrais e na padieira da porta das casas em que o comerem. 8E comerão a carne nessa mesma noite; comê-la-ão assada ao fogo, com pães ázimos e ervas amargas. 11Quando o comerdes, tereis os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão. Comereis a toda a pressa: é a Páscoa do Senhor. 12Nessa mesma noite, passarei pela terra do Egipto e hei-de ferir de morte, na terra do Egipto, todos os primogénitos, desde os homens até aos animais. Assim exercerei a minha justiça contra os deuses do Egipto, Eu, o Senhor. 13O sangue será para vós um sinal, nas casas em que estiverdes: ao ver o sangue, passarei adiante e não sereis atingidos pelo flagelo exterminador, quando Eu ferir a terra do Egipto. 14Esse dia será para vós uma data memorável, que haveis de celebrar com uma festa em honra do Senhor. Festejá-lo-eis de geração em geração, como instituição perpétua».

 

Temos aqui, num texto de tipo catequético-litúrgico, a promulgação da lei da Páscoa judaica como «instituição perpétua», a ser festejada por todas as gerações (v. 14). Na origem desta festa da «Páscoa» – dum étimo semítico psh: salto festivo – parece estar uma antiga festa de pastores nómadas, própria da Primavera, a época em que nascem os cordeiros; então sacrificavam um cordeiro recém-nascido e com o seu sangue faziam ritos a implorar protecção e a fecundidade. Também pela época da Primavera parece que havia outra festa, a dos «Ázimos», com o sentido de novidade e rotura com o passado (o fermento). As duas festas vieram a fundir-se numa só. A Torá terá assumido estas duas festas, dando-lhes o novo e profundo significado que neste texto legal fica bem assinalado: celebrar a libertação do Egipto.

A ceia pascal é celebrada na noite de 14 para 15 do mês de Nisan (Março/Abril), a noite da lua cheia que se seguia ao equinócio da primavera, pois o 1° dia do mês era o 1º dia da lua nova; então se comiam os pães ázimos, isto é, sem fermento (do grego a-zymê, em hebraico, os matsôth) durante os sete dias da festa, de 15 a 21 de Nisan. O cordeiro imolado recordava aquele outro cordeiro com cujo sangue os israelitas marcaram as suas portas para que o «o flagelo exterminador» ali não atingisse ninguém. A própria palavra «Páscoa», como já foi dito, pode significar saltar, passar por cima de, prestando-se a significar o flagelo mortal que passou ao largo das casas dos israelitas (cf. Ex 12,27) na região de Guéssen ou Góxen. Neste texto a palavra é entendida como a passagem do Senhor, a fim de libertar o seu povo. O pão sem fermento lembrava a pressa com que os israelitas saíram do Egipto, tendo de levar consigo a massa do pão antes de ter fermentado (Ex 12,34.39; Dt 16,3).

No entanto, a celebração da Páscoa não era para os israelitas uma mera recordação agradecida da libertação duma escravidão passada, mas era algo que os orientava para uma libertação futura completa e definitiva, que se haveria de dar com a vinda do Messias. Havia mesmo uma crença judaica em que o Messias viria numa noite de Páscoa: «nesta noite foram libertados, e nela também serão libertos». Esta alegre esperança manifestava-se no costume, que ainda hoje se mantém, de deixar um lugar vazio à mesa, para alguém que chegue na última hora, que afortunadamente poderia ser o profeta Elias, precursor do Messias. De facto, um dia o próprio Messias havia de se pôr à mesa da ceia pascal, rodeado dos seus discípulos, para então inaugurar a era da autêntica e definitiva libertação. Jesus é o verdadeiro cordeiro pascal (1Cor 5,7; Jo 19,36) que se oferece em sacrifício, com cujo sangue somos redimidos e com cuja carne somos alimentados no banquete eucarístico, prelúdio do banquete celeste (cf. Mc 14,25). Os samaritanos ainda hoje celebram a Páscoa como se descreve neste texto do Êxodo, sem refeição solene, sem vinho e à pressa. Os judeus celebram-na como refeição solene; já era assim no tempo de Jesus, em razão de já terem saído da escravidão para a liberdade; mas, em vez de comerem sentados como habitualmente, comiam recostados sobre esteiras ou divãs, apoiando-se sobre o braço esquerdo, a partir da época helenística (cf. Lc 22,14).

 

Salmo Responsorial Sl 115 (116), 12-13.15-16bc.17-18 (R. cf. 1 Cor 10, 16)

 

Monição: Diante de tamanhas graças e misericórdias, o homem resgatado pergunta-se e anseia como pode entrar na intimidade do Seu Senhor.

 

Refrão:    O cálice de bênção é comunhão do Sangue de Cristo.

 

Como agradecerei ao Senhor

tudo quanto Ele me deu?

Elevarei o cálice da salvação,

invocando o nome do Senhor.

 

É preciosa aos olhos do Senhor

a morte dos seus fiéis.

Senhor, sou vosso servo, filho da vossa serva:

quebrastes as minhas cadeias.

 

Oferecer-Vos-ei um sacrifício de louvor,

invocando, Senhor, o vosso nome.

Cumprirei as minhas promessas ao Senhor,

na presença de todo o povo.

