Quarta-Feira de Cinzas

14 de Fevereiro de 2024

 

 

Na Missa deste dia benzem-se e impõem-se as cinzas, feitas dos ramos de oliveira (ou de outras árvores), benzidos no Domingo de Ramos do ano anterior.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada:  Eis o tempo favorável – M. Borda, NRMS, 53

cf. Sab 11, 24-25.27

Antífona de entrada: De todos Vos compadeceis, Senhor, e amais tudo quanto fizestes; perdoais aos pecadores arrependidos, porque sois o Senhor nosso Deus.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Igreja inaugura o tempo da Quaresma com a Quarta Feira de Cinzas, convidando-nos a preparar a Páscoa da Ressurreição do Senhor.

Iniciamos este tempo de Penitência com um dia de jejum e abstinência e terminamo-lo do mesmo modo, em Sexta-feira Santa.

Tudo nos convida a uma reflexão mais profunda sobre nós mesmos, a começar nos paramentos de cor roxa, e a supressão do Glória e do Aleluia, como aclamação ao Evangelho, a lembrar a mortificação.

Além disso, inauguramos este tempo favorável com o rito penitencial da imposição das cinzas, um sacramental cheio de tradição bíblica e de simbolismo na nossa vida.

Entremos, pois, decididamente na Quaresma, dispostos a colaborar com o Espírito Santo, numa verdadeira renovação da nossa vida espiritual.

 

Acto penitencial

 

(Quando há imposição das cinzas no momento próprio da celebração, omite-se o ato penitencial, pois este substitui-o.)

 

Deus espera de nós um gesto claro de conversão pessoal, pelo reconhecimento leal das nossas culpas, um arrependimento verdadeiro e um desejo de emenda de vida.

Peçamos ao Senhor que nos ilumine interiormente, para que vejamos o que na nossa vida, diante do Seu divino olhar, precisa ser emendado.

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C do Ordinário da Missa)

 

•   Senhor Jesus: Não temos sido muito generosos em dar esmola aos necessitados

     e estamos à espera de que eles nos agradeçam os pequenos favores e serviços.

     Senhor, misericórdia.

 

     Senhor, misericórdia.

 

•  Cristo: Sentimos a necessidade de fazer jejum sobre muitas coisas nesta vida,

     mas somos pouco generosos quando se nos apresentam as ocasiões de o fazer.

     Cristo, misericórdia.

 

     Cristo, misericórdia.

 

•   Senhor Jesus: Reconhecemos na Vossa presença que temos descurado a oração,

     porque rezamos pouco e poucas vezes, o fazemos mal e com muitas distrações.

     Senhor, misericórdia.

 

     Senhor, misericórdia.

 

Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,

perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.

 

Omite-se o acto penitencial, porque é substituído pela imposição das cinzas.

 

Oração colecta: Concedei-nos, Senhor, a graça de começar com santo jejum este tempo da Quaresma, para que, no combate contra o espírito do mal, sejamos fortalecidos com o auxílio da temperança. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Joel, um dos doze profetas menores, lança um apelo à conversão do Povo de Deus, numa época de profunda crise religiosa.

As suas palavras proféticas são perfeitamente válidas para nos moverem a uma verdadeira conversão, nesta Quaresma.

 

Joel 2,12-18

 

12Diz agora o Senhor: «Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. 13Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete. 14Quem sabe se Ele não vai reconsiderar e desistir deles, deixando atrás de Si uma bênção, para oferenda e libação ao Senhor, vosso Deus? 15Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. 16Reuni o povo, convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças. Saia o esposo do seu aposento e a esposa do seu tálamo. 17Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: ‘Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo e não entregueis a vossa herança à ignomínia e ao escárnio das nações. Porque diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?’». 18O Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo.

 

Começa a Quaresma com um forte apelo à conversão e de esperança no perdão do Senhor, extraído do final da primeira parte do livro do profeta Joel (1,2 – 2,17). Num estilo solene e apocalíptico, fala de uma invasão de gafanhotos medonhos, mas sem ficar claro se fala em sentido próprio ou figurado. Se a obra é anterior ao exílio de Babilónia, aludiria a invasões de exércitos inimigos; se é posterior, tratar-se-ia de alguma praga agrícola. Joel não se detém a denunciar os pecados concretos do povo, como é costume dos grandes profetas. Diante da enorme calamidade apresentada como castigo divino, o profeta apela para uma sincera conversão, a começar pela dos sacerdotes (1,13).

12-13 «Convertei-vos a Mm de todo o coração». Não é suficiente uma manifestação exterior de dor; rasgar as vestes (v. 13) era um típico gesto de grande dor ou indignação, entre os judeus; rasgavam violentamente a túnica exterior, do pescoço até à cintura (cf. Gn 37,29; Mt 26,65). O coração não significa, na linguagem bíblica, apenas a afectividade, mas toda a interioridade da pessoa, todas as suas virtualidades, a sua inteligência e a sua vontade. Deus também nos convida a nós, mais fortemente neste tempo da Quaresma, a voltarmo-nos para Ele de todo o coração, isto é, com todas as veras da nossa alma, e a rasgar o nosso coração, a dilacerá-lo pela contrição, que é essa profunda mágoa de ter ofendido ao Senhor, infinitamente bom. Mas esta dor não é dor angustiante e desesperada, porque é cheia de esperança no perdão, pois Ele é clemente e compassivo… rico de bondade.

