1.º DOMINGO DA QUARESMA

18 de Fevereiro de 2024

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Irmãos convertei o vosso coração – J. P. Lecot, CNPL, pg543

Salmo 90, 15-16

Antífona de entrada: Quando me invocar, hei-de atendê-lo; hei-de libertá-lo e dar-lhe glória. Favorecê-lo-ei com longa vida e lhe mostrarei a minha salvação.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Iniciámos na passada Quarta-Feira de Cinzas o santo tempo litúrgico da Quaresma, com o qual nos queremos preparar para a grande Festa da Páscoa e para o encontro definitivo com o Senhor, no momento da nossa morte.

As Leituras da Missa de hoje chamam a atenção para a caducidade de todas as obras. Só as obras de Amor vão perdurar, resistindo ao desgaste do tempo. Vamos construir uma vida definitiva, procurando valores que resistem à lei da morte.

 

Oração colecta: Concedei-nos, Deus omnipotente, que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Como resposta ao sacrifício oferecido por Noé, ao sair da arca depois do dilúvio, o Senhor faz uma Aliança com ele e, por ele, com toda a criação. O arco-íris, que se forma depois da chuva, ficará como sinal sensível desta promessa do Senhor. A Aliança com Noé, a primeira das que vão seguir-se, aparece neste lugar como mensagem de reconciliação, tema dominante da Quaresma.

 

Génesis 9,8-15

 

8Deus disse a Noé e a seus filhos: 9«Estabelecerei a minha aliança convosco, com a vossa descendência 10e com todos os seres vivos que vos acompanham: as aves, os animais domésticos, os animais selvagens que estão convosco, todos quantos saíram da arca e agora vivem na terra. 11Estabelecerei convosco a minha aliança: de hoje em diante nenhuma criatura será exterminada pelas águas do dilúvio e nunca mais um dilúvio devastará a terra». 12Deus disse ainda: «Este é o sinal da aliança que estabeleço convosco e com todos os animais que vivem entre vós, por todas as gerações futuras: 13farei aparecer o meu arco sobre as nuvens, que será um sinal da aliança entre Mim e a terra. 14Sempre que Eu cobrir a terra de nuvens e aparecer nas nuvens o arco, 15recordarei a minha aliança convosco e com todos os seres vivos e nunca mais as águas formarão um dilúvio para destruir todas as criaturas».

 

A aliança de que fala o texto não é ainda a que veio a ser feita com o povo escolhido, mas é a chamada «aliança cósmica», com toda a humanidade e com toda a obra da criação. Quando lemos o texto do dilúvio na Igreja – os estudiosos falam de duas fontes fundidas e entrelaçadas, a da tradição javista e a da tradição sacerdotal –, não devemos ficar parados ou perdidos nas questões histórico-literárias e nas interessantes semelhanças com outros relatos, ou mitos, de diversas culturas antigas que falam de cataclismos imemoriais do género. Como se lê em 2Tim 3,15-17, o que acima de tudo nos interessa no contacto com «toda a Escritura, inspirada por Deus», é alcançar «a sabedoria que conduz à salvação por meio da fé em Jesus Cristo». É fácil de detectar «o ensino» que no texto nos é oferecido. Quando a humanidade se perde no pecado, transgredindo a lei impressa na obra da criação, a harmonia própria da natureza transtorna-se, voltando ao caos inicial (cf. Gn 1,2), e corre sério risco a subsistência do ser humano (lembrar o muito que se tem dito a propósito da Sida, que não é a vingança de Deus, mas é a própria natureza a vingar-se). Na Sagrada Escritura o fenómeno do dilúvio tem a particularidade de não ser apresentado como fruto de caprichos maléficos e invejas dos deuses pagãos – assim era nos mitos sumérios e babilónicos –, mas como consequência do pecado e em ordem ao recomeço de uma nova era de regeneração e harmonia universal. A aliança a que dá lugar o dilúvio revela o verdadeiro interior de Deus para com a sua criatura: Ele é Pai providente que cuida carinhosamente de tudo o que criou, particularmente do homem; Deus, «mesmo quando castiga, não esquece a sua misericórdia» (cf. Habc 3,2). O fundo mitológico do relato parece claro, mas também nos parece pouco, ao lermos este texto sagrado, deixarmo-nos ficar encerrados no acanhado horizonte do mito, quando o autor inspirado vai mais além: Yahwéh é um Deus ético e transcendente; o «castigo» do pecado (Gn 6,6.12) não é resultante dum capricho, nem sequer duma ira desenfreada. Neste sentido, o autor já fez um primeiro trabalho de desmitização, apesar de manter a mesma linguagem antropomórfica do mito, chocante para a nossa mentalidade.