 

Segunda Leitura

 

Monição: São Paulo quer recordar-nos que o que ele mesmo recebeu não é de inspiração humana, mas sim o próprio Senhor que se doa por nós e para nós na Última Ceia.

 

1 Coríntios 11,23-26

 

Irmãos: 23Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, 24partiu-o e disse: «Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim». 25Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim». 26Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.

 

Temos aqui o relato da última Ceia, o mais antigo dos quatro que aparecem no N. T., escrito apenas uns 26 anos após o acontecimento. São Paulo diz que isto mesmo já o tinha pregado aos cristãos (v. 23) uns cinco anos atrás, durante os 18 meses em que evangelizou a cidade de Corinto, por ocasião da sua segunda viagem.

23 «Recebi do Senhor»: O original grego (com o uso da preposição apó e não pará) deixa ver que S. Paulo recebeu esta doutrina pela tradição que remonta ao Senhor e não directamente dele, por meio de alguma revelação, como alguém poderia pensar.

«Na noite em que ia ser entregue»: Celebramos hoje uma dupla entrega do Senhor, a sua entrega às mãos dos seus inimigos, para a morrer pelos nossos pecados e nos ganhar a vida divina, e a entrega no Sacramento da SS. Eucaristia, como alimento desta mesma vida divina. Para o seu amor infinito, é pouco dar-se todo uma só vez por todos; quer dar-se todo a cada um de nós todas as vezes que nos disponhamos a recebê-lo!

24 «Isto é o Meu Corpo»: A expressão de Jesus é categórica e terminante, sem deixar lugar a mal-entendidos. Não diz «aqui está o meu corpo», nem «isto simboliza o meu corpo», mas sim: «isto é o meu corpo», como se dissesse: este pão já não é pão, mas é o meu corpo, isto é, sou Eu mesmo. Todas as tentativas heréticas de entender estas palavras num sentido meramente simbólico, fazem violência ao texto e não têm seriedade. É certo que o verbo «ser» também pode ter o sentido de «ser como», «significar», mas isto é só quando do contexto se possa depreender que se trata duma comparação, o que não se dá aqui, pois não se vê como o pão seja como o Corpo de Jesus, ou como é que o pode significar. Atenda-se a que Jesus, com a palavra isto não se refere à acção de partir o pão, pois não pronuncia estas palavras enquanto parte o pão, mas depois de o ter partido; portanto não tem sentido dizer que, com a fracção do pão, o Senhor queria representar o despedaçar do seu corpo por uma morte violenta (o corpo entregue). Jesus não podia querer dizer uma tal coisa, pois, se o quisesse dizer, havia de o explicitar, uma vez que o gesto de partir o pão era um gesto usual do chefe da mesa em todas as refeições, não sendo possível ver um outro sentido; por outro lado, o beber do cálice de modo nenhum se podia prestar a um tal sentido.

Os Apóstolos vieram a entender as palavras de Jesus no seu verdadeiro realismo, como aparecem no discurso do Pão da Vida (Jo 6,51-58). Se Jesus não quisesse dar este sentido realista às suas palavras, também os seus discípulos e a primitiva Igreja não lho podiam dar, porque beber o sangue era algo sumamente escandaloso para gente criada no judaísmo, que ia ao ponto de proibir a comida de animais não sangrados. Se S. Paulo não entendesse estas palavras de Jesus num sentido realista, não teria podido afirmar no v. 27 (omitido na leitura): «quem comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor»; e no v. 29 fala de «distinguir o corpo do Senhor».

Paulo VI, na encíclica Misterium fidei, rejeitou explicações teológicas (como a da transignificação e a da transfinalização) que não respeitem suficientemente o realismo da presença real: «Mas para que, ninguém entenda erroneamente este modo de presença, que supera leis da natureza e constitui o maior dos milagres no seu género, é preciso seguir com docilidade a voz da Igreja docente e orante. Pois bem, esta voz, que é um eco perene da voz de Cristo, assegura-nos que Cristo se torna presente neste Sacramento pela conversão de toda a substância do pão no seu corpo e de toda a substância no vinho no seu sangue; conversão admirável e singular à qual a Igreja justamente e com propriedade chama transubstanciação» (atenda-se a que aqui a noção de substância não é a da Física ou da Química, mas a da Metafísica).

24-25 «Fazei isto em memória de Mim». Com estas palavras, Jesus entrega aos Apóstolos (e aos seus sucessores) o poder ministerial de celebrar o Mistério Eucarístico; por isso, Quinta-Feira Santa é o dia do sacerdócio e dos sacerdotes.

25 «A Nova Aliança com o meu Sangue»: Jesus compara o seu sangue, que vai derramar na cruz, ao sangue do sacrifício da Aliança do Sinai (cf. Ex 24,8), como sendo o novo sacrifício com que se ratifica a Nova Aliança de Deus com a Humanidade, aliança anunciada pelos profetas (Jer 31,31-33). Na Ceia temos o mesmo sacrifício do Calvário antecipado sacramentalmente através das palavras do próprio Jesus. Na Missa temos igualmente o mesmo sacrifício da Cruz renovado e representado sacramentalmente através da dupla consagração feita pelo sacerdote que actua na pessoa e em nome de Cristo, sendo Ele o mesmo oferente principal, a mesma vítima e sendo os merecimentos os mesmos do único Sacrifício redentor a serem aplicados, Sacrifício oferecido de uma vez para sempre (efápax: cf. Hebr 9,25-28; 10,10.18).