«É clemente e compassivo, paciente e misericordioso». A Vulgata e a Nova Vulgata têm «benignus et misericors est, patiens et multæ misericordiæ». «Compassivo», isto é, dotado de piedade e ternura, de compreensão e disposição para perdoar: o termo hebraico «rahum» é derivado de «réhem» (ventre materno), o que sugere que Deus tem entranhas de mãe, sentimentos e coração de mãe para connosco. Assim, o seu amor não acaba quando nos portamos mal com Ele; então tem pena de nós, compreende e facilita a reconciliação. Por seu lado, a expressão «misericordioso» (à letra, «de muita misericórdia») deixa ver que a misericórdia do Senhor («hésed») não é uma bondade qualquer, é a bondade de Quem se mantém fiel a Si próprio (cf. Ez 36,22); daqui a frequente hendíadis da S. E.: «amor e fidelidade» («hésed v-émet», um amor que é fidelidade). Este atributo divino tem na sua origem bíblica um matiz jurídico: a fidelidade de Deus à Aliança; uma fidelidade tal que, após o pecado, se mantém, embora já não dentro do mero âmbito legal dum pacto bilateral. Com efeito, mesmo quando o homem rompe a Aliança, Deus continua a manter-se fiel a Si próprio, ao seu amor gratuito, ao seu dom inicial (cf. Rom 11,29). O amor de Deus é mais forte do que o nosso desamor, as nossas traições e pecados: «jamais algum pecado do mundo poderá superar este Amor» (João Paulo II em Fátima: 13.05.82; cf. Enc. Dives in misericordia).

14 «Vai reconsiderar». A expressão é um antropomorfismo com que se fala de Deus à maneira humana, mas de facto Deus não pode reconsiderar e mudar; se, em face da nossa penitência, Deus já não nos castiga e atende às nossas súplicas, a mudança apenas se dá em nós, não em Deus, que sempre tudo tem presente e tudo dispõe, contando com as nossas mudanças. O Profeta fala de Deus à maneira humana, ao dizer também que «Ele se encheu de zelo pela sua terra» (v. 18), em face do apelo feito ao brio do Senhor, numa súplica tão humilde como ousada da parte dos seus «ministros» (v. 17).

 

Salmo Responsorial Sl 50 (51), 3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a)

 

Monição: Depois de termos acolhido o apelo veemente do profeta Joel à conversão, a Liturgia convida-nos a fazer do salmo 50 a nossa oração. 

Este salmo é um ato de contrição dirigido ao Senhor do Universo e é sempre válido em todas as épocas da história.

 

Refrão:    Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.

 

Ou:           Tende compaixão de nós, Senhor,

                 porque somos pecadores.

 

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,

pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.

Lavai-me de toda a iniquidade

e purificai-me de todas as faltas.

 

Porque eu reconheço os meus pecados

e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.

Pequei contra Vós, só contra Vós,

e fiz o mal diante dos vossos olhos.

 

Criai em mim, ó Deus, um coração puro

e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.

Não queirais repelir-me da vossa presença

e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

 

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação

e sustentai-me com espírito generoso.

Abri, Senhor, os meus lábios

e a minha boca cantará o vosso louvor.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Paulo dirige aos fiéis da igreja de Corinto uma calorosa exortação à penitência e à conversão pessoal.

Esta exortação é também dirigida a cada um de nós, neste primeiro dia da Quaresma, porque ela é o tempo favorável, [...] o dia da salvação.

 

2 Coríntios 5,20 – 6,2

 

20Irmãos: Nós somos embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. 21A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus. 6,1Como colaboradores de Deus, nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. 2Porque Ele diz: «No tempo favorável, Eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio». Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação.

 

S. Paulo, ao fazer a sua defesa perante as acusações dos seus opositores em Corinto, exalta a grandeza do ministério apostólico de que está investido, um ministério de reconciliação com Deus alcançada pelo mistério da Morte e Ressurreição de Cristo (5,14-15).

20 «Reconciliai-vos com Deus». É este o insistente convite que a Igreja nos faz em nome de Deus, a mesma exortação que fazia S. Paulo, consciente de que «é Deus quem vos exorta por nosso intermédio». Os Apóstolos, como os demais ministros de Cristo, são «embaixadores de Cristo», não apenas «ao seu serviço», mas actuando «em vez de Cristo e por autoridade de Cristo»; o próprio texto original grego parece dá-lo a entender com a preposição hyper (em favor de Cristo), usada com o sentido do antí (em vez de: cf. Jo 11,50; Gal 3,13; etc.).

21 «Deus identificou-o com o pecado» (à letra, Deus fê-lo pecado), uma expressão extraordinariamente forte e chocante. Note-se, no entanto, que não se diz que Deus O tenha feito pecador. A nova tradução da CEP não receia propor a tradução literal: «Àquele que não conhecera o pecado, Deus por nós o fez pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus». O que se pretende dizer é que Deus permitiu que Jesus viesse a sofrer o castigo que cabia ao pecado. Trata-se aqui duma identificação jurídica, não moral. Cristo tornando-Se a Cabeça e o Chefe duma raça pecadora, toma sobre os seus ombros a responsabilidade, não a de uns pecados alheios, mas a dos pecados da sua raça (a raça humana), a fim de os expiar, sofrendo a pena devida por eles (cf. Gal 3,13). O texto torna-se menos duro, se entendemos que Cristo se fez pecado, no sentido de que se fez sacrifício pelo pecado. Isto, que podia parecer uma escapatória para evitar a dificuldade de interpretação, tem um certo fundamento no substrato hebraico, pois a palavra ’axam tem este duplo sentido de «violação da justiça» e de «sacrifício de reparação pelo pecado». Com efeito, pelo sacrifício de Cristo, tornamo-nos «justiça de Deus», isto é, justos diante de Deus (note-se o jogo com os dois substantivos abstractos – pecado/justiça –, num evidente paralelismo antitético, tão do gosto paulino).