12-16 «O arco-íris» – fenómeno natural anterior ao dilúvio – adquire um significado simbólico. Ele é o sinal da benevolência divina, expressa em categorias de aliança, para com toda a criação; não é mais um tremendo arco de guerra (o termo hebraico, qéxet, é o mesmo), mas é sim o abraço de paz do Criador! Ainda que persistam na memória dos povos tremendas catástrofes, como o dilúvio, justo castigo do pecado, o ser humano não deve viver esmagado sob o pesadelo constante dos terrores que não podem deixar de sentir aqueles que ignoram a Revelação divina.

A Liturgia, ao apresentar este texto no começo da Quaresma, além de introduzir a 2.ª leitura, facilita-nos a animadora consideração da misericórdia divina, a qual permite que nos elevemos acima das nossas misérias e saiamos dos nossos pecados pela graça de Cristo, que nos chega particularmente através dos Sacramentos.

 

Salmo Responsorial Salmo 24 (25), 4bc-5ab. 6-7bc. 8-9 (R. cf. 10)

 

Monição: O salmo responsorial é uma oração cheia de confiança no Senhor que perdoa e guia o homem, ensinando-lhe os Seus caminhos.

 

Refrão:    Todos os vossos caminhos, Senhor, são amor e verdade

                 para os que são fiéis à vossa aliança.

 

Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,

ensinai-me as vossas veredas.

Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me,

porque Vós sois Deus, meu Salvador.

 

Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias

e das vossas graças que são eternas.

Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência,

por causa da vossa bondade, Senhor.

 

O Senhor é bom e recto,

ensina o caminho aos pecadores.

Orienta os humildes na justiça

e dá-lhes a conhecer a sua aliança.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Pedro vem recordar-nos que ser cristão nunca foi nem será, propriamente, uma vida fácil e cómoda. O Batismo fala-nos em morrer com Jesus Cristo, pela cruz de cada dia, para ressuscitarmos com Ele e podermos entrar na glória.

 

1 São Pedro 3,18-22

 

Caríssimos: 18Cristo morreu uma só vez pelos pecados – o Justo pelos injustos – para vos conduzir a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito. 19Foi por este Espírito que Ele foi pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte 20e tinham sido outrora rebeldes, quando, nos dias de Noé, Deus esperava com paciência, enquanto se construía a arca, na qual poucas pessoas, oito apenas, se salvaram através da água. 21Esta água é figura do Baptismo que agora vos salva, que não é uma purificação da imundície corporal, mas o compromisso para com Deus de uma boa consciência, pela ressurreição de Jesus Cristo, 22que subiu ao Céu e está à direita de Deus, tendo sob o seu domínio os Anjos, as Dominações e as Potestades.

 

A 1ª Carta de Pedro, donde é tirada a leitura, parece ter como base uma catequese baptismal; aparece na liturgia de hoje em relação com a 1ª leitura, que fala do dilúvio, o qual é apresentado aqui como figura do Baptismo.

18 «Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito (cf. 1Pe 2,21.24; Rom 6,10; Hbr 9,28). Foi por este (Espírito) que Ele foi pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte…» A tradução procura oferecer aos fiéis que ouvem a leitura uma forma de entenderem um texto deveras difícil. O v. 18 pode entender-se: «morto» como homem, e «vivo» como Deus (cf. Rom 1,4; 1Tm 3,16.), ou talvez se trate antes de uma formulação primitiva para exprimir que Jesus, ao morrer, abandonou de vez a sua condição mortal para passar a viver no seu estado glorioso e imortal.

