Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

08 de Dezembro de 2023

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: A Cheia de graça – M. Faria, NRMS, 4 (I)

Is 61, 10

Antífona de entrada: Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus, que me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu com o manto da justiça, como esposa adornada com suas jóias.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Em comunhão com a fé de toda a Igreja, professada e celebrada há muitos séculos, celebramos hoje o privilégio singular da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria.

Ela foi preservada da culpa original dos nossos primeiros pais e recebeu a plenitude da graça, desde o primeiro instante da sua Conceição.

Ao celebrar este mistério da Mãe de Deus e nossa Mãe, peçamos a graça de defender, amar e viver generosamente a graça que recebemos no Batismo e nos tornou filhos de Deus.

 

Acto penitencial

 

Reconheçamos humildemente que somos pouco cuidadosos com a vida divina infundida em nós pelo Espírito Santo, no Batismo. Somos negligentes em alimentá-la com os Sacramentos, enriquecê-la com a formação doutrinal e defendê-la dos assaltos do Inimigo pela luta contra as tentações.

Peçamos humildemente perdão ao Senhor e façamos o propósito de cuidar mais o tesouro da graça que trazemos durante esta vida, em vasos de barro.

 

(Tempo de silêncio. Sugerimos o esquema A do Ordinário da Missa)

 

Confessemos os nossos pecados...

Senhor, tende piedade de nós...

Glória a Deus nas alturas...

 

Oração colecta: Senhor nosso Deus, que, pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preparastes para o vosso Filho uma digna morada e, em atenção aos méritos futuros da morte de Cristo, a preservastes de toda a mancha, concedei-nos, por sua intercessão, a graça de chegarmos purificados junto de Vós. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Depois do pecado dos nossos primeiros pais, o Senhor veio torná-los conscientes do abismo em que se tinham lançado e prometeu-lhes um Redentor.

Maria Imaculada aparece nesta profecia como a Mulher invencível que reduz o dragão à derrota completa.

 

Génesis 3, 9-15.20

9Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?». 10Ele respondeu: «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». 11Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?». 12Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor 13Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi». 14Disse então o Senhor Deus à serpente: «Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Hás-de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida. 15Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar». 20O homem deu à mulher o nome de «Eva», porque ela foi a mãe de todos os viventes.

 

A leitura é extraída do segundo bloco do livro do Génesis, que vai do v. 4b do capítulo 2 até ao fim do capítulo 4, que os estudiosos atribuem à chamada «tradição javista», onde se encontra a narrativa da criação do homem e da mulher, do pecado dos primeiros pais com as suas consequências e da continuidade da vida humana marcada pelo pecado. É evidente que esta narrativa não é um relato jornalístico, pois tudo é descrito numa linguagem simbólica, muito expressiva e densa; a narrativa coloca o leitor perante realidades transcendentes que dizem respeito ao «ser humano» – o adam –, o homem de todos os tempos. O autor sagrado, que deu forma definitiva e inspirada ao Pentateuco, quis dar-nos um panorama coerente da história da salvação – que arranca da eleição divina e se concretiza na aliança e nas promessas de salvação – desenvolvendo-se por etapas correspondentes a um maravilhoso projecto divino, a que não escapa o enigma das origens.

Se perdêssemos de vista este plano divino, que conhecemos pela Revelação, a curiosidade científica poderia levar-nos a ficar atolados nos aspectos arqueológicos e episódicos, como poderia suceder a alguém que, para estudar um monumento antigo, se ficasse no estudo das pedras e na análise dos materiais de construção; por mais científica que fosse a sua análise, ficaria sem se aperceber da harmonia do conjunto, do significado histórico desse monumento e da sua verdade mais profunda. A doutrina da Igreja sobre o pecado original, de que Maria foi isenta por singular privilégio, não se fundamenta na narrativa do Génesis; muito menos se pode partir do estudo das fontes do Génesis para negar a existência desse pecado (uma ridícula ingenuidade, além do mais); a doutrina da fé encontra a sua sólida base na obra redentora de Cristo e nos ensinamentos do Novo Testamento, nomeadamente de S. Paulo; no entanto, a fé projecta grande luz sobre esta narrativa simbólica das origens.

10 «Tive medo porque estava nu; e então escondi-me». Deste modo se descreve, com fina psicologia, o sentimento de culpabilidade e de vergonha que não podia deixar de ser estranho ao primeiro pecado e igualmente ao pecado de todo aquele que não empederniu a sua consciência; esta, que antes de pecar era o aviso de Deus, toma-se depois uma premente censura. Este dar conta da própria nudez parece também indicar, por um lado, a enorme frustração de quem, ao pecar, em vão tinha tentado «ser igual a Deus» e, por outro lado, sugere o descontrolo das tendências instintivas (a concupiscência): depois do primeiro pecado, sentem-se dominados por movimentos e apetites contrários à razão, que tentam esconder (v. 7).