26 «Anunciareis a Morte do Senhor»: No altar já não se derrama o sangue de Cristo, como na Cruz, mas anuncia-se oferecendo, de modo incruento, o mesmo sacrifício, renovando e representando sacramentalmente o mistério da mesma Morte que se deu no Calvário. Estamos em face dum grande mistério, que transcende o nosso entendimento, mas não contradiz a razão; com efeito, Jesus ressuscitado já não está preso a um tempo e a um espaço, mas transcende-o, por isso não se multiplica o seu ser ao estar presente atrás da cortina das espécies consagradas.

 

Aclamação ao Evangelho    Jo 13, 34

 

Monição: Na Eucaristia, Jesus doa-se de todo o coração e ao manifestar assim o amor do Pai por nós, recorda-nos que é esta a nossa vocação de sempre, levá-l’O até aos confins da terra.

 

Cântico: Louvor e glória a Vós – B. Salgado, NRMS, 32

 

Dou-vos um mandamento novo, diz o Senhor:

amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.

 

 

Evangelho

 

São João 13,1-15

 

1Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. 2No decorrer da ceia, tendo já o Demónio metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, a ideia de O entregar, 3Jesus, sabendo que o Pai Lhe tinha dado toda a autoridade, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, 4levantou-Se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha que pôs à cintura. 5Depois, deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura. 6Quando chegou a Simão Pedro, este disse-Lhe: «Senhor, Tu vais lavar-me os pés?» 7Jesus respondeu: «O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais tarde». 8Pedro insistiu: «Nunca consentirei que me laves os pés». Jesus respondeu-lhe: «Se não tos lavar, não terás parte comigo». 9Simão Pedro replicou: «Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça». 10Jesus respondeu-lhe: «Aquele que já tomou banho está limpo e não precisa de lavar senão os pés. Vós estais limpos, mas não todos». 11Jesus bem sabia quem O havia de entregar. Foi por isso que acrescentou: «Nem todos estais limpos». 12Depois de lhes lavar os pés, Jesus tomou o manto e pôs-Se de novo à mesa. Então disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? 13Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. 14Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. 15Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também».

 

1 «Antes da festa da Páscoa». A ceia de que aqui se fala (v. 2) não é descrita como sendo a Ceia Pascal dos Sinópticos (Mt 26,17-35; Mc 14,12-31; Lc 22,7-39), mas não pode ser outra, por se tratar da mesma da noite em que Jesus foi preso. S. João limita-se a dizer «antes da festa da Páscoa». Não entramos a discutir a cronologia da Última Ceia, mas Jesus adiantou a Ceia pascal em um dia (seguiria a tradição de algum grupo judaico restrito). A morte de Jesus coincide com a imolação do cordeiro pascal, no dia da Preparação (19,31.42) para a festa. Sendo assim, evita dar à Última Ceia carácter pascal como os Sinópticos; e pensamos que esta pode ser uma razão para não falar da instituição da Eucaristia, aliás referida no discurso do Pão da Vida (cf. Jo 6,51-58). (Para a cronologia da Última Ceia veja-se a discussão em Jesus de Nazaré II de Bento XVI, pp. 94-100).

«Amou-os até ao fim», isto é, até à consumação (19,30), indicando o seu amor de total entrega, até à morte (cf. 15,13; 1Jo 3,16; Gal 2,20), embora com esta não termine o seu amor, pois «não só até aqui nos amou quem nos ama sempre e sem fim» (Santo Agostinho); a expressão poderia aludir também ao amor posto na realização da Eucaristia de que S. João não conta a instituição, naturalmente por já lhe ter dedicado todo o capítulo VI. Outra tradução possível: «levou o seu amor por eles até ao extremo», ou como prevê a nova tradução da CEP: «amou-os até à consumação». Jesus não só amou os seus até ao último momento da sua vida terrena, mas não podia amá-los mais: amou-nos até à loucura da Cruz e da Eucaristia.

3 «Jesus, sabendo...». Lavar os pés era um ofício exclusivo de escravos (1Sam 25,41) e os rabinos chegavam a explicitar que só se devia impor esse humilhante serviço a escravos que não fossem da raça hebraica, baseando-se em Lv 25,39. Jesus, ao sujeitar-se a esse trabalho humilhante, tem bem presente o seu poder e a sua dignidade de Filho de Deus. A oposição decidida de Pedro mostra o profundo choque causado pela atitude do Senhor. Não se pode estabelecer o momento exacto do lava-pés, pois não estavam previstas lavagens dos pés na Ceia, mas apenas o lavar das mãos; o que Jesus realiza é antes de mais uma acção simbólica, à maneira dos profetas. Talvez a discussão travada na Ceia sobre quem seria o maior dos Apóstolos (cf. Lc 22,24) tenha levado Jesus a dar-lhes uma lição com o seu gesto: é maior aquele que mais serve. Aparecem dois significados no gesto de Jesus: um simbólico e outro de exemplo a imitar. Nos vv. 6-11, sobressai mais o valor simbólico: Jesus é quem purifica os seus dos seus pecados e sem isso não se pode ter parte com Ele (v. 8), purificação que é um efeito da sua Morte redentora. Nos vv. 14-15, Jesus propõe o seu exemplo para ser imitado: «Eu vos lavei os pés, sendo Mestre e Senhor, também vós deveis lavar os pés uns aos outros», isto é, prestar aos outros todos os serviços, mesmo os mais humildes e humilhantes. Ter autoridade na Igreja (e também na sociedade civil) não é ter à disposição os outros para ser servido, mas é estar à disposição de todos para os servir eficazmente. A vida cristã consiste em imitar o exemplo de Jesus Cristo: 1Pe 2,21; 1Jo 2,6; Fil 2,5; 1Cor 11,1; Ef 5,1; 1Tes 1,6...

