4.º Domingo dA QUARESMA

26 de Março de 2006

 

Onde se fizerem os escrutínios preparatórios para o Baptismo dos adultos, neste domingo, podem utilizar-se as orações rituais e as intercessões próprias: p. 1063 do Missal Romano.

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Oh! Que alegria, M. Faria, NRMS 67

cf. Is 66, 10-11

Antífona de entrada: Alegra-te, Jerusalém; rejubilai, todos os seus amigos. Exultai de alegria, todos vós que participastes no seu luto e podereis beber e saciar-vos na abundância das suas consolações.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Alegra-te Jerusalém! O grito de Isaías tem actualidade para nós hoje quando ouvimos proclamar a misericórdia divina que não abandona o seu povo. Quando sentimos em nós Cristo a oferecer continuamente uma vida nova no Baptismo e renovada na graça do perdão, de um novo viver para Deus. A fé é a primeira razão de toda alegria e de todo o esforço de renovação espiritual. Deixemo-nos envolver na misericórdia divina.

 

Oração colecta: Deus de misericórdia, que, pelo vosso Filho, realizais admiravelmente a reconciliação do género humano, concedei ao povo cristão fé viva e espírito generoso, a fim de caminhar alegremente para as próximas solenidades pascais. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Nas infidelidades referidas na história da salvação está patente o amor de Deus pela humanidade e as múltiplas formas da providência divina para trazer a felicidade à criatura humana.

 

2 Crónicas 36, 14-16.19-23

Naqueles dias, 14odos os príncipes dos sacerdotes e o povo multiplicaram as suas infidelidades, imitando os costumes abomináveis das nações pagãs, e profanaram o templo que o Senhor tinha consagrado para Si em Jerusalém. 15O Senhor, Deus de seus pais, desde o princípio e sem cessar, enviou-lhes mensageiros, pois queria poupar o povo e a sua própria morada. 16Mas eles escarneciam dos mensageiros de Deus, desprezavam as suas palavras e riam-se dos profetas, a tal ponto que deixou de haver remédio, perante a indignação do Senhor contra o seu povo. 19Os caldeus incendiaram o templo de Deus, demoliram as muralhas de Jerusalém, lançaram fogo aos seus palácios e destruíram todos os objectos preciosos. 20O rei dos caldeus deportou para Babilónia todos os que tinham escapado ao fio da espada; e foram escravos deles e de seus filhos, até que se estabeleceu o reino dos persas. 21Assim se cumpriu o que o Senhor anunciara pela boca de Jeremias: «Enquanto o país não descontou os seus sábados, esteve num sábado contínuo, durante todo o tempo da sua desolação, até que se completaram setenta anos». 22No primeiro ano do reinado de Ciro, rei da Pérsia, para se cumprir a palavra do Senhor, pronunciada pela boca de Jeremias, o Senhor inspirou Ciro, rei da Pérsia, que mandou publicar, em todo o seu reino, de viva voz e por escrito, a seguinte proclamação: 23«Assim fala Ciro, rei da Pérsia: O Senhor, Deus do Céu, deu-me todos os reinos da terra e Ele próprio me confiou o encargo de Lhe construir um templo em Jerusalém, na terra de Judá. Quem de entre vós fizer parte do seu povo ponha-se a caminho e que Deus esteja com ele».

 

Esta leitura, extraída do final das Crónicas, é grandemente apropriada ao tempo da Quaresma. Com efeito, os livros dos Paralipómenos («coisas omitidas», na designação dos LXX), ou Crónicas (título hebraico), são uma recapitulação de toda a história da Salvação desde Adão até ao edito de Ciro, em particular da dinastia davídica e da organização do culto. S. Jerónimo chamou-lhes «Chronicon totius divinæ historiæ». Esta recapitulação tem por fim fazer tomar consciência ao povo de que as promessas divinas não caíram no esquecimento de Deus e que as desgraças que se abateram sobre o povo não eram definitivas, mas o justo castigo pela infidelidade dos reis e do povo (vv. 14-16). Assim, o autor (talvez um levita) incitava a gente à conversão, a condição indispensável para de novo se beneficiar do favor divino. A reconstrução do templo favorecida pelo próprio Ciro era um grande sinal de esperança, a garantia de que, a seu tempo, viria o esperado «rebento de David», pois a sua linhagem não tinha sido destruída com o exílio, e ela ali estava no meio deles (1 Cr 3, 17-24).