6,2 «Este é o tempo favorável». S. Paulo cita aqui Isaías 49,8, onde se classifica assim o momento em que aprouve à misericórdia divina libertar os israelitas do cativeiro. O Apóstolo insiste em que «agora» é que é o tempo realmente favorável, o tempo em que Jesus Cristo nos redimiu do cativeiro do pecado (cf. Gal 4,4-5). A tradução litúrgica não valorizou este advérbio «agora», repetido por duas vezes, mas recuperado na nova tradução da CEP. S. Paulo actualiza a expressão grega de Isaías, «tempo favorável» (LXX), ao fazer ver que agora é que é o momento singularmente oportuno, em que apraz à misericórdia divina operar a nossa salvação. E a Liturgia pretende fazer aqui uma acomodação deste texto ao tempo santo da Quaresma.

 

Aclamação ao Evangelho    cf. Sl 94, 8ab

 

Cântico:Louvor e glória a Vós – B. Salgado, NRMS, 32

 

Se hoje ouvirdes a voz do Senhor,

não fecheis os vossos corações.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 6,1-6.16-18

 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1«Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. 2Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 3Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, 4para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 5Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 16Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa».

 

Os versículos da leitura são tirados do meio do Sermão da Montanha de S. Mateus; por focarem práticas tipicamente judaicas, estes versículos não têm paralelos nos outros evangelistas, que se dirigem a cristãos na sua maioria vindos dos gentios.

1 «As vossas boas obras» letra, a vossa justiça, como teremos na nova tradução da CEP), isto é, os actos tradicionais da boa piedade judaica, a esmola, a oração e o jejum. Jesus de modo algum os suprime ou diminui o seu valor, pelo facto de serem actos de piedade pessoal individual. O que exige é que todos estes actos se façam sempre com rectidão de intenção, isto é, com uma sincera piedade, com o fim de agradar a Deus, e não por ostentação, ou para se receber o aplauso humano.

6 «Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto». Segundo estas palavras de Jesus, desde crianças, fomos ensinados a rezar não apenas comunitariamente, mas também, a sós: «no teu quarto». O Senhor ensina aqui a necessidade da oração individual (o que não quer dizer individualista). Deus chama os homens à salvação, fazendo-os entrar dentro do Povo de Deus, a sua Igreja, mas chama-os um a um (nominatim: Jo 10,3). Com efeito, são imprescindíveis tanto a oração púbica, que manifesta o carácter de família e povo que somos em Cristo, como a oração a sós, que manifesta a resposta pessoal e intransferível de cada um de nós ao seu Pai celeste. Por sua vez, Jesus não se limitou a pregar a necessidade da oração individual, pois Ele próprio deu este mesmo exemplo (cf. Mt 14,23; Mc 1,35; Lc 5,16; 6,12; 9,18; 11,1.28-29), um exemplo que foi seguido pelos Apóstolos (cf. Act 10,9). Também a experiência pessoal de todos os Santos e dos que tomam a sério a fé cristã nos diz que é imprescindível este tipo de oração, que consiste em se recolher para, a sós, falar com Deus, frequentemente. A esta oração recolhida e íntima nos convida hoje o Senhor e a Liturgia nesta Quaresma, que agora começa.

 

Sugestões para a homilia

 

• Quaresma e conversão pessoal

• Um programa para a Quaresma

 

1. Quaresma e conversão pessoal

 

A Igreja, com a pedagogia da Mãe, iluminada pelo Espírito Santo, começa a Quaresma pela Quarta Feira de Cinzas, convidando-nos a preparar cuidadosamente a Páscoa em cuja solene Vigília renovaremos solenemente as promessas do nosso Batismo e em que muitas pessoas vão receber este Sacramento da Iniciação Cristã.

Por isso, apresenta-a como um catecumenado de cinco semanas, no qual renovaremos a doutrina das principais verdades da nossa fé cristã.

Nesta Quarta Feira, somos convidados a acolher o rito penitencial da imposição das cinzas.

O Senhor chama-nos à conversão. «Diz agora o Senhor: “Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete.”»

A conversão pessoal dá-se no coração, no íntimo de cada um de nós. É uma mudança que nos leva a voltar as costas ao mal – a tudo o que, na nossa vida, desagrada ao Senhor – e a voltarmo-nos para Deus, depois de uma generosa purificação.

Quando ouvimos falar em conversão pessoal, logo somos tentados a pensar que não precisamos dela, porque já somos bons cristãos. E assim, deixamos passar este convite do Senhor, mantendo fechada a porta do nosso coração, como quando pensamos que um determinado correio não é para nós, mas para o vizinho do lado.

Ora, se o Senhor nos chama à conversão, é porque precisamos dela urgentemente. «Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino do céu.» (S. Mateus 18,3-5, 10).

A conversão exprime-se, antes de mais, pela contrição dos pecados e defeitos. Temos contrição perfeita quando detestamos os nossos pecados e o fazemos, porque ofendemos ao nosso Deus, não correspondendo ao Seu Amor para connosco. Mas é também verdadeiro arrependimento quando nos arrependemos pelo temor das penas do inferno ou pela fealdade do pecado cometido.

Quando pecamos, colocamo-nos, de algum modo, ao lado dos anjos rebeldes e renovamos a ingratidão e leviandade de Adão e Eva, e tudo isto contrasta com a bondade e misericórdia que o nosso Pai-Deus tem tido para connosco.

A voz de Deus que, pela Liturgia, nos chama hoje, agora, à conversão pessoal é a voz de Amor de um Pai que nos ama infinitamente e não desiste de partilhar eternamente connosco a Sia felicidade infinita.

