DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR

24 de Março de 2024

 

Neste dia, a Igreja recorda a entrada de Cristo, o Senhor, em Jerusalém, para consumar o seu mistério pascal. Por isso, em todas as Missas se comemora esta entrada do Senhor na cidade santa: ou com a procissão, ou com a entrada solene antes da Missa principal, ou com a entrada simples antes das outras Missas. A entrada solene (mas sem procissão) pode repetir-se antes de outras Missas que se celebram com grande assistência de fiéis.

 

 

A. Comemoração da entrada do Senhor em Jerusalém

 

 

Primeira forma: Procissão

 

À hora marcada, reúnem-se todos numa igreja secundária ou noutro lugar apropriado fora da igreja para a qual se dirige a procissão. Os fiéis levam ramos na mão.

O sacerdote e o diácono, revestidos de paramentos vermelhos próprios da Missa, dirigem-se para o lugar onde o povo está reunido. O sacerdote, em vez da casula, pode levar o pluvial, que deporá terminada a procissão.

Entretanto, canta-se a antífona seguinte ou outro cântico apropriado.

 

Mt 21, 9

Antífona: Hossana ao Filho de David. Bendito o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel. Hossana nas alturas.

 

O sacerdote, ao chegar, saúda o povo na forma habitual. Depois exorta os fiéis a participarem activa e conscientemente na celebração deste dia, dizendo estas palavras ou outras semelhantes:

 

A liturgia do Domingo de Ramos consta de três partes: a bênção dos ramos, a procissão e a Santa Missa.

No seculo IV a procissão visava recordar a entrada triunfal de Jesus na Cidade Santa, mas também a sua entrada gloriosa no Céu, acompanhado das almas santas que aguardavam a redenção.

Quando a procissão chegava à igreja a porta se encontrava fechada, e dentro havia um coro que alternava com o coro da procissão o canto do Gloria. A seguir o celebrante dava três pancadas na porta com o pé da cruz e a porta era aberta. Deste modo a procissão entrava no templo, verdadeira figura da Jerusalém celeste.

A cerimónia da Entrada era assim a celebração litúrgica da vitória de Nosso Senhor, que pela sua Paixão e morte na Cruz abriu à Humanidade a porta do Céu.

Nossa vida é uma procissão, uma peregrinação, com Jesus Cristo ressuscitado e presente no meio de nós, até essa Porta do Céu, aguarda nossa chegada. Mas para lá chegarmos temos de carregar, com alegria, a cruz que nos salva.

 

Seguidamente, o sacerdote, de mãos juntas, diz uma das seguintes orações:

 

 

Oremos.

Deus eterno e omnipotente, santificai com a vossa bênção estes ramos, para que, acompanhando a Cristo nosso Rei nesta celebração festiva, mereçamos entrar com Ele na Jerusalém celeste. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

R. Amen.

 

Ou:

 

Aumentai, Senhor, a fé dos que esperam em Vós e ouvi com bondade as nossas humildes súplicas, para que, aclamando com estes ramos a Cristo vitorioso, permaneçamos unidos a Ele e dêmos fruto abundante de boas obras. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

R. Amen.

 

Terminada a oração, asperge os ramos com água benta, sem dizer nada.

A seguir, faz-se a proclamação do Evangelho da entrada do Senhor, segundo o texto evangélico correspondente a cada um dos ciclos. Esta proclamação é feita do modo habitual pelo diácono, ou, na falta dele, pelo sacerdote.

 

Evangelho

 

São Marcos 11,1-10

Naquele tempo, 1ao aproximarem-se de Jerusalém, cerca de Betfagé e de Betânia, junto do monte das Oliveiras, Jesus enviou dois dos seus discípulos 2e disse-lhes: «Ide à povoação que está em frente e, logo à entrada, vereis um jumentinho preso, que ninguém montou ainda. Soltai-o e trazei-o. 3E se alguém perguntar porque fazeis isso, respondei: ‘O Senhor precisa dele, mas não tardará em mandá-lo de volta’». 4Eles partiram e encontraram um jumentinho, preso a uma porta, cá fora na rua, e soltaram-no. 5Alguns dos que ali estavam perguntaram-lhes: «Porque estais a desprender o jumentinho?» 6Responderam-lhes como Jesus tinha dito e eles deixaram-nos ir. 7Levaram o jumentinho a Jesus, lançaram-lhe por cima as capas e Jesus montou nele. 8Muitos estenderam as suas capas no caminho e outros, ramos de verdura, que tinham cortado nos campos. 9E tanto os que iam à frente como os que vinham atrás clamavam: «Hossana! Bendito O que vem em nome do Senhor! 10Bendito o reino que vem, o reino do nosso pai David! Hossana nas alturas!»

 

ou

 

São João 12,12-16

12Naquele tempo, a grande multidão que tinha vindo à festa da Páscoa, ao ouvir dizer que Jesus ia chegar a Jerusalém, 13apanhou ramos de palmeira e saiu ao seu encontro, clamando: «Hossana! Bendito O que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel!» 14Jesus encontrou um jumentinho e montou nele, como está escrito: 15«Não temas, filha de Sião: Eis que vem o teu Rei, sentado sobre o filho de uma jumenta». 16Os discípulos não entenderam isto ao princípio, mas, quando Jesus foi glorificado, lembraram-se de que assim estava escrito acerca d’Ele e era isso mesmo que eles tinham feito.

 

Os quatro evangelistas referem a entrada de Jesus em Jerusalém, com algumas pequenas diferenças. Em S. João aparece mais como uma iniciativa da multidão, ao passo que nos Sinópticos é Jesus a preparar a sua entrada.

«Um jumentinho». Mateus fala também da jumenta, mãe do jumentinho para sublinhar o cumprimento da letra da profecia de Zacarias 9,9. A entrada dos peregrinos em Jerusalém fazia-se a pé; Jesus, porém, quer entrar a cavalo, desta vez. Tendo evitado até então todas as aclamações messiânicas, mostrar-se agora como o Messias nesta última visita à cidade, entrando montado num humilde jumentinho, e não como um rei temporal, ou um general vitorioso, montado num corcel. Ele não é um rei dominador, em concorrência com os poderosos da terra, mas o rei cheio de mansidão, o príncipe da paz.

