2º Domingo da Páscoa

18 de Abril de 2004



RITOS INICIAIS


Cântico de entrada: O Senhor libertou o seu povo, A. Cartageno, NRMS 109

1 Pedro 2, 2

Antífona de entrada: Como crianças recém-nascidas, desejai o leite espiritual, que vos fará crescer e progredir no caminho da salvação. Aleluia.


Ou

4 Esd 2, 36-37

Exultai de alegria, cantai hinos de glória. Dai graças a Deus, que vos chamou ao reino eterno. Aleluia.


Diz-se o Glória.


Introdução ao espírito da Celebração


O Domingo é um dia de festa pascal, um dia de acção de graças. O coração do Domingo é a Santa Missa que vamos celebrar. Demos graças ao Senhor «pelas riquezas inesgotáveis do Baptismo com que fomos purificados, do Espírito em que fomos regenerados e do Sangue com que fomos redimidos»(Colecta).


Oração colecta: Deus de eterna misericórdia, que reanimais a fé do vosso povo na celebração anual das festas pascais, aumentai em nós os dons da vossa graça, para compreendermos melhor as riquezas inesgotáveis do Baptismo com que fomos purificados, do Espírito em que fomos renovados e do Sangue com que fomos redimidos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.



Liturgia da Palavra


Primeira Leitura


Monição: Os primeiros cristãos, à medida que abraçavam a fé, davam testemunho público de Cristo, «unidos pelos mesmos sentimentos» e «o povo enaltecia-os», tal era o seu prestígio.


Actos dos Apóstolos 5, 12-16

12Pelas mãos dos Apóstolos realizavam-se muitos milagres e prodígios entre o povo. Unidos pelos mesmos sentimentos, reuniam-se todos no Pórtico de Salomão; 13nenhum dos outros se atrevia a juntar-se a eles, mas o povo enaltecia-os. 14Cada vez mais gente aderia ao Senhor pela fé, uma multidão de homens e mulheres, 15de tal maneira que traziam os doentes para as ruas e colocavam-nos em enxergas e em catres, para que, à passagem de Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles. 16Das cidades vizinhas de Jerusalém, a multidão também acorria, trazendo enfermos e atormentados por espíritos impuros e todos eram curados.


Como em todos os anos, vamos ter como 1.ª leitura de todos os Domingos Pascais trechos dos Actos dos Apóstolos. A leitura de hoje é um dos chamados «relatos sumários» de Actos. No ano A, leu-se o de Act 2, 42-47 e no ano B o de Act 4, 23-35. Estes são breves resumos daquilo que caracterizava a vida da primitiva Igreja de Jerusalém: numa espécie de visão idílica, focam o que sobressaía de positivo na novidade da fé cristã nascente, a desenvolver-se pela acção do Espírito Santo, a sua vida religiosa, a união fraterna, o cuidado dos pobres, bem como os milagres realizados pelos Apóstolos. S. Lucas não deixa de sublinhar, o prestígio de que gozavam os primeiros cristãos: «o povo enaltecia-os» (v. 13; cf. Act 2, 43; 4, 33).

12 «No pórtico de Salomão», no adro do Templo, o chamado átrio dos gentios, tinha a limitá-lo externamente não uma simples muralha de suporte e protecção, que ainda hoje em parte se conserva, mas esplêndidos pórticos, ao Sul, o pórtico real, com três fiadas de colunas, e o pórtico de Salomão a Nascente, com duas fiadas de colunas.

13 «Nenhum se atrevia a juntar-se a eles», provavelmente dominados pelo temor dos chefes do povo, que tinham condenado Jesus à morte.

14 «Cada vez mais gente aderia...» S. Lucas tem como um constante leitmotiv ou ideia mestra da sua composição o crescimento progressivo da Igreja, como quem quer documentar com a vida dos primeiros cristãos as parábolas do grão de mostarda e do fermento, de acordo com as palavras programáticas de Jesus, antes da Ascensão: «sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da Terra» (Act 1, 8).


Salmo Responsorial Sl 117 (118), 2-4.22-24.25-27a (R. 1)


Monição: Aclamemos o Senhor pela sua bondade: Ele fez brilhar sobre nós a sua luz.


