TEMAS LITÚRGICOS

A manifestação do amor de Deus

 

 

Celebrar o Natal é celebrar o dom de Deus, portanto, é sempre uma surpresa, um espanto diante do imenso amor divino. O facto de Deus Se fazer bebé e nascer num presépio é mistério que sempre nos ultrapassa.

 

Pe. Ricardo Figueiredo

 

 

 

Costuma-se dizer que «uma tradução é sempre uma traição». É uma realidade inevitável. No âmbito eclesial, as traduções são feitas e discernidas segundo a lógica da fé e, portanto, aprofundadas pela comunidade eclesial.

No Moto Proprio Magnum Principium, sobre a aprovação das traduções dos livros litúrgicos, o Papa Francisco indica alguns elementos sobre este tema. Primeiro, sobre o valor teológico das palavras usadas na vida litúrgica: «O texto litúrgico, enquanto sinal ritual, é meio de comunicação oral. Mas para os crentes que celebram os ritos sagrados, também a palavra é um mistério: com efeito, quando são proferidas as palavras, em particular quando se lê a Sagrada Escritura, Deus fala aos homens, o próprio Cristo no Evangelho fala ao seu povo que, por si ou através do celebrante, com a oração responde ao Senhor no Espírito Santo»[1]. Deste modo, os textos litúrgicos não comunicam simplesmente uma ideia, mas o excesso de sentido que nasce da ação de Deus junto do homem. Deste modo, afirma também o Santo Padre: «A finalidade das traduções dos textos litúrgicos e dos textos bíblicos, para a liturgia da palavra, é anunciar aos fiéis a palavra de salvação em obediência à fé e exprimir a oração da Igreja ao Senhor». Assim, em primeiro lugar e especialíssimo, meditamos a Palavra de Deus contida na Sagrada Escritura, mas também os textos litúrgicos servem de alimento para a oração e a meditação.

A publicação de edições distintas e cronologicamente distantes dos livros litúrgicos permitem notar não só o caminho de aprofundamento e discernimento na vida da Igreja, mas também diferentes acentuações e aspetos que se querem manifestar nos diversos mistérios celebrados liturgicamente. Exemplo disso é a alteração da tradução do I prefácio do Natal na nova edição do Missal Romano para Portugal. Apresentamos os dois textos em sinopse:

 

Edição de 1992

Edição de 2022

Pelo mistério do Verbo Encarnado,

 

nova luz da vossa glória brilhou sobre nós,

 

para que, contemplando a Deus visível aos nossos olhos,

 

aprendamos a amar o que é invisível.

Pelo mistério do Verbo Encarnado,

 

nova luz da vossa glória brilhou sobre nós,

 

para que, contemplando a Deus visível aos nossos olhos,

 

sejamos arrebatados no amor do que é invisível.

 

Vejamos, agora, alguns aspetos em relação a esta parte central e desenvolvimento doxológico deste prefácio que é fundamental durante os dias de celebração natalícia.

Em primeiro lugar, o dinamismo fundamental do mistério natalício: Deus que era invisível torna-se visível. Este é o substrato presente em todos os desenvolvimentos doutrinais dos primeiros sete concílios, em que encontramos a compreensão de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Como Santo Agostinho preferia apontar, a pessoa de Cristo descreve-se melhor através do paradoxo: o Deus invisível é o Deus humilde que Se faz homem, que Se torna um de nós. Celebrar o Natal é celebrar o mistério do «Deus condescendente» que vem ao encontro do ser humano de uma forma totalmente nova, mas também de uma forma que ultrapassa o ser humano. A celebração do Natal desenvolveu-se liturgicamente em função da afirmação dogmática que proclamamos cada Domingo no Credo. Aquele que nasceu da Virgem Maria é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. De forma particular na Península Ibérica assistiu-se a um grande desenvolvimento litúrgico das festividades do Natal, possivelmente pela presença neste território de forma mais marcante da heresia adocionista, que era necessário combater, exatamente pela afirmação da divindade do Menino nascido em Belém.

Em segundo lugar, a substituição que assistimos nas traduções do Missal Romano de «aprendamos a amar» por «sejamos arrebatados no amor». Abandona-se uma compreensão voluntarista, em que o ser humano «aprende» a amar, como se fosse algo que fazemos por nossa iniciativa, e passa-se a compreender como um mistério que superabunda a capacidade humana e, por isso, não resta outra forma de viver o imenso amor de Deus senão o arrebatamento. Esta nova tradução insere-nos numa compreensão espiritual mais consciente do mistério de Deus. A celebração do Natal é a aproximação de um dom imenso pelo qual somos conduzidos às realidades invisíveis. Deixamos de viver apenas para as realidades materiais e o sobrenatural – o invisível – passa a ser uma realidade decisiva na nossa vida. Portanto, é algo que sempre arrebata, que sempre transporta para além de nós próprios. A centralidade colocada na noção de arrebatamento é especialmente assinalável: é sempre algo exterior, que vem ao ser humano e é-lhe oferecido. Estamos no âmbito do dom inefável de Deus. A dialética entre visível/invisível está ao serviço da vocação que Deus deu ao homem: somos chamados à eternidade, à comunhão com Deus, à vida sobrenatural. Deus como que dá a mão ao ser humano como uma criança, para o conduzir (=pedagogia) à participação da Sua vida. Portanto, Deus, que é invisível, oferece-Se a Si mesmo para nos conduzir a nós, que somos visíveis, através do Seu assumir pleno do que é visível.

Celebrar o Natal é celebrar o dom de Deus, portanto, é sempre uma surpresa, um espanto diante do imenso amor divino. O facto de Deus Se fazer bebé e nascer num presépio é mistério que sempre nos ultrapassa. Mas não podemos «ficar aí». Cada ano somos convidados a adentrar mais neste mistério, não como algo que «vamos aprender» com as nossas capacidades, mas como dom da graça de Deus em nós, que nos arrebata para as realidades invisíveis. Repete-se isso em cada Missa, como de forma especial compreendeu São Francisco de Assis: quando montou o primeiro presépio em Gréccio, no lugar da manjedoura pediu que se celebrasse a Missa. Era a representação mais perfeita do nascimento de Cristo: Maria e José, o burro e a vaca, tudo era uma encenação do que tinha acontecido em Belém de Judá alguns séculos antes. Mas Aquele que estava realmente presente sobre o altar, no lugar da manjedoura, era o mesmo Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito homem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Papa Francisco, Moto próprio Magnum Principium (3 de setembro de 2017).


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