19 «Pregar» sempre indica, no NT, a pregação da salvação. Esta pregação de Jesus «aos espíritos que estavam na prisão» é a referência bíblica mais clara à verdade professada no Credo acerca de Jesus que «desceu à mansão dos mortos» (cf. 1Pe 4,6; Rom 10,6-7; Ef 4,8-9; Apoc 1,18; Mt 12,40; Lc 23,43; Act 2,31) a anunciar-lhes a mensagem da salvação, segundo uns com a sua alma separada do corpo, segundo outros na sua nova condição gloriosa. Lembramos que a «mansão dos mortos» (o Xeol hebraico, o Hades grego, os Infernos em latim) representava o estado dos que tinham morrido, que se pensava ser num espaço interior da Terra. O autor, ao dizer que Jesus pregou (a salvação) também (kai, uma partícula a que o tradutor não valorizou) aos que… tinham sido outrora rebeldes … nos dias de Noé, parece querer dizer que até (kai) àquela gente, que na tradição bíblica era considerada como os maiores pecadores (cf. Gn 6,5.11-12), chegou a salvação de Jesus. É o alcance universal da Redenção para todos os pecadores arrependidos (cf. 4,6), por mais pecadores que tenham sido; a salvação é levada por Jesus a todos e não apenas à gente aqui nomeada dos tempos de Noé, como sendo o tipo da gente mais perversa, mas certamente arrependida dos seus pecados (argumentação a fortiore).

No entanto, esta passagem da pregação de Jesus aos espíritos cativos é muito obscura e, para além da interpretação tradicional, que a entende como a descida de Jesus aos Infernos, ou Mansão dos Mortos, para levar para o Céu todas as almas que aguardavam a hora da redenção, deu azo às mais diversas e desacertadas interpretações: a) para uns seria uma referência à salvação de certos condenados que se salvaram com a descida de Cristo ao Inferno (assim pensou Orígenes, mas a Igreja reprovou esta opinião); b) para Sto. Agostinho (fazendo uma certa violência ao texto) refere-se ao Verbo, que, antes da Incarnação, através dos avisos de Noé, se dirigiu àqueles ímpios cativos da ignorância e da perversão; c) para uns poucos (em especial alguns protestantes), estes «espíritos cativos» seriam anjos caídos (cf. v. 22), a quem Cristo teria convencido da sua condenação definitiva; d) até houve quem conjecturasse, mas sem ter tido aceitação, que a expressão «neste também» (em grego: en ô kai), ao admitir a leitura «Henoc também» (em grego: Enôc kai), se referia ao patriarca anterior ao dilúvio, que, segundo Gn 5,24, não morreu e, segundo a literatura apócrifa, proclamou a condenação aos anjos rebeldes. Na nossa tradução da Nova Bíblia da Difusora Bíblica traduzimos en ô como sendo uma expressão adverbial: «então» (e não «neste», referido a «espírito», como tem a tradução litúrgica).

20 «Se salvaram através da água»: Noé, a mulher, 3 filhos e 3 noras (8 pessoas, sem contar os netos: cf Gn 6 – 9). Como se vê, a água aqui não é tomada no seu aspecto de castigo e destruição, como uma água mortífera, mas como uma água salvadora, um meio de os sobreviventes se salvarem, navegando através da água. É de notar um deslizamento semântico na preposição grega diá do sentido local – através de – para o sentido instrumental – por meio de –, de maneira a pôr em evidência um simbolismo oculto: a água do dilúvio é a figura (o tipo) do «Baptismo», o qual é a autêntica realidade (em grego: o antitipo) «que agora vos salva». Com efeito, se o Baptismo salva, não é pelo facto de limpar a sujidade do corpo, mas é «pela ressurreição de Jesus» (v. 21), quando a Ele se adere pela fé concretizada nas promessas do Baptismo, isto é, «o compromisso para com Deus de uma boa consciência» (v. 22).

22: «Subiu ao Céu» é uma clara referência à Ascensão de Jesus, bem atestada no N. T., e frequente nos Escritos Paulinos (Mc 16,19; Lc 24,50-51; Jo 6,62; Act 1,33-34; Rom 8,34; Ef 1,20; Col 3,1; Hebr 1,3; 8,1; 10,12; 12,2). «E está à direita de Deus» exprime a suma dignidade de Cristo, acima de todas as criaturas, bem como o seu domínio sobre todas elas, incluindo as criaturas mais elevadas e invisíveis, isto é, o mundo dos anjos, «Anjos, Dominações e Potestades», seres que também em S. Paulo englobam vagamente espíritos bons e maus, não sendo fácil estabelecer sempre a distinção. Tendo em conta sobretudo 1Cor 15,24 e Col 2,15, Dominações e Potestades pode ser uma alusão a espíritos maus. As hierarquias angélicas, estabelecidas a partir destes nomes e outros que aparecem no N. T., oferecem pouca segurança e têm mais em conta a literatura apócrifa intertestamentária do que os dados da Revelação divina.