• Confiamo-nos à Divina Misericórdia. «Quem sabe se Ele não vai reconsiderar e desistir deles, deixando atrás de Si uma bênção, para oferenda e libação ao Senhor, vosso Deus? Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. Reuni o povo, convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças

O profeta Joel exprime, como estilo literário, em forma de dúvida – Quem sabe…? – aquilo que é uma certeza da fé, para nós. Ninguém deseja tanto o nosso regresso ao caminho da felicidade do Seu Amor, como Deus. Se assim não fosse, para que estaria a convidar-nos à emenda de vida? Mesmo entre os homens, seria iníquo convidar alguém para vir a nossa casa e bater-lhe com a porta na cara.

Esta confiança de que vamos ser bem recebidos é fundamental para a nossa conversão. Não podemos ir ao encontro de Deus com desconfiança, de pé atrás, à espera do pior.

Em “O processo de Jesus”, de Diego Fabri, o filho pródigo pergunta: “Achais que se eu não tivesse a certeza de que ia ser bem recebido, teria voltado a casa?

O último baluarte do Inimigo, para impedir a nossa conversão, é levar-nos a desconfiar de Deus, fazendo crescer aos nossos olhos os pecados pessoais e ingratidões, e imaginando Deus ao estilo dos homens, que se cansam de perdoar.

O Pai já reconsiderou e desistiu de qualquer castigo, porque instaurou para nós, nestes novos tempos, a era da misericórdia infinita, que é um atributo da Santíssima Trindade, que Jesus Cristo nos ganhou e que o Espírito Santo derrama sobre nós.

Por isso, deixemos para trás toda a timidez e desconfiança que nos faz hesitar e avancemos corajosamente com a contrição dos nossos pecados e algum sinal de penitência sugeridos pelo profeta: «Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. Reuni o povo, convocai a assembleia».

Rezemos com maior atenção interior o Pai nosso, o ato de contrição e a confissão, bem como outras orações em que exprimimos ao Senhor a nossa contrição dos pecados cometidos.

Sinais de conversão. «Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo:‘Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo e não entregueis a vossa herança à ignomínia e ao escárnio das nações. Porque diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?’». O Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo

Sem arrependimento sincero, não há conversão verdadeira, porque não há detestação do pecado. Frequentemente caímos na tentação de justificar o nosso comportamento, ou de o desculpar, atribuindo-o ao nosso feitio, ou atirando as culpas para cima dos ombros das outras pessoas.

Entre as bem aventuranças, Jesus proclama bem aventurados – felizes nesta vida e na futura – aqueles que choram, porque serão consolados. Refere-se às lágrimas choradas como contrição dos próprios pecados e dos pecados dos outros. Esta bem aventurança evangélica proclama a delicadeza de coração.

É necessária uma outra ajuda, nesta Quaresma: a reparação. Reparar quer dizer desfazer o mal feito: restituir uma quantia que se roubou ou a fama que fizemos perder com as nossas palavras irresponsáveis… O ouro fino da reparação é o desgravo das ofensas feitas contra a Bondade e Majestade infinitas do nosso Deus. O Senhor precisa de muitas almas reparadoras na Sua Igreja que, diante do Sacrário ou no silêncio do seu quarto, desgravem ao Senhor por todos os pecados cometidos. A isto nos convida a oração ensinada pelo Anjo de Portugal aos Pastorinhos de Fátima, em 1916.

A reparação é uma devoção de sempre, mas está especialmente recomendada nesta Quaresma. Lembremos as faltas de respeito pela vida humana, em tantos abortos e guerras; os ódios acirrados propositadamente para conseguir resultados nefastos; as profanações da Santíssima Eucaristia por todos os modos que o Demónio inventou; os roubos e danificações irresponsáveis dos bens alheios; e o descaminho de tantas pessoas que se comprometem a trabalhar ao serviço de Satanás.

Escutemos a voz de Deus que chega até nós por S. Paulo, na Segunda Carta aos fiéis da Igreja de Corinto: «Nós somos embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus

 

2. Um programa para a Quaresma

 

Há um estilo da penitência quaresmal que Jesus Cristo nos ensina no Evangelho e devemos cultivar.

O Senhor fala de três práticas a exercitar, especialmente na Quaresma, como preparação para a Páscoa: a oração, a esmola e o jejum.

Começa esta exposição por uma advertência que vai repetir ao longo da pregação, para que não a esqueçamos. «Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. [...] Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa

Recomenda-nos Jesus que tenhamos reta intenção em tudo o que fizermos, movidos apenas pelo amor de Deus e desejo de Lhe agradar, e não para procurar elogios ou quaisquer benefícios deste mundo.

Deus pede-nos intenção reta no que fazemos, para que a nossa oração, jejum e esmola sejam acolhidos por Deus; que o nosso olhar não se dirija para as pessoas, à espera de um louvor ou de crescermos na sua apreciação, mas para Deus. Que pouco é receber os louvores dos homens pelo que fazemos, e mais nada!

As nossas esmolas. «Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa

O Senhor refere-se diretamente ao socorro material. Qualquer ajuda material a uma pessoa, família ou grupo social, reveste-se desta caraterística.

Pensemos na delicadeza que nos exige o socorrer a pobreza envergonhada e aqueles que, sendo pobres materialmente, se envergonham de receber qualquer esmola.

Certo homem tinha sido um trabalhador honrado e generoso, mas agora, nos últimos anos de vida, sem qualquer segurança social, como era naqueles tempos, precisava urgentemente de ajuda.

Um santo varão para quem ele trabalhara inventou um estratagema cheio de caridade cristã. Encomendou a este homem a guarda de uns quantos animais que estavam num recinto fechado e, portanto, de onde não podiam fugir. Mas o homem estava ali precisamente para o impedir. Ao fim do dia, recebia o seu salário, convencido de que tinha estado a prestar um grande serviço.

O Senhor deve ter sorrido, ao ver o estratagema deste homem, socorrendo o seu semelhante, mas evitando ferir a sua delicada sensibilidade. A caridade é engenhosa!