 

Sugestões para a homilia

 

“O Cálice de Bênção é comunhão do Sangue de Cristo”

 

Nesta noite começamos a contemplar a plenitude da nossa salvação. Tendo entrado na Semana Maior da vida cristã em Domingo de Ramos, onde começámos a meditar a Paixão do Senhor como o verdadeiro triunfo, hoje é nos concedido contemplar os gestos e as palavras do Senhor que Ele estabeleceu ao instituir o Sacramento da Eucaristia e da Ordem.

Contemplar estes sacramentos é imitar o Apóstolo São João, aprendendo dele a reclinar a cabeça sobre o peito do Senhor. Aqui o Senhor apresenta-nos todo o Seu amor, pois ritualmente celebra o que fará em Sexta-Feira Santa, entregar-se à morte, dando em plenitude a Sua vida.

Contudo, se estas primeiras palavras nos podem parecer meros floreados, as acções do Senhor não o foram. Quando o Senhor Jesus instituiu a Eucaristia, tinha três intenções muito claras: cumprir a vontade de Deus, sendo-Lhe perfeitamente agradável; obter o perdão dos nossos pecados, resgatando-nos do poder do Demónio; e permanecer junto de nós.

Sem estas três intenções, perfeitamente cumpridas da parte do Senhor Jesus, então a Páscoa não passa de um ritual inútil, no melhor dos casos, ou então é o acto mais cruel a Jesus e ao ser humano, porque um é um iludido e o ser humano vive enganado.

Assim sendo, na Ceia do Senhor como encontramos cumpridas estas intenções:

 

- Cumprimento da vontade de Deus

 

O Senhor Jesus cumpre a vontade de Deus, querendo agradar, respondendo a Deus conforme ouvimos no episódio do Seu Baptismo e na Transfiguração do Monte Tabor. Bem sabemos, conforme a Sagrada Escritura o testemunha, o problema do homem, desde os nossos primeiros pais, tem sido não agradar a Deus. Muitos podem dizer que isso é impossível pois é como querer agradar a um déspota, que muda de vontade conforme lhe apetece. Mas sabemos que não é assim, porque o Senhor deu-se a conhecer, manifestou-nos a Sua vontade e deu-nos os meios para a viver. Qual foi, então, o nosso problema desde sempre? Foi o desconfiar de Deus, não tomar a sério a Sua Palavra, não doar-se em plenitude, numa palavra, o “non serviam” do Demónio. Eu e não Deus.

O Senhor Jesus mostra-nos como se pode inverter este caminho querendo a vontade de Deus. Que vontade é esta? Que nos aproximemos d’Ele. Como acontece isto? Vindo até nós, assumindo a nossa carne e pagando a dívida ao Eterno Pai, dívida que acumulamos e que nunca conseguiremos pagar. Só assim podemos entrar na vontade de Deus. Este caminho é feito recordando como Deus sempre esteve junto de nós, como sempre cumpriu as Suas promessas, mesmo nos momentos em que a carne, o mundo e o Demónio se levantaram contra Deus, como recorda a história de Israel, especialmente a salvação do Egipto.

 

- Obtenção do perdão dos pecados

 

O Senhor Jesus obtém-nos o perdão dos pecados no oferecimento de Si mesmo e isto torna-se tão claro quando diz “isto é o meu Corpo” e “este cálice é a nova aliança no meu Sangue”. Aqui, de forma ritual, Jesus mostra o que Lhe vai acontecer: dar o seu corpo e o Seu Sangue, o mais íntimo de Si, para que o poder do Demónio e tudo o que ele inspira não passam de falsidades e mentiras.

 

- Permanecer junto de nós

 

Na última Ceia, Jesus cumpre a intenção de ficar junto de nós porque nos diz “fazei isto em memória de Mim”. Precisamente porque sabe o quão facilmente somos tentados e enganados pelo Inimigo, Ele fica junto de nós para nos indicar que é sempre n’Ele, habitados e alimentados por Ele que podemos responder e cumprir a vontade de Deus Pai.

