JORNADAS MUNDIAIS DA JUVENTUDE 2023

II

Pequena memória de um grande acontecimento

 

 

 

 (Continuação)

 

O encontro do Santo Padre com Portugal

 

Não foi esta a primeira vez que o Papa Francisco esteve em Portugal. Ele veio a Fátima em 2017, na celebração do centenário das Aparições e aí nos lembrou que “temos Mãe”.

Para presidir às Jornadas Mundiais da Juventude, Lisboa 2023, o Santo Padre, pisou o solo português na Base Aérea de Figo Maduro às 10 horas do dia 2 de agosto

Seguiu dali para o Palácio Nacional de Belém, residência oficial do Presidente da República, onde foi saudado efusivamente pelo Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, gesto de cortesia que o Vigário de Cristo na terra agradeceu.

 

Encontro com as autoridades, com a sociedade civil e com o corpo diplomático.  Do Palácio de Belém, o cortejo seguiu para o Centro Cultural de Belém. Um pouco depois das doze horas, o Papa Francisco encontrou-se com as autoridades, os membros do Corpo Diplomático e vários representantes da sociedade civil. Aguardava-o, ao longo de percurso, uma multidão que se comprimia nas filas intermináveis, para estar o mais perto possível do lugar onde iria passar o carro papal.

Depois ouvir a saudação protocolar, o Santo Padre respondeu com palavras cheias de calor humano: «Saúdo-vos cordialmente e agradeço ao Senhor Presidente o acolhimento e as amáveis palavras que me dirigiu. O Senhor Presidente sabe acolher bem. Obrigado! Estou feliz por estar em Lisboa, cidade do encontro que abraça vários povos e culturas e que, nestes dias, se mostra ainda mais universal; torna-se, de certo modo, a capital do mundo, a capital do futuro, porque os jovens são o futuro. Isto condiz bem com o seu caráter multiétnico e multicultural (penso, por exemplo, no bairro da Mouraria, onde convivem pessoas provenientes de mais de sessenta países) e revela os traços cosmopolitas de Portugal, que afunda as suas raízes no desejo de se abrir ao mundo e explorá-lo, navegando rumo a novos e amplos horizontes.»

E continuou: «Não muito longe daqui, no Cabo da Roca, está gravada a frase dum grande poeta desta cidade: «Aqui... onde a terra se acaba e o mar começa» (L. Vaz de Camões, Os Lusíadas, canto III, 20). Durante séculos, acreditou-se que lá estivessem os confins do mundo. E em certo sentido é verdade, porque este país confina com o oceano, que delimita os continentes. E, do oceano, Lisboa conserva o abraço e o perfume. Faço meu, com muito gosto, aquilo que os portugueses costumam cantar: «Lisboa tem cheiro de flores e de mar» (A. Rodrigues, Cheira bem, cheira a Lisboa, 1972). Muito mais do que um elemento paisagístico, o mar é um apelo que não cessa de ecoar no ânimo de cada português, podendo uma vossa poetisa celebrá-lo como «mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim» (S. de Mello Breyner Andresen, Mar sonoro).»

A meio da tarde, encontrou-se também particularmente com o Primeiro Ministro, Dr. António Costa, na Nunciatura Apostólica.

E assim encerrou o programa que chamaríamos oficial, com as autoridades civis, militares e académicas.

 

As celebrações

 

O calor humano e sobrenatural que se vinha acumulando, ao longo da preparação para as JMJ23 alcançou o seu expoente mais alto nas celebrações que estavam programadas e chegou, depois, a todos os recantos do mundo, através dos Meios de Comunicação Social, como incêndio que alastrou até aos confins do mundo.

Cuidadosamente preparadas e ainda mais delicadamente vividas, estas celebrações constituíram manifestações de fé e comunhão de todos os participantes.

Mesmo os que as seguiam ao longe, sentiam-se envolvidos pela fé, alegria e calor humano dos participantes que estavam no terreno.

 

O desenrolar do programa

 

O programa da visita do Santo Padre a Portugal, para presidir às JMJ23 Lisboa, era muito denso, para que todos pudessem beneficiar um pouco da sua presença.