 

Aclamação ao Evangelho    Mt 4, 4b

 

Monição: Viver na fidelidade a Jesus Cristo exige de nós uma luta sem tréguas contra as tentações.

Jesus ensina-nos como havemos de vencer, dando-nos o exemplo de Sua vitória.

 

Cântico: Glória a Vós ó Cristo, M. Luís, NRMS, 1(I)

 

Nem só de pão vive o homem,

mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

 

 

Evangelho

 

São Marcos 1,12-15

 

Naquele tempo, 12o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto. 13Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por Satanás. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-n’O. 14Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a pregar o Evangelho, dizendo: 15«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

 

Todos os anos temos no 1º Domingo da Quaresma o texto evangélico das tentações de Jesus; neste ano B, temo-las na forma mais simples, desprovida de qualquer espécie de encenação, a do Evangelista do ano, S. Marcos.

13 «Esteve no deserto 40 dias». A nossa Quaresma recorda esses dias. S. Marcos não se refere ao jejum do Senhor, mas só ao deserto e às tentações, e apenas dum modo genérico: «Era tentado. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-no» (cf. Mt 4,1-11). Assim observa Bento XVI o sentido profundo que encerram o deserto e as tentações de Jesus: «A acção (de Jesus) é precedida pelo recolhimento, e este é necessariamente também uma luta interior em prol da sua missão, uma luta contra as deturpações da mesma, que se apresentam como suas verdadeiras realizações. É uma descida aos perigos que ameaçam o homem, porque só assim o homem caído pode ser levantado. Permanecendo fiel ao núcleo originário da sua missão, Jesus deve entrar no drama da existência humana, atravessá-lo até ao fundo, para deste modo encontrar a «ovelha perdida», colocá-la aos seus ombros e reconduzi-la a casa» (Jesus de Nazaré, p. 56).

«Satanás» (em hebraico, «xatan») significa adversário, acusador (em grego, «diábolos», caluniador). As tentações do demónio visavam desviar Jesus da sua missão, com a sedução do protagonismo para vir a ser um messias milagreiro, espectacular e ambicioso. O Evangelho põe em evidência o maravilhoso exemplo do Senhor: um exemplo de humildade, ao sujeitar-se aos ataques do demónio, e de fortaleza, ao resistir decididamente, sem a mais pequena vacilação ou cedência. Vem a propósito mais este belo comentário de Sto. Agostinho, que se lê no Ofício de Leituras: «A nossa vida, enquanto somos peregrinos na terra, não pode estar livre de tentações, e o nosso aperfeiçoamento realiza-se precisamente através das provações. Ninguém se conhece a si mesmo, se não for provado; ninguém pode receber a coroa, se não tiver vencido; ninguém pode vencer, se não combate; e ninguém pode combater, se não tiver inimigos e tentações. Bem poderia Ele ter mantido o demónio longe de Si; mas se não fosse tentado, não nos teria ensinado a vencer a tentação» (Enar. in Ps. 60).

 

Sugestões para a homilia

 

1.    Como é importante seguir os caminhos do Senhor!

2      Importa optar pelo Senhor.

3      “Nem só de pão vive o homem.”

 

 

1. Como é importante seguir os caminhos do Senhor!

 

Todos os caminhos do Senhor são caminhos de amor e de verdade. Como é importante ser fiel à Sua Aliança. Nesta Aliança, Deus é sempre fiel. Importa que nós o sejamos também.

Porque fomos criados por Deus à Sua imagem e semelhança, fomos criados pelo Amor e para amar. É no amor que encontramos a alegria de viver. Esse é o nosso “habitat” natural, para nos sentirmos verdadeiramente felizes, contentes, realizados.

Para podermos usufruir dessa tranquilidade, paz e alegria, temos que seguir os caminhos do Senhor. No seguimento desses caminhos encontraremos o arco da Aliança que o Senhor quis fazer connosco e a que a primeira Leitura da Missa de hoje se refere. Foi precisamente o afastamento desses benditos caminhos do Senhor que levou os homens ao desastre do dilúvio. É esse afastamento que continua a levar muitos homens aos desastres, guerras, tragédias em que a pobre humanidade se vê envolvida.