 

Palavra do Papa (Homília do Papa Francisco, Novo complexo penitenciário em Civitavecchia, Quinta-Feira Santa, 14 de Abril de 2022)

 

Todas as quintas-feiras santas lemos esta passagem do Evangelho: é uma coisa simples. Jesus, com os seus amigos, os seus discípulos, está na ceia, a ceia da Páscoa; Jesus lava os pés aos seus discípulos — fez uma coisa estranha: nessa altura os escravos lavavam os pés à entrada da casa. E depois, Jesus — com um gesto que também toca o coração — lava os pés ao traidor, aquele que o vende.  Jesus é assim e ensina-nos isto, simplesmente: deveis lavar os pés uns aos outros. É o símbolo: entre vós, deveis servir-vos uns aos outros; um serve o outro, sem interesse. Como seria bom se isto pudesse ser feito todos os dias e a todas as pessoas: mas há sempre interesse, que é como uma serpente que entra. E ficamos escandalizados quando dizemos: “Fui àquele guichet público, obrigaram-me a pagar um suborno”. Isto dói, porque não é bom. E frequentemente procuramos o nosso próprio interesse na vida, como se estivéssemos a pagar um ao outro um suborno. Em vez disto, é importante fazer tudo sem interesse: um serve o outro, um é o irmão do outro, um faz o outro crescer, um corrige o outro, e desta forma as coisas devem avançar. Servir! E depois, o coração de Jesus, que diz ao traidor: “Amigo” e também espera por ele, até ao fim: ele perdoa tudo. Gostaria de colocar isto no coração de todos nós hoje, no meu também: Deus perdoa tudo e Deus perdoa sempre! Somos nós que nos cansamos de pedir perdão. E cada um de nós, talvez, tenha algo no seu coração, que carrega há algum tempo, que lhe causa um zumbido, algum pequeno esqueleto escondido no armário. Mas, pedir perdão a Jesus: Ele perdoa tudo. Ele só quer a nossa confiança para pedir perdão. Podes fazê-lo quando estás sozinho, quando estás com outros companheiros, quando estás com o sacerdote. Esta é uma bela oração para hoje: “Mas, Senhor, perdoai-me. Eu tentarei servir os outros, mas Tu serves-me com o Teu perdão”. Foi assim que ele pagou, com o perdão.  Este é o pensamento com que gostaria de vos deixar. Para servir, para nos ajudarmos uns aos outros e para termos a certeza de que o Senhor perdoa. E quanto perdoa ele? Tudo! E até que ponto? Sempre! Ele não se cansa de perdoar: somos nós que nos cansamos de pedir perdão.

 

E agora, procurarei fazer o mesmo gesto de Jesus: lavar-vos os pés. Faço-o de coração porque nós, sacerdotes, deveríamos ser os primeiros a servir os outros, não a explorar os outros. O clericalismo por vezes leva-nos por este caminho. Mas temos de servir. Isto é um sinal, também um sinal de amor por estes irmãos e irmãs e por todos vós aqui; um sinal que significa: “Eu não julgo ninguém. Procuro servir a todos”. Há Aquele que julga, mas é um Juiz bastante estranho, o Senhor: ele julga e perdoa. Sigamos esta cerimónia com o desejo de servir e nos perdoarmos.

 

Na homilia comentam-se os grandes mistérios que neste dia se comemoram: a instituição da sagrada Eucaristia e do sacramento da Ordem e o mandato do Senhor sobre a caridade.

 

Lava-pés

 

Fala o Santo Padre

 

"A proclamação do Evangelho está sempre ligada ao abraço duma cruz concreta.

A luz suave da Palavra gera clareza nos corações bem-dispostos, e confusão e rejeição naqueles que o não estão."

 

No Evangelho, vemos uma mudança de sentimentos nas pessoas que estavam a escutar o Senhor. É uma mudança dramática que nos mostra quão ligadas estão a perseguição e a cruz ao anúncio do Evangelho. A admiração suscitada pelas palavras repletas de graça que saíam da boca de Jesus durou pouco no espírito do povo de Nazaré. Uma frase que alguém murmurou em voz baixa: «Mas este, quem é? O filho de José?» (cf. Lc 4, 22). Aquela frase tornou-se insidiosamente «viral»: «Mas, quem é este? Não é o filho de José?»

 

Trata-se de uma daquelas frases ambíguas que se dizem por dizer. Uma pessoa pode usá-la para exprimir alegria: «Que maravilha ver alguém de origens tão humildes falar com esta autoridade!» Mas outra pode usá-la com desdém: «E isto, donde lhe veio? Que pensa ser?» Se notarmos bem, o caso repete-se quando os Apóstolos, no dia de Pentecostes, cheios do Espírito Santo, começam a pregar o Evangelho. Alguém disse: «Esses que estão a falar, não são todos galileus?» (At 2, 7). E enquanto alguns acolheram a Palavra, outros consideraram-nos bêbados.

 

Formalmente, parecia que se deixava em aberto uma escolha; mas, se considerarmos os frutos, naquele contexto concreto tais palavras continham um germe de violência que se desencadeou contra Jesus.

É uma «frase motivadora»,[1] como quando se diz: «Isto é demais!» e agride o outro ou deixa-o e vai-se embora.

 

O Senhor, que às vezes ficava calado ou passava à outra margem, aqui não renunciou a comentar, desmascarando a lógica maligna que se escondia sob a aparência duma simples bisbilhotice de aldeia. «Certamente ides citar-me o provérbio: “Médico, cura-te a ti mesmo”. Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum, fá-lo também aqui na tua terra» (Lc 4, 23). «Cura-te a ti mesmo…»

«Salve-se a si mesmo». Aqui está o veneno! É a mesma frase que acompanhará o Senhor até à cruz: «Salvou os outros; salve-Se a Si mesmo» (Lc 23, 35); «e – acrescentará um dos dois ladrões – salve a nós também» (23, 39).