A aclamação é a do Salmo 118 (117), e dela se fazem eco todos os fiéis na Liturgia eucarística: «Bendito o que vem» (baruk habá é ainda hoje a saudação de boas-vindas em Israel). «Hossana» é uma palavra hebraica que aqui tem um sentido de aclamação, correspondente ao nosso «viva!», e não uma mera prece, como indicaria a tradução literal do hebraico: «salva, por favor, (ó Deus)». A saudação do Salmo era uma bênção com que se recebia o peregrino que subia a Jerusalém; aqui é uma aclamação do povo que acompanha Jesus no cortejo. Nos Sinópticos a aclamação, com distintos matizes, tem o carácter de aclamação messiânica, mas em João a entrada tem claramente o aspecto de um rito de entronização, com pormenores que não aparecem nos Sinópticos: a gente sai da cidade a recebê-Lo, e com ramos de palmeira (Jo 12,13), como a um rei vitorioso.

 

Depois do Evangelho, conforme as circunstâncias, pode fazer-se uma breve homilia. A anunciar o começo da procissão, o sacerdote ou outro ministro idóneo pode fazer uma admonição, dizendo estas palavras ou outras semelhantes:

 

Imitemos, irmãos caríssimos, a multidão que aclamava Jesus na cidade santa de Jerusalém, e caminhemos em paz.

 

Inicia-se a procissão em direcção à igreja onde é celebrada a Missa.

À frente vai o turiferário com o turíbulo aceso (se se usa o incenso); depois, no meio de dois ministros com velas acesas, o cruciferário com a cruz ornamentada; segue-se o sacerdote com os outros ministros: finalmente, os fiéis com os ramos na mão.

 

Á entrada da procissão na igreja, canta-se o responsório seguinte ou outro cântico alusivo à entrada do Senhor.

 

V. Ao entrar o Senhor na cidade santa, as crianças de Jerusalém, com ramos de palmeira, anunciaram a ressurreição da vida, cantando alegremente:

R. Hossana nas alturas.

 

V. Quando o povo ouviu dizer que Jesus vinha para Jerusalém, saiu ao seu encontro com ramos de palmeira, cantando alegremente:

R. Hossana nas alturas.

 

Cântico de entrada: Todos juntos, neste dia – M. Faria, NRMS, 1(l)

 

Ao chegar ao altar, o sacerdote faz-lhe a devida reverência e, conforme as circunstâncias, incensa-o. Seguidamente, dirige-se para a sua cadeira (depõe o pluvial e veste a casula) e, omitindo tudo o mais, diz, como conclusão da procissão, a oração colecta da Missa. Terminada esta oração, a Missa continua na forma habitual.

 

A Missa deste domingo é dotada de três leituras, que muito se recomendam, se não há um motivo pastoral que aconselhe outra coisa.

Dada a importância da leitura da Paixão do Senhor, compete ao sacerdote, tendo em conta a natureza de cada grupo de fiéis, a opção de ler apenas uma das duas leituras que precedem o Evangelho, ou apenas a história da Paixão, se for necessário, mesmo na forma breve.

Isto vigora apenas para as Missas celebradas com participação do povo.

 

B. Missa

 

Depois da procissão ou da entrada solene, o sacerdote começa a Missa com a oração colecta.

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que, para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e padecesse o suplício da cruz, fazei que sigamos os ensinamentos da sua paixão, para merecermos tomar parte na glória da sua ressurreição. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Escutemos, como escutam os discípulos, a Palavra de Deus que nos chega pela experiência do profeta Isaías. Deus nos fala hoje a nós, e nos conforta, para que sejamos amparo e fortaleza de aqueles que precisam.

 

Isaías 50,4-7

 

4O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. 5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. 6Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.

 

O texto é tirado do II Isaías e corresponde aos primeiros 4 vv. do 3° poema do Servo de Yahwéh (Is 50,4-9). Quem está a falar parece ser o próprio servo, embora não seja aqui nomeado, mas é o que se deduz do contexto imediato deste canto (v. 10). De qualquer modo, considera-se como a figura profética de Jesus Cristo. O texto consta de três estrofes iniciadas com a mesma fórmula (que a tradução não respeitou): «O Senhor Deus»; na primeira sublinha-se a docilidade de discípulo; na segunda, o sofrimento que esta docilidade acarreta; na terceira, a fortaleza no meio das dores.

4 Apresenta-se «a falar como um discípulo», embora não se trate de um discípulo qualquer; é um discípulo do Senhor (cf. Is 54,13), instruído pelo próprio Deus, tal como dirá Jesus: «a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou» (Jo 7,16; cf. 14,24).

5 «Não resisti nem recuei». Mesmo os maiores profetas e os maiores santos tiveram a consciência clara de opor alguma resistência, embora sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como Moisés e Jeremias (cf. Ex 3,11; 4,10; Jer 1,6). Jesus, porém, identifica-se plenamente com a vontade do Pai (cf. Jo 4,34; Lc 22,42).

6 «Apresentei as costas àqueles que me batiam... não desviei o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam». Os evangelistas hão-de deixar ver como o pleno cumprimento deste hino profético se deu no relato da Paixão do Senhor, particularmente Mt 26,67; 27,26-30; Mc 15,19; Lc 22,63-64…

 

Salmo Responsorial Sl 21 (22), 8-9.17-18a.19-20.23-24 (R. 2a)

 

Monição: Jesus, na sua Paixão, experimentou toda a dor humana, também, de algum modo, o afastamento de Deus que sofre o pecador. Demos graças a Nosso Senhor que nos salva e recordemos que o único verdadeiro mal é o pecado.

 

Refrão:    Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

 

Todos os que me vêem escarnecem de mim,

estendem os lábios e meneiam a cabeça:

«Confiou no Senhor, Ele que o livre,

Ele que o salve, se é seu amigo».

 

Matilhas de cães me rodearam,

cercou-me um bando de malfeitores.

Trespassaram as minhas mãos e os meus pés,

posso contar todos os meus ossos.

 

Repartiram entre si as minhas vestes

e deitaram sortes sobre a minha túnica.

Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim,

sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me.

 

Hei-de falar do vosso nome aos meus irmãos,

hei-de louvar-Vos no meio da assembleia.