Refrão: Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom,

porque é eterna a sua misericórdia.


Ou: Aclamai o Senhor, porque Ele é bom:

o seu amor é para sempre.


Ou: Aleluia.


Diga a casa de Israel:

é eterna a sua misericórdia.

Diga a casa de Aarão:

é eterna a sua misericórdia.


Digam os que temem o Senhor:

é eterna a sua misericórdia.

A pedra que os construtores rejeitaram

tornou-se pedra angular.


Tudo isto veio do Senhor:

é admirável aos nossos olhos.

Este é o dia que o Senhor fez:

exultemos e cantemos de alegria.


Senhor, salvai os vossos servos, Senhor, dai-nos a vitória.

Bendito o que vem em nome do Senhor,

da casa do Senhor nós vos bendizemos.

O Senhor é Deus e fez brilhar sobre nós a sua luz.


Segunda Leitura


Monição: S. João apresenta-nos Jesus Cristo como «Alguém semelhante a um Filho de homem», o «Primeiro e o Último», o Senhor do Universo, «Aquele que vive» para nunca mais morrer.


Apocalipse 1, 9-11a.12-13.17-19

9Eu, João, vosso irmão e companheiro nas tribulações, na realeza e na perseverança em Jesus, estava na ilha de Patmos, por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus. 10No dia do Senhor fui movido pelo Espírito e ouvi atrás de mim uma voz forte, semelhante à da trombeta, que dizia: 11b«Escreve num livro o que vês e envia-o às sete Igrejas». 12Voltei-me para ver de quem era a voz que me falava; ao voltar-me, vi sete candelabros de ouro 13e, no meio dos candelabros, alguém semelhante a um filho do homem, vestido com uma longa túnica e cingido no peito com um cinto de ouro. 17Quando o vi, caí a seus pés como morto. Mas ele poisou a mão direita sobre mim e disse-me: «Não temas. Eu sou o Primeiro e o Último, 18o que vive. Estive morto, mas eis-Me vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e da morada dos mortos. 19Escreve, pois, as coisas que viste, tanto as presentes como as que hão-de acontecer depois destas».


Vamos ter, como 2ª leitura, em todos os Domingos Pascais do ciclo C, um trecho do Apocalipse, uma obra repleta de ressonâncias litúrgicas, onde a assembleia dos fiéis na terra se faz eco das aclamações da Jerusalém celeste tributadas ao Cordeiro imolado e vencedor da morte, Cristo ressuscitado (no ano A, a 2ª leitura foi da 1ª Carta de S. Pedro; no ano B, da 1ª Carta de S. João).

9 «Eu, João». De acordo com a tradição geral, seria o «discípulo amado», que esteve exilado, na perseguição do imperador Domiciano, na ilha de Patmos, hoje Patino, no arquipélago das Espórades, no Mar Egeu oriental. Esta ilha, de uns 15 km de comprimento (40km2), rochosa e árida, era uma espécie de Tarrafal da época, lugar de desterro para crimes políticos e religiosos. A pouca correcção gramatical do grego do Apocalipse (de longe o mais fraco de todo o N. T.) até se coaduna melhor com a personalidade do pescador da Galileia do que a relativa perfeição do IV Evangelho e das epístolas joaninas, mas as diferenças podem explicar-se pela diversidade dos colaboradores do Apóstolo. Se no Evangelho nunca se revela o seu nome, é porque pretende, na sua humildade, adoptar a discrição dos restantes evangelistas, a fim de ressaltar que o que importa é que o leitor se fixe na pessoa de Jesus e na importância da sua mensagem. O facto de aparecer aqui quatro vezes o nome de João corresponde ao género profético desta obra; os profetas começavam por indicar o seu nome; João, porém, não apela para a sua qualidade de Apóstolo, preferindo modestamente referir a sua condição de «irmão e companheiro». De qualquer modo, a questão do autor da obra é uma questão aberta, havendo exegetas católicos que preferem pensar noutro João, como o problemático «João, o presbítero» de que fala Papias.