 

Como sempre faz, o Senhor não dialoga com o espírito maligno; responde apenas com a Sagrada Escritura. Nem mesmo os profetas Elias e Eliseu foram aceites pelos seus compatriotas, mas foram-no por uma viúva fenícia e um sírio leproso: dois estrangeiros, duas pessoas doutra religião. Os factos são contundentes e provocam o efeito que profetizara aquele idoso carismático do Simeão: Jesus seria «sinal de contradição» (Lc 2, 34; semeion antilegomenon[2]).

 

A palavra de Jesus tem o poder de trazer à luz aquilo que uma pessoa guarda no coração, sendo habitualmente uma mistura de coisas como o trigo e o joio. E isto provoca luta espiritual. Ao ver os gestos de superabundante misericórdia do Senhor e ao ouvir as suas bem-aventuranças seguidas das invetivas «ai de vós!» no Evangelho, a pessoa vê-se obrigada a discernir e escolher. Neste caso, a sua palavra não foi acolhida, acabando a multidão, enfurecida, por tentar tirar-Lhe a vida. Mas ainda não era «a hora»; e o Senhor – diz-nos o Evangelho –, «passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho» (Lc 4, 30).

Não era a hora, mas a rapidez com que se desencadeou a fúria e a brutalidade do encarniçamento, capaz de matar o Senhor naquele preciso momento, mostra-nos que é sempre a hora. E isto mesmo é o que desejo partilhar hoje convosco, queridos sacerdotes: andam juntas a hora do anúncio jubiloso e a hora da perseguição e da cruz.

 

A proclamação do Evangelho está sempre ligada ao abraço duma cruz concreta. A luz suave da Palavra gera clareza nos corações bem-dispostos, e confusão e rejeição naqueles que o não estão. Vemos isto constantemente no Evangelho.

 

A boa semente lançada no campo dá fruto – cento, sessenta, trinta por um –, mas desperta também a inveja do inimigo que obsessivamente começa a semear joio durante a noite (cf. Mt 13, 24-30.36-43).

A ternura do pai misericordioso atrai irresistivelmente o filho pródigo para que regresse a casa, mas suscita também a indignação e o ressentimento do filho mais velho (cf. Lc 15, 11-32).

A generosidade do dono da vinha é motivo de gratidão nos trabalhadores da última hora, mas é motivo também de comentários azedos nos primeiros, que se sentem ofendidos porque o dono é bom (cf. Mt 20, 1-16).

 

A proximidade de Jesus, que vai comer com os pecadores, ganha corações como o de Zaqueu, o de Mateus, o da Samaritana..., mas provoca também sentimentos de desprezo naqueles que se consideram justos.

 

A magnanimidade daquele homem que manda o seu filho pensando que seria respeitado pelos vinhateiros, desencadeia todavia neles uma brutalidade sem medida: estamos perante o mistério da iniquidade, que leva a matar o Justo (cf. Mt 21, 33-46).

 

Tudo isto, queridos irmãos sacerdotes, nos mostra que a proclamação da Boa Nova está misteriosamente ligada à perseguição e à cruz. Santo Inácio de Loyola, na contemplação do Presépio (desculpai-me a publicidade de família!), naquela contemplação do Presépio, exprime esta verdade evangélica quando nos faz observar e considerar o que fazem São José e Nossa Senhora, como, «por exemplo, caminham e trabalham porque o Senhor nasce na extrema pobreza e, no final de tantos trabalhos, de fome e sede, de calor e frio, de injúrias e afrontas, morre na cruz. E tudo isto por mim. Depois – acrescenta Inácio –, refletindo, tira algum proveito espiritual» (Exercícios espirituais, 116). A alegria pelo nascimento do Senhor, o sofrimento da Cruz, a perseguição.

Ora, a fim de «tirar algum proveito» para a nossa vida sacerdotal, que reflexão poderemos fazer ao contemplar esta presença precoce da cruz (da incompreensão, da rejeição, da perseguição) no início e no meio da pregação evangélica? Vêm-me à mente duas reflexões.

 

A primeira: não nos deve maravilhar a constatação de estar presente a cruz na vida do Senhor no início de seu ministério, pois estava já antes do seu nascimento: já está presente no primeiro turbamento de Maria ao ouvir o anúncio do Anjo; está presente nas insónias de José, sentindo-se obrigado a abandonar a sua esposa prometida; está presente na perseguição de Herodes e nas agruras sofridas pela Sagrada Família, iguais às de tantas famílias que têm de exilar-se da sua pátria.

 

Esta realidade abre-nos ao mistério da cruz experimentada antes. Faz-nos compreender que a cruz não é um facto indutivo, um facto ocasional produzido por uma conjuntura na vida do Senhor. É verdade que todos os crucificadores da história fazem aparecer a cruz como um dano colateral, mas não é assim: a cruz não depende das circunstâncias. As grandes cruzes da humanidade e as pequenas – digamos assim! – cruzes nossas, de cada um de nós não dependem das circunstâncias.

 

Porque é que o Senhor abraçou a cruz em toda a sua integridade? Porque é que Jesus abraçou a paixão inteira: abraçou a traição e o abandono dos seus amigos já desde a Última Ceia, aceitou a prisão ilegal, o julgamento sumário, a sentença desproporcionada, a malvadez sem motivo das bofetadas e cuspidelas? Se as circunstâncias determinassem o poder salvífico da cruz, o Senhor não teria abraçado tudo. Mas quando chegou a sua hora, abraçou a cruz inteira. Porque a cruz não tolera ambiguidade; com a cruz, não se regateia!