Esta recapitulação provoca-nos hoje a também nós fazermos uma revisão da nossa vida e das nossas infidelidades, à luz do «grande amor que Deus nos consagrou». (2.ª leitura) a ponto de que por nós «entregou o seu Filho único» à morte e morte de cruz (Evangelho de hoje).

 

Salmo Responsorial    Salmo 136 (137), 1-2.3.4-5.6 (R. 6a)

 

Monição: No meio das tribulações o salmista chega a proferir preces que chocam os sentimentos pessoais. O seu objectivo é a libertação de todos os males

 

Refrão:         Se eu me não lembrar de ti, Jerusalém,

                      fique presa a minha língua.

 

Sobre os rios de Babilónia nos sentámos a chorar,

com saudades de Sião.

Nos salgueiros das suas margens,

dependurámos nossas harpas.

 

Aqueles que nos levaram cativos

queriam ouvir os nossos cânticos

e os nossos opressores uma canção de alegria:

«Cantai-nos um cântico de Sião».

 

Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor

em terra estrangeira?

Se eu me esquecer de ti, Jerusalém,

esquecida fique a minha mão direita.

 

Apegue-se-me a língua ao paladar,

se não me lembrar de ti,

se não fizer de Jerusalém

a maior das minhas alegrias.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A razão da nossa alegria é que Jesus «quis mostrar a extraordinária riqueza da sua graça».

 

Efésios 2, 4-10

Irmãos: 4Deus, que é rico em misericórdia, pela grande caridade com que nos amou, 5a nós, que estávamos mortos por causa dos nossos pecados, restituiu-nos à vida com Cristo – é pela graça que fostes salvos – e com 6Ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos Céus com Cristo Jesus, 7para mostrar aos séculos futuros a abundante riqueza da sua graça e da sua bondade para connosco, em Cristo Jesus. 8De facto, é pela graça que fostes salvos, por meio da fé. 9A salvação não vem de vós: é dom de Deus. Não se deve às obras: ninguém se pode gloriar. 10Na verdade, nós somos obra sua, criados em Cristo Jesus, em vista das boas obras que Deus de antemão preparou, como caminho que devemos seguir.

 

A leitura é extraída da primeira parte do ensino doutrinal da Carta (capítulos 1 a 3), em que o autor se detém a expor o plano divino da salvação (1,3 – 2, 22). Nestes vv. 4-10, o autor põe em evidência «a grande caridade com que nos amou» Deus: a salvação deve-se pura e exclusivamente ao dom gratuito de Deus, por isso insiste «é pela graça que fostes salvos» (v.5), «a salvação não vem de vós, é dom de Deus» (v. 9). Nunca é demais insistir no primado absoluto da graça divina (cf. Carta Apostólica Novo millennio inneunte, nº 38).

5-6 A obra da salvação inclui a Morte, Ressurreição e Ascensão de Jesus, mistérios dos quais participamos, ao sermos «criados em Cristo Jesus» (v. 10) como membros seus (alusão ao Baptismo: cf. Rom 6); daí os três aoristos de verbos gregos do texto original compostos da preposição «com» (syn): «con-vivificou-nos» («restituiu-nos à vida com Cristo»), «con-ressuscitou-nos» («com Ele nos ressuscitou»), «con-sentou-nos» («nos fez sentar nos Céus com Cristo»), dificilmente traduzíveis em vernáculo.

8-10 «As boas obras… como caminho que devemos seguir»: A salvação não procede das nossas obras nem dos nossos esforços, mas são um caminho indispensável a seguir para que com elas corresponder livremente à graça de Deus. E as nossas boas obras são, antes de mais, obras de Deus, da sua graça que actua em nós.

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 3, 16

 

Monição: Outro motivo de alegria que, afinal é o mesmo: o Pai enviou o Seu Filho ao mundo, não para condenar, mas para salvar.

 

 

Cântico: F. da Silva, NRMS 1 (I)

 

Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho Unigénito:

quem acredita n’Ele tem a vida eterna.

 

 

Evangelho

 

São João 3, 14-21

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: 14«Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, 15para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna. 16Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. 17Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. 18Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus. 19E a causa da condenação é esta: a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque eram más as suas obras. 20Todo aquele que pratica más acções odeia a luz e não se aproxima dela, para que as suas obras não sejam denunciadas. 21Mas quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus.