 

2. Importa optar pelo Senhor.

 

Como S. Pedro nos diz na Segunda Leitura da Missa de hoje, essa opção pelo Senhor foi feita por cada um de nós, quando recebeu o Sacramento do Batismo. Se verdadeiramente queremos viver felizes nesta vida, sempre tão passageira, é necessário que sejamos coerentes com o nosso Batismo, vivendo como filhos de Deus, confiando totalmente na Sua omnipotência e Amor infinito.

Essa coerência exige que, como Jesus, tenhamos coragem para vencer as tentações de Satanás.

O tempo da Quaresma que agora iniciamos é tempo de arrependimento, é tempo de verdadeiramente acreditar no Evangelho.

O Evangelho de hoje fala-nos das tentações a que o Senhor se sujeitou, depois de quarenta dias de oração e penitência, passados no deserto. Estas tentações, como que resumem todas as demais a que podemos estar sujeitos durante a nossa vida. O Senhor nos ensinou como vencê-las: penitência, oração e recurso à Palavre de Deus, que todos os dias importa meditar.

 

3. “Nem só de pão vive o homem.”

 

Frente a todas as tentações que até nós possam chegar, façamos atos de fé na Boa Nova de saber e sentir que Deus á Pai que nos ama com Amor infinito.  Ele só quer a nossa felicidade terrena e eterna. Afastarmo-nos desta meta é afastarmo-nos da felicidade que todos tanto desejamos. Não nos deixemos enganar. “Nem só de pão vive o homem” nos recorda Jesus. Como são enganadores as promessas contrárias: vontade desmesurada dos bens materiais, ânsia de ter, etc. Razão tinha Santo Agostinho para afirmar de que só em Deus, seu coração encontrou o descanso que procurava.

O orgulho que cegou os nossos primeiros pais, continua a ser a raiz de todos os males. Contra essa loucura continua a debater-se a pobre humanidade. As guerras, sofrimentos e lágrimas são consequência desses desvarios diabólicos.

Correspondamos ao Amor infinito que Deus nos tem. Amor com amor se paga. Nisto consiste a nossa verdadeira conversão. Aí estão os caminhos do Senhor que importa e vale a pena percorrer. Só esses nos conduzirão à felicidade eterna do Céu. Vamos levá-los muito a sério, neste santo tempo da Quaresma e ajudemos os nossos irmãos a segui-los também.

 

Fala o Santo Padre

 

«Nas tentações Jesus nunca dialoga com o diabo, nunca. Jesus responde com três passagens da Escritura.

[…]A tentação é entrar em diálogo com ele, como fez Eva; e se entrarmos em diálogo com o diabo, seremos derrotados.

Colocai isto na cabeça e no coração: nunca dialogar com o diabo, não há diálogo possível.

Apenas a Palavra de Deus.»

Quarta-feira passada, com o rito penitencial das cinzas, começámos o percurso da Quaresma. Hoje, primeiro domingo deste tempo litúrgico, a Palavra de Deus indica-nos o caminho para viver frutuosamente os quarenta dias que precedem a celebração anual da Páscoa. É o caminho percorrido por Jesus, que o Evangelho, no estilo essencial de Marcos, resume dizendo que antes de começar a sua pregação, ele se retirou durante quarenta dias no deserto, onde foi tentado por Satanás (cf. 1, 12-15). O Evangelista enfatiza que «o Espírito impeliu Jesus para o deserto» (v. 12). O Espírito Santo desceu sobre ele imediatamente após o batismo recebido de João no rio Jordão, o mesmo Espírito impele-o agora a ir para o deserto, para enfrentar o Tentador, para lutar contra o diabo. Toda a existência de Jesus é colocada sob o signo do Espírito de Deus, que o anima, inspira e guia.