 

E a segunda reflexão é esta. É verdade que há algo na cruz que é parte integrante da nossa condição humana, com os seus limites e fragilidades. Mas é verdade também que, daquilo que acontece na cruz, há algo que não é inerente à nossa fragilidade, mas é a mordedura da serpente que, vendo o Crucificado indefeso, morde-O e tenta envenenar e desacreditar toda a sua obra. Mordedura, que procura escandalizar – esta é uma época dos escândalos –, mordedura que procura imobilizar e tornar estéril e insignificante todo o serviço e sacrifício de amor pelos outros. É o veneno do maligno que continua a insistir: salva-te a ti mesmo.

 

E nesta mordedura, cruel e dolorosa, que pretende ser mortal, aparece finalmente o triunfo de Deus. São Máximo, o Confessor, fez-nos ver que a situação se inverteu com Jesus crucificado: ao morder a carne do Senhor, o demónio não O envenenou – n’Ele, só encontrou mansidão infinita e obediência à vontade do Pai – antes, pelo contrário, unida ao anzol da cruz engoliu a carne do Senhor, que foi veneno para ele e tornou-se para nós o antídoto que neutraliza o poder do maligno.[3]

Estas são as reflexões que me vieram à mente. Peçamos ao Senhor a graça de tirar proveito destes ensinamentos: é verdade que, no anúncio do Evangelho, há cruz; mas é uma cruz que salva. Pacificada com o Sangue de Jesus, é uma cruz com a força da vitória de Cristo que vence o mal e liberta-nos do maligno. Abraçá-la com Jesus e como Ele, desde «antes» de ir pregar, permite-nos discernir e repelir o veneno do escândalo com que o demónio procurará envenenar-nos quando chegar inesperadamente uma cruz na nossa vida.

 

«Nós, porém, não somos daqueles que voltam atrás (hypostolos)»: diz o autor da Carta aos Hebreus (10, 39). «Nós, porém, não somos daqueles que voltam atrás», é o conselho que nos dá: nós não nos escandalizamos, porque Jesus não Se escandalizou ao ver que o seu jubiloso anúncio de salvação aos pobres não ressoava puro, mas no meio dos gritos e ameaças de quem não queria ouvir a sua Palavra ou queria reduzi-la a legalismos (moralistas, clericalistas…).

Não nos escandalizamos porque Jesus não Se escandalizou por ter de curar doentes e libertar prisioneiros no meio das discussões e controvérsias moralistas, legalistas e clericais que suscitava sempre que fazia o bem.

 

Não nos escandalizamos porque Jesus não Se escandalizou por ter de dar a vista a cegos no meio de gente que fechava os olhos para não ver ou olhava para o lado.

Não nos escandalizamos porque Jesus não Se escandalizou pelo facto da sua proclamação do ano de graça do Senhor – um ano que é a história inteira – ter provocado um escândalo público que hoje ocuparia apenas a terceira página dum jornal de província.

E não nos escandalizamos porque o anúncio do Evangelho não recebe a sua eficácia das nossas palavras eloquentes, mas da força da cruz (cf. 1 Cor 1, 17).

Pelo modo como abraçamos a cruz ao anunciar o Evangelho – com as obras e, se necessário, com as palavras –, manifestam-se duas coisas: primeira, os sofrimentos que derivam do Evangelho não são nossos, mas «os sofrimentos de Cristo em nós» (2 Cor 1, 5), e, segunda, «não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor» e somos «servos, por amor de Jesus» (2 Cor 4, 5).

 

Quero concluir com uma recordação que tenho dum momento muito escuro da minha vida. Eu pedia ao Senhor a graça de me libertar daquela situação dura e difícil. Era um momento negro. Uma vez, fui pregar o Retiro a algumas religiosas, que, no último dia – como era costume então –, se confessaram. Veio uma irmã muito idosa, com olhos límpidos, mesmo luminosos. Era uma mulher de Deus. No fim, senti vontade de lhe pedir que rezasse por mim, dizendo-lhe: «Irmã, como penitência reze por mim, porque preciso duma graça. Peça-a ao Senhor. É que, se for a Irmã a pedi-la, com certeza o Senhor me la dará». Ela ficou em silêncio, parou um bom bocado, como se estivesse a rezar, depois olhou para mim e disse-me: «Certamente o Senhor conceder-lhe-á a graça, mas não se engane: dá-la-á segundo o seu modo divino». Isto fez-me muito bem: ouvir que o Senhor nos dá sempre o que Lhe pedimos, mas fá-lo ao modo divino. Este modo envolve a cruz. Não por masoquismo, mas por amor, por amor até ao fim.[4]

 Papa Francisco, Homilia, Praça São Pedro, 1 de abril de 2021

 

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Elevemos as nossas súplicas ao Senhor Jesus,

que lavou os pés aos Apóstolos

e nos deu o sacerdócio e a Eucaristia,

dizendo (ou: cantando), com toda a confiança:

 

R: Cristo, ouvi-nos.

Ou: Cristo, tende piedade de nós.