 

Estamos no contexto do discurso (dialogado) de Jesus a Nicodemos (Jo 3, 1-21). As palavras de Jesus foram tão profundamente meditadas que não se pode distinguir onde acabam as palavras de Jesus e onde começa a reflexão do evangelista.

14 «A serpente no deserto». Desde os primeiros tempos da Igreja que a serpente de bronze erguida na haste (Nm 21, 4-9) foi considerada, a partir destas palavras de Jesus, como o «tipo», ou figura, da morte de Cristo na Cruz (Pseudo-Barnabé, 12, 5-7; S. Justino, Apol. I, 60; Dial. 91; 94; 112. Tertuliano, Adv. Marc. 3, 18). A serpente de bronze, que se venerava em Jerusalém, foi destruída por Ezequias (2 Re 18, 4), para evitar o perigo de idolatria. Note-se como o livro da Sabedoria (16, 6-7) sublinha que a serpente não era mais do que um «sinal de salvação», que salvava «não porque se contemplava», mas pela virtude de Deus, «Salvador Universal»: salvava através da fé em Deus. Também para que Cristo nos salve com a sua Morte é indispensável acreditar: Ter a fé vem a ser a condição de nos ser aplicado o efeito salvífico da Redenção realizada. «Também o Filho do Homem será elevado», na Cruz, entenda-se. S. João joga com os dois sentidos da elevação, na Cruz e na glória. E isto não é um simples artifício literário, mas encerra um mistério profundo, pois é então que se manifesta todo o amor de Jesus (cf. Jo 13, 1), todo o seu poder divino salvífico de dar o Espírito e a vida eterna (cf. Jo 7, 38; 12, 23-24; 17, 1.2.19), numa palavra, a sua glória, que culmina na Ressurreição (Jo 12, 16). Para a alusão à serpente de bronze, ver Nm 21, 4-9; Sb 16,5-15 e o Targum (tradução aramaica), que fala mesmo dum lugar elevado onde Moisés a colocou.

16 «Deus amou tanto o mundo…» Esta frase é um dos pontos culminantes de todo o Evangelho: a morte de Cristo é a suprema manifestação do amor que Deus nos tem; aqui o mundo aparece no sentido positivo de criatura de Deus, noutros lugares de S. João tem o sentido oposto, como obra do maligno (cf. 1 Jo 5, 19).

17-21 «Deus não enviou o Filho… para condenar o mundo…». O judaísmo dos tempos de Jesus concebia o Messias como um juiz que, antes de mais, vinha para julgar e condenar todos os que ficavam fora do Reino de Deus ou se lhe opunham. Jesus insiste no amor de Deus ao mundo e no envio do Filho para que este venha a ser salvo e não condenado: o Filho é o «Salvador do mundo» (Jo 4, 42). Se há quem se condene, isto só pode suceder porque esse se coloca numa situação de condenação, ao rejeitar o Único que pode salvar: «porque não acreditou no Nome (isto é, na Pessoa) do Filho Unigénito de Deus». Esta é uma situação verdadeiramente dramática – crítica (krisis=juízo) –, bem posta em evidência no IV Evangelho: «quem não acredita já está condenado» (v. 18): o amor de Deus revelado em Jesus é de tal ordem que o homem não se pode alhear, à espera do que possa vir a acontecer-lhe, mas a pessoa é colocada perante um dilema inevitável e urgente; daí que em S. João o juízo de condenação costuma aparecer como algo actual (ver vv. 36; 5, 24; 12, 31).

 

Sugestões para a homilia

 

(1.ª sugestão)

 

Um mundo rebelde

Um Deus de Misericórdia

No amor de Deus a salvação

 

No início da vida pública Jesus vê virem ao seu encontro os primeiros discípulos e diz-lhes – que procurais? A resposta é outra pergunta: Mestre, onde moras?

O mundo de hoje mostra-nos uma realidade semelhante à do povo de Israel, povo rebelde e infiel como diz o profeta e espera que alguém faça idêntica pergunta: afinal onde mora Deus perante tanta rebeldia?

Não é difícil pintar o quadro de sombras que pairam no horizonte. Mundo de ateísmo e afastamento de Deus. Ninguém pode ignorar os múltiplos aspectos de rebeldia e indiferença espiritual do homem que, longe de Deus, cava a sua própria destruição.