Vós, que temeis o Senhor, louvai-O,

glorificai-O, vós todos os filhos de Jacob,

reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Quando levantamos os nossos olhos para o Crucifixo, como Nossa Senhora no Calvário, contemplemos também o Céu que serve de fundo. O Crucificado será passados três dias, o Ressuscitado, para que também nós ressuscitemos com Ele.

 

Filipenses 2, 6-11

 

6Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, 7mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, 8humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. 9Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, 10para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, 11e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

 

A leitura constitui um admirável hino à humilhação e exaltação de Cristo, um hino que muitos exegetas pensam ser anterior ao este escrito paulino; é a mais antiga confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta dos escritos do Novo Testamento.

6 «De condição divina». Literalmente: «existindo em forma de Deus». Ora esta «forma» (morfê) de Deus, ainda que não significasse directamente a natureza divina, pelo menos indicaria a glória e a majestade, atributos especificamente divinos na linguagem bíblica. De qualquer modo, como bem observa Heinrich Schlier, a expressão em forma de Deus não quer dizer que Deus tenha uma forma como a têm os homens, mas significa que Jesus «tinha um ser como Deus, um ser divino».

«Não se valeu da sua igualdade com Deus». Há diversas possibilidades de tradução desta rica expressão, segundo se considerar o termo grego harpagmós em sentido activo (roubo), ou em sentido passivo (coisa roubada). A Vulgata traduz: «não considerou uma usurpação (rapinam) o ser igual a Deus» (sentido activo). Segundo a interpretação dos Padres Gregos, a que se ateve a nossa tradução litúrgica (sentido passivo), teríamos: «não considerou como algo cobiçado (harpagmón)… Há quem pense que S. Paulo quer fazer ressaltar o contraste entre a atitude soberba dos primeiros pais que, sendo homens, quiseram vir a ser iguais a Deus (cf. Gn 3,5.22), e a atitude humilde de Jesus que, sendo Deus, se quis fazer «semelhante aos homens» (v. 7).

7 «Mas aniquilou-se a si próprio», à letra, esvaziou-se: Jesus Cristo, ao fazer-se homem, não se despojou da natureza divina, mas sim da glória ou manifestação sensível da majestade que Lhe competia em virtude da chamada união hipostática (na pessoa do Filho eterno de Deus, a natureza humana e a natureza divina unidas numa união misteriosa). «Assumindo a condição de servo», o que não significa a condição social de escravo, mas a «forma» (morfê) de se conduzir própria de um ser pobre e dependente, cumprindo n’Ele a figura do «servo de Yahwéh», a que se refere a primeira leitura de hoje. «Tornou-se semelhante aos homens, aparecendo como homem», não apenas, como queria a heresia doceta, nas aparências (skhêmati), mas no sentido em que o homem é «semelhante» (en homoiômati) dos outros homens, em tudo igual excepto no pecado (cf. Hebr 4,15).

8 «Humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz». Note-se como é posta em relevo esta obediência e aniquilamento – a kénosis – de Cristo, num sublime crescendo de humilhação em humilhação: feito homem, assume a condição de escravo, Ele obedece, e com uma obediência que vai até à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz; Num crescendo de humilhações:  homem, escravo, malfeitor!

9-11 Mas este aniquilamento – o tremendo escândalo da Cruz – não foi uma derrota, o humilhante desfecho dum história trágica com que tudo acabou. Temos em paralelo o sublime paradoxo da sua «exaltação»: «por isso Deus – não Ele próprio, mas o Pai (ho Theós) O exaltou» de modo singularíssimo, à letra, acima de tudo o que existe, como o sugere a preposição hypér na composição do verbo hyperypsóein (exaltar). Esta exaltação deu-se com a glorificação da humanidade de Jesus na sua Ressurreição e Ascensão. A esta sublime exaltação corresponde o «Nome» que Lhe é dado por Deus, o mesmo nome com que passa a ser invocado pela multidão de todos os crentes em todos os tempos. Com efeito, já não se trata do simples nome de Jesus, um nome corrente com que era tratado na sua vida terrena e que consta da sentença que o condenou à morte de cruz, nem apenas o título da sua condição messiânica, «Cristo», pois o nome que agora Lhe compete é o mesmo nome com que o próprio Deus é designado no A. T.: «Kyrios-Senhor», nome divino, como consta da tradução grega de «Yahwéh». Desde agora, a todos pertence proclamar e reconhecer a divindade de Jesus – «toda a língua proclame que Jesus Cristo é Senhor» (mais expressivo sem artigo, como no original grego) – e o seu domínio sobre toda a criação, a saber: «no céu, na terra e nos abismos, para glória de Deus Pai» (A tradução da velha Vulgata neste ponto era pouco expressiva e deficiente: «que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai»).

Independentemente da discussão acerca do aniquilamento de que aqui se fala, se ele visa ou não directamente o mistério da Incarnação, fica bem claro que Jesus não é um simples servo do Senhor que vem a ser exaltado por Deus, pois Ele é Deus que se abaixa e depois vem a ser exaltado. Também fica patente que a fé na divindade de Jesus não é o fruto duma elaboração teológica tardia, pois a epístola é, quando muito, do ano 62, se não é mesmo de cerca de 55/56 (data mais provável), e, como dissemos, estes versículos fariam parte dum hino litúrgico a Cristo, anterior à epístola.

 

Aclamação ao Evangelho    Filip 2, 8-9

 

Monição: A Paixão de Nosso Senhor, que vai ser proclamada, é a maior manifestação do Amor de Deus pelos homens. Saibamos nós responder também com amor.

 

Cântico: Louvor a Vós Rei da eterna glória – M. Simões, NRMS, 1 (I)

 

Cristo obedeceu até à morte e morte de cruz.

Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes.

 

 

 

Evangelho*

 

* O texto entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido.

 

Forma longa: São Marcos 14, 1-15, 47                     Forma breve: São Marcos 15, 1-39

 

N  [1Faltavam dois dias para a festa da Páscoa e dos Ázimos e os príncipes dos sacerdotes e os escribas procuravam maneira de se apoderarem de Jesus à traição para Lhe darem a morte. 2Mas diziam:

R  «Durante a festa, não, para que não haja algum tumulto entre o povo».