Não resistimos a citar algumas palavras da profunda reflexão antropológica de João Paulo II, nas audiências gerais de Maio de 1980: «Por meio destas palavras (v. 10) desvela-se certa fractura constitutiva no interior da pessoa humana, quase uma ruptura da original unidade espiritual e somática do homem. Este dá-se conta pela primeira vez de que o seu corpo cessou de beber da força do espírito, que o elevava ao nível da imagem de Deus. A sua vergonha original traz em si os sinais duma específica humilhação comunicada pelo corpo. [...] O corpo não está sujeito ao espírito como no estado da inocência original, tem em si um foco constante de resistência ao espírito e ameaça de algum modo a unidade do homem pessoa. [...] A concupiscência, em particular a concupiscência do corpo, é ameaça específica à estrutura da auto-posse e do autodomínio, por meio do qual se forma a pessoa humana».

14 «Hás-de rastejar e comer do pó da terra». Na narrativa, a sentença é dada primeiro contra a serpente, a primeira a fazer mal. Ninguém pense que o autor quer insinuar que dantes as cobras tinham patas: a sentença é proferida contra o demónio tentador; a expressão designa uma profunda humilhação (cf. Salm 71(72),9; Is 49,23; Miq 7,17), infligida contra o demónio, que é o sentenciado, não as serpentes (cf. Apoc 12, em especial os vv. 9 e 17).

15 «Esta te esmagará a cabeça». Todo o versículo constitui o chamado Proto-Evangelho, o primeiro anúncio da boa nova da salvação que se lê na Bíblia. Não se limita esta passagem a anunciar o estado de guerra permanente entre as potências diabólicas – «a tua descendência» – e toda a Humanidade – «a descendência dela». É sobretudo uma vitória que se anuncia. Note-se que essa vitória é expressada não tanto pelo verbo, que no original hebraico é o mesmo para as duas partes em luta (xuf – na Nova Vulgata conterere), mas sim pela parte do corpo atingida nessa luta: a serpente será atingida na cabeça (ferida mortal, daí a tradução «esmagará»), ao passo que a descendência será apenas atingida no calcanhar (ferida leve, daí a tradução «atingirás»).

Mas, pergunta-se, a quem é que designa o pronome «esta» (v. 15)? Segundo o original hebraico, podia ser a descendência da mulher. A verdade, porém, é que esta descendência pecadora fica incapacitada para, por si, vencer o demónio e o pecado em que se precipitara. Assim, o tradutor grego da Septuaginta (inspirado?) referiu o dito pronome ao Messias (traduzindo-o na forma masculina, designando um indivíduo, autós, em vez da forma neutra (designando uma colectividade), autó, referindo este pronome a descendência, (que em grego se diz com a palavra neutra, sperma); esta tradução visava pôr em evidência que quem vence o pecado e o demónio é Ele, o Messias. A tradição cristã, e com ela a tradução da Vetus Latina seguida pela Vulgata, ao traduzir o pronome pelo feminino ipsa conteret caput tuum, aplicou este texto à Virgem Maria, explicitando um sentido (chamado eminente), que entreviu nesta passagem (se tivesse querido designar a descendência – semen – teria empregado o neutro ipsum, e não ipsa).

Eis como se costuma explicar o sentido mariano da passagem: a vitória é prometida à descendência de Eva, mas quem faz possível essa vitória é Jesus Cristo, com a sua obra redentora. Assim, unidos a Cristo, todos somos vencedores, mas Maria é a vencedora de um modo eminente, porque Mãe do Redentor e Mãe de toda a comunidade dos redimidos, a Igreja. O próprio contexto facilita esta referência a Maria: é que, contra tudo o que era de esperar, a profecia aparece dita a Eva, e não a Adão. Segundo o ensino da Igreja (cf. Bula «Ineffablis Deus» do Beato Pio IX), esta vitória de Maria sobre o demónio, inclui a perfeita isenção de toda a espécie de mancha do pecado, incluindo o original.

 

 

Salmo Responsorial Salmo 97 (98), 1.2-3ab.3cd-4 (R. 1a)

 

Monição: O Espírito Santo, como resposta ao anúncio da salvação que nos virá por Maria, dando à luz o Salvador, coloca em nossos lábios um salmo de aclamação, louvor e ação de graças.

Entoemos, pois um cântico de louvor em honra do nosso Deus, porque Ele fez maravilhas em nosso favor.

 

Refrão:    Cantai ao Senhor um cântico novo:

o Senhor fez maravilhas.

 

Cantai ao Senhor um cântico novo,

pelas maravilhas que Ele operou.

A sua mão e o seu santo braço

Lhe deram a vitória.