10 «No dia do Senhor». Como facilmente se depreende, temos aqui documentado o uso cristão, que remonta à época apostólica, de chamar ao primeiro dia da semana dominicum (diem), em atenção a ser o dia da Ressurreição do Senhor (cf. Mt 28, 18), dia este em que já os primeiros cristãos se reuniam (cf. 1 Cor 16, 2) e celebravam a Eucaristia, «a Fracção do Pão», como então se chamava (cf. Act 20, 7; 2, 42).

11-13 «Sete igrejas, sete candelabros; longa túnica, cinto de ouro». A visão é relatada com um notável colorido litúrgico, tão característico do Apocalipse, pondo em evidência como a liturgia terrestre (a celebração do Dia do Senhor) está em consonância com a liturgia celeste; os sete (número de plenitude) candelabros são o símbolo de toda a Igreja em oração, numa alusão ao candelabro de sete braços, a menoráh do Templo; o sacerdócio e a realeza de Cristo são simbolizados pela longa túnica e pelo cinto de ouro. Eis o comentário espiritual de Santo Agostinho: «As sete Igrejas, às quais S. João escreve, são a Igreja Católica e Una. O número sete relaciona-se com a graça septiforme. (...) Representam também a Igreja os sete candelabros. O (indivíduo) «semelhante a um filho de homem», no meio dos candelabros, é Cristo no centro da Igreja. O cinto, que envolve os seios, são os dois Testamentos; eles recebem do peito de Cristo o leite espiritual, alimento do povo de Deus para a vida eterna».

17 «Eu sou o Primeiro e o Último»: é uma expressão isaiana (cf. Is 44, 2.6; 48, 12) para designar Yahwéh, como Senhor do Universo, no seu ser eterno, que existe antes de todas as coisas e subsiste após o fim das criaturas. Esta expressão, aqui aplicada a Jesus, deixa ver a sua divindade.


Aclamação ao Evangelho Jo 20, 29


Monição: Aclamemos a Cristo ressuscitado que está no meio de nós, tal como esteve no meio dos Apóstolos, no Cenáculo, em Jerusalém. Façamos nosso o acto de fé do Apóstolo incrédulo: «Meu Senhor e meu Deus!».


Aleluia


Disse o Senhor a Tomé: «Porque Me viste, acreditaste;

felizes os que acreditam sem terem visto.


Cântico: M. Faria, NRMS 87



Evangelho


São João 20, 19-31

19Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». 20Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. 21Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». 22Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: 23àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos». 24Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. 25Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei». 26Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». 27Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». 28Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» 29Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». 30Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. 31Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.


19 «A paz esteja convosco!» Não se trata de uma mera saudação, a mais corrente entre os Judeus, mesmo ainda hoje. No entanto os evangelistas nunca a registam durante a vida terrena de Jesus; é por isso que esta insistência joanina nas palavras do Senhor ressuscitado (vv. 19.21.26) é grandemente expressiva: com a sua Morte e Ressurreição Jesus acabava de nos garantir a paz, a paz com Deus, origem e alicerce de toda a verdadeira paz (cf. Jo 14, 27; Rom 5, 1; Ef 2, 14; Col 1, 20).

20 «Ficaram cheios de alegria». Esta observação confere ao relato uma grande credibilidade: naqueles discípulos espavoridos (v. 19), desiludidos e estonteados, surge uma vivíssima reacção de alegria, «ao verem o Senhor»; ao contrário do que era de esperar, não se verifica aqui o esquema habitual das visões divinas, as teofanias do A. T., em que sempre se refere uma reacção de temor e de perturbação. A grande alegria dos Apóstolos procede da certeza da vitória de Jesus sobre a morte e também de verem como Jesus reatava com eles a intimidade anterior, sem recriminar a fraqueza da sua fé e a vergonha da sua deslealdade.