3Jesus encontrava-Se em Betânia, em casa de Simão o Leproso, e, estando à mesa, veio uma mulher que trazia um vaso de alabastro com perfume de nardo puro de alto preço. Partiu o vaso de alabastro e derramou-o sobre a cabeça de Jesus. 4Alguns indignaram-se e diziam entre si:

R  «Para que foi esse desperdício de perfume? 5Podia vender-se por mais de duzentos denários e dar o dinheiro aos pobres».

N  E censuravam a mulher com aspereza. 6Mas Jesus disse:

J   «Deixai-a. Porque estais a importuná-la? Ela fez uma boa acção para comigo. 7Na verdade, sempre tereis os pobres convosco e, quando quiserdes, podereis fazer-lhes bem; mas a Mim, nem sempre Me tereis. 8Ela fez o que estava ao seu alcance: ungiu de antemão o meu corpo para a sepultura. 9Em verdade vos digo: Onde quer que se proclamar o Evangelho, pelo mundo inteiro, dir-se-á também em sua memória, o que ela fez».

10Então, Judas Iscariotes um dos Doze, foi ter com os príncipes dos sacerdotes para lhes entregar Jesus. 11Quando o ouviram, alegraram-se e prometeram dar-lhe dinheiro. E ele procurava uma oportunidade para entregar Jesus.

12No primeiro dia dos Ázimos, em que se imolava o cordeiro pascal, os discípulos perguntaram a Jesus:

R  «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?»

13Jesus enviou dois discípulos e disse-lhes:

J   «Ide à cidade. Virá ao vosso encontro um homem com uma bilha de água. Segui-o 14e, onde ele entrar, dizei ao dono da casa: ‘O Mestre pergunta: Onde está a sala, em que hei-de comer a Páscoa com os meus discípulos?’ 15Ele vos mostrará uma grande sala no andar superior, alcatifada e pronta. Preparai-nos lá o que é preciso».

16Os discípulos partiram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito e prepararam a Páscoa. 17Ao cair da tarde, chegou Jesus com os Doze. 18Enquanto estavam à mesa e comiam, Jesus disse:

J   «Em verdade vos digo: Um de vós, que está comigo à mesa, há-de entregar-Me».

19Eles começaram a entristecer-se e a dizer um após outro:

R  «Serei eu?»

20Jesus respondeu-lhes:

J   «É um dos Doze, que mete comigo a mão no prato. 21O Filho do homem vai partir, como está escrito a seu respeito, mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser traído! Teria sido melhor para esse homem não ter nascido».

22Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos discípulos e disse:

J   «Tomai: isto é o meu Corpo».

23Depois tomou um cálice, deu graças e entregou-lho. E todos beberam dele. 24Disse Jesus:

J   «Este é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens. 25Em verdade vos digo: Não voltarei a beber do fruto da videira, até ao dia em que beberei do vinho novo no reino de Deus».

26Cantaram os salmos e saíram para o Monte das Oliveiras.

27Disse-lhes Jesus:

J   «Todos vós Me abandonareis, como está escrito: ‘Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas’. 28Mas depois de ressuscitar, irei à vossa frente para a Galileia».

29Disse-Lhe Pedro:

R  «Embora todos Te abandonem, eu não».

30Jesus respondeu-lhe:

J   «Em verdade te digo: Hoje, esta mesma noite, antes do galo cantar duas vezes, três vezes Me negarás».

31Mas Pedro continuava a insistir:

R  «Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei».

N  E todos afirmaram o mesmo. 32Entretanto, chegaram a uma propriedade chamada Getsémani e Jesus disse aos seus discípulos:

J   «Ficai aqui, enquanto Eu vou orar».

33Tomou consigo Pedro, Tiago e João e começou a sentir pavor e angústia. 34Disse-lhes então:

J   «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai».

35Adiantando-Se um pouco, caiu por terra e orou para que, se fosse possível, se afastasse d’Ele aquela hora. 36Jesus dizia:

J   «Abbá, Pai, tudo Te é possível: afasta de Mim este cálice. Contudo, não se faça o que Eu quero, mas o que Tu queres».

37Depois, foi ter com os discípulos, encontrou-os dormindo e disse a Pedro:

J   «Simão, estás a dormir? Não pudeste vigiar uma hora? 38Vigiai e orai, para não entrardes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».

39Afastou-Se de novo e orou, dizendo as mesmas palavras. 40Voltou novamente e encontrou-os dormindo, porque tinham os olhos pesados e não sabiam que responder. 41Jesus voltou pela terceira vez e disse-lhes:

J   «Dormi agora e descansai...Chegou a hora: o Filho do homem vai ser entregue às mãos dos pecadores. 42Levantai-vos. Vamos. Já se aproxima aquele que Me vai entregar».

43Ainda Jesus estava a falar, quando apareceu Judas, um dos Doze, e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes, pelos escribas e os anciãos. 44O traidor tinha-lhes dado este sinal: «Aquele que eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O e levai-O bem seguro». 45Logo que chegou, aproximou-se de Jesus e beijou-O, dizendo:

R  «Mestre».

46Então deitaram-Lhe as mãos e prenderam-n’O. 47Um dos presentes puxou da espada e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. 48Jesus tomou a palavra e disse-lhes:

J   «Vós saístes com espadas e varapaus para Me prender, como se fosse um salteador. 49Todos os dias Eu estava no meio de vós, a ensinar no templo, e não Me prendestes! Mas é para se cumprirem as Escrituras».

50Então os discípulos deixaram-n’O e fugiram todos. 51Seguiu-O um jovem, envolto apenas num lençol. Agarraram-no, 52mas ele, largando o lençol, fugiu nu.

53Levaram então Jesus à presença do sumo sacerdote, onde se reuniram todos os príncipes dos sacerdotes, os anciãos e os escribas. 54Pedro, que O seguira de longe, até ao interior do palácio do sumo sacerdote, estava sentado com os guardas, a aquecer-se ao lume. 55Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho contra Jesus para Lhe dar a morte, mas não o encontravam. 56Muitos testemunhavam falsamente contra Ele, mas os seus depoimentos não eram concordes. 57Levantaram-se então alguns, para proferir contra Ele este falso testemunho:

58«Ouvimo-l’O dizer: ‘Destruirei este templo feito pelos homens e em três dias construirei outro que não será feito pelos homens’».

59Mas nem assim o depoimento deles era concorde. 60Então o sumo sacerdote levantou-se no meio de todos e perguntou a Jesus:

R  «Não respondes nada ao que eles depõem contra Ti?»