 

Mas pensemos no deserto. Reflitamos um momento sobre este ambiente, natural e simbólico, tão importante na Bíblia. O deserto é o lugar onde Deus fala ao coração do homem, e onde brota a resposta da oração, ou seja, o deserto da solidão, o coração desapegado de outras coisas e sozinho, nesta solidão, abre-se à Palavra de Deus. Mas é também o lugar da provação e da tentação, onde o Tentador, aproveitando a fragilidade e as necessidades humanas, insinua a sua voz mentirosa, alternativa à de Deus, uma voz alternativa que mostra outro caminho, um caminho de engano. O Tentador seduz. Na verdade, durante os quarenta dias vividos por Jesus no deserto, começa o “duelo” entre Jesus e o diabo, que terminará com a Paixão e a Cruz. Todo o ministério de Cristo é uma luta contra o Maligno nas suas numerosas manifestações: curas de doenças, exorcismos sobre os possuídos, perdão dos pecados. Após a primeira fase em que Jesus demonstra que fala e age com o poder de Deus, parece que o diabo tem a vantagem, quando o Filho de Deus é rejeitado, abandonado e por fim capturado e condenado à morte. Parece que o diabo é o vitorioso. Na realidade, foi precisamente a morte o último “deserto” a atravessar para derrotar definitivamente Satanás e libertar-nos a todos do seu poder. E assim Jesus venceu no deserto da morte para vencer na Ressurreição.

 

Todos os anos, no início da Quaresma, este Evangelho das tentações de Jesus no deserto recorda-nos que a vida do cristão, nas pegadas do Senhor, é uma batalha contra o espírito do mal. Mostra-nos que Jesus enfrentou voluntariamente o Tentador e o venceu; e ao mesmo tempo recorda-nos que ao diabo é concedida a possibilidade de agir também sobre as tentações. Devemos estar conscientes da presença deste inimigo astuto, interessado na nossa condenação eterna, no nosso fracasso, e preparar-nos para nos defendermos dele e combatê-lo. A graça de Deus assegura-nos, através da fé, oração e penitência, a vitória sobre o inimigo. Mas gostaria de salientar uma coisa: nas tentações Jesus nunca dialoga com o diabo, nunca. Na sua vida, Jesus nunca teve um diálogo com o diabo, nunca. Ou o afasta dos possuídos ou o condena ou mostra a sua malícia, mas nunca dialoga com ele. E no deserto parece haver um diálogo porque o diabo lhe faz três propostas e Jesus responde. Mas Jesus não responde com as suas palavras; responde com a Palavra de Deus, com três passagens da Escritura. E é isto que também todos nós devemos fazer. Quando o sedutor se aproxima, começa a seduzir-nos: “Mas pensa isto, faz aquilo...” A tentação é entrar em diálogo com ele, como fez Eva; e se entrarmos em diálogo com o diabo, seremos derrotados. Colocai isto na cabeça e no coração: nunca dialogar com o diabo, não há diálogo possível. Apenas a Palavra de Deus.

 

No tempo da Quaresma, o Espírito Santo também nos exorta, como Jesus, a entrar no deserto. Não se trata - como já vimos - de um lugar físico, mas de uma dimensão existencial na qual permanecer em silêncio, escutar a palavra de Deus, «para que a verdadeira conversão se realize em nós» (Oração da coleta do 1º Domingo da Quaresma B). Não tenhamos medo do deserto, procuremos mais momentos de oração, de silêncio, para entrarmos em nós mesmos. Não receemos. Somos chamados a caminhar pelas veredas de Deus, renovando as promessas do nosso batismo: renunciar a Satanás, a todas as suas obras e a todas as suas seduções. O inimigo está ali à espreita; estai atentos. Nunca dialogueis com ele. Confiamo-nos à intercessão materna da Virgem Maria.

 

Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 21 de fevereiro de 2021

 

Oração Universal

 

Irmãos e Irmãs, cheios de confiança no Senhor Jesus Cristo,

que com bom Mestre sempre nos ensina com o Seu exemplo

e peçamos que nos faça compreender os caminhos que devemos seguir

para sempre vencermos os grandes inimigos da nossa alma

dizendo: Mostrai-nos, Senhor, o vosso Amor.

 

R. Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor.

 

1.    Pelo Santo Padre, o Papa Francisco

pelos Bispos, Sacerdotes, diáconos, religiosos e missionários,

para que sejam luz e fogo do Amor de Deus para todos os homens,

oremos irmãos.

 

R. Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor.

 

2.    Para que as comunidades cristãs se abram

à graça da conversão e descubram na Eucaristia

e força que vence tudo aquilo que d’Ele nos separa,

oremos, irmãos.

 

R. Mostrai-nos Senhor, o vosso amor.

 

3.Para que todos os crentes encontrem

na Palavra do Senhor o apelo ao amor

e à solidariedade para com os pobres,

oremos, irmãos.