Todas as ajudas que damos ao próximo devem revestir-se desta discreta delicadeza, para que sejam agradáveis a Deus.

Podemos também incluir nesta prática quaresmal todas as outras ajudas oportunas que damos às pessoas: levantar alguém que caiu; antecipar-se a apanhar um objeto, ouvir com atenção um desabafo; dar um bom conselhos e qualquer outra espécie de serviço ao próximo. Em tudo isto havemos de proceder com a recomendação que Jesus nos faz: discretos e sem esperar que no-lo agradeçam.

Como havemos de rezar. «Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa.»

Renovemos a nossa oração, nesta Quaresma, não, talvez, aumentando o número de orações, mas rezando melhor.

Pode ajudar-nos este conselho de um santo: «Devagar. – Repara no que dizes, quem o diz e a quem. – Porque esse falar depressa, sem lugar para a reflexão, é ruído, chacoalhar de latas. E dir-te-ei, com Santa Teresa, que a isso não chamo oração, por muito que mexas os lábios.» (S. Josemaria, Caminho, n.º 85).

Há orações que fazemos em comum com outras pessoas, porque a Igreja ou a família, como tal, também deve orar. Jesus refere-se ao nosso plano pessoal de oração.

O isolamento e o silêncio, com o entrar no quarto e fechar a porta, lembram-nos, antes de tudo, que devemos procurar o lugar mais recolhido para fazer oração. Além disso. a nossa vida deve ser uma oração contínua, durante o trabalho, quando andamos na rua ou convivemos com as pessoas amigas.

Entrar no quarto equivale a procurar o isolamento possível; fechar a porta é cortar com todas as preocupações e que nos distraem, para nos encontrarmos só com Deus.

Mesmo quando fazemos oração no templo, havemos de procurar um lugar onde não tenhamos distrações contínuas, como, por exemplo, junto à porta de entrada. O mesmo temos de fazer ao rezar em família. Não faz sentido, por exemplo, estar a rezar com o televisor ou a rádio ligados, à janela que nos deixa ver tudo o que se passa lá fora, ou passando os olhos por um livro. Fechemos as portas às distrações, na medida do possível.

Procuremos, em qualquer circunstância, colocar-nos na presença de Deus, durante breves instantes, antes de dar início à nossa oração. Deus espera-nos aí, para nos olhar nos olhos e nos comunicar luzes para a nossa vida. Não percamos esta maravilhosa oportunidade.

Jejum discreto. «Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa

Estamos a considerar como jejum qualquer privação de comida e bebida e, portanto, como uma mortificação corporal. Esta forma de mortificar os nossos apetites tem uma longa tradição na Sagrada Escritura. Recorreu a ela Ester, para afastar do seu povo a exterminação, em Babilónia; Judite, para livrar Betúlia da crueldade de Holofernes; e os ninivitas, ao ouvirem a mensagem de Jonas. Jesus deu-nos o exemplo, jejuando quarenta dias e quarenta noites no Monte das Tentações, antes de começar a vida pública.

Mas há muitas outras formas de contrariar os nossos gostos e caprichos, reconquistando a liberdade sobre a tirania das coisas: jejuar de programas da televisão, da internet ou do telemóvel; comer mais do que gostamos menos e menos que que gostamos mais; sofrer, por uns momentos, a sede, antes de beber, etc; jejuar de um café ou de qualquer outro pequeno gosto a que estamos habituados.  

Jesus recomenda ainda, quando jejuamos uma cara alegre, o bom humor, o arranjo pessoal que não deixe perceber a mortificação. Em tudo cultivemos a alegria, como fruto da Esperança. Caminhamos para a Páscoa, para a Primavera da Igreja, e não para o inverno.

Imaginemos como seria o rosto de S. José ou de Nossa Senhora, no meio dos seus trabalhos e com que sorriso franco receberiam as visitas em Nazaré. Procuremos imitá-los.

 

Fala o Santo Padre

 

«A Quaresma é o tempo para verificar as estradas que estamos a percorrer,

para encontrar o caminho que nos leva de volta a casa,

para redescobrir o vínculo fundamental com Deus, do qual tudo depende.»

 

Principiamos o caminho da Quaresma, que se abre com as palavras do profeta Joel indicando-nos a direção a tomar. Trata-se dum convite que brota do coração de Deus, suplicando-nos de braços abertos e olhos cheios de nostalgia: «Convertei-vos a Mim de todo o vosso coração» (Jl 2, 12). Convertei-vos a Mim. A Quaresma é uma viagem de regresso a Deus. Quantas vezes, atarefados ou indiferentes, Lhe dissemos: «Senhor, espera! Virei encontrar-Vos mais tarde... Hoje não posso, mas amanhã começarei a rezar e a fazer algo pelos outros». E assim dia após dia… Agora Deus lança um apelo ao nosso coração. Na vida, sempre teremos coisas a fazer e desculpas a apresentar, mas, irmãos e irmãs, hoje é o tempo de regressar a Deus.

 

Convertei-vos a Mim – diz Ele – de todo o vosso coração. A Quaresma é uma viagem que envolve toda a nossa vida, tudo de nós mesmos. É o tempo para verificar as estradas que estamos a percorrer, para encontrar o caminho que nos leva de volta a casa, para redescobrir o vínculo fundamental com Deus, do qual tudo depende. A Quaresma não é compor um ramalhete espiritual; é discernir para onde está orientado o coração. Aqui está o centro da Quaresma: para onde está orientado o meu coração? Tentemos saber: Para onde me leva o «navegador» da minha vida, para Deus ou para mim mesmo? Vivo para agradar ao Senhor, ou para ser notado, louvado, preferido, no primeiro lugar e assim por diante? Tenho um coração «dançarino» que dá um passo para a frente e outro para trás, amando ora o Senhor ora o mundo, ou um coração firme em Deus? Sinto-me bem com as minhas hipocrisias ou luto para libertar o coração da simulação e das falsidades que o têm prisioneiro?