22 «Soprou sobre eles… ‘Recebei o Espírito Santo’». Este soprar de Jesus não é ainda «o vento impetuoso» do dia de Pentecostes; é um sinal visível do dom invisível do Espírito (em grego é a mesma palavra que também significa sopro). Esta efusão do Espírito Santo não é a mesma que se dá 50 dias depois. Aqui, tem por efeito conferir-lhes o poder de perdoar os pecados, poder dado só aos Apóstolos (e seus sucessores no sacerdócio da Nova Aliança), ao passo que no dia do Pentecostes é dado o Espírito Santo também a outros discípulos reunidos com Maria no Cenáculo, iluminando-os e fortalecendo-os com carismas extraordinários em ordem ao cumprimento da missão de que já estavam incumbidos.

23 «A quem perdoardes os pecados…»: não se trata de um mero preceito da pregação do perdão dos pecados que Deus concede a quem confia nesse perdão (interpretação protestante); é uma das poucas passagens da Bíblia cujo sentido foi solenemente definido como dogma de fé: estas palavras «devem entender-se do poder de perdoar e reter os pecados no Sacramento da Penitência» (DzS 913); o mesmo Concílio de Trento também se baseia nestas palavras para falar da necessidade de confessar todos os pecados graves depois do Baptismo, uma doutrina que tem vindo a ser reafirmada pelo Magistério: «a doutrina do Concílio de Trento deve ser firmemente mantida e aplicada fielmente na prática»; por isso, os fiéis que, em perigo de morte ou em caso de grave necessidade, tenham recebido legitimamente a absolvição comunitária ou colectiva de pecados graves ficam com a grave obrigação de os confessar dentro de um ano (Normas Pastorais da Congregação para a Doutrina da Fé, 16-VI-1972; confirmadas pelas recentes orientações da Conferência Episcopal Portuguesa e sobretudo do motu proprio «Misericordia Dei» de João Paulo II, em 7 de Abril de 2002).

«Ser-lhes-ão perdoados»: esta expressão é muito forte, pois temos aqui o chamado passivum divinum, isto é, o uso judaico da voz passiva para evitar pronunciar o nome inefável de Deus; sendo assim, a expressão corresponde a «Deus lhes perdoará», e «serão retidos» equivale a «serão retidos por Deus», isto é, Deus não perdoará.

24 «Tomé», nome aramaico Tomá’ significa «gémeo»; em grego, «dídymos».

29 «Felizes os que acreditam sem terem visto». Para a generalidade dos fiéis, a fé (dom de Deus) não tem mais apoio humano verificável do que o testemunho grandemente crível da pregação apostólica e da Igreja através dos séculos (cf. Jo 17, 20). Para crer não precisamos de milagres, basta a graça, que Deus nunca nega a quem busca a verdade com humildade e sinceridade de coração. O facto de as coisas da fé não serem evidentes, nem uma mera descoberta da razão, só confere mérito à atitude do crente, que crê porque Deus, que revela, não se engana nem pode enganar-nos. Por isso, Jesus proclama-nos «felizes», ao submetermos o nosso pensamento e a nossa vontade a Deus na entrega que o acto de fé implica. Tanto Tomé, naquela ocasião, como nós, agora, temos garantias de credibilidade suficientes para aceitar a Boa Nova de Jesus: as nossas escusas para não crer são escusas culpáveis, escusas de mau pagador.

30-31 Temos aqui a primeira conclusão do Evangelho de S. João, que nos deixa ver o objectivo que o Evangelista se propôs. Este Evangelho foi escrito para crermos que «Jesus é o Messias, o Filho de Deus». Note-se que a fé não é uma mera disposição interior de busca ou caminhada sem uma base doutrinal, um conteúdo de ensino (cf. Rom 6, 17), pois exige que se aceitem «verdades» como esta, a saber, que Jesus é o Filho de Deus, e Filho, não num sentido genérico, humano ou messiânico, mas o «Filho Unigénito que está no seio do Pai» (Jo 1, 18), verdadeiro Deus, segundo a confissão de S. Tomé: «Meu Senhor e meu Deus» (v. 28; cf. Jo 1, 1; 10, 30; 1 Jo 5, 20; Rom 9, 5).


Sugestões para a homilia


O Domingo cristão.

O Mandamento Novo.

A fé em Cristo ressuscitado.