Há alguns dias que os jovens participantes nas Jornadas, vindos de outros países, tinham chegado ao nosso país e recebidos pelas famílias de acolhimento.

Seguiram-se vários encontros formativos, nas diversas Dioceses, enquadrados no programa das Jornadas.

Nos últimos dias, convergiram todos para Lisboa, pois as atividades estavam programadas para ali.

 

Missa de abertura

 

Foi celebrada ao cair da tarde do dia 1 de agosto, uma terça feira calorenta, e teve como cenário a Colina do Encontro (Parque Eduardo VII) e presidiu à concelebração o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel José Macário do Nascimento Clemente.

Como Arcebispo de Lisboa, cidade onde teve lugar este grande encontro da Igreja universal, D. Manuel Clemente deu as boas-vindas aos que estavam ali presentes.

Começou por saudá-los a todos: «Bem-vindos todos! Bem-vindos também na amplitude ecuménica, inter-religiosa e de boa vontade que estes dias têm e congregam. Desejo que vos sintais “em casa”, nesta casa comum em que viveremos a Jornada Mundial. Bem-vindos!»

O Cardeal Patriarca comentou o Evangelho da Visitação que tinha sido proposto pelo Santo Padre como tema dessas Jornadas Mundiais.

E concluiu: «O Evangelho conta-nos a alegria daquele encontro de Maria com Isabel e do reconhecimento mútuo em que ocorreu. A saudação de Maria foi tal que suscitou na sua parente a exclamação que tantas vezes repetimos: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!» E às palavras de Isabel correspondeu Maria com um dos hinos mais belos que cantamos desde então, o Magnificat.

É muito importante que seja assim convosco e com todos. Na verdade, cada encontro que tivermos deve ser inaugurado com verdadeira saudação, em que troquemos entre nós palavras de acolhimento sincero e plena partilha.

Lisboa acolhe-vos de coração inteiro, e assim as outras terras em que já estivestes ou estareis deste Portugal, também vosso. Acolhem-vos as famílias e as instituições que disponibilizaram os seus espaços e o seu serviço. Agradecendo a todas elas, entrevejo em cada uma a casa de Isabel, que acolheu Maria e o Jesus que lhe trazia!»

Ao fim da tarde do dia 3 de agosto, no majestoso templo dos Jerónimos, o Santo Padre encontrou-se com os Bispos, Sacerdotes, Diáconos, os Consagrados, as Consagradas, os Seminaristas e os Agentes da Pastoral.

Ali perto, o estuário do Tejo lembrava as caravelas que, na era das Descobertas, partiram em todas as direções do mundo, sulcando as ondas, cheias de esperança. Com elas partiam os missionários que levaram a fé cristã aos cinco Continentes. Foi neste cenário que o Santo Padre se reuniu com elementos representativos da Igreja que está em Portugal.

Celebrou com esta vasta assembleia a Hora de Vésperas e, no momento apropriado, dirigiu-lhes a palavra, tendo como referência o Evangelho da pesca miraculosa. Animou todos a voltar a subir para a barca e a lançar as redes para a pesca, ficando estas palavras a vibrar no coração dos que o escutaram.

Alertou os presentes contra o cansaço, expresso no lavar das redes e o perigo de deixar entrar o mundanismo. Falou de três opções necessárias: fazer-se ao largo; levar juntos por diante a pastoral; tornar-se pescadores de homens.

Concluiu com uma citação de Fernando Pessoa:

«Para se chegar ao infinito,

e julgo que se pode lá chegar,

é preciso termos um porto, um só, firme,

e partir dali para Indefinido». (F. Pessoa, Livro do Desassossego, Lisboa 1998, 247).[1] 

 

Com os jovens universitários

 

O Encontro com os jovens universitários estava agendado para o princípio da manhã de quinta feira, 3 de agosto, e teve lugar no auditório da Universidade Católica de Lisboa.

Depois de ter sido saudado pela Reitora da Universidade Católica Portuguesa, Prof. Isabel Capeloa Gil, o Santo Padre dirigiu-se aos presentes, sublinhando a imagem do peregrino, apropriada à imagem dos jovens universitários:

«Na imagem do «peregrino», espelha-se a condição humana, pois todos somos chamados a confrontar-nos com grandes interrogativos para os quais não basta uma resposta simplista ou imediata, mas convidam a realizar uma viagem, superando-se a si mesmo, indo mais além. Trata-se de um processo que um universitário compreende bem, pois é assim que nasce a ciência. E de igual modo cresce também a busca espiritual.»