Buscam-se ídolos no poder, no racionalismo e na falsa ciência sem sobrenatural, no hedonismo egoísta, violento e cego que nega toda a ordem de valores éticos e a dignidade da própria criatura humana, criada à imagem de Deus. Idolatria na exploração do outro pela sede de riqueza a todo o custo, nas desordens da sexualidade entendida apenas como instinto irracional, sem compromisso nem responsabilidade, afastada de todo o complemento afectivo e de humanidade plena, sem respeito pela ordem e pela pessoa, disposto a usar todos os meios para destruir as vidas que possam surgir dessa capacidade concedida por Deus quando chamou o género humano a ser colaborador na obra da criação.

O homem faz-se deus de si mesmo e encontra-se numa situação insustentável, escravo de todos os desvarios na fé, na ética e no relacionamento fraterno que seria próprio de irmãos que têm o mesmo Deus como Pai.

Aí está a infidelidade assinalada pelo profeta. Aí o desespero humano de quem não encontra razão de viver. Eis o projecto divino invertido. Eis o plano de felicidade impossível. Eis o amor perdido, a revolta implantada, o homem aniquilado.

Um Deus de misericórdia

Mas Deus não quer uma humanidade condenada ao desespero. Não quer uma sociedade sem lei nem respeito pelo próximo, não quer uma sociedade em crise. Mandou os profetas para denunciar falsas aventuras e anunciar a conversão, mandou os apóstolos para indicarem caminhos de salvação, mandou o seu próprio Filho para nos salvar. Confiou à Igreja, aos sacerdotes e aos fiéis, esta missão sublime. Onde havia infidelidade lançar a fé, onde a rebeldia anunciar a confiança, onde o ódio e o egoísmo levar o Amor, onde falta Deus anunciar a sua presença e despertar o interesse de O encontrar: Mestre, onde moras? E seguir o convite: vinde e vede. Sim temos de parar. Eu e vós, ouvir Jesus e segui-l’O com fé e confiança.

A alegria a que nos convida a missa de hoje neste peregrinar quaresmal encontra o seu motivo na graça do Baptismo, na infinita misericórdia divina que nos chama a uma vida nova.

Mesmo reconhecendo e prevenindo contra outras infidelidades do povo de Israel à maneira das «nações pagãs», infidelidades que provocam a destruição do Templo e o exílio, a misericórdia do Senhor manifesta-se na atitude do rei da Pérsia que manda reconstruir o Templo e regressar os filhos de Israel. O povo aceita a prova e busca a reconciliação e recupera a liberdade para de novo dar testemunho da sua fé.

A segunda leitura exprime de modo incisivo que “Deus é rico em misericórdia” e que tudo quanto há de bom e vida renovada é fruto desse amor infinito de Deus que chama continuamente à perfeição.

No amor de Deus a salvação

Se a salvação adquirida é pura graça divina, ela obtém-se pelo bom uso da liberdade. Nicodemos, modelo do homem livre, movido pelo santo desejo de verdade, foi ter com Jesus. Aquele homem de coração recto e sincero encontrou o momento singular para ouvir Jesus falar do valor da fé activa, motivadora de atitudes que salvam e ajudam a pessoa humana a abdicar das próprias opiniões para seguir os conselhos divinos. O contraste entre aquele que odeia a luz e o que pratica a verdade está claro no Evangelho deste dia ao realçar o valor das obras «feitas em Deus». Aqui se levanta o grande problema do abuso da liberdade para fugir da luz ao contrário do homem livre que se aproxima da luz, pratica a verdade e sente a fonte salutar da alegria pela presença de Deus consigo. Quem não quer ser livre?

É pelos caminhos da liberdade que podemos encontrar e seguir a Deus. (Catecismo da Igreja, n.º 1730 / 1731.). «Deus criou o homem racional, dotado do domínio dos seus próprios actos, quis deixar o homem entregue à sua própria decisão, de tal modo que procure por si mesmo o seu Criador e, aderindo livremente a Ele, chegue à total e beatífica perfeição». «A liberdade é, no homem, uma força de crescimento e de maturação na verdade e na bondade. E atinge a perfeição quando está ordenada para Deus, nossa bem-aventurança».

 

(2.ª Sugestão)

 

Caminhos para vivermos a alegria pascal:

regresso à casa do Pai

confiança na misericórdia de Deus

corresponder com generosidade, no dia a dia, a tanto Amor de Deus

 

Este 4.º Domingo da Quaresma é conhecido pelo domingo «Lætare» – alegra-te! – a primeira palavra do cântico de entrada.