61Mas Jesus continuava calado e nada respondeu. O sumo sacerdote voltou a interrogá-l’O:

R  «És Tu o Messias, Filho do Deus Bendito?»

62Jesus respondeu:

J   «Eu Sou. E vós vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso vir sobre as nuvens do céu».

63O sumo sacerdote rasgou as vestes e disse:

R  «Que necessidade temos ainda de testemunhas? 64Ouvistes a blasfémia. Que vos parece?»

N  Todos sentenciaram que Jesus era réu de morte. 65Depois, alguns começaram a cuspir-Lhe, a tapar-Lhe o rosto com um véu e a dar-Lhe punhadas, dizendo:

R  «Adivinha».

N  E os guardas davam-Lhe bofetadas. 66Pedro estava em baixo, no pátio, quando chegou uma das criadas do sumo sacerdote. 67Ao vê-lo a aquecer-se, olhou-o de frente e disse-lhe:

R  «Tu também estavas com Jesus, o Nazareno».

68Mas ele negou:

R  «Não sei nem entendo o que dizes».

N  Depois saiu para o vestíbulo e o galo cantou. 69A criada, vendo-o de novo, começou a dizer aos presentes:

R  «Este é um deles».

70Mas ele negou segunda vez. Pouco depois, os presentes diziam também a Pedro:

R  «Na verdade, tu és deles, pois também és galileu».

71Mas ele começou a dizer imprecações e a jurar:

R  «Não conheço esse homem de quem falais».

72E logo o galo cantou pela segunda vez. Então Pedro lembrou-se do que Jesus lhe tinha dito: «Antes do galo cantar duas vezes, três vezes Me negarás». E desatou a chorar.]

15, 1Logo de manhã, os príncipes dos sacerdotes reuniram-se em conselho com os anciãos e os escribas e todo o Sinédrio. Depois de terem manietado Jesus, foram entregá-l’O a Pilatos. 2Pilatos perguntou-Lhe:

R  «Tu és o Rei dos judeus?»

N  Jesus respondeu:

J   «É como dizes».

3E os príncipes dos sacerdotes faziam muitas acusações contra Ele. 4Pilatos interrogou-O de novo:

R  «Não respondes nada? Vê de quantas coisas Te acusam».

5Mas Jesus nada respondeu, de modo que Pilatos estava admirado. 6Pela festa da Páscoa, Pilatos costumava soltar-lhes um preso à sua escolha. 7Havia um, chamado Barrabás, preso com os insurrectos que numa revolta tinham cometido um assassínio. 8A multidão, subindo, começou a pedir o que era costume conceder-lhes. 9Pilatos respondeu:

R  «Quereis que vos solte o Rei dos judeus?»

10Ele sabia que os príncipes dos sacerdotes O tinham entregado por inveja. 11Entretanto, os príncipes dos sacerdotes incitaram a multidão a pedir que lhes soltasse antes Barrabás. 12Pilatos, tomando de novo a palavra, perguntou-lhes:

R  «Então que hei-de fazer d’Aquele que chamais o Rei dos judeus?»

13Eles gritaram de novo:

R  «Crucifica-O! 13»

14Pilatos insistiu:

R  «Que mal fez Ele?»

N  Mas eles gritaram ainda mais:

R  «Crucifica-O!»

15Então Pilatos, querendo contentar a multidão, soltou-lhes Barrabás e, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-O para ser crucificado. 16Os soldados levaram-n’O para dentro do palácio, que era o pretório, e convocaram toda a corte. 17Revestiram-n’O com um manto de púrpura e puseram-Lhe na cabeça uma coroa de espinhos que haviam tecido. 18Depois começaram a saudá-l’O:

R  «Salve, Rei dos judeus!»

19Batiam-Lhe na cabeça com uma cana, cuspiam-Lhe e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante d’Ele. 20Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto de púrpura e vestiram-Lhe as suas roupas. Em seguida levaram-n’O dali para O crucificarem.

21Requisitaram, para Lhe levar a cruz, um homem que passava, vindo do campo, Simão de Cirene, pai de Alexandre e Rufo. 22E levaram Jesus ao lugar do Gólgota, quer dizer, lugar do Calvário. 23Queriam dar-Lhe vinho misturado com mirra, mas Ele não o quis beber. 24Depois crucificaram-n’O. E repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, para verem o que levaria cada um. 25Eram nove horas da manhã quando O crucificaram. 26O letreiro que indicava a causa da condenação tinha escrito: «Rei dos Judeus». Crucificaram com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. (27) 28Os que passavam insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo:

R  «Tu que destruías o templo e o reedificavas em três dias, 30salva-Te a Ti mesmo e desce da cruz».

31Os príncipes dos sacerdotes e os escribas troçavam uns com os outros, dizendo:

R  «Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! 32Esse Messias, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para nós vermos e acreditarmos».

N  Até os que estavam crucificados com Ele O injuriavam. 33Quando chegou o meio-dia, as trevas envolveram toda a terra até às três horas da tarde. 34E às três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte:

J   «Eloí, Eloí, lamá sabachtháni?»

N  que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?» 35Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram:

R  «Está a chamar por Elias».

36Alguém correu a embeber uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta duma cana, deu-Lhe a beber e disse:

R  «Deixa ver se Elias vem tirá-l’O dali».

37Então Jesus, soltando um grande brado, expirou. 38O véu do templo rasgou-se em duas partes de alto a baixo. 39O centurião que estava em frente de Jesus, ao vê-l’O expirar daquela maneira, exclamou:

R  «Na verdade, este homem era Filho de Deus».

N  [40Estavam também ali umas mulheres a observar de longe, entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e Salomé, 41que acompanhavam e serviam Jesus, quando estava na Galileia, e muitas outras que tinham subido com Ele a Jerusalém. 42Ao cair da tarde – visto ser a Preparação, isto é, a véspera do sábado – 43José de Arimateia, ilustre membro do Sinédrio, que também esperava o reino de Deus, foi corajosamente à presença de Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. 44Pilatos ficou admirado de Ele já estar morto e, mandando chamar o centurião, perguntou-lhe se Jesus já tinha morrido. 45Informado pelo centurião, ordenou que o corpo fosse entregue a José. 46José comprou um lençol, desceu o corpo de Jesus e envolveu-O no lençol; depois depositou-O num sepulcro escavado na rocha e rolou uma pedra para a entrada do sepulcro. 47Entretanto, Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde Jesus tinha sido depositado.]