 

O Senhor deu a conhecer a salvação,

revelou aos olhos das nações a sua justiça.

Recordou-Se da sua bondade e fidelidade

em favor da casa de Israel.

 

Os confins da terra puderam ver

a salvação do nosso Deus.

Aclamai o Senhor, terra inteira,

exultai de alegria e cantai.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Paulo escreve aos fiéis de Éfeso um hino de louvor e aclamação a Jesus Cristo e de agradecimento pelos dons que d’Ele recebemos, a começar pela filiação divina.

Maria recebeu este dom da filiação divina desde o primeiro momento da sus vida, em atenção a que Ela seria a Mãe o Redentor.

 

Efésios 1, 3-6.11-12

3Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. 4N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. 5Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo, 6para louvor da sua glória e da graça que derramou sobre nós, por seu amado Filho. 11Em Cristo fomos constituídos herdeiros, por termos sido predestinados, segundo os desígnios d’Aquele que tudo realiza conforme a decisão da sua vontade, 12para sermos um hino de louvor da sua glória, nós que desde o começo esperámos em Cristo.

 

Este início da epístola aos Efésios de que é extraída a leitura tem o aspecto de um hino litúrgico e é uma das mais ricas sínteses doutrinais paulinas.

3 «Em Cristo». Toda a graça – «bênçãos espirituais» – que Deus concede ao homem, após o pecado original, incluindo a Imaculada Conceição da Virgem Maria, é concedida pela mediação de Cristo e através da união com Ele.

4-5 «Santos». «Filhos». O objectivo desta eleição eterna de Deus é «sermos santos», isto é, destacados do profano e pecaminoso para servir ao culto e glória divina: «diante d’Ele», isto é, na presença de Deus. Estamos chamados a estar sempre diante de Deus para O glorificar a partir de tudo o que fazemos, dizemos ou pensamos, como ensina o Concílio Vaticano II: «Todos os cristãos são, pois, chamados e devem tender à santidade e perfeição do próprio estado» (LG 42). A santidade está em sermos «participantes da natureza divina» (2Pe 1,4; Rom 12,1), sendo filhos de Deus e vivendo como tais, imitando a Cristo, o Filho de Deus por natureza (cf. Rom 8,15-29; Gal 4,5-7; 1Jo 3,1-3). E o modelo humano mais perfeito de santidade é Maria.

A expressão «santos e irrepreensíveis» faz pensar nas vítimas oferecidas a Deus no Antigo Testamento (cf. Lv 1,3), insinuando-se assim o carácter oblativo e sacrificial de toda a vida do cristão (cf. 1Pe 2,5), bem como a perfeição que devemos pôr em tudo o que fazemos (cf. Mt 5,48), demais que não se trata duma pureza meramente exterior e ritual, mas de um culto em espírito e verdade (cf. Jo 4,23), «na sua presença» (de Deus) «que examina os rins e o coração» (Salm 7,10), isto é, que perscruta o que há de mais íntimo no homem, a sua consciência, afectos e intenções.

 

 

Aclamação ao Evangelho    cf. Lc 1, 28

 

Monição: Aclamemos jubilosamente o Evangelho que nos repete as palavras de saudação do Arcanjo S. Gabriel a Nossa Senhora, em Nazaré.

Que a proclamação deste Evangelho nos leve a ter uma devoção ainda mais filial à Imaculada Conceição de Maria.

 

Aleluia

 

Cântico: Aleluia – J. F. Silva, NRMS,46

 

Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco,

bendita sois Vós entre as mulheres.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 1, 26-38

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». 34Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». 35O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível». 38Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra».

 

A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma singular densidade, pois encerra o mistério mais assombroso da História da Salvação, a Incarnação do Filho eterno de Deus. Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria!

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8,16-26; 9,21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução (salve, na nova tradução), correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26,49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10,5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo do grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêem na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3,14; Jl 2,21-23; Zac 9 9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28,15), Moisés (Ex 3,12) e Gedeão (Jz 6,12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita és tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1,12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1,18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1Sam 1,18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6,8) e Moisés (Ex 33,12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2Sam 7,8-16; Salm 2,7; 88,27; Is 9,6; Jer 23,5; Miq 4,7; Dan 7,14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7,14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1,2; Salm 104,30) e santificadora (cf. Act 2,3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40,34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Nova Vulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal (assim, a nova tradução da CEP propõe: “o que é concebido santo será chamdo Filho de Deus”). «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Gn 1,3; Salm 2,7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este sintagma, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus, que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus (M. Orsatti).

Apraz-nos citar aqui as palavras de S. João Damasceno sobre Nª Senhora: «Ela é descanso para os que trabalham, consolação dos que choram, remédio para os doentes, porto de refúgio para as tempestades, perdão para os pecadores, doce alívio dos tristes, socorro dos que rezam».

