DOCUMENTAÇÃO

BENTO XVI

 

APRESENTAÇÃO DA ENCÍCLICA «DEUS É AMOR»

 

Assinada no dia de Natal de 2005, a primeira Encíclica do Papa Bento XVI, «Deus caritas est», foi por fim publicada em 25 de Janeiro passado, festa da Conversão de S. Paulo.

Dois dias antes, no Encontro promovido pelo Conselho Pontifício «Cor unum», o Santo Padre apresentara e explicara a finalidade da sua Encíclica. Oferecemos a parte substancial do seu discurso.

 

A palavra «amor» está hoje tão desgastada, consumida e abusada que quase se teme deixá-la aflorar aos próprios lábios. Contudo, é uma palavra primordial, expressão da realidade primordial; nós não podemos simplesmente abandoná-la, mas devemos retomá-la, purificá-la e reconduzi-la ao seu esplendor originário, para que possa iluminar a nossa vida e guiá-la para a recta via. Foi esta consciência que me levou a escolher o amor como tema da minha primeira Encíclica. Desejava tentar dizer ao nosso tempo e à nossa existência algo do que Dante na sua visão recapitulou de modo audacioso. Ele narra uma «vista» que «se afirmava» enquanto ele olhava e o mudava interiormente (cf. Par., XXXIII, vv. 112-114). Trata-se precisamente disto: que a fé se torne uma visão-compreensão que nos transforma. Era meu desejo ressaltar a centralidade da fé em Deus – naquele Deus que assumiu um rosto humano e um coração humano. A fé não é uma teoria que se pode fazer própria ou também pôr de lado. É uma coisa muito concreta: é o critério que decide o nosso estilo de vida. Numa época na qual a hostilidade e a avidez se tornaram superpotências, uma época na qual assistimos ao abuso da religião até à apoteose do ódio, a racionalidade neutra por si não é capaz de nos proteger. Precisamos do Deus vivo, que nos amou até à morte.

Assim, nesta Encíclica, os temas «Deus», «Cristo» e «Amor» estão unidos como guia central da fé cristã. Desejava mostrar a humanidade da fé, da qual faz parte o eros – o «sim» do homem à sua corporeidade criada por Deus, um «sim» que no matrimónio indissolúvel entre homem e mulher encontra a sua forma radicada na criação. E ali acontece também que o eros se transforma em ágape – que o amor pelo outro já não se procura a si mesmo, mas se torna preocupação pelo outro, disposição para o sacrifício por ele e também abertura ao dom de uma nova vida humana. O ágape cristão, o amor pelo próximo no seguimento de Cristo não é algo alheio, colocado ao lado ou até contra o eros; pelo contrário, no sacrifício que Cristo fez de si pelo homem, encontrou uma nova dimensão que, na história da dedicação caritativa dos cristãos aos pobres e aos que sofrem, se desenvolveu cada vez mais.

Uma primeira leitura da Encíclica poderia talvez suscitar a impressão de que ela se divide em duas partes entre si pouco ligadas: uma primeira parte teórica, que fala da essência do amor, e uma segunda que trata a caridade eclesial, das organizações caritativas. Contudo, a mim interessava-me precisamente a unidade dos dois temas que, somente se forem vistos como uma única coisa, serão bem compreendidos.

Primeiro, era preciso tratar da essência do amor como se apresenta a nós na luz do testemunho bíblico. Partindo da imagem cristã de Deus, era necessário mostrar como o homem é criado para amar e como este amor, que inicialmente aparece sobretudo como eros entre homem e mulher, deve depois transformar-se interiormente em ágape, em dom de si ao outro – e isto precisamente para responder à verdadeira natureza do eros. Nesta base, devia-se depois esclarecer que a essência do amor de Deus e do próximo descrito na Bíblia é o centro da existência cristã, é o fruto da fé.

A seguir, porém, numa segunda parte, era necessário ressaltar que o acto totalmente pessoal da ágape nunca pode permanecer uma coisa somente individual, mas pelo contrário deve tornar-se também um acto essencial da Igreja como comunidade: isto é, tem também necessidade da forma institucional que se expressa no agir comunitário da Igreja. A organização eclesial da caridade não é uma forma de assistência social que se acrescenta por acaso à realidade da Igreja, uma iniciativa que se poderia deixar também para outros. Pelo contrário, ela faz parte da natureza da Igreja. Como ao Logos divino corresponde o anúncio humano, a palavra da fé, assim ao Ágape, que é Deus, deve corresponder o ágape da Igreja, a sua actividade caritativa. Esta actividade, além do primeiro significado muito concreto de ajudar o próximo, possui essencialmente também o de comunicar aos outros o amor de Deus, que nós próprios recebemos. Ela deve tornar visível de alguma forma o Deus vivo. Deus e Cristo na organização caritativa não devem ser palavras alheias; na realidade elas indicam a fonte originária da caridade eclesial. A força da Caritas depende da força da fé de todos os membros e colaboradores.

O espectáculo do homem que sofre toca o nosso coração. Mas o compromisso caritativo tem um sentido que vai muito além da simples filantropia. É o próprio Deus que nos impele no íntimo a aliviar a miséria. Assim, em última análise, é Ele mesmo que nós levamos ao mundo que sofre. Quanto mais consciente e claramente o levamos como dom, tanto mais eficazmente o nosso amor mudará o mundo e despertará a esperança –uma esperança que vai além da morte e só assim é verdadeira esperança para o homem.


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