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1. «Na tarde daquele dia, o primeiro da semana...Jesus veio colocar-se no meio deles e disse-lhes: 'A paz esteja convosco!'». (Evangelho)


Jesus apareceu ressuscitado no primeiro dia da semana, dia que, por isso, foi chamado pelos cristãos o «Dia do Senhor»: «A Igreja, por uma tradição apostólica que tem a sua origem no próprio dia da Ressurreição de Cristo, celebra o Mistério Pascal todos os oito dias, no dia que com razão se chama o dia do Senhor ou Domingo» (S. Concilium, n.º 106).

No Domingo devem reunir-se os cristãos para agradecer a Deus o Dom inefável da Salvação e alimentar a sua fé e a sua esperança, ouvindo a Palavra de Deus e participando na Eucaristia. Dia festivo por excelência, é um dia de alegria e de repouso, dia de contemplação e de acção de graças. Assim fizeram os onze Apóstolos a partir da Ressurreição de Cristo: «Oito dias depois, estavam os discípulos novamente lá dentro...veio Jesus...colocou-Se no meio deles e disse: 'A paz esteja convosco'» – diz o Evangelho de hoje.

A reunião dos cristãos é uma necessidade, sobretudo ao Domingo, para tomarem consciência pessoal da redenção, dar testemunho do Salvador ante os demais e gozar de uma especial presença de Cristo Ressuscitado.


2. «Todos se encontravam no Pórtico de Salomão, unidos pelos mesmos sentimentos» (1.ª Leitura).


A característica que distinguirá para sempre os discípulos de Cristo, os cristãos de todos os tempos, é o amor mútuo e a união de sentimentos: «Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35).

Que bem puseram em prática este amor fraterno os primeiros cristãos. Amavam-se uns aos outros de modo factuoso e forte, através do Coração de Cristo. Tinham um só coração e uma só alma. Tertuliano, um escitor do século II, transmitiu-nos o comentário dos pagãos, comovidos ao presenciarem esse comportamento exemplar dos cristãos, tão cheio de atractivo sobrenatural e humano: «Vede como eles se amam» – repetiam.

O principal apostolado dos discípuos de Cristo, o seu melhor testemunho de fé é contribuir para que dentro da Igreja e na Sociedade se respire esse clima de autêntica caridade, a exemplo desses primeiros cristãos.


3. «Porque Me viste, acreditaste. Felizes os que acreditam sem terem visto» (Evangelho).


S. Tomé é bem-aventurado porque acreditou, depois de ter tocado. O Senhor, olhando para o futuro, proclama ainda mais bem-aventurados os que, sem terem visto, acreditam: aqueles que apoiam a própria fé na sua Palavra, no seu Evangelho, não se baseando na prova dos sentidos.

Como foi proclamado na 2.ª leitura tomada do livro do Apocalipse, Jesus afirma de Si: «Eu sou o Primeiro e o Último, Aquele que vive. Conheci a morte, mas eis-Me aqui vivo pelos séculos dos séculos. E tenho as chaves da Morte e da morada dos mortos». N'Ele, a morte e a vida enfrentaram-se como num grandioso duelo e venceu a Vida: Ele mesmo é a Vida. O mistério pascal é precisamente um mistério de morte e de vida: uma passagem da morte para a vida.

Passemos também nós, pela firmeza da fé e da verdade revelada, da morte espiritual provocada pelos nossos pecados, para a graça divina que nos faz viver na luz, como ressuscitados para uma vida nova. Sejamos testemunhas críveis e corajosas de Cristo ressuscitado, passemos da incredulidade para a fé que é exigida em todos aqueles que querem ser verdadeiros cristãos. A fé exprime-se na paz interior; por esta razão o Senhor repete aos discípulos: «A paz esteja convosco» (Jo 20, 19; 20, 21).


Fala o Santo Padre


1. «Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último. O que vive; conheci a morte, mas eis-Me aqui vivo pelos séculos dos séculos» (Ap 1, 17-18).

Ouvimos na segunda leitura, tirada do livro do Apocalipse, estas palavras confortadoras. Elas convidam-nos a dirigir o olhar para Cristo, para experimentar a sua presença tranquilizadora. A cada um, seja qual for a condição em que se encontre, até a mais complexa e dramática, o Ressuscitado responde: «Não temas!»; morri na cruz, mas agora «vivo pelos séculos dos séculos»; «Eu sou o Primeiro e o Último. O que vive».