 

 

Sugestões para a homilia

 

• A Imaculada, Mãe da Luz que dissipa as trevas

• Imaculada Conceição, privilégio singular

 

1. A Imaculada, Mãe da Luz que dissipa as trevas

 

Ao celebrarmos a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, estamos em comunhão com toda a Igreja: a que aclama triunfalmente no Céu o Divino Cordeiro; a que se purifica e embeleza para entrar na felicidade eterna, em comunhão com a Santíssima Trindade; e a igreja militante da qual fazemos parte.

Vivemos a felicidade de nos encontrarmos também na comunhão da fé com tantos irmãos que, praticamente desde os primeiros anos da vida da Igreja, professaram e defenderam com a vida este privilégio singular de Nossa Senhora, antes que o Beato Pio IX a definisse para Igreja como verdade de fé irreformável, em 1854.

Desce a noite sobre o mundo. «Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: “Onde estás?” Ele respondeu: “Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me”

Os nossos primeiros pais deixaram-se enganar pela Serpente, Satanás, Pai da Mentira, que tinha sido expulso do Céu por S. Miguel e os seus Anjos, por se ter revoltado contra Deus. Desconfiaram da bondade de Deus e do Seu projeto de os tornar felizes, nesta vida e na outra e acreditaram no Demónio, personificação do ódio, da inveja e de todo o mal.

O Senhor, como sendo o melhor dos pais, quer torná-los conscientes da malvadez de que acabam de ser vítimas, mostrando-lhes os estragos imensos do pecado.

Somos fáceis de enganar, se nos fecharmos em nós mesmos e não nos abrirmos à ajuda materna que a Igreja nos oferece, na oração, nos sacramentos e na luz da Palavra de Deus.

Adão desculpou-se do seu escondimento de Deus, dizendo que tinha ouvido os passos de Deus no jardim do Eden. Pode ser uma expressão a dizer-nos que a consciência do nosso primeiro pai e ele tomou então consciência do engano em que tinha caído e sentiu remorsos, pois a consciência moral mostrou-lhe que tinha pecado.

Deus vem procurá-lo, não para o castigar, mas para lhe oferecer a esperança da salvação, porque continua a amar infinitamente os nossos primeiros pais. Podemos contar sempre com o amor de Deus, aconteça o que acontecer, e estejamos onde estivermos. O Seu Amor é fiel.

Ao mesmo tempo, Adão toma consciência da tremenda indigência a que o reduziu o pecado. Roubou-lhe a graça, com a filiação divina e a possibilidade de ir para o Céu no fim desta caminhada na terra; roubou-lhe a paz e a alegria. A nudez a que se refere talvez não se refira tanto à nudez física, como a este despojamento brutal que o pecado operou nele e em Eva. De resto, a constituição do corpo humano, ao contrário do que acontece com os dos animais, está programada para necessitarmos de roupa.

Este despojamento brutal, com a nudez que se lhe segue, é a situação de todas as pessoas que cometem um pecado mortal.

Todo o pecado é um engano. «Disse Deus: “Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?” Adão respondeu: “A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi”. O Senhor Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: “A serpente enganou-me e eu comi”.»

Com divina pedagogia, o Senhor ajuda Adão a confessar o seu pecado, facilitando-lhe o desprender da língua, ao adiantar a falta em que ele tinha caído.

Mas, ao nosso primeiro pai, como a cada um de nós, custou-lhe muito admitir a sua culpa, e desculpou-se com Eva como se, quando ela lhe ofereceu o fruto, não continuasse livre para recusar.

Nós também somos assim. Depois de uma infidelidade, desculpamo-nos diante de nós mesmos com o nosso feitio, com as outras pessoas, etc. Custa-nos dizer, como David, depois do seu pecado: “Pequei!”

E, enquanto isto não acontece, o caminho para a conversão continua fechado, porque a penitência, o reconhecimento da própria culpa, deve estar antes do arrependimento.

Eva, por sua vez, vai desculpar-se com a serpente, mas já está mais próxima de confessar a verdade: “A serpente enganou-me!” De facto, todo o pecado é um engano do demónio. Ele propõe-se tornar-nos felizes – “sereis como deuses!” – substituindo Deus.

«O Senhor Deus perguntou à mulher: “Que fizeste?” E a mulher respondeu: “A serpente enganou-me e eu comi”».

Por isso, Jesus chamará ao Demónio o “Pai da mentira” que investe todas as suas energias a enganar-nos, porque odeia Deus e odeia a cada um de nós. No inferno não há Amor. É o reino do ódio, onde os condenados se odeiam mutuamente e todos odeiam a Deus.

Deus ajuda Adão e Eva a compreenderem o abismo em que os lança o pecado, para serem capazes de desejar a salvação e compreender que, por si sós, não a podem conseguir.