 

A parte da vida de Jesus relatada mais pormenorizadamente por todos os Evangelistas é a sua Paixão, pois culmina a vida e a obra redentora de Cristo. Houve até quem chegou ao extremo de afirmar que os Evangelhos são «um relato da Paixão, com uma introdução desenvolvida» (M. Kähler). No entanto, os dados registados são muitíssimo parcos e concisos, pois o primeiro objectivo destas quatro narrações não era dar uma informação completa de tudo o que aconteceu; se fosse assim, seria imperdoável que não se diga nada dos sentimentos dos intervenientes na acção. Jesus também não é apresentado como um herói que sofre dores morais e físicas absolutamente indizíveis – a crucifixão era esse crudelissimum teterrimumque supplicium (Cícero) – com uma serenidade majestática. Os padecimentos colossais que o Senhor abraçou voluntariamente põem em evidência do modo mais significativo tanto o seu amor infinito para com todos e cada um de nós (cf. Gal 2,20), como a tremenda gravidade dos nossos pecados (cf. Gal 1,4). Não obstante, não se nota que esteja subjacente aos relatos qualquer intenção de mover o leitor à piedade, descrevendo a tragédia de uma forma comovedora. O que preside à intenção dos relatos é mostrar o sentido da Paixão do Senhor, o modo como, através de todos estes passos, se realiza e torna visível a nossa salvação, no pleno cumprimento das Escrituras, facilitando ao leitor entender o porquê de que tudo isto – tão assombrosamente paradoxal e escandaloso – tenha realmente acontecido. E é assim que todos os relatos da Paixão estão ligados aos da glória da Ressurreição, que acaba por oferecer a saída para tão misterioso enigma (J. M. Casciaro, Jesus de Nazaré, Viseu, IPV 1999, p. 542s).

Os estudiosos pensam que foi a parte do Evangelho que tomou a forma definitiva escrita mais cedo. As quatro narrativas da Paixão não se contradizem, mas completam-se e deixam ver a focagem teológica própria de cada evangelista. Marcos é o que se apresenta como mais espontâneo e o que melhor apresenta, na sua crueza realista, o horror do sofrimento de Jesus. Na agonia do Getxemaní, só ele diz que Jesus «sentiu pavor» (Mc 14,33), e não apenas angústia, e também o pedido de que se afaste o cálice de amargura aparece como mais urgente: «Abbá,… tudo te é possível. Afasta de mim este cálice» (v. 36). Por outro lado, só ele diz, na censura aos discípulos adormecidos, que eles «não sabiam o que Lhe haviam de responder» (Mc 14,40) e já antes a censura aparecia mais directamente dirigida a Pedro: «não foste capaz…» (v. 37). Também é de notar o pormenor exclusivo do segundo canto do galo nas negações de Pedro (Mc 14,72). Só Marcos diz que Simão Cireneu era «pai de Alexandre e Rufo» (pensa-se que este pormenor se deve a que estes vieram a ser cristãos bem conhecidos: cf. Rom 16,13).

N.B. – Para não nos alongarmos mais em comentários, podem ver-se as notas sobre a Paixão do Senhor, infra, em Sexta-feira Santa, assim como as do ano passado, ao Evangelho de S. Mateus (Celebração Litúrgica, Ano A, 2022/2023, pp. 412-416).

 

 

Sugestões para a homilia

 

Caríssimos irmãos e irmãs.

O Domingo de Ramos é a porta pela qual a Igreja entra na Semana Santa. A celebração consta de duas partes: Procissão e Paixão.

 

1 A procissão comemora a chegada do Senhor a Jerusalém para consumar a sua obra redentora. Uma multidão de peregrinos vai ao encontro de Ele e o acompanha aclamando-o como messias. É uma antecipação profética da futura ressurreição e glorificação de Jesus. Nosso Senhor entrará glorioso na Jerusalém celeste acompanhado pela multidão dos santos que aguardavam a redenção. Jesus manifesta também assim a íntima conexão entre a sua missão como Messias e a Paixão a que se entrega pela nossa salvação.

Nos queremos acompanhar Jesus caminhando com Ele, sem o abandonarmos, até a Pátria celeste para a qual Ele nos conduz.

 

2. Mas o caminho da Glória passa pela Cruz, pela Paixão, e é tão importante que meditemos na Paixão de Nosso Senhor, que a Igreja quer que seja proclamada neste domingo, para que nenhum fiel deixe de escutar o que o Espírito Santo quis que ficasse escrito no Evangelho. Conta-se que um dia S. Tomás de Aquino perguntou ao seu mestre S. Boaventura em que livros tinha estudado a doutrina teológica tão profunda e luminosa que insinava aos seus alunos da universidade de Paris, onde os dois eram professores. O santo franciscano respondeu mostrando um crucifixo de bolso, maior do habitual e gasto pelos beijos, e disse-lhe: este é o livro onde eu aprendi tudo o que sei.

Aprendamos nós também. Procuremos ler no livro do crucifixo, da Paixão do Senhor, e nos tornaremos conscientes de quanto Deus nos ama. Jesus desde a Cruz nos está a dizer, sem palavras, que Deus é Amor e que nos ama sempre e incondicionalmente.

 

3. Olhando para Jesus na Cruz, lendo o Evangelho, fazendo a Via Sacra, rezando os mistérios dolorosos do Rosário, olhando para o crucifixo, diremos como o centurião romano, testemunha direita da Paixão: este era verdadeiramente o Filho de Deus, porque só Deus pode amar tanto. Acolhamo-nos a esse amor e procuremos corresponder com uma vida, como a de Jesus, entregue, por amor, ao cumprimento da vontade do Pai.

 

Assim seja

 

Fala o Santo Padre

 

"Jesus sobe à cruz para descer ao nosso sofrimento, prova os nossos piores estados de ânimo,

experimenta na sua carne as nossas contradições mais dilacerantes, e, assim, as redime e transforma."

 

Todos os anos, esta liturgia cria em nós uma atitude de espanto, de surpresa: passamos da alegria de acolher Jesus, que entra em Jerusalém, à tristeza de O ver condenado à morte e crucificado. É uma atitude interior que nos acompanhará ao longo da Semana Santa. Abramo-nos, pois, a esta surpresa.