 

R. Mostrai-nos, Senhor, o vosso

 

4.    Para que todo o ser humano não se deixe seduzir

pelas falsas promessas mundana de felicidade,

mas saiba resistir às enganadoras propostas do maligno,

 oremos, irmãos.

 

R.  Mostrai-nos Senhor, o vosso amor.

 

5.    Para que todo os governantes das nações

renunciem à ganância, à sede do poder, da desunião e do ódio,

e velem pela justiça e não exploração dos fracos,

oremos, irmãos.

 

R . Mostrai-nos Senhor, o vosso amor.

 

6.    Pelos defuntos da nossa comunidade e do mundo inteiro

para que, purificados das suas faltas,

possam contemplar na eternidade o rosto de Jesus Cristo glorioso,

oremos, irmãos.

 

R. Mostrai-nos Senhor, o vosso amor.

 

Senhor, que fazeis da nossa vida na terra

um caminho do Batismo até ao Céu,

ajudai-nos a vivê-lo com generosidade,

para Vos contemplarmos na Glória.

Por Nosso Senhor, Jesus Cristo, vosso Filho que convosco reina

na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Caminho pelo deserto, J. Santos, NRMS, 69

 

Oração sobre as oblatas: Fazei que a nossa vida, Senhor, corresponda à oferta das nossas mãos, com a qual damos início à celebração do tempo santo da Quaresma. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

As tentações do Senhor

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Jejuando durante quarenta dias, Ele santificou a observância quaresmal e, triunfando das insídias da antiga serpente, ensinou-nos a vencer as tentações do pecado, para que, celebrando dignamente o mistério pascal, passemos um dia à Páscoa eterna.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: C. Silva - OC (pg 537)

 

Saudação da paz

 

A paz, que todos tanto desejamos, só se alcança por uma luta generosa contra as tentações do demónio, do mundo e da carne. Prontifiquemo-nos a fazê-lo com particular diligência neste santo tempo da Quaresma. Com esse propósito, saudai-vos na paz de Cristo.

 

Monição da Comunhão

 

“Nem só de pão vive o homem” mas de toda a Palavra de Deus e da Eucaristia, para o qual Nosso Senhor nos convida, neste momento. Com Ele todas as tentações serão vencidas. Vamos recebê-LO com muita fé, esperança, amor, humildade e profunda gratidão.

 

Cântico da Comunhão: Nem só de pão vive o homem – F. Silva, NRMS, 29

Mt 4, 4

Antífona da comunhão: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.

 

ou

Salmo 90, 4

O Senhor te cobrirá com as suas penas, debaixo das suas asas encontrarás abrigo.

 

Cântico de acção de graças: O Senhor cobrir-te-á – F. Santos, BML, 55

 

Oração depois da comunhão: Saciados com o pão do Céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade, nós Vos pedimos, Senhor: ensinai-nos a ter fome de Cristo, o verdadeiro pão da vida, e a alimentar-nos de toda a palavra que da vossa boca nos vem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Esta vida é uma luta, até à vitória final. Não nos podemos deixar adormecer, porque o inimigo, qual leão, como nos recorda S. Pedro, ruge à nossa volta, ameaça surpreender-nos. Vivamos e ajudemos os nossos irmãos a permanecerem vigilantes na oração e na escuta da Palavra de Deus. Com esse propósito, Ide em paz e o Senhor vos acompanhe!

 

Cântico final: Dai-me Senhor, um coração puro – M. Luís, CAC, pg 143

 

 

Homilias Feriais

 

1ª SEMANA

 

2ª Feira, 19-II: Amar os defeitos do próximo.

Lev 19, 1-2. 11-18 / Mt 25, 31-46

Vinde benditos de meu Pai, recebei como herança o reino, que vos está preparado desde a criação do mundo.

Quem quiser alcançar a santidade, há-de esforçar-se por cumprir os mandamentos (Leit.). São um caminho de vida, ajudam a libertar da escravidão do pecado.

E a segunda metade do Decálogo refere-se ao amor fraterno (Leit. e Ev.). Jesus na cruz manifesta o seu amor, pedindo perdão ao Pai por todos aqueles que O ofendem. Deu uma esplêndida lição de caridade para com o próximo. E pede-nos que O saibamos descobrir em cada uma das pessoas que nos rodeiam: perdoando, compreendendo. Peçamos-lhe que no nosso coração, como no dEle, caibam igualmente as virtudes e os defeitos dos outros.