Pelo pecado dos nossos primeiros pais, caímos num abismo tão fundo que só o Amor infinito de Deus nos pode tirar de lá. Não está ao alcance da nossa bolsa saldar esta dívida contraída pelo pecado.

A maldade do pecado vislumbra-se também nas palavras que o Senhor dirige à serpente: «Disse então o Senhor Deus à serpente: “Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Hás de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida.”»

O maior drama de muitas pessoas é que perderam esta capacidade de distinguir o bem do mal e deixam-se guiar apenas pela atração dos sentidos ou por aquilo que vêem fazer. Sem esta capacidade que nos permite fazer escolhas do que é bom ou mau para nós, como poderíamos caminhar?

Com a Imaculada, regressa a Luz. «“Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar”. O homem deu à mulher o nome de 'Eva', porque ela foi a mãe de todos os viventes

O Senhor dirige então aos nossos primeiros pais palavras de esperança nas quais anuncia a Mãe do Redentor e a sua Imaculada Conceição.

Esta inimizade irreconciliável, manifestada na guerra permanente até à derrota completa da serpente, entre a mulher e a serpente, não pode referir-se a Eva, porque a nossa primeira mãe fez a vontade ao demónio, estabelecendo com a serpente uma falsa amizade. O pecado é isto mesmo: renúncia ingénua à amizade com Deus, para se tornar amigo de Satanás, o nosso maior inimigo.

Esta Mulher a que o Senhor se refere, portanto, nunca esteve reconciliada com a serpente, porque possuiu a graça santificante desde a sua conceição.

O Espírito Santo ajudou a Igreja a descobrir nestas palavras do Génesis a revelação desta verdade de fé.

Maria levará a serpente à derrota final e completa, embora esta arme ciladas ao seu calcanhar – aos filhos – desta Mãe Imaculada.

O demónio entrou no mundo dos homens pela vontade de uma mulher e é expulso dele por outra Mulher que dará à luz o Redentor e, com Ele, todos os membros da Igreja.

A Igreja confiou sempre no poder mediador de Maria e, nas grandes dificuldades, recorreu sempre a Ela com inabalável confiança.

Deus quis que a sua ajuda fosse imprescindível para nós. Por isso, a nossa devoção à Virgem Imaculada não é como a devoção a qualquer outro santo.

Desde o século V, os cristãos costumam rezar-lhe, nas dificuldades: “À vossa proteção nos acolhemos, santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo.”

 

2. Imaculada Conceição, privilégio singular

 

Depois das profecias e figuras de Maria no Antigo Testamento, o Senhor manifesta ao mundo o esplendor da Sua e nossa Mãe logo na aurora da Redenção.

Há nesta manifestação a humildade profunda, vivida com toda a naturalidade e a grandeza que lhe vem de Deus.

Quem é Esta? «Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. O nome da Virgem era Maria

A importância de Nossa Senhora é tal, na história da nossa Redenção, que Deus, nosso Pai, quis que Maria aparecesse perfeitamente identificada no Evangelho, como nenhuma outra pessoa, depois de Jesus Cristo.

Vivia em Israel, na Província da Galileia, uma das duas que tinham permanecido fiéis ao Senhor, depois da cissão do reino de David, no tempo do seu neto Roboão. Tinha a sua morada numa pequena cidade – Nazaré – embora, provavelmente, tenha nascido na cidade santa de Jerusalém.

A família tinha-lhe escolhido um esposo, um jovem humilde, trabalhador, alegre e que vivia a santidade exercendo a sua profissão de carpinteiro. Naqueles tempos, o que exercia esta profissão não a restringia apenas ao trabalho com a madeira – armação e pavimento das casas, móveis, utensílios de trabalho, mas era um homem habilidoso que resolvia os problemas mais diversos das pessoas: uma fechadura que encravara, um balde que tinha caído inadvertidamente ao poço, uma charrua que era preciso tornar funcional, etc. Era o que hoje chamaríamos um artesão, jovem, alegre e serviçal. O seu nome era José.

O Evangelho de S. Lucas guarda também para nós o nome desta Eleita do Senhor: os seus pais deram-lhe o nome de Maria.

Eleita Imaculada pelo Senhor. «Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”.»

Num primeiro momento, o Arcanjo S. Gabriel não se lhe dirige pelo nome que Ela recebeu de seus pais, mas como “cheia de graça-” É um nome carregado de sentido que Deus não atribuiu a mais ninguém na história do mundo.

Significa que não esteve privada da graça santificante e filiação divina um único instante, desde que começou a existir no ventre materno de Santa Ana, porque foi concebida Imaculada, imune do pecado original de Adão e Eva e recebeu, desde o primeiro momento, a vida sobrenatural que Adão e Eva tinham perdido – para eles e para nós –  pelo seu pecado.