 

A viagem da Quaresma é um êxodo: é um êxodo da escravidão para a liberdade. São quarenta dias que recordam os quarenta anos em que o povo de Deus caminhou pelo deserto para voltar à terra de origem. Mas, como foi difícil deixar o Egito! Mais difícil do que deixar a terra foi tirar o Egito do coração do povo de Deus, aquele Egito que traziam dentro… É muito difícil deixar o Egito! Ao longo do caminho, nos seus lamentos, sempre se sentiam tentados pelas cebolas, tentados a voltar para trás, presos às memórias do passado, a qualquer ídolo. O mesmo se passa connosco: a viagem de regresso a Deus vê-se dificultada pelos nossos apegos doentios, impedida pelos laços sedutores dos vícios, pelas falsas seguranças do dinheiro e da ostentação, pela lamúria que paralisa. Para caminhar, é preciso desmascarar estas ilusões.

 

Interroguemo-nos então: Como avançar no caminho para Deus? Ajudam-nos as viagens de regresso narradas pela Palavra de Deus.

Olhamos para o filho pródigo e compreendemos que é tempo também para nós de regressar ao Pai. Como aquele filho, também nós esquecemos o ar de casa, delapidamos bens preciosos em troca de coisas sem valor e ficamos com as mãos vazias e o coração insatisfeito. Caímos: somos filhos que caem continuamente, somos como criancinhas que tentam andar, mas estatelam-se no chão precisando uma vez e outra de ser levantadas pelo papá. É o perdão do Pai que sempre nos coloca de pé: o perdão de Deus, a Confissão, é o primeiro passo da nossa vigem de regresso. Ao dizer Confissão, recomendo aos confessores: Sede como o pai, não com o chicote, mas com o abraço.

 

Depois precisamos de regressar a Jesus, fazer como aquele leproso curado que voltou para Lhe agradecer. Curados foram dez, mas só ele foi também salvo, porque voltara para Jesus (cf. Lc 17, 12-19). Todos, todos nós temos enfermidades espirituais: sozinhos, não podemos curá-las; todos temos vícios arraigados: sozinhos, não podemos extirpá-los; todos temos medos que nos paralisam: sozinhos, não podemos vencê-los. Precisamos de imitar aquele leproso, que voltou para Jesus e se prostrou aos seus pés. Temos necessidade da cura de Jesus, precisamos de colocar diante d’Ele as nossas feridas e dizer-Lhe: «Jesus, estou aqui diante de Vós, com o meu pecado, com as minhas misérias. Vós sois o médico; podeis libertar-me. Curai o meu coração».

 

Mais ainda! A palavra de Deus pede-nos para regressar ao Pai, pede-nos para voltar a Jesus, e somos chamados também a regressar ao Espírito Santo. As cinzas na cabeça lembram-nos que somos pó e em pó nos havemos de tornar. Mas, sobre este pó que somos nós, Deus soprou o seu Espírito de vida. Então não podemos viver seguindo o pó, indo atrás de coisas que hoje existem e amanhã desaparecem. Voltemos ao Espírito, Dador de vida! Voltemos ao Fogo que faz ressurgir as nossas cinzas, àquele Fogo que nos ensina a amar. Continuaremos sempre a ser pó, mas – como diz um hino litúrgico – pó enamorado. Voltemos a rezar ao Espírito Santo, redescubramos o fogo do louvor, que queima as cinzas das lamúrias e da resignação.

 

Irmãos e irmãs, esta nossa viagem de regresso a Deus só é possível, porque houve a sua vinda até junto de nós. Caso contrário, não teria sido possível. Antes de irmos até Ele, desceu Ele até nós. Precedeu-nos, veio ao nosso encontro. Por nós, desceu até mais fundo de quanto pudéssemos imaginar: fez-Se pecado, fez-Se morte. Isto mesmo no-lo recordou São Paulo: «Aquele que não havia conhecido o pecado, Deus O fez pecado por nós» (2 Cor 5, 21). Para não nos deixar sozinhos e acompanhar-nos no caminho, Ele desceu dentro do nosso pecado e da nossa morte. Tocou o pecado, tocou a nossa morte. Então a nossa viagem é deixar-se tomar pela mão. O Pai que nos chama a voltar é Aquele que sai de casa e vem procurar-nos; o Senhor que nos cura é Aquele que Se deixou ferir na cruz; o Espírito que nos faz mudar de vida é Aquele que sopra com força e suavidade sobre o nosso pó.

 

Daí a súplica do Apóstolo: «Deixai-vos reconciliar com Deus» (2 Cor 5, 20). Deixai-vos reconciliar: o caminho não se apoia nas nossas forças; com as próprias forças, ninguém pode reconciliar-se com Deus; não consegue. A conversão do coração, com os gestos e práticas que a exprimem, só é possível se partir do primado da ação de Deus. O que nos faz regressar a Ele não são as nossas capacidades nem os méritos que ostentamos, mas a sua graça que temos de acolher. Salva-nos a graça. A salvação é pura graça, pura gratuidade. Disse-o claramente Jesus no Evangelho: o que nos torna justos não é a justiça que praticamos diante dos homens, mas a relação sincera com o Pai. O início do regresso a Deus é reconhecermo-nos necessitados d’Ele, necessitados de misericórdia, necessitados da sua graça. O caminho certo é este: o caminho da humildade. Como me sinto eu: necessitado ou autossuficiente?