 

3ª Feira, 20-II: A vontade de Deus e o perdão das ofensas.

Is 55, 10-11 / Mt 6,7-15

Orai pois, deste modo: Pai nosso, que estais nos céus...

Devemos rezar confiadamente a oração que o Senhor nos ensinou, o Pai nosso (Ev.), que contém tudo o que podemos pedir a Deus, e que é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho.

As Leituras de hoje recordam-nos duas petições. A 1ª. «seja feita a vossa vontade», pede que acolhamos a palavra que sai da boca de Deus e que a cumpramos (Leit.). A 2ª, «perdoai-nos as nossas ofensas», é resultado do seu sacrifício reparador na Cruz. Agradeçamos ao Senhor, manifestemos a contrição pelos nossos pecados e reparemos pelas ofensas alheias.

 

4ª Feira, 21-II: A mensagem divina para a Quaresma.

Jonas 3, 1-10 Lc 11, 29-32

Ergue-te e vai à cidade de Nínive e proclama-lhe a mensagem que te direi.

Na Quaresma recebemos uma mensagem de Deus, como aconteceu com os habitantes de Nínive, que nos convida à conversão e ao arrependimento (Leit. e Ev.).

Reconheçamos os nossos pecados, pensando nos sofrimentos de Jesus. Peçamos perdão por todas as nossas ofensas e negligências; manifestemos o nosso arrependimento, fazendo o propósito de cumprir os pequenos deveres de cada momento e recebamos o sacramento da Penitência, que concretiza o apelo de Jesus à conversão e o esforço por regressar à casa do Pai, da qual nos afastamos pelos nossos pecados.

 

5ª Feira, 22-II: A conversão e a oração.

Est 14, 1. 3-5. 12-14 / Mt 7, 7-12

Pois todo aquele que pede, recebe; quem procura, encontra; e, ao que bate, abrir-se-á.

A oração é uma das formas de vivermos a penitência quaresmal, juntamente com o jejum e a esmola. O coração, assim decidido, aprende a orar na fé pois, sendo Jesus a Porta, diz-nos para batermos (Ev.).

A rainha Ester é um bom exemplo desta oração: «Vinde socorrer-me, que eu estou só e só em vós tenho auxílio, pois sinto ao alcance da mão o perigo que me espreita» (Leit.). Peçamos ao Senhor que nos socorra nos momentos da tentação. Como o bom ladrão arrependido, através da sua oração, conseguiu que o Senhor lhe abrisse as portas do Céu.

 

6ª Feira, 23-II: A conversão pessoal e a repercussão na sociedade.

Ez 18, 21-28 / Mt 5, 20-26

Se o pecador se arrepender de todas as faltas que tiver cometido, há-de viver e não morrerá.

A Quaresma é tempo de conversão, de arrependimento, que nos conduzirá de novo à vida (Leit.) e à reconciliação com Deus, através da reconciliação com o nosso irmão (Ev.).

A conversão interior de cada um de nós está igualmente ligada ao esforço por introduzir, nas instituições e condições de vida, as correções convenientes. De um modo especial, na família de cada um de nós. Sempre poderemos igualmente tentar fazer alguma coisa nas chamadas 'estruturas' de pecado, denunciando-as, para que estejam conformes com a justiça e favoreçam o bem em vez de se lhe oporem.  A sociedade reconciliar-se-á assim com Deus.

 

Sábado, 24-II: Heroicidade na caridade.

Deut 26, 16-19 / Mt 5, 43-48

Pois eu digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus.

Moisés lembrava ao povo que deveria pôr em prática os preceitos e sentenças do Senhor, cumprindo-os com todo o coração e com toda a alma (Leit.).

Jesus pede aos seus discípulos uma nova forma de viver a caridade: amar os inimigos e rezar por eles (Ev.). Foi o que Ele próprio viveu, e assim no-lo pede para sermos bons filhos de Deus. No Sermão da Montanha já acrescentara a proibição da ira, do ódio e da vingança. E na Cruz pede ao Pai que perdoe aqueles que O insultaram, porque não sabem o que fazem; oferece a sua vida por todos, incluídos os seus carrascos. Procuremos imitá-lo.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:            Alves Moreno

Nota Exegética:          Geraldo Morujão

Homilias Feriais:         Nuno Romão

Sugestão Musical:      José Carlos Azevedo

 


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