E este convite à alegria, para além das palavras do cântico, transmite-se também no atenuar dos sinais de penitência usados na Liturgia: o roxo dos paramentos transforma-se em cor de rosa, aparecem flores no altar, os instrumentos musicais voltam a ouvir-se. Porquê esta como que pausa no rigor quaresmal, este aflorar de alegria num tempo marcado sobretudo pela compunção?

Procuremos a resposta nos textos da Palavra que nos são servidos neste domingo:

 

1.º Uma história, a de Israel, tecida de infidelidades, de apostarias, de desprezo pelos desígnios do Senhor, de perseguição e morte dos Seus profetas. Uma história que é a de ontem, que é a de hoje, que é afinal a de todos os tempos. Uma história que continua a repetir-se na vida dos indivíduos, das famílias, das nações...

Consequência de todo este desvario – aponta-a o autor do Livro das Crónicas, que tempos hoje como 1.ª leitura –: «deixou de haver remédio para a crescente indignação do Senhor contra o Seu povo».

E foi a destruição de Jerusalém, o exílio, Babilónia, enfim!

Babilónia – situava-se no actual Iraque – Jerusalém, destruição, exílio – lugares e acontecimentos tão dos nossos dias, destas horas que estamos a viver!

Mas, com o Senhor, com o nosso «Deus clemente e compassivo», a última palavra nunca é de abandono, de perdição, de ruína, de morte!

Basta que o homem, desiludido, angustiado, oprimido, escute o apelo do Senhor que o convida a «voltar», a regressar, e aí está pronto o perdão, a libertação, o regresso à felicidade primitiva.

E é Ciro, o conquistador da Babilónia, um pagão, que liberta Israel e lhe dá condições de regressar: «Quem quer que dentre vós faça parte do povo do Senhor, ponha-se a caminho, e que Deus esteja com ele!»

«Ponha-se a caminho!»

É para nós, para hoje, esta exortação de Ciro: a Quaresma vai já em mais de meio e nós, parados!

«Ponha-se a caminho!»

É a hora de empreendermos o regresso para casa do Pai!

 

2.º E até e sobretudo porque – São Paulo é quem o afirma na 2.ª leitura – «Deus é rico em misericórdia». E a misericórdia, como lembra João Paulo II, «é aquele amor que é mais forte que o pecado». Por isso, este Senhor que é rico em misericórdia, vai acolher-nos de braços abertos, de coração aberto!

Nem precisamos de levar nada para pagar a salvação: «é de graça que estamos salvos!»

E o apóstolo multiplica as expressões desta salvação gratuita: «Estávamos mortos e Deus restituiu-nos à vida». «Ressuscitou-nos com Cristo. Com Ele nos fez sentar nos Céus. Quis assim mostrar «a extraordinária riqueza da Sua graça». Enfim, foi esta «a bondade que teve para connosco em Cristo Jesus»!

 

3.º Mas é o próprio Jesus Cristo, no diálogo com Nicodemos – lemo-lo no Evangelho da Missa de hoje –, é o próprio Jesus Cristo que coloca diante dos nossos olhos a explicação de todas estas riquezas: «Deus amou de tal maneira o mundo, que entregou o Seu Filho único, para que todo o homem que acredita n’Ele não se perca, mas tenha a vida eterna».

Aí está: toda esta generosidade da parte de Deus só tem uma explicação – o Amor que Ele tem ao mundo, a este mundo onde vivem os homens, e onde Ele quer que vivam felizes e, para tanto, que a vida lhes não acabe, que seja uma vida plena, uma vida eterna!

«Assim Deus amou o mundo!»

Ora aí está.

Como não há-se alegrar-se o coração daqueles que acreditam neste Amor?

 

 

 

Fala o Santo Padre

 

«A morte e a ressurreição de Jesus é o dom pleno e definitivo de Deus.»

 

Caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. Hoje, quarto Domingo de Quaresma, o Evangelho recorda-nos que Deus «amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho único, para que todo o que n'Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16).

Ouvimos este anúncio confortador num momento em que dolorosos conflitos armados ameaçam a esperança da humanidade num futuro melhor. Deus «amou de tal modo o mundo...», afirma Jesus. Portanto, o amor do Pai alcança todos os seres humanos que vivem no mundo. Como não ver o compromisso que surge de uma semelhante iniciativa de Deus? O ser humano, consciente de um amor tão grande, não pode deixar de se abrir a uma atitude de acolhimento fraterno em relação aos seus semelhantes.