 

Jesus começa logo por nos surpreender. O seu povo acolhe-O solenemente, mas Ele entra em Jerusalém num jumentinho. Pela Páscoa, o seu povo espera o poderoso libertador, mas Jesus vem cumprir a Páscoa com o seu sacrifício. O seu povo espera celebrar a vitória sobre os romanos com a espada, mas Jesus vem celebrar a vitória de Deus com a cruz. Que aconteceu àquele povo que, em poucos dias, passou dos «hossanas» a Jesus ao grito «crucifica-O»? Que sucedeu? Aquelas pessoas seguiam uma imagem de Messias, e não o Messias. Admiravam Jesus, mas não estavam prontas para se deixar surpreender por Ele. A surpresa é diferente da admiração. A admiração pode ser mundana, porque busca os próprios gostos e anseios; a surpresa, ao contrário, permanece aberta ao outro, à sua novidade. Também hoje há muitos que admiram Jesus: falou bem, amou e perdoou, o seu exemplo mudou a história, e coisas do género. Admiram-No, mas a vida deles não muda. Porque não basta admirar Jesus; é preciso segui-Lo no seu caminho, deixar-se interpelar por Ele: passar da admiração à surpresa.

 

E qual é o aspeto do Senhor e da sua Páscoa que mais nos surpreende? O facto de Ele chegar à glória pelo caminho da humilhação. Triunfa acolhendo a dor e a morte, que nós, súcubos à admiração e ao sucesso, evitaríamos. Ao contrário, Jesus «despojou-Se – disse São Paulo –, humilhou-Se» (Flp 2, 7.8). Isto surpreende: ver o Omnipotente reduzido a nada; vê-Lo, a Ele Palavra que sabe tudo, ensinar-nos em silêncio na cátedra da cruz; ver o Rei dos reis que, por trono, tem um patíbulo; ver o Deus do universo despojado de tudo; vê-Lo coroado de espinhos em vez de glória; vê-Lo, a Ele bondade em pessoa, ser insultado e vexado. Porquê toda esta humilhação? Por que permitistes, Senhor, que Vos fizessem tudo aquilo?

 

Fê-lo por nós, para tocar até ao fundo a nossa realidade humana, para atravessar toda a nossa existência, todo o nosso mal; para Se aproximar de nós e não nos deixar sozinhos no sofrimento e na morte; para nos recuperar, para nos salvar. Jesus sobe à cruz para descer ao nosso sofrimento. Prova os nossos piores estados de ânimo: o falimento, a rejeição geral, a traição do amigo e até o abandono de Deus. Experimenta na sua carne as nossas contradições mais dilacerantes e, assim, as redime e transforma. O seu amor aproxima-se das nossas fragilidades, chega até onde mais nos envergonhamos. Agora sabemos que não estamos sozinhos! Deus está connosco em cada ferida, em cada susto: nenhum mal, nenhum pecado tem a última palavra. Deus vence, mas a palma da vitória passa pelo madeiro da cruz. Por isso, os ramos e a cruz estão juntos.

 

Peçamos a graça do assombro. A vida cristã, sem surpresa, torna-se cinzenta. Como se pode testemunhar a alegria de ter encontrado Jesus, se não nos deixamos surpreender cada dia pelo seu amor espantoso, que nos perdoa e faz recomeçar? Se a fé perde o assombro, torna-se surda: já não sente a maravilha da graça, deixa de sentir o gosto do Pão da vida e da Palavra, fica sem perceber a beleza dos irmãos e o dom da criação. E não lhe resta outra saída senão refugiar-se nos legalismos, clericalismos e tudo o mais que Jesus condena no capítulo 23 de Mateus.

Nesta Semana Santa, ergamos o olhar para a cruz a fim de recebermos a graça do assombro. São Francisco de Assis, ao contemplar o Crucificado, maravilhava-se com os seus frades por não chorarem. E nós, conseguimos ainda deixar-nos comover pelo amor de Deus? Porque é que já não sabemos surpreender-nos à vista d’Ele? Porquê? Talvez porque a nossa fé foi corroída pelo hábito; talvez porque ficamos fechados nas lamúrias e deixamo-nos paralisar pelos dissabores; talvez porque perdemos a confiança em tudo, chegando ao ponto de nos consideramos mal feitos. Mas, por trás destes «talvez», encontra-se o facto de não estarmos abertos ao dom do Espírito, que é Aquele que nos dá a graça do assombro.

 

Recomecemos do espanto; olhemos o Crucificado e digamos-Lhe: «Senhor, quanto me amais! Como sou precioso a vossos olhos!» Deixemo-nos surpreender por Jesus para voltar a viver, porque a grandeza da vida não está na riqueza nem no sucesso, mas na descoberta de que somos amados. Esta é a grandeza da vida: descobrir que somos amados. A grandeza da vida está precisamente na beleza do amor. No Crucificado, vemos Deus humilhado, o Omnipotente reduzido a um descartado. E, com a graça do assombro, compreendemos que, acolhendo quem é descartado, aproximando-nos de quem é humilhado pela vida, amamos Jesus, porque Ele está nos últimos, nos rejeitados, naqueles que a nossa cultura farisaica condena.

 

O Evangelho de hoje, imediatamente depois da morte de Jesus, mostra-nos o ícone mais belo da surpresa. É a cena do centurião, que, «ao vê-Lo expirar daquela maneira, disse: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!”» (Mc 15, 39). Deixou-se surpreender pelo amor. De que maneira vira Jesus morrer? Viu-O morrer amando, e isto maravilhou-o. Sofria, estava exausto, mas continuava a amar. Eis aqui a surpresa diante de Deus, que sabe encher de amor o próprio morrer. Neste amor gratuito e inaudito, o centurião, um pagão, encontra Deus. Verdadeiramente era Filho de Deus! A sua frase chancela a Paixão. Muitos antes dele no Evangelho, admirando Jesus pelos seus milagres e prodígios, reconheceram-No como Filho de Deus, mas o próprio Cristo mandava-os calar, porque havia o risco de se deterem na admiração mundana, na ideia dum Deus que Se devia adorar e temer enquanto poderoso e terrível. Agora já não há tal risco; ao pé da cruz, já não é possível equivocar-se: Deus revelou-Se e reina só com a força desarmada e desarmante do amor.