«O Primeiro», isto é, a fonte de cada ser e a primícia da nova criação: «O Último», o fim definitivo da história; «O que vive», a fonte inexaurível da Vida que derrotou a morte para sempre. No Messias crucificado e ressuscitado reconhecemos os traços do Anjo imolado no Gólgota, que implora o perdão para os seus algozes e abre para os pecadores penitentes as portas do céu; entrevemos o rosto do Rei imortal que já tem «as chaves da Morte e do Inferno» (Ap 1, 18).


2. «Louvai o Senhor porque Ele é bom, porque é eterno o Seu amor» (Sl 117, 1). Façamos nossa a exclamação do Salmista, que cantamos no Salmo responsorial: porque é eterno o amor do Senhor! Para compreendermos profundamente a verdade destas palavras, deixemo-nos conduzir pela liturgia ao centro do acontecimento da salvação, que une a morte e a ressurreição de Cristo à nossa existência e à história do mundo. Este prodígio de misericórdia mudou radicalmente o destino da humanidade. É um prodígio em que se abre em plenitude o amor do Pai que, pela nossa redenção, não se poupa nem sequer perante o sacrifício do seu Filho unigénito.

Em Cristo humilhado e sofredor, crentes e não-crentes podem admirar uma solidariedade surpreendente, que o une à nossa condição humana para além de qualquer medida imaginável. Também depois da ressurreição do Filho de Deus, a Cruz «fala e não cessa de falar de Deus Pai, que é absolutamente fiel ao seu eterno amor para com o homem... Crer neste amor significa acreditar na misericórdia» (Dives in misericordia, 7).

Desejamos dar graças ao Senhor pelo seu amor, que é mais forte do que a morte e do que o pecado. Ele revela-se e torna-se actuante como misericórdia na nossa existência quotidiana e convida todos os homens a serem, por sua vez, «misericordiosos» como o Crucificado. Não é porventura amar a Deus e amar o próximo e até os «inimigos», seguindo o exemplo de Jesus, o programa de vida de cada baptizado e de toda a Igreja? […]


4. O Evangelho, que há pouco foi proclamado, ajuda-nos a compreender plenamente o sentido e o valor deste dom. O evangelista João faz-nos partilhar a emoção sentida pelos Apóstolos no encontro com Cristo depois da sua ressurreição. A nossa atenção detém-se no gesto do Mestre, que transmite aos discípulos receosos e admirados a missão de serem ministros da Misericórdia divina. Ele mostra as mãos e o lado com os sinais da paixão e comunica-lhes: «Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós» (Jo 20, 21). Imediatamente a seguir, «soprou sobre eles e disse-lhes: recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados, àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos» (Jo 20, 22-23). Jesus confia-lhes o dom de «perdoar os pecados», dom que brota das feridas das suas mãos, dos seus pés e sobretudo do seu lado trespassado. Dali sai uma vaga de misericórdia para toda a humanidade. […]


João Paulo II, Roma, 22 de Abril de 2001


Oração Universal


Supliquemos, irmãos, a Deus todo-poderoso,

que revestiu de honra e glória a Seu Filho,

Nosso Senhor Jesus Cristo,

que atenda a oração da sua Igreja peregrina.

Digamos todos:


R. Ouvi-nos, Senhor.


1. Pelo Papa, Bispos e Sacerdotes

para que através da união íntima com Jesus Cristo Ressuscitado,

dêem testemunho de fé, de esperança e de caridade,

oremos, irmãos.


2. Pelos governantes dos povos

para que no desempenho da sua missão

sejam exemplares e fujam à tentação do poder,

oremos, irmãos.


3. Pelos fiéis que sofrem perseguição no mundo,

para que Deus lhes abrevie o tempo de prova

e os console e fortaleça com a fortaleza do Espírito Santo,

oremos, irmãos.


4. Pelos fiéis da nossa comunidade (paroquial),

para que, ajudados pela graça do Espírito Santo,

dêem testemunho de fé em todas as circunstâncias da sua vida,

oremos, irmãos.


5. Para que todos nós aqui presentes

sejamos fiéis aos compromissos do nosso baptismo

e, apoiados no triunfo de Seu Filho,

saibamos permanecer firmes na luta contra o mal,

oremos, irmãos.


6. Pelos nosso irmãos que morreram no Senhor,

para que Deus perdoe os seus pecados,

receba as suas almas e lhes conceda a luz e o descanso eterno,

oremos, irmãos.



Atendei, ó Deus eterno, a nossa oração,

e pois acreditamos que o Salvador dos homens

ressuscitou e está na sua glória,

concedei que a sua presença nos acompanhe sempre ao longo desta vida.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.



Liturgia Eucarística


Cântico do ofertório: Aleluia! Aleluia! Cristo ressuscitou, J. Santos, NRMS 2 (II)


Oração sobre as oblatas: Aceitai benignamente, Senhor, as ofertas do vosso povo [e dos vossos novos filhos], de modo que, renovados pela profissão da fé e pelo Baptismo, mereçamos alcançar a bem-aventurança eterna. Por Nosso Senhor.


Prefácio pascal I [mas com maior solenidade neste dia]: p. 469 [602-714]


No Cânone Romano dizem-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) e o Hanc igitur (Aceitai benignamente, Senhor) próprios. Nas Orações Eucarísticas II e III fazem-se também as comemorações próprias.


Santo: F. da Silva, NRMS 38


Monição da Comunhão


A Comunhão aumenta a nossa união com Cristo Ressuscitado, afasta-nos do pecado, torna-nos fortes contra as tentações. Uma vez que os laços da caridade entre os que comungam e Jesus Cristo são reforçados, a recepção deste Sacramento reforça também a unidade da Igreja, Corpo Místico de Cristo, e aumenta em nós todas as virtudes.

Peçamos a Deus que desperte e aumente em nós a fome deste Alimento celestial, verdadeiro Pão da Vida. Aproximemo-nos com fé, dizendo como o Apóstolo incrédulo: «Meu Senhor e meu Deus».


Cântico da Comunhão: Porque me vês acreditas, Az. Oliveira, NRMS 97

cf. Jo 20, 27

Antífona da comunhão: Disse Jesus a Tomé: Com a tua mão reconhece o lugar dos cravos. Não sejas incrédulo, mas fiel. Aleluia.


Cântico de acção de graças: Cantai Comigo, H. Faria, NRMS 2 (II)


Oração depois da comunhão: Concedei, Deus todo-poderoso, que a força do sacramento pascal que recebemos permaneça sempre em nossas almas. Por Nosso Senhor.



Ritos Finais


Monição final


Procuremos sempre imitar a fé dos primeiros cristãos na assiduidade com que participavam na Missa Dominical e no modo como viviam a caridade fraterna. Que a força recebida nos mistérios pascais continue sempre a agir em nós.


Cântico final: Cantai a Cristo Senhor, Az. Oliveira, NRMS 97



Homilias Feriais


TEMPO PASCAL


2ª SEMANA


2ª feira, 19-IV: As riquezas do baptismo

Act 4, 23-31 / Jo 3, 1-8

Quem não nascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no Reino de Deus.

Jesus fala de um novo nascimento: pela água e pelo Espírito Santo (cf. Ev.). E esse nascimento «faz do neófito uma nova criatura, um filho adoptivo de Deus, tornado participante da natureza divina, membro de Cristo e co-herdeiro com Ele, templo do Espírito Santo» (CIC, 1265).

Apesar deste enriquecimento daquele que é baptizado, «há ainda muitos baptizados que vivem como se Cristo não existisse» (INE, 47). Para esses há necessidade de melhorar a sua formação, pois pensam que sabem o que é o cristianismo, mas sem o conhecerem (cf. id., ibid.).


3ª feira, 20-IV: As escolas de comunhão

Act 4, 32-37 / Jo 3, 7-15

A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma.

Os primeiros cristãos deixaram um belo testemunho do mandamento novo (cf. Leit.), pedido por Jesus.