2. Deus «amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho único...». Foi o que se verificou no sacrifício do Calvário: Cristo morreu e ressuscitou por nós, selando com o seu sangue a nova e eterna Aliança com a humanidade.

O sacramento da Eucaristia é o memorial perene deste testemunho de amor supremo . Nele, Jesus, Pão de vida e verdadeiro «maná», ampara os crentes no caminho através do «deserto» da história, rumo à «terra prometida» do Céu (cf. Jo 6, 32-35). […]

João Paulo II, Angelus, Vaticano, 30 de Março de 2003

 

Oração Universal

 

Oremos, irmãos a Deus omnipotente e misericordioso que nos dê seu perdão e sua bênção.

 

1.  Por este mundo e pela sua Igreja

que Deus ama para que siga os caminhos da salvação,

oremos irmãos.

 

2.  Para que sejam eliminadas pela graça do Senhor

e pela conversão dos homens todas as trevas que nos ameaçam,

oremos, irmãos.

 

3.  Para que os homens em busca de luz e de verdade

encontrem o Senhor que veio para salvar,

oremos, irmãos.

 

4.  Para que os crentes, pelo testemunho de fé

se tornem exemplo para o nosso mundo,

oremos, irmãos.

 

5.  Para que a caridade dos fiéis ajude as pessoas mais desfavorecidas

com uma acção decidida em seu favor,

oremos, irmãos.

 

6.  Por todos os fiéis defuntos,

que partilham connosco a oração na comunhão dos santos,

oremos, irmãos.

 

Deus de bondade, atendei as nossas orações, tornai-nos dóceis à vossa palavra

para gozarmos sempre das bênçãos que nos concedeis. Por Nosso Senhor…

 

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Corri, Senhor, M. Carneiro, NRMS 13

 

Oração sobre as oblatas: Ao apresentarmos com alegria estes dons de vida eterna, humildemente Vos pedimos, Senhor, a graça de os celebrar com verdadeira fé e de os oferecer dignamente pela salvação do mundo. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Santo: «Da Missa de festa», Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

A graça da comunhão é um dom que nunca saberemos apreciar convenientemente. Não esqueçamos este favor divino instituído em memória do sacrifício redentor.

 

Cântico da Comunhão: Senhor, nada somos sem Ti, F. da Silva, NRMS 84

Salmo 121, 3-4

Antífona da comunhão: Jerusalém, cidade de Deus, para ti sobem as tribos do Senhor, para celebrar o seu santo nome.

 

Cântico de acção de graças: Proclamai em toda a terra, M. Faria, NRMS 27-28

 

Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, luz de todo o homem que vem a este mundo, iluminai os nossos corações com o esplendor da vossa graça, para que pensemos sempre no que Vos é agradável e Vos amemos de todo o coração. Por Nosso Senhor.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

A Quaresma é um tempo admirável para rever a nossa fidelidade à vida nova que nos foi dada no Baptismo. Aproveitemos o tempo a meio desta caminhada até à Páscoa, momento em que pela ressurreição é feita memória especial deste acontecimento redentor.

 

Cântico final: Minha alma exulta de alegria, F. da Silva, NRMS 32

 

 

Homilias Feriais

 

4ª SEMANA

 

feira, 27-III: Renovação pessoal e da sociedade.

Is. 67, 17-21 / Jo. 4, 43-54

Olhai que vou criar novos céus e nova terra... vai haver alegria e júbilo sem fim.

Esta é a grande notícia: a renovação da face da terra (cf. Leit.). Jesus contribuiu para esta renovação dando uma nova vida ao filho do funcionário real (cf. Ev).

Esta renovação consiste em afastar-se do pecado e das suas consequências em que se encontra a humanidade; em deixar as coisas velhas, feitas de lágrimas, luto, pranto, aflições, morte (cf. Leit.). A Quaresma é um tempo adequado para cada um de nós levar a cabo esta renovação pessoal, saindo do pecado; e também a renovação da sociedade, eliminando dela as consequências do pecado.

 

feira, 28-III: A água viva e rio da vida.

Ez. 47, 1-9. 12 / Jo. 5, 1-3. 5-16

É que, aonde chegar, a água tornará tudo são, e haverá vida em todo o lugar que o rio atingir.