 

Hoje inclinamos a cabeça para receber as cinzas. No termo da Quaresma, abaixar-nos-emos ainda mais para lavar os pés dos irmãos. A Quaresma é uma descida humilde dentro de nós e rumo aos outros. É compreender que a salvação não é uma escalada para a glória, mas um abaixamento por amor. É fazer-nos humildes. Neste caminho, para não perder o rumo, coloquemo-nos diante da cruz de Jesus: é a cátedra silenciosa de Deus. Contemplemos cada dia as suas chagas, as chagas que Ele levou para o Céu e todos os dias, na sua oração de intercessão, faz ver ao Pai. Contemplemos cada dia as suas chagas. Naqueles buracos, reconheçamos o nosso vazio, as nossas faltas, as feridas do pecado, os golpes que nos fizeram sofrer. E contudo, mesmo ali, vemos que Deus não aponta o dedo contra nós, mas abre-nos os braços. As suas chagas estão abertas para nós e, por aquelas chagas, fomos curados (cf. 1 Ped 2, 24; Is 53, 5). Beijemo-las e compreenderemos que precisamente lá, nos buracos mais dolorosos da vida, Deus nos espera com a sua infinita misericórdia. Porque ali, onde somos mais vulneráveis, onde mais nos envergonhamos, Ele veio ao nosso encontro. E agora que veio ter connosco, convida-nos a regressar a Ele, para voltarmos a encontrar a alegria de ser amados.

Papa Francisco, Homilia, Praça São Pedro, 17 de fevereiro de 2021

 

Bênção das cinzas

 

Depois da homilia, o sacerdote, de pé, diz com as mãos juntas:

 

Irmãos caríssimos: Oremos fervorosamente a Deus nosso Pai, para que Se digne abençoar com a abundância da sua graça estas cinzas que vamos impor sobre as nossas cabeças, em sinal de penitência.

 

E depois de alguns momentos de oração em silêncio, diz uma das orações seguintes:

 

Senhor nosso Deus, que Vos compadeceis daquele que se humilha e perdoais àquele que se arrepende, ouvi misericordiosamente as nossas preces e derramai a vossa bênção sobre os vossos servos que vão receber estas cinzas, para que, fiéis à observância quaresmal, mereçam chegar, de coração purificado, à celebração do mistério pascal do vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

ou

 

Deus de infinita bondade, que não desejais a morte do pecador mas a sua conversão, ouvi misericordiosamente as nossas súplicas e dignai-Vos abençoar estas cinzas que vamos impor sobre as nossas cabeças, para que, reconhecendo que somos pó da terra e à terra havemos de voltar, alcancemos, pelo fervor da observância quaresmal, o perdão dos pecados e uma vida nova à imagem do vosso Filho ressuscitado, Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

O sacerdote asperge as cinzas com água benta, sem dizer nada.

 

Imposição das cinzas

 

Em seguida, o sacerdote impõe as cinzas a todos os presentes que se aproximam dele, dizendo a cada um:

 

Mc 1, 15

Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.

 

Ou

cf. Gen 3, 19

Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás-de voltar.

 

Entretanto, canta-se um cântico apropriado, por exemplo:

 

Cântico: Perdão, Senhor, Perdão – M. Faria, NRMS, 13

cf. Joel 2, 13

Antífona: Mudemos as nossas vestes pela cinza e o cilício. Jejuemos e choremos diante do Senhor, porque Deus é infinitamente misericordioso e perdoa os nossos pecados.

 

ou

cf. Joel 2, 17; Est 13, 17

Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo, para que possa cantar sempre os vossos louvores.

 

ou

Salmo 50, 3

Lavai-me de toda a iniquidade, Senhor.

 

Pode repetir-se esta antífona depois de cada versículo ou estrofe do salmo 50. Compadecei-Vos de mim, ó Deus.

 

Responsório

cf. Bar 3, 2; Salmo 78, 9

V. Renovemos a nossa vida,

reparemos o mal que fizemos,

para que não nos surpreenda o dia da morte

e nos falte o tempo para nos convertermos.

R. Ouvi-nos, Senhor, e tende compaixão de nós,

porque somos pecadores.

 

V. Ajudai-nos, Senhor, para glória do vosso nome;

perdoai as nossas culpas e salvai-nos.

R. Ouvi-nos, Senhor, e tende compaixão de nós,

porque somos pecadores.

 

Terminada a imposição das cinzas, o sacerdote lava as mãos. O rito conclui-se com a oração universal ou oração dos fiéis. Não se diz o Credo.

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Ao darmos início ao tempo santo da Quaresma,

oremos para que todos os homens se convertam

e tomem parte na renovação pascal,

Imploremos (cantando):

 

     Renovai, Senhor, o vosso povo.

 

1.    Por todos os fiéis da santa Igreja,

para que, neste tempo favorável da Quaresma,

     se reconciliem uns com os outros e com Deus,

     oremos com toda a confiança.

 

     Renovai, Senhor, o vosso povo.

 

2. Por aqueles a quem foi dado algum poder,

     para que sirvam lealmente o bem comum

     e façam verdadeiros esforços pela paz,

     oremos com toda a confiança.

 

     Renovai, Senhor, o vosso povo.  

 

3. Por todos os discípulos de Cristo,

para que se convertam e acreditem no Evangelho

     e, em segredo, dêem esmola, rezem e jejuem,

     oremos com toda a confiança.

 

     Renovai, Senhor, o vosso povo.

 

4. Pelos doentes e por todos os que sofrem,

pelos pobres, pelos pecadores e pelos famintos,

     para que tenham quem os socorra e alivie,

     oremos com toda a confiança.

 

     Renovai, Senhor, o vosso povo.

 

5. Pela nossa assembleia aqui presente,

para que receba a graça de seguir a Cristo,

no caminho da renovação pascal,

oremos com toda a confiança.

 

     Renovai, Senhor, o vosso povo.  

 

6. Por todos os que viver na terra a última Quaresma,

     para que acolham generosamente a Palavra de Deus

     e se preparem para a Páscoa eterna,

     oremos com toda a confiança.

 

     Renovai, Senhor, o vosso povo.

 

Senhor, nosso Deus, rico em misericórdia,

que nos chamais a converter o coração,

dai-nos a alegria de sermos salvos

e guiai-nos, pela força do Espírito,

para a festa da Páscoa jubilosa.

Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

O Senhor entregou-nos na Liturgia da Palavra, um programa para a Quaresma que hoje iniciamos, constando do jejum, da penitência e da oração.

Para percorrermos este caminho de conversão, temos necessidade do Alimento da Santíssima Eucaristia que o próprio Senhor vai preparar para nós. 

 

Cântico do ofertório: Confesso o meu pecado – J. Santos, NRMS, 61

 

Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, este sacrifício, com o qual iniciamos solenemente a Quaresma, e fazei que, pela penitência e pela caridade, nos afastemos do caminho do mal, a fim de que, livres de todo o pecado, nos preparemos para celebrar fervorosamente a paixão de Cristo, Vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio da Quaresma III p. 463 ou IV p. 464 [598-710]

 

Santo: F. Silva, NRMS, 14

 

Saudação da Paz

 

A Quaresma que hoje iniciamos, com a imposição penitencial das cinzas, é também uma caminhada ao encontro da verdadeira paz.

Havemos cultivar a paz nas suas três dimensões: paz com Deus, connosco próprios e com todos os nossos irmãos.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Jesus Cristo cuida de todos nós, para que não desanimemos, por falta de forças, nesta caminhada da terra para o Céu.

Para isso, instituiu a Santíssima Eucaristia e convida-nos agora a recebê-la, com as necessárias disposições que Ele mesmo estabeleceu.

 

Cântico da Comunhão: Dai-me, Senhor, um coração puro, C. Silva, OC, pg 76

Salmo 1, 2-3

Antífona da comunhão: Aquele que medita dia e noite na lei do Senhor dará fruto a seu tempo.

 

Cântico de acção de graças: Tudo o que pedirdes – C. Silva, OC, pg 256

 

Oração depois da comunhão: Senhor, fazei que este sacramento nos leve a praticar o verdadeiro jejum que seja agradável a vossos olhos e sirva de remédio aos nossos males. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Façamos hoje um programa para esta Quaresma, de meditação mais assídua da Palavra de Deus, de oração e de penitência.

 

Cântico final: Confiarei no meu Deus – J. F. Silva, NRMS, 106

 

A bênção e imposição das cinzas pode fazer-se também fora da Missa. Nesse caso, convém que preceda uma liturgia da palavra, utilizando a antífona de entrada, a oração colecta, as leituras e seus cânticos, como na Missa. Depois da homilia, procede-se à bênção e imposição das cinzas. O rito conclui com a oração universal.

 

 

Homilias Feriais

 

TEMPO DA QUARESMA

 

CINZAS

 

5ª Feira, 15-II: O caminho da vida e o caminho da morte.

Deut 30, 15-20 / Lc 9, 22-25

E dizia a todos: Se alguém quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo, pegue na sua cruz todos os dias e siga-me.

Diante de nós temos dois caminhos: um que conduz à vida e outro que leva à perdição (Leit. e Ev.). Jesus deu-nos exemplo, pegando na sua cruz, com muito amor, a caminho do Calvário. Pede-nos que nos decidamos a seguir o mesmo caminho (Ev.).

Para isso, teremos que renunciar cada dia ao nosso eu, provocar uma rotura com o pecado, ter aversão ao mal. E ter o desejo e o propósito de mudar de vida, de perder o medo à pequena cruz de cada dia: às contrariedades, aos sofrimentos físicos ou morais; procurar oferecer pequenos sacrifícios, com um sorriso nos lábios e alegria interior na nossa alma.

 

6ª Feira, 16-II: O jejum agradável a Deus.

Is 58, 1-9 / Mt 9, 14-15

Será então jejum que me agrada mortificar-se um homem durante um dia? O jejum que me agrada não será antes este...

Que jejum agradará ao Senhor? O jejum é uma forma particular de oração dos sentidos: sobriedade nas comidas, bebidas, uso da TV e Redes Sociais, vencimento do comodismo e da preguiça...

Para que o jejum seja autêntico, deve ser sempre acompanhado pela caridade (Leit.), Procuremos, pois, viver as obras de misericórdia, que são acções caridosas, pelas quais vamos em auxílio do nosso próximo, das suas necessidades materiais e espirituais. Como consequência, haverá mais luz na nossa na vida e o Senhor curará as nossas feridas (Leit.).

 

Sábado, 17-II: A cura das feridas da alma.

Is 58, 9-14 / Lc 5, 27-32

Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas aqueles que estão doentes. Eu não vim chamar os justos, vim chamar os pecadores.

Jesus apresenta-se como o Médico divino (Ev.), para curar as feridas da nossa alma. Para isso, sofreu muitos padecimentos na sua paixão, até que o seu corpo ficou feito uma chaga.

Por isso, contamos com a ajuda de Deus para repararmos as brechas (Leit.) que há na nossa vida: as do egoísmo, da sensualidade, da preguiça, etc. Contamos com o sacramento da Penitência, pelo qual se aplica nas nossas feridas a paixão Nosso Senhor Jesus Cristo, os méritos de Nª Senhora e de todos os Santos, todo o bem que fizermos e o mal que suportarmos, para que nos sirvam de proveito para aumento da graça e penhor da vida eterna.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:            Fernando Silva

Nota Exegética:          Geraldo Morujão

Homilias Feriais:         Nuno Romão

Sugestão Musical:      José Carlos Azevedo

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial