TEMAS LITÚRGICOS

Estar em silêncio na capela ainda faz sentido?

 

 

Pedro Boléo Tomé

 

 

 

Há uns meses, numa reunião familiar, falava-se da forma como as pessoas estavam na igreja e no tom em que falavam. Sentiam-se à vontade, como em casa e, por isso, conversavam ruidosamente, riam e não pareciam estar num lugar sagrado. Então, um dos mais velhos ali presentes, sentenciou:

- É curioso, há trinta anos não era assim. As pessoas sabiam onde estavam.

Curiosamente, pouco depois deste encontro pediram-me para dar uma pequena palestra a educadores sobre a urbanidade da piedade, sobre o porquê e como ajudar as crianças a estar adequadamente numa igreja ou capela. Esse pedido veio com uma explicação:

- É ótimo que estas crianças se sintam à vontade na capela, mas é preciso ensiná-las a estar à vontade, mas numa atitude de oração, a compreender que aquele lugar é especial.

Efetivamente, trata-se de um bom desafio. Mas, como realizá-lo? Antigamente, com um argumento de autoridade bastava. «Na igreja não se fala alto!». E era suficiente. Assumia-se que era essa a regra. Mas, algo que notamos na sociedade de hoje e que, sinceramente, tem o seu ponto positivo, é que o argumento de autoridade não basta, é preciso explicar. Se não se entende o porquê tende-se a desvalorizar. É desafiante. Uma das expressões modernas que mais escuto dos jovens de hoje é: «faz sentido». O fazer as coisas porque sempre se fez ou porque alguém com autoridade diz, perdeu a força.

Por que razão nos devemos comportar na capela de uma determinada forma, guardar silêncio, um certo recolhimento, postura, modo de vestir? Não estamos na casa de Deus? Mas, não é Deus meu Pai? Não é a casa de Jesus? E não estava Jesus, o meu irmão, o meu amigo, à vontade na casa dos seus amigos Marta, Maria e Lázaro? Por que hei de estar eu constrangido na Sua presença?

Como responder a estas e outras questões semelhantes?

Falava eu para pessoas que deviam lidar com jovens e que lhes poderiam levantar estas questões. Pensei, então, num quadro familiar (porque a relação com Deus é uma relação familiar e, portanto, o modo de estar na Sua casa tem tudo a ver com esses quadros). Francamente, recordei a minha experiência na aldeia, quando se entrava na casa de uma pessoa amiga, ou da avó ou da tia. O «à vontade» é tal que a porta está sempre aberta. Mas, quando se entra, chama-se pela dona da casa e, que se faz imediatamente depois? Silêncio. Porquê? Porque se deseja escutar a resposta. Queremos saber onde está a avó, se no quarto, se no quintal, se na cozinha. E colocam-se todos os sentidos alerta. Não por medo, mas por interesse. Se cheira a bolos talvez esteja na cozinha. Procuramos a pessoa que queremos encontrar com a vista, com os ouvidos, com o olfato também e com o tato, batendo à porta do quarto ou do escritório. Eis o que fazemos quando entramos numa igreja. Estamos à vontade porque estamos na casa do nosso Pai-Deus. Queremos encontrar o nosso Jesus, que morreu por nós e que se fez Pão. Queremos que o Espírito Santo nos fale no fundo do nosso coração, que o purifique, que o encha do seu amor. Por isso, fazemos silêncio. Recolhemo-nos. Pomos os nossos sentidos despertos. Atentos ao espiritual. Aliamos os sentidos externos aos internos. Olhamos para o sacrário, para uma cruz, para o altar, para os paramentos e para as alfaias litúrgicas… Tudo nos fala d’Ele e dos Seu amor por nós. Escutamos a Palavra de Deus, e os cânticos e as respostas litúrgicas e a homilia. E essas palavras penetram no fundo do coração, quando temos o adequado recolhimento. O cheiro do incenso fala-nos da presença do Senhor e eleva o nosso espírito para o alto. E até tocamos a Deus quando o recebemos na Sagrada Hóstia ou quando, simbolicamente, saudamos Cristo e toda a Igreja no abraço da paz às pessoas que nos rodeiam imediatamente.

São tudo coisas talvez demasiado óbvias para sentirmos a necessidade de explicar. Porém, parece que vivemos tempos em que somos obrigados a ser inventivos para explicar o óbvio de forma simpática e apelativa. Tem a vantagem de que essa tarefa nos obriga a pensar mais nos significados da liturgia, nos porquês daquilo que fazemos e, por vezes, descobrimos grandes riquezas ou a beleza do significado de gestos e atitudes que, simplesmente, nunca tínhamos pensado ou fazíamos por simples rotina.

 - É curioso, há trinta anos não era assim. As pessoas sabiam onde estavam.

Esta sentença andou na minha cabeça durante algum tempo. O que é que se passou para que as pessoas perdessem o sentido do Sagrado? É natural na pessoa humana quando está na presença de Deus cair de joelhos, adorar… Sim, é meu Pai. Sim, é Jesus. Mas, é Deus! Quanto mais amor sinto por Ele mais necessidade sinto de O adorar, de Lhe agradecer, de Lhe dar Glória. Que aconteceu para que as pessoas perdessem essa noção?

E eis que chegou a Jornada Mundial da Juventude. E aqueles dias brindaram-nos com, pelo menos, dois momentos incríveis de silêncio e de adoração. Todos nos recordamos com emoção daqueles minutos de silêncio na Vigília no Parque Tejo. Um milhão e meio de jovens, ajoelha sobre a terra e faz silêncio, sem que ninguém lhes diga nada, espontaneamente, diante de Jesus Sacramentado. A atitude do Papa, dos nossos bispos e sacerdotes e de todo o povo fiel levou a que todos, pouco a pouco se calassem e imitassem aquele silêncio orante e adorassem Nosso Senhor.

- Só tenho pena de ter sido tão curto – disse uma jovem dias depois quando recordava esse momento. Queria prolongar aquela adoração.

No dia seguinte, depois de uma noite mal dormida (ou em branco para muitos), com um sol abrasador, repetiu-se o mesmo no momento da consagração da Missa.

Afinal, o sentido do sagrado está presente nos jovens. Talvez alguns adultos o tenham esquecido e temos de os ajudar a recuperar. Mas, esse sentido de reverência, de adoração diante da presença de Deus é algo que trazemos dentro de nós. A nós toca-nos descobrir as formas adequadas para o propor a esta geração e nunca desistir de o fazer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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