Do Templo (cf. Leit.) e do trono de Deus e do Cordeiro (cf. Ap. 22, 1) corre o rio da vida, que cura as nossas enfermidades espirituais, como aconteceu na piscina de Betsatá (cf. Ev.).

A água passa a ser uma nova criatura no Baptismo de Jesus. «O Espírito que pairava sobre as águas da primitiva criação, desce então sobre Cristo, como prelúdio da nova criação» (CIC, 1224). E passa a ser a água viva, com a Paixão e morte de Cristo: «O sangue e água que manaram do lado aberto do crucificado são tipos do Baptismo e da Eucaristia, sacramentos da vida nova» (CIC, 1225).

 

feira, 29-III: Meios para recebermos a vida sobrenatural.

Is. 49, 8-15 / Jo. 5, 17-30

Tal como o Pai ressuscita os mortos e os faz viver, assim o Filho faz viver aqueles que entende.

Deus amou de tal modo o mundo, que lhe entregou o seu Filho único, para que tivéssemos vida sobrenatural. E o seu amor por nós é mais forte do que o de uma mãe para com os seus filhos (cf. Leit.).

Para nos conceder a vida sobrenatural dá-nos o alimento: «hão-de alimentar-se em todos os caminhos» (Leit.), concretizado na palavra de Deus: «quem ouve a minha palavra... tem a vida eterna» (Ev.). Comunica-nos igualmente a sua vida, especialmente através dos sacramentos: «Cristo age agora pelos sacramentos, que instituiu para comunicar a sua graça» (CIC, 1084). Cuidemos muito bem todos estes meios pelos quais o Senhor nos comunica a vida.

 

feira, 30-III: Os intercessores e os nossos pecados.

Ex. 32, 7-14 / Jo. 5, 31-47

(Moisés): Deixai cair a vossa ardente indignação, renunciai ao castigo que quereis dar ao vosso povo.

Depois do terrível acto de idolatria, a adoração do bezerro de ouro (cf. Leit.), Moisés tornou-se um poderoso intercessor diante de Deus, para salvar o povo que o Senhor lhe tinha confiado.

O intercessor do novo povo de Deus é Jesus Cristo, que ofereceu a vida ao Pai de uma vez para sempre, morrendo como intercessor no altar da Cruz: «Não penseis que eu vou acusar-vos ao Pai» (Ev.). Através do sacrifício da Missa e do sacramento da reconciliação recebemos a remissão dos pecados que cometemos diariamente.

 

feira, 31-III: Os sentimentos de Cristo na Paixão.

Sab. 2, 1. 12-22 / Jo. 7, 1-2. 10. 25-30

Se esse justo é filho de Deus, Deus estará a seu lado... Condenemo-lo à morte infamante, pois ele diz que será socorrido.

Estes pensamentos dos ímpios (cf.Leit.) são uma profecia do que aconteceu a Cristo: «os judeus procuravam dar-lhe a morte» (Ev.).

O Senhor aceitou livremente a sua paixão e morte, por amor do Pai e dos homens, a quem o Pai quer salvar. Ele é o nosso modelo em todas as coisas da nossa vida. Procuremos imitá-lo na nossa vida corrente: no trabalho, na família, nas relações sociais, nas acusações injustas, nas contrariedades, na responsabilidade por edificar uma sociedade mais justa e mais fraterna, à luz dos valores evangélicos.

 

Sábado, 1-IV: O Cordeiro pascal e o servo sofredor.

Jer. 11, 18-20 / Jo. 7, 40-53

Eu era como dócil cordeiro levado ao matadouro, sem saber da conjura contra mim.

O profeta Jeremias fala de uma conjura contra o Messias, o que veio a acontecer: «alguns deles queriam prendê-lo, mas ninguém pôs as mãos sobre ele» (Ev.).

João Baptista, como último profeta, viu em Jesus o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Manifestou desse modo que Jesus é, ao mesmo tempo, o servo sofredor, que se deixa levar ao matadouro (cf. Leit.), carregando sobre ele os pecados da multidão, e o Cordeiro pascal, símbolo da redenção de Israel na primeira Páscoa (cf. CIC, 608).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia (1.ª sugestão):            José Valentim Vilar

Homilia (2.ª sugestão):      A. F. (adaptação de G. M.)

Nota Exegética:    Geraldo Morujão

Homilias Feriais: Nuno Romão

Sugestão Musical:              Duarte Nuno Rocha


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