Outra frase misteriosa do Arcanjo é “o Senhor está contigo.” Pode significar que está contente com Ela, que A protege e abençoa de modo especial e que Gabriel não está ali por iniciativa própria, mas vem da parte de Deus, como Embaixador celestial.

Pouco depois, o Arcanjo vai comunicar-lhe outra maravilhosa notícia:

Mãe de Deus Imaculada. «Disse-lhe o Anjo: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim».»

Maria não tem medo de Deus, mas sente-se abismada diante das graças que Ele lhe concede.

O Arcanjo propõe a Nossa Senhora uma verdadeira maternidade, pois propõe-lhe, em nome do Altíssimo, conceber e dar à luz o Redentor do mundo.

Os termos em que se refere ao Filho que Ela vai conceber e dar à luz resumem as profecias sobre a vinda do Salvador: Jesus – Salvador; chamar-Se-á (= será) Filho do Altíssimo (de Deus): Deus vai dar-lhe o trono de Seu Pai David e reinará eternamente.  Deus tinha anunciado a David, quando lhe quis construir um templo, que a sua família reinaria para sempre.

Todas as profecias do Antigo Testamento ganham sentido, com estas palavras luminosas. Na Anunciação a Maria, o Senhor deu-nos a luz suficiente para compreendermos todas estas verdades consoladoras.

As palavras que o Arcanjo dirige a Nossa Senhora, em nome de Deus, não admitem dúvidas sobre a sua maternidade divina: «Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus.»

Virgem fidelíssima. «Maria disse ao Anjo: “Como será isto, se eu não conheço homem?”. O Anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra.”»

A pergunta que Maria faz ao Arcanjo só tem sentido, se existe um compromisso com Deus de perpétua virgindade. Se o “não conheço homem” se referisse apenas ao tempo decorrido até esse momento, não faria sentido. Qualquer rapariga honesta, antes do casamento, pode fazer esta mesma afirmação.

A Virgem de Nazaré sabia perfeitamente os caminhos pelos quais uma mulher se tornava mãe. Ela era inocente, mas não ingénua. Desde o princípio do encontro com S. José tê-lo-á posto ao corrente deste seu compromisso, e José terá abraçado com alegria este ideal: um matrimónio virginal.

S. Gabriel, em nome de Deus, revela a Maria o grande mistério. Maria não só vai ser a Mãe de Deus, do Verbo Incarnado, mas vai conceber pela força do Espírito Santo, Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Ela será filha de Deus Pai, Mãe de Deus Filho e Esposa de Deus Espirito Santo.

A pergunta formulada por Maria ao Arcanjo resume-se neste dilema: Uma vez que as duas coisas são humanamente incompatíveis, devo ser Virgem, ou Mãe? A esta pergunta responde Gabriel, com um sorriso: uma e outra coisa! Virgem e Mãe. «Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus

Isabel, ao conceber João Batista fora de todas as previsões humanas, é o sinal que o Céu oferece à Mãe de Jesus, para lhe garantir que se trata de uma verdadeira mensagem do Céu.

Maria será sempre Virgem: ao conceber pela força de Deus; ao dar o Filho de Deus à luz, por privilégio singular; e Virgem durante o resto da sua vida, por fidelidade ao compromisso para com Deus.

Virgem dócil e humilde. «Maria disse então: “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”.»

Maria não fica deslumbrada, contemplando as alturas a que o Senhor A elevara, acima de todas as criaturas. Contempla a sua pequenez de criatura e abre generosamente ao Senhor o seu Coração Imaculado.

A vocação não é um título de glória, mas um serviço a que Deus nos chama no mundo, um puro dom a que havemos de corresponder com generosidade.

Maria responde à proposta do Céu com humildade profunda. Diante de Deus, é uma escravazinha, uma criadita do Altíssimo e é com estes sentimentos de humildade que profere o sim.

Em casa de Isabel, esta convicção profunda em que vive de que é nada, uma simples criatura, e Deus é tudo, voltará a manifestar-se, no canto do Magnificat: “Porque olhou para a humildade da sua serva!, a sua condição de humilde criatura.

Que magnífica escola de santidade é a Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Peçamos-lhe nos ajude a frequentá-la com aproveitamento.

Façamos nossa esta bela oração de louvor que nos ensina S. Paulo, para rezarmos neste dia em que contemplamos o esplendor da Imaculada Conceição!

«Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. N'Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença

Recebemos todas estas bênçãos pela mediação da Virgem Imaculada, Mãe de Jesus e nossa Mãe também.

 

Fala o Santo Padre

 

«Deus quis que desde o momento da conceção a mãe do seu Filho não fosse tocada pela miséria do pecado.