O Santo Padre pôde ainda ouvir alguns testemunhos muito eloquentes de jovens universitários.

 

Encontro com os jovens das Scholas Occurrentes

 

Aguardado ainda nessa manhã de quinta feira, em Cascais, o Papa teve um encontro com os jovens das Scholæ Occurrentes (de vizinhos), e uma multidão de fiéis, que dificultou a aproximação do Santo Padre deste local. 

Scholas Ocurrentes é uma organização internacional de direito pontifício, que nasceu em Buenos Aires, por iniciativa do então Arcebispo Jorge Bergoglio, hoje Papa Francisco. É uma rede internacional que une estudantes de todo o mundo à volta de um programa educativo baseado na arte, no desporto e na tecnologia. O objetivo é promover a integração social e a cultura do encontro e da inclusão nas escolas.

 Esperava-o a surpresa de um mural com três mil metros de comprimento, constituído por diversos painéis e pintado por dezenas de pessoas, entre o Estoril e a sede das Escolas. Cada painel tinha um tema e exibia um conjunto de desenhos alusivos às diversas dores.

Durante o encontro, o Papa Francisco acolheu um diálogo feito de perguntas da parte dos ouvintes e respostas do Sumo Pontífice.

Entre as várias respostas, destacamos uma: «Esta é a história do bom Samaritano, e nenhum de nós está dispensado de ser um bom Samaritano. É uma obrigação que todos nós temos. Cada um tem que procurar sê-lo na vida, porque a vida se acaba e, se o não conseguiu, fica perdido como na guerra. O bom Samaritano encontrou o homem caído no chão… Antes dele, porém, passara um levita, tinha passado um sacerdote, mas estavam com pressa. Não lhe deram importância. Além de ter pressa, eles não podiam tocá-lo porque havia sangue; e, segundo a legislação da época, quem tocava no sangue tornava-se impuro. Consequentemente tinha de se purificar, não sei dizer por quanto tempo, de modo que isto impedia-os de cumprir o seu dever, não deviam tocar... «Morre, mas eu não te toco, não me torno impuro. Morre, mas eu impuro não fico». Não vos esqueçais disto. Quantas vezes nos pode passar pela cabeça: «Morre, mas eu não me torno impuro»! Quantas vezes se prefere a «pureza ritual» à proximidade humana! Segundo a mentalidade do tempo, os samaritanos eram mal vistos pelos judeus: eram «desgraçados», todos desgraçados e comerciantes… Não eram puros de mente, de coração; eram marginalizados, mas o bom Samaritano vê o homem por terra, para e a narração diz que sentiu compaixão. Enquanto os outros pensavam «morre; preocupa-me a minha pureza», este sentiu compaixão. Deixo-vos a pergunta: O que é que me faz sentir compaixão? Ou tens um coração tão árido que já não sente compaixão? Cada um responda para si. Depois, que acontece? Leva-o para uma estalagem pede um quarto para ele e diz ao estalajadeiro: «Olha! Daqui a três dias eu volto». Entretanto avanço isto e, se for mais, pagar-te-ei quando voltar. Afinal aquele dito «desgraçado» era um que pagava. Assim, temos os ladrões que o deixam meio-morto, o bom Samaritano que cuida dele, o levita e o sacerdote que se afastam para não se tornarem impuros. E Jesus diz: este entra no Reino dos Céus, porque teve compaixão. Pensai um pouco nesta história. Onde estou eu? Prejudico as pessoas? Onde estou eu? Evito as dificuldades reais ou não temo sujar as mãos? Às vezes na vida é preciso sujar as mãos, para não sujar o coração.»

 

 

 

Fernando Silva

(Continua)

 

 

 

 



[1] O discurso de Santo Padre proferido no Mosteiro dos Jerónimos foi publicado na íntegra em A Palavra do Papa, Celebração Litúrgica Ano A, n.º 6.


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