Ou: Cristo, ouvi-nos. Cristo, atendei-nos.

 

1. Pelo Papa N., pelo nosso Bispo N. e seus presbíteros,

para que vivam o sacerdócio como um serviço

e se dêem inteiramente aos seus irmãos,

oremos ao Senhor.

 

2. Por todo o povo santo de Deus,

para que em Cristo, lavando os pés aos seus Apóstolos,

descubra o que quer dizer “servir”,

oremos ao Senhor.

 

3. Pelos cristãos divididos entre si,

para que o memorial da Ceia de Jesus

seja para eles um ardente apelo à unidade,

oremos ao Senhor.

 

4. Pelos doentes, moribundos e agonizantes,

para que recebam a santa Unção e a Eucaristia

e o auxílio da nossa caridade,

oremos ao Senhor.

 

5. Por todos nós, que celebramos esta Páscoa,

para que a comunhão do Corpo e Sangue de Jesus,

nos leve um dia a participar na Páscoa eterna,

oremos ao Senhor.

 

Senhor Jesus Cristo,

neste dia em que nos convidais como amigos

a comer convosco a santa Páscoa,

tornai-nos dignos de participar

no banquete eterno do vosso Reino.

Vós que sois Deus com o Pai na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Ao iniciar-se a liturgia eucarística, pode organizar-se uma procissão dos fiéis com oferta para os pobres.

Entretanto, canta-se a antífona Ubi caritas ou outro cântico apropriado.

 

Cântico do ofertório: Ó Verdadeiro Corpo do Senhor – C. Silva, NRMS, 42

 

Oração sobre as oblatas: Concedei-nos, Senhor, a graça de participar dignamente nestes mistérios, pois todas as vezes que celebramos o memorial deste sacrifício realiza-se a obra da nossa redenção. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio da Santíssima Eucaristia: p. 1254 [658-770]

 

Santo: C. Silva/A. Cartageno – COM, (pg 194)

 

Monição da Comunhão

 

Para se cumprirem as promessas de Deus, Jesus dá-se, para que uma vez alimentados por Ele, sejamos verdadeiramente Seus amigos, permaneçamos n’Ele e aprendamos a cumprir a vontade de Deus.

 

Cântico da Comunhão: Isto é o meu corpo – C. Silva, OC, (pg 138)

1 Cor 11, 24.25

Antífona da comunhão: Isto é o meu Corpo, entregue por vós; este é o cálice da nova aliança no meu Sangue, diz o Senhor. Fazei isto em memória de Mim.

 

Terminada a distribuição da comunhão, deixa-se sobre o altar a píxide com as partículas para a comunhão do dia seguinte. A Missa conclui com a oração depois da comunhão:

 

Cântico de acção de graças: O Corpo de Jesus é alimento – A. Cartageno, NRMS, 60 

 

Oração depois da comunhão: Deus eterno e omnipotente, que hoje nos alimentastes na Ceia do vosso Filho, saciai-nos um dia na ceia do reino eterno. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Trasladação do Santíssimo Sacramento

 

Terminada a oração, o sacerdote, de pé, diante do altar, põe incenso no turíbulo e, de joelhos, incensa por três vezes o Santíssimo Sacramento. Em seguida, toma o véu de ombros, pega na píxide e cobre-a com as extremidades do véu.

Organiza-se a procissão, com círios e incenso, indo à frente o cruciferário com a cruz, e leva-se o Santíssimo Sacramento, através da igreja, para o lugar da reserva, preparado numa capela convenientemente ornamentada. Entretanto canta-se o hino Pange, lingua (Canta, Igreja, o Rei do mundo) – excepto as duas últimas estrofes – ou outro cântico apropriado.

Chegada a procissão ao lugar da reserva, o sacerdote depõe a píxide. Seguidamente, põe incenso no turíbulo e, de joelhos, incensa o Santíssimo Sacramento. Entretanto canta-se o Tantum ergo sacramentum. Depois fecha-se o tabernáculo ou urna da reserva.

Depois de algum tempo de oração em silêncio, o sacerdote e os ministros fazem a genuflexão e retiram-se para a sacristia.

Segue-se a desnudação do altar e, se possível, retiram-se as cruzes da igreja. Se algumas ficam na igreja, é conveniente cobri-las.

Os que tomaram parte na Missa vespertina não são obrigados à celebração das Vésperas.

Exortem-se os fiéis, tendo em conta as circunstâncias e as diversas situações locais, a dedicar algum tempo da noite à adoração do Santíssimo Sacramento. A partir da meia noite, porém, esta adoração faz-se sem solenidade.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

O Senhor Jesus estabeleceu a Eucaristia e o Sacerdócio para poder ficar junto de nós, para que alimentando-nos aprendamos a fazer o nosso caminho para o Céu. Este caminho passa sempre, como Jesus nos testemunhou pela negação de si próprio, para que se cumpra a vontade de Deus. Acompanhemos o Senhor nesta noite derradeira em que Ele nos ensina a combater o derradeiro combate das nossas vidas, o de viver como filhos de Deus.

 

Cântico final: Vós sereis meus amigos – M. Luís, CAC, pg 425

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:            Jorge Miguel S. Carvalho

Nota Exegética:          Geraldo Morujão

Sugestão Musical:      José Carlos Azevedo

 


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