Continua a ser necessário que vivamos todos este mesmo espírito: as pessoas, as famílias e as comunidades hão-de viver o Evangelho da caridade (cf. INE, 85). O fundamento deste espírito é o Espírito Santo: «Assim é todo aquele que nasceu do Espírito» (Ev.). O Papa recomenda que «todas as comunidades eclesiais são chamadas a ser verdadeiras escolas de comunhão» (INE, 85). Evitemos tudo aquilo que possa ser objecto de discórdia e fomentemos o entendimento entre todos.


4ª feira, 21-IV: O tesouro da Bíblia

Act 5, 17-26 / Jo 3, 16-21

Deus amou de tal modo o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o homem que acredita nele não se perca

A segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnou para que nos déssemos conta do amor que Deus tem por cada um de nós: «Deus amou de tal modo o mundo que entregou o seu Filho único» (Ev.).

E Jesus deixou-nos um verdadeiro tesouro com os seus ensinamentos. É preciso anunciar a todos as palavras de vida, ensinadas por Cristo, como recomendou o Anjo aos Apóstolos (cf. Leit.). E o Papa recomenda: «Que a Bíblia Sagrada continue a ser um tesouro para a Igreja e para cada cristão: no estudo cuidadoso da Palavra, encontraremos alimento e força para realizar quotidianamente a nossa missão» (INE, 65).


5ª feira, 22-IV: A desobediência às autoridades civis

Act 5, 27-33 / Jo 3, 31-36

Já vos demos a ordem formal de não ensinar em nome de Jesus. E vós enchestes Jerusalém da vossa doutrina...

Perante tal ordem os Apóstolos responderam: «Deve obedecer-se antes a Deus do que aos homens» (Leit.). É o que todos devemos fazer quando as autoridades civis mandarem alguma coisa que seja contrária à ordem moral, aos direitos fundamentais das pessoas ou aos ensinamentos do Evangelho (cf. CIC, 2242). De igual modo devemos rejeitar as propostas dos programas de TV que se opõem ao Evangelho.

Pelo contrário, a Igreja há-de apresentar o mesmo anúncio de sempre, que constitui seu tesouro: Jesus Cristo é o Senhor; só há salvação nele e em mais ninguém» (INE, 18).


6ª feira, 23-IV: Um alimento indispensável para cumprimento dos deveres.

Act 5, 34-42 / Jo 6, 1-15

Jesus tomou os pães e distribuiu-os aos convivas. E fez o mesmo com os peixes, tantos quantos eles quiseram.

Jesus tem compaixão de uma enorme multidão que quer ouvir os seus ensinamentos. Está esfomeada e precisa de novas forças (cf. Ev.).

Este milagre da multiplicação dos pães «prefigura a superabundância do pão único da sua Eucaristia» (CIC, 1335). Ela é igualmente para nós o alimento que nos ajuda a cumprir os nossos deveres: «(A Eucaristia) dá estímulo à nossa caminhada, lançando uma semente de activa esperança na dedicação diária de cada um aos seus próprios deveres» (Igreja e Eucaristia, 20).


Sábado, 24-IV: Tempestades na Igreja e esperança.

Act 6, 1-7 / Jo 6, 16-21

Como soprava intensa ventania, o mar ia-se encrespando... Mas Jesus disse-lhes: Sou eu, não temais.

A Tradição viu neste barco, assolado por tremenda tempestade (cf. Ev.), a imagem da Igreja submetida aos ventos das perseguições e heresias. Continuam os ataques à Igreja, nas pessoas dos seus ministros e, especialmente, contra os ensinamentos do Papa.

Como Cristo fez a promessa de estar sempre presente na Igreja, como esteve no barco, não devemos temer: «A Igreja de Deus perseguida que, embora lutando contra o mal e o pecado, tem motivos para sentir-se alegre e vitoriosa, porque está na mãos de Cristo, que já venceu o mal» (INE, 6).







Celebração e Homilia: Alfredo Almeida Melo

Nota Exegética: Geraldo Morujão

Homilias Feriais: Nuno Romão

Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha


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