Durante toda a sua vida terrena, foi livre de qualquer mancha de pecado, foi a “cheia de graça”»

A festa litúrgica de hoje celebra uma das maravilhas da história da salvação: a Imaculada Conceição da Virgem Maria. Ela também foi salva por Cristo, mas de uma forma extraordinária, porque Deus quis que desde o momento da conceção a mãe do seu Filho não fosse tocada pela miséria do pecado. E assim Maria, durante toda a sua vida terrena, foi livre de qualquer mancha de pecado, foi a «cheia de graça» (Lc 1, 28), como o anjo a chamou, e gozou de uma ação singular do Espírito Santo, para que pudesse manter sempre a sua relação perfeita com o seu Filho Jesus; de facto, foi a discípula de Jesus: a Mãe e a discípula. Mas o pecado não estava nela.

No magnífico hino que abre a Carta aos Efésios (cf. 1, 3-6.11-12), São Paulo faz-nos compreender que todo o ser humano é criado por Deus para aquela plenitude de santidade, para aquela beleza com que Nossa Senhora foi revestida desde o início. A meta para a qual somos chamados é também para nós um dom de Deus, que - diz o Apóstolo - nos «escolheu antes da criação do mundo para sermos santos e imaculados» (v. 4); predestinou-nos (cf. v. 5), em Cristo, para estarmos um dia totalmente livres do pecado. E esta é a graça, é gratuita, é um dom de Deus.

E o que para Maria estava no início, para nós estará no fim, depois de termos passado pelo “banho” purificador da graça de Deus. O que nos abre a porta do paraíso é a graça de Deus, recebida por nós com fidelidade. Todos os santos e santas percorreram este caminho. Contudo até os mais inocentes foram marcados pelo pecado original e lutaram com todas as forças contra as suas consequências. Passaram pela «porta estreita» que conduz à vida (cf. Lc 13, 24). E sabeis qual foi o primeiro do qual temos a certeza que entrou no paraíso, sabeis? Um “patife”: um dos dois que foram crucificados com Jesus. Voltou-se para ele e disse: «Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu reino». E Ele respondeu: «Hoje mesmo estarás comigo no paraíso» (Lc 23, 42-43). Irmãos e irmãs, a graça de Deus é oferecida a todos; e muitos que nesta terra são os últimos, no céu serão os primeiros (cf. Mc 10:31).

Mas cuidado. Não vale a pena ser esperto: adiar constantemente um exame sério da própria vida, aproveitando-se da paciência do Senhor - Ele é paciente, Ele espera por nós, Ele está sempre presente para nos conceder a graça. Podemos enganar os homens, mas não a Deus, Ele conhece o nosso coração melhor do que nós próprios. Aproveitemos o momento presente! Este é o sentido cristão de aproveitar o dia: não para desfrutar da vida no momento fugaz, não, este é o sentido mundano. Mas aproveitar o hoje para dizer “não” ao mal e “sim” a Deus; abrir-se à sua Graça; deixar finalmente de se fechar em si mesmo, caindo na hipocrisia. Enfrentar a própria realidade tal como somos; reconhecer que não amamos a Deus e não amamos o nosso próximo como devíamos, e confessá-lo. É assim que se começa um caminho de conversão pedindo primeiro a Deus perdão no Sacramento da Reconciliação, e depois reparar o mal feito aos outros. Mas sempre abertos à graça. O Senhor bate à nossa porta, bate ao nosso coração para entrar em amizade, em comunhão connosco, para nos dar a salvação.

E para nós este é o caminho para nos tornarmos “santos e imaculados”. A beleza não contaminada da nossa Mãe é inimitável, mas ao mesmo tempo atrai-nos. Confiemo-nos a ela, e digamos de uma vez para sempre “não” ao pecado e “sim” à Graça.

Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 8 de dezembro de 2020

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos caríssimos:

Bendigamos a Deus, que nos enviou

a grande bênção prometida a nossos pais

e, por intercessão da Virgem Imaculada, nossa Padroeira,

 peçamos (canteando), com alegria:

 

     Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

1. Pela santa Igreja, presente em toda a terra,

     para que não se deixe enganar pelo Demónio

      e seja esposa de Cristo, santa e imaculada,

     oremos, por intercessão de Maria.

 

     Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

2. Pelo Santo Padre, pelos bispos e presbíteros,

     para que Deus, que os chamou e os escolheu,

     lhes dê a graça de serem sempre bons pastores,

     oremos, por intercessão de Maria.

 

     Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

3. Pelos fiéis cristãos do mundo inteiro,            

     para que reconheçam na Virgem Imaculada

     o sinal prometido por Deus aos nossos primeiros pais,

     oremos, por intercessão de Maria.

 

     Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

 

4. Pelos governantes e autoridades da nossa terra,

para que pensem sobretudo nos mais pobres

e sirvam o bem comum dos cidadãos,

oremos, por intercessão de Maria.

 

     Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

5. Pelas mulheres que estão prestes a ser mães,

     para que saibam acolher e agradecer o dom da vida

que Deus entrega em suas mãos,

oremos, por intercessão de Maria.

 

     Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

6. Pelos que cederam à tentação do Inimigo

e por todos os que vivem em pecado,

para que se arrependam e recebam o perdão,

     oremos, por intercessão de Maria.

 

     Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

Senhor, nosso Deus e nosso Pai,

que convocastes e reunistes estes vossos filhos

para celebrarem os louvores da Virgem Imaculada,

fazei que, olhando para Ela,

aprendam a imitá-l’A e a progredir na santidade.

Por Cristo Senhor nosso.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

A Mesa da Palavra tornou-nos mais conscientes da nossa filiação divina que nos veio de Deus pela generosidade de Nossa Senhora.

Na Eucaristia. Vamos receber como alimento sobrenatural, o Filho Virgem de Santa Maria, concebido em seu seio virginal pela força do Espírito Santo.

 

Cântico do ofertório: Exulto de alegria no Senhor – M. Silva, CEC (II)

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai, Senhor, o sacrifício de salvação que Vos oferecemos na solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria e, assim como acreditamos que, por vossa graça, ela foi isenta de toda a mancha, sejamos nós, por sua intercessão, livres de toda a culpa. Por Nosso Senhor...

 

Prefácio

 

O mistério de Maria e da Igreja

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, e louvar-Vos, bendizer-Vos e glorificar-Vos na Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria.

Vós a preservastes de toda a mancha do pecado original, para que, enriquecida com a plenitude da vossa graça, fosse a digna Mãe do vosso Filho. Nela destes início à santa Igreja, esposa de Cristo, sem mancha e sem ruga, resplandecente de beleza e santidade. Dela, Virgem puríssima, devia nascer o vosso Filho, Cordeiro inocente que tira o pecado do mundo. Vós a destinastes, acima de todas as criaturas, a fim de ser, para o vosso povo, advogada da graça e modelo de santidade.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos com alegria a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: C. Silva - OC (pg 537)

 

Saudação da Paz

 

A Imaculada Conceição profetizada no Génesis trava uma luta sem tréguas, para expulsar Satanás do mundo, causa de todos os ódios e guerras.

Unamo-nos a Maria Santíssima, por uma devoção filial, e colaboremos com Ela, na instauração da verdadeira paz entre os homens.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Deus fez-Se Homem, sem deixar as alturas infinitas da divindade, para Se tornar nosso alimento na Santíssima Eucaristia.

Peçamos, neste momento, à imaculada Conceição, Mãe de Jesus e nossa Mãe, que nos ensine e ajude a recebê-l’O com as disposições que Ele tinha quando ia comungar.

 

Cântico da Comunhão: É celebrada a vossa glória – A. F. Santos, BML, 33

 

Antífona da comunhão: Grandes coisas se dizem de vós, ó Virgem Maria, porque de vós nasceu o sol da justiça, Cristo nosso Deus.

 

Cântico de acção de graças: Feliz és Tu porque acreditaste – C. Silva, OC

 

Oração depois da comunhão: O sacramento que recebemos, Senhor, cure em nós as feridas daquele pecado, do qual, por singular privilégio, preservastes a Virgem Santa Maria, na sua Imaculada Conceição. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Celebremos com alegria a Imaculada Conceição de Nossa Senhora e renovemos a nossa devoção do Terço do Rosário, procurando rezá-lo melhor.

 

Cântico final: Desde toda a eternidade – M. Carneiro, NRMS, 18

 

 

 

 

 

 

Homilia FeriaL

 

Sábado, 9-XII: A abundância de frutos.

Is 30, 19-21. 23-26 / Mt 9, 35- 10. 1.5. 6-8

O Senhor dará a chuva para a semente que tiveres lançado à terra, e o pão que a terra produzir será farto e nutritivo.

De acordo com o profeta, o Messias exercerá a sua misericórdia e haverá frutos abundantes (Leit.). Jesus manifesta essa misericórdia, curando as doenças e proclamando a Boa Nova aos que andavam como ovelhas sem pastor (Ev.).

Para que haja abundância de frutos é preciso acolher bem a palavra de Deus. Jesus pede-nos que continuemos a sua missão. Ensinemos, pois, os outros a abandonarem a sua vida cómoda, mostrando-lhes o caminho da felicidade. Acompanhemos o nosso trabalho com a oração: «pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a messe» (Ev.).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:            Fernando Silva

Nota Exegética:          Geraldo Morujão

Homilia Ferial: Nuno Romão

Sugestão Musical:      José Carlos Azevedo

 


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