 

Irmãos e irmãs hoje, Deus ainda surpreende a nossa mente e o nosso coração. Deixemos que nos impregne este assombro, olhemos para o Crucificado e digamos também nós: «Vós sois verdadeiramente Filho de Deus. Vós sois o meu Deus».

 Papa Francisco, Homilia, Praça São Pedro, 28 de março de 2021

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos:

Neste Domingo de Ramos e da Paixão,

invoquemos a bondade de Deus todo-poderoso,

para que nos conceda o que Lhe pedimos com fé,

dizendo (ou: cantando), cheios de confiança:

 

R. Ouvi-nos, Senhor.

Ou: Abençoai, Senhor, o vosso povo.

Ou: Kýrie, eléison.

 

1. Para que o Redentor do mundo,

que Se entregou à morte pelos homens,

estenda a todos os povos o seu Reino,

oremos.

 

2. Para que o Redentor do mundo,

que orou com grande clamor e lágrimas,

interceda junto do Pai por todos nós,

oremos.

 

3. Para que o Redentor do mundo,

que sofreu a angústia e a tristeza,

socorra os que sofrem e alivie as suas dores,

oremos.

 

4. Para que o Redentor do mundo,

que foi flagelado e coroado de espinhos,

dê coragem aos que estão prestes a perdê-la,

oremos.

 

5. Para que o Redentor do mundo,

que, ao morrer, entregou ao Pai o seu espírito,

nos reanime com a força da sua Ressurreição,

oremos.

 

(Outras intenções: jovens do mundo inteiro e seus animadores ...).

 

Senhor, nosso Deus, que Vos dignastes contar-nos entre o número daqueles

para quem o vosso Filho implorou o perdão, ao expirar,

dai-nos a graça de descobrir, à luz da fé,

o amor infinito com que nos amais.

Por Cristo Senhor nosso

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Cruz Fideles – M. Faria, NRMS, 32

 

Oração sobre as oblatas: Pela paixão do vosso Filho Unigénito, apressai, Senhor, a hora da nossa reconciliação: concedei-nos, por este único e admirável sacrifício, a misericórdia que nossos pecados não merecem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. E nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Sendo inocente, entregou-Se à morte pelos pecadores; não tendo culpas, deixou-Se condenar pelos culpados. A sua morte redimiu os nossos pecados e a sua ressurreição abriu-nos as portas da salvação.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos com alegria a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: A. Cartageno – COM, (pg 189)

 

Saudação da paz

 

Monição da Comunhão

 

O pão “fruto da terra e do trabalho do homem” é agora, pela ação do Espírito Santo, Corpo de Cristo. Se estivermos em condições de comungar, recebamos Nosso Senhor ressuscitado com fé, agradecimento e amor.

 

Cântico da Comunhão: Pai, se este cálice – J. F Silva, NRMS, 25

Mt 26, 42

Antífona da comunhão: Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-Se a tua vontade.

 

Cântico de acção de graças: Não há maior prova de amor – M. Faria, NRMS, 29

 

Oração depois da comunhão: Saciados com estes dons sagrados, nós Vos pedimos, Senhor: assim como, pela morte do vosso Filho, nos fizestes esperar o que a nossa fé nos promete, fazei-nos também chegar, pela sua ressurreição, às alegrias do reino que esperamos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Acabamos de entrar pela porta da Semana Santa. Procuremos que estes dias sejam verdadeiramente santos nas nossas vidas. Para tal não nos separemos de Nossa Senhora.

 

Cântico final: Dai-nos a vossa misericórdia – M. Simões, NRMS, 17

 

 

Homilias Feriais

 

SEMANA SANTA

 

2ª Feira, 25-III: O cumprimento do plano de salvação.

Is 42, 1-7 / Jo 12, 1-11

Fui eu, o Senhor, quem te chamou, num projecto de salvação. 

O plano divino de salvação (Leit.) apoia-se na entrega de Jesus à morte. Ele próprio apresentou o plano da sua vida como cumprimento da vontade do Pai: o Filho age como servo de Deus: «Eis o meu servo, a quem protejo, o meu eleito» (Lei.).

No começo da Semana Santa é-nos sugerido o exemplo da unção de Maria de Betânia, como modo de preparar a paixão do Senhor, derramando sobre Ele uma libra de perfume de elevado preço (Ev.). Esta unção é também uma boa pauta para o ambiente das celebrações eucarísticas: para o Senhor, o melhor que pudermos preparar.

 

3ª Feira, 26-III: Darás a vida por mim?

Is 49, 1-6 / Jo 13. 21-33. 36-38

Não basta que sejas meu servo. Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue aos confins da terra.

Pela sua obediência até à morte, Jesus leva a cabo a missão do servo sofredor, que ofereceu a sua vida em expiação, carregando sobre os seus ombros as nossas faltas e oferecendo ao Pai uma satisfação pelos nossos pecados.

Na Última Ceia, Jesus vê partir Judas, que O vai entregar e profetiza as negações de Pedro (Ev.). Também a nós nos pergunta: «darás a vida por mim?» (Ev.). Procuremos oferecer igualmente a nossa vida em expiação pelos nossos pecados; aceitemos as contrariedades, dores e sofrimentos, que Ele nos enviar; arrependamo-nos das nossas faltas de fidelidade, etc.

 

4ª Feira, 27-III: Preparativos para a Última Ceia.

Is 50, 4-9 / Mt 26, 14-25

Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?

Jesus dá o encargo aos discípulos de levarem a cabo uma cuidadosa preparação da casa onde terá lugar a última ceia pascal (Ev.)

Façamos igualmente uma cuidadosa preparação para esta Páscoa: ofereçamos ao Senhor as indelicadezas que tiverem connosco; ajudemos os que andam extenuados; oiçamos melhor a palavra de Deus (Leit.). Tenhamos também um grande desejo de nos reunirmos com Ele e os discípulos, para celebrarmos a instituição da Eucaristia nesta próxima 5.ª Feira. Jesus deseja a nossa companhia, mas pede-nos que evitemos as nossas infidelidades (como Judas).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:            Carlos Santamaria

Nota Exegética:          Geraldo Morujão

Homilias Feriais:         Nuno Romão

Sugestão Musical:      José Carlos Azevedo

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial