1.º DOMINGO DA QUARESMA

5 de Março de 2006

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Eis o tempo favorável, M. Borda, NRMS 53

Salmo 90, 15-16

Antífona de entrada: Quando me invocar, hei-de atendê-lo; hei-de libertá-lo e dar-lhe glória. Favorecê-lo-ei com longa vida e lhe mostrarei a minha salvação.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

O tempo quaresmal pretende, sobretudo através da recordação ou preparação do Baptismo e da prática da Penitência, preparar-nos para a celebração do mistério pascal.

Vamos, pois, empenhar-nos em ouvir com mais frequência a Palavra de Deus e a cuidar com mais insistência a nossa oração.

 

Oração colecta: Concedei-nos, Deus omnipotente, que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O dilúvio de que nos fala a 1ª leitura lembra-nos que Deus é infinitamente santo e justo. Ele é Pai providente que cuida carinhosamente tudo quanto criou e, mesmo quando castiga e corrige, não esquece a sua misericórdia. O arco-íris é o sinal da benevolência divina para com toda a criação.

 

Génesis 9, 8-15

8Deus disse a Noé e a seus filhos: 9«Estabelecerei a minha aliança convosco, com a vossa descendência 10e com todos os seres vivos que vos acompanham: as aves, os animais domésticos, os animais selvagens que estão convosco, todos quantos saíram da arca e agora vivem na terra. 11Estabelecerei convosco a minha aliança: de hoje em diante nenhuma criatura será exterminada pelas águas do dilúvio e nunca mais um dilúvio devastará a terra». 12Deus disse ainda: «Este é o sinal da aliança que estabeleço convosco e com todos os animais que vivem entre vós, por todas as gerações futuras: 13farei aparecer o meu arco sobre as nuvens, que será um sinal da aliança entre Mim e a terra. 14Sempre que Eu cobrir a terra de nuvens e aparecer nas nuvens o arco, 15recordarei a minha aliança convosco e com todos os seres vivos e nunca mais as águas formarão um dilúvio para destruir todas as criaturas».

 

A aliança de que fala o texto não é ainda a que veio a ser feita com o povo escolhido, mas é a chamada «aliança cósmica», com toda a humanidade e com toda a obra da criação. Quando lemos o texto do dilúvio na Igreja – os estudiosos falam de duas fontes fundidas e entrelaçadas, a da tradição javista e a da tradição sacerdotal –, não devemos ficar parados ou perdidos nas questões histórico-literárias e nas interessantes semelhanças com outros relatos, ou mitos, de diversas culturas antigas que falam de cataclismos imemoriais do género. Como se lê em 2 Tim 3, 15-17, o que acima de tudo nos interessa no contacto com «toda a Escritura, inspirada por Deus», é alcançar «a sabedoria que conduz à salvação por meio da fé em Jesus Cristo». É fácil de detectar «o ensino» que no texto nos é oferecido. Quando a humanidade se perde no pecado, transgredindo a lei impressa na obra da criação, a harmonia da própria da natureza transtorna-se, voltando ao caos inicial (cf. Gn 1, 2), e corre sério risco a subsistência do ser humano (lembrar o muito que se tem dito a propósito da Sida, que não é a vingança de Deus, mas é a própria natureza a vingar-se). Na Sagrada Escritura o fenómeno do dilúvio tem a particularidade de não ser apresentado como fruto de caprichos maléficos e invejas dos deuses pagãos – assim era nos mitos sumérios e babilónicos –, mas como consequência do pecado e em ordem ao recomeço de uma nova era de regeneração e harmonia universal. A aliança a que dá lugar o dilúvio revela o verdadeiro interior de Deus para com a sua criatura: Ele é Pai providente que cuida carinhosamente de tudo o que criou, particularmente do homem; Deus, «mesmo quando castiga, não esquece a sua misericórdia» (cf. Habc 3, 2). O fundo mitológico do relato parece claro, mas também nos parece pouco, ao lermos este texto sagrado, deixarmo-nos ficar encerrados no acanhado horizonte do mito, quando o autor inspirado vai mais além: Yahwéh é um Deus ético e transcendente; o «castigo» do pecado (Gn 6, 6.12) não é resultante dum capricho, nem sequer duma ira desenfreada. Neste sentido, o autor já fez um primeiro trabalho de desmitização, apesar de manter a mesma linguagem antropomórfica do mito, chocante para a nossa mentalidade.

12-16 «O arco-íris» – fenómeno natural anterior ao dilúvio – adquire um significado simbólico. Ele é o sinal da benevolência divina, expressa em categorias de aliança, para com toda a criação; não é mais um tremendo arco de guerra (o termo hebraico, quéxet, é o mesmo), mas é sim o abraço de paz do Criador! Ainda que persistam na memória dos povos tremendas catástrofes, como o dilúvio, justo castigo do pecado, o ser humano não deve viver esmagado sob o pesadelo constante dos terrores que não podem deixar de sentir aqueles que ignoram a Revelação divina.

A Liturgia, ao apresentar este texto no começo da Quaresma, além de introduzir a 2.ª leitura, facilita-nos a animadora consideração da misericórdia divina, a qual permite que nos elevemos acima das nossas misérias e saiamos dos nossos pecados pela graça de Cristo, que nos chega particularmente através dos Sacramentos.

 

Salmo Responsorial    Salmo 24 (25), 4bc-5ab. 6-7bc. 8-9 (R. cf. 10)

 

Monição: O Salmo 24 lembra-nos que a misericórdia de Deus é maior que todos os pecados dos homens. Os seus caminhos "são amor e verdade".

 

Refrão:         Todos os vossos caminhos, Senhor, são amor e verdade

                      para os que são fiéis à vossa aliança.

 

Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,

ensinai-me as vossas veredas.

Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me,

porque Vós sois Deus, meu Salvador.

 

Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias

e das vossas graças que são eternas.

Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência,

por causa da vossa bondade, Senhor.

 

O Senhor é bom e recto,

ensina o caminho aos pecadores.

Orienta os humildes na justiça

e dá-lhes a conhecer a sua aliança.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Pedro alude ao Baptismo que deve marcar fortemente o tempo da Quaresma; ele é prefigurado pelo Antigo Testamento através da imagem da água do dilúvio; através dela ficaram a salvo Noé com a mulher, os três filhos e as três noras.

 

1 São Pedro 3, 18-22

Caríssimos: 18Cristo morreu uma só vez pelos pecados – o Justo pelos injustos – para vos conduzir a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito. 19Foi por este Espírito que Ele foi pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte 20e tinham sido outrora rebeldes, quando, nos dias de Noé, Deus esperava com paciência, enquanto se construía a arca, na qual poucas pessoas, oito apenas, se salvaram através da água. 21Esta água é figura do Baptismo que agora vos salva, que não é uma purificação da imundície corporal, mas o compromisso para com Deus de uma boa consciência, pela ressurreição de Jesus Cristo, 22que subiu ao Céu e está à direita de Deus, tendo sob o seu domínio os Anjos, as Dominações e as Potestades.

 

A 1ª Carta de Pedro, donde é tirada a leitura, parece ter como base uma catequese baptismal; aparece na liturgia de hoje em relação com a 1ª leitura, que fala do dilúvio, o qual é apresentado aqui como figura do Baptismo.

18 «Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito (cf. 1 Pe 2, 21.24; Rom 6, 10; Hbr 9, 28). Foi por este (Espírito) que Ele foi pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte…» A tradução procura oferecer aos fiéis que ouvem a leitura uma forma de entenderem um texto deveras difícil. O v. 18 pode entender-se: «morto» como homem, e «vivo» como Deus (cf. Rom 1, 4; 1 Tm 3, 16.), ou talvez se trate antes de uma formulação primitiva para exprimir que Jesus, ao morrer, abandonou de vez a sua condição mortal para passar a viver no seu estado glorioso e imortal.

19 «Pregar» sempre indica, no NT, a pregação da salvação. Esta pregação de Jesus «aos espíritos que estavam na prisão» é a referência bíblica mais clara à verdade professada no Credo acerca de Jesus que «desceu à mansão dos mortos» (cf. 1 Pe 4, 6; Rom 10, 6-7; Ef 4, 8-9; Apoc 1, 18; Mt 12, 40; Lc 23, 43; Act 2, 31) a anunciar-lhes a mensagem da salvação, segundo uns com a sua alma separada do corpo, segundo outros na sua nova condição gloriosa. Lembramos que a «mansão dos mortos» (o Xeol hebraico, o Hades grego, os Infernos em latim) representava o estado dos que tinham morrido, que se pensava ser num espaço interior da Terra. O autor, ao dizer que Jesus pregou (a salvação) também (kai, uma partícula a que o tradutor não valorizou) aos que… tinham sido outrora rebeldes … nos dias de Noé, parece querer dizer que até (kai) àquela gente, que na tradição bíblica era considerada como os maiores pecadores (cf. Gn 6, 5.11-12), chegou a salvação de Jesus: é o alcance universal da Redenção para todos os pecadores arrependidos (cf. 4, 6), por mais pecadores que tenham sido; a salvação é levada por Jesus a todos e não apenas à gente aqui nomeada dos tempos de Noé, como sendo o tipo da gente mais perversa, mas certamente arrependida dos seus pecados (argumentação a fortiore).

No entanto, esta passagem da pregação de Jesus aos espíritos cativos é muito obscura e, para além da interpretação tradicional, que a entende como a descida de Jesus aos Infernos, ou Mansão dos Mortos, para levar para o Céu todas as almas que aguardavam a hora da redenção, deu azo às mais diversas e desacertadas interpretações: a) para uns seria uma referência à salvação de certos condenados que se salvaram com a descida de Cristo ao Inferno (assim pensou Orígenes, mas a Igreja reprovou esta opinião); b) para Sto. Agostinho (fazendo uma violência inaceitável ao texto) refere-se ao Verbo, que, antes da Incarnação, através dos avisos de Noé, se dirigiu àqueles ímpios cativos da ignorância e da perversão; c) para uns poucos (em especial alguns protestantes), estes «espíritos cativos» seriam anjos caídos (cf. v. 22), a quem Cristo teria convencido da sua condenação definitiva; d) até houve quem conjecturasse, mas sem ter tido aceitação, que a expressão «neste também» (em grego: en ô kai), ao admitir a leitura «Henoc também» (em grego: Enôc kai), se referia ao patriarca anterior ao dilúvio, que, segundo Gn 5, 24, não morreu e, segundo a literatura apócrifa, proclamou a condenação aos anjos rebeldes. Na nossa tradução da Nova Bíblia da Difusora Bíblica traduzimos en ô como sendo uma expressão adverbial: «então» (e não «neste», referido a «espírito», como tem a tradução litúrgica).

20 «Se salvaram através da água»: Noé, a mulher, 3 filhos e 3 noras (8 pessoas, sem contar os netos: cf Gn 6 – 9). Como se vê, a água aqui não é tomada no seu aspecto de castigo e destruição, como uma água mortífera, mas como uma água salvadora, um meio de os sobreviventes se salvarem, navegando através da água. É de notar um deslizamento semântico na preposição grega diá do sentido local – através de – para o sentido instrumental – por meio de –, de maneira a pôr em evidência um simbolismo oculto: a água do dilúvio é a figura (o tipo) do «Baptismo», o qual é a autêntica realidade (em grego: o antitipo) «que agora vos salva». Com efeito, se o Baptismo salva, não é pelo facto de limpar a sujidade do corpo, mas é «pela ressurreição de Jesus» (v. 21), quando a Ele se adere pela fé concretizada nas promessas do Baptismo, isto é, «o compromisso para com Deus de uma boa consciência» (v. 22).

22: «Subiu ao Céu» é uma clara referência à Ascensão de Jesus, bem atestada no N. T., e frequente nos Escritos Paulinos (Mc 16, 19; Lc 24, 50-51; Jo 6, 62; Act 1, 33-34; Rom 8, 34; Ef 1, 20; Col 3, 1; Hebr 1, 3; 8, 1; 10, 12; 12, 2). «E está à direita de Deus» exprime a suma dignidade de Cristo, acima de todas as criaturas, bem como o seu domínio sobre todas elas, incluindo as criaturas mais elevadas e invisíveis, isto é, o mundo dos anjos, «Anjos, Dominações e Potestades», seres que também em S. Paulo englobam vagamente espíritos bons e maus, não sendo fácil estabelecer sempre a distinção. Tendo em conta sobretudo 1 Cor 15, 24 e Col 2, 15, Dominações e Potestades pode ser uma alusão a espíritos maus. As hierarquias angélicas, estabelecidas a partir destes nomes e outros que aparecem no N. T., oferecem pouca segurança e têm mais em conta a literatura apócrifa intertestamentária do que os dados da Revelação divina.

 

Aclamação ao Evangelho        Mt 4, 4b

 

Monição: Aclamemos o Evangelho que nos fala das tentações de Jesus e da chamada ao arrependimento.

 

 

Cântico: Não só de pão vive o homem, M. Luis, NCT 106

 

Nem só de pão vive o homem,

mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

 

 

Evangelho

 

São Marcos 1, 12-15

Naquele tempo, 12o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto. 13Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por Satanás. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-n’O. 14Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a pregar o Evangelho, dizendo: 15«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

 

Todos os anos temos no 1º Domingo da Quaresma o texto evangélico das tentações de Jesus; neste ano B, temo-las na forma mais simples, desprovida de qualquer espécie de encenação, a do Evangelista do ano, S. Marcos.

13 «Esteve no deserto 40 dias». A nossa Quaresma recorda esses dias. S. Marcos não se refere ao jejum do Senhor, mas apenas às tentações, e apenas dum modo genérico – «era tentado. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-no» (cf. Mt 4, 1-11). Satanás (em hebraico, «xatan») significa adversário, acusador (em grego, «diábolos», caluniador. As tentações do demónio visavam desviar Jesus da sua missão, com a sedução do protagonismo para vir a ser um messias milagreiro, espectacular e ambicioso. O Evangelho põe em evidência o maravilhoso exemplo do Senhor: um exemplo de humildade, ao sujeitar-se aos ataques do demónio, e de fortaleza, ao resistir decididamente, sem a mais pequena vacilação ou cedência. Vem a propósito o belo comentário de Sto. Agostinho, que se lê no Ofício de Leituras: «A nossa vida, enquanto somos peregrinos na terra, não pode estar livre de tentações, e o nosso aperfeiçoamento realiza-se precisamente através das provações. Ninguém se conhece a si mesmo, se não for provado; ninguém pode receber a coroa, se não tiver vencido; ninguém pode vencer, se não combate; e ninguém pode combater, se não tiver inimigos e tentações. Bem poderia Ele ter mantido o demónio longe de Si; mas se não fosse tentado, não nos teria ensinado a vencer a tentação» (Enar. in Ps. 60).  

 

Sugestões para a homilia

 

1. As tentações de Jesus.

2. Como vencer as tentações.

3. O arrependimento.

1. As tentações de Jesus

O Evangelho de hoje diz-nos que Jesus esteve no deserto quarenta dias, tentado por Satanás. O Senhor deixou-nos um exemplo maravilhoso de humildade ao querer sujeitar-se às tentações do demónio; e deixou-nos também um exemplo de fortaleza ao resistir sem a mais pequena cedência a essas tentações, apoiando-se na Palavra de Deus. «Bem podia Ele ter mantido o demónio longe de Si; mas, se não fosse tentado, não nos teria ensinado a vencer a tentação» (S. Agostinho).

O demónio procurou desviar Jesus do cumprimento da sua missão, pondo em causa a sua atitude filial para com o Pai; Jesus repele esses ataques que recapitulam as tentações de Adão no paraíso e as do Povo de Israel no deserto. A vitória de Jesus sobre o tentador antecipa a vitória da Sua Paixão, pela qual Ele exprimiu, no Sacrifício de Si mesmo, a suprema obediência filial ao Pai.

Neste tempo da Quaresma, a Igreja une-se ao mistério de Cristo no deserto e recorda aos seus filhos que «através de toda a história humana se trava uma dura batalha contra o poder das trevas que, iniciada nas origens do mundo, durará até ao dia final. Envolvido nesta peleja, o homem tem que lutar continuamente para manter-se no bem» (G. Spes, n. 37).

2. Como vencer as tentações.

«O homem, tentado pelo demónio, deixou morrer no seu coração a confiança para com o seu Criador (Cfr. Gen. 3, 1-11) e, abusando da sua liberdade, desobedeceu ao mandamento de Deus. Nisto consistiu o primeiro pecado do homem (Cfr. Rom. 5, 19). Dali em diante, todo o pecado será uma desobediência a Deus e uma falta de confiança na sua bondade» (Catecismo da I. Católica, 397).

A tentação é um convite e uma solicitação para pecar: «Cada um é tentado pela sua própria concupiscência que o atrai e alicia» (Tgo 1, 14-15).

A vitória sobre as tentações só é possível pela oração e vigilância: «Vigiai e orai, para não cairdes na tentação» (Mc. 14, 38).

Não podemos jamais perder a confiança no Senhor: «Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças; antes fará que tireis ainda vantagem da mesma tentação, para a poderdes suportar (1 Cor 10, 13). Apoiar-se continuamente na Palavra de Deus.

Outras armas para vencer: sinceridade e franqueza total com quem dirige a nossa alma, confissão frequente, participação na Eucaristia («Em cada Eucaristia torna-se presente a vitória e o triunfo de Cristo sobre o demónio, sobre o mal e sobre a morte» (S. Concil. n.6), devoção ao Anjo da Guarda e devoção a Nossa Senhora: «Antes, só, não podias... – Agora, recorreste à Senhora e, com Ela, que fácil!» (Caminho, 513).

3. O arrependimento.

O arrependimento de que nos fala o Evangelho de hoje não é uma simples inquietação ou remorso, mas um pesar, uma dor e detestação do pecado cometido, com o desejo forte de destruir as culpas contraídas, libertando-nos delas, cortando com o passado e tendo um propósito firme de não voltar a pecar. Por muito, porém, que fizéssemos não conseguiríamos, por nós mesmos, libertar-nos dessas culpas. Ao deixar-nos cair em tentação, desobedecemos ao Senhor: a ofensa a Deus provocou uma quebra, uma divisão, uma desordem irreparável para as forças humanas. A grande notícia, a boa nova de Deus que Jesus Cristo começou a pregar, ao dar início à sua Vida Pública, é, precisamente, o seu perdão: «O tempo chegou ao seu termo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e acreditai na Boa Nova» (Evangelho)

O perdão de Deus é que nos liberta: já não somos culpados ante a Verdade de Deus e ante a nossa consciência; a nossa culpa foi limpa. Verifica-se uma «nova criação», um renascimento.

Peçamos ao Senhor, nesta Quaresma, o dom do verdadeiro arrependimento; ele é a essência mais profunda da penitência e o mais importante dos actos necessários para receber o Sacramento da Confissão. Sem arrependimento não há perdão dos pecados nem confissão digna e frutífera. O verdadeiro arrependimento produz-se sob o estímulo e a influência da graça de Deus. Ele é, pois, um dom sobrenatural e há-de pedir-se através da oração.

 

 

Oração Universal

 

Oremos, irmãos, a Deus Pai,

Senhor do Céu e da terra,

suplicando com fé e confiança:

 

R. Escutai, Senhor, a nossa oração.

 

1.  Pelo Papa, pelos Bispos e Sacerdotes:

para que, neste tempo quaresmal,

acolham com amor os pecadores,

perdoando os seus pecados

pela graça do Espírito Santo,

oremos, irmãos.

 

2.  Pela nossa pátria e pelos nossos governantes:

para que tomem consciência de que são

simples instrumentos de Deus,

contem sempre com a Sua ajuda

e sirvam o bem comum com generosidade e competência,

oremos, irmãos.

 

3.  Pelos que julgam que não precisam de conversão,

para que o Senhor os convença da sua indigência

e lhe conceda o dom do arrependimento,

oremos ao Senhor.

 

4.  Por todos os homens,

para que, pelo jejum e penitência,

encontrem em Jesus

a libertação para as suas escravidões,

oremos, irmãos.

 

5.  Por nós próprios, congregados nesta assembleia,

para que, fiéis aos compromissos do nosso baptismo,

cumprindo sempre e em tudo a vontade de Deus,

demos muitos frutos de boas obras,

e levemos muitas almas para o Senhor,

oremos, irmãos.

 

6.  Pelos defuntos da nossa comunidade e do mundo inteiro:

para que, purificados das sua faltas,

possam contemplar na eternidade o rosto de Cristo,

oremos, irmãos.

 

Deus todo-poderoso e eterno, que desejais salvar todos os homens

e não quereis que nenhum deles se perca, ouvi as orações do vosso povo;

fazei que os acontecimentos do mundo se desenrolem para nós em paz segundo a Vossa vontade

e que a Igreja se alegre no Vosso serviço. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Sois, Jesus, o meu Deus, M. Borda, NRMS 107

 

Oração sobre as oblatas: Fazei que a nossa vida, Senhor, corresponda à oferta das nossas mãos, com a qual damos início à celebração do tempo santo da Quaresma. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

As tentações do Senhor

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Jejuando durante quarenta dias, Ele santificou a observância quaresmal e, triunfando das insídias da antiga serpente, ensinou-nos a vencer as tentações do pecado, para que, celebrando dignamente o mistério pascal, passemos um dia à Páscoa eterna.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: M. Simões, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

A união a Jesus Cristo é condição indispensável para fazer a vontade do Pai e dar frutos sobrenaturais de boas obras, como Ele mesmo afirmou, dizendo: «Sem Mim nada podeis fazer».

Na comunhão eucarística, encontramos em Jesus Cristo o Cordeiro de Deus que veio tirar o pecado do mundo. A Eucaristia é o Sacramento Santíssimo que nos une cada vez mais a Ele: «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em Mim e Eu nele» – diz o Senhor.

Comunguemos, pois, o Seu Corpo, e estaremos fortalecidos contra as tentações e a nossa vida será sempre do agrado de Deus e repleta de uma admirável fecundidade apostólica.

 

Cântico da Comunhão: Nem só de pão vive o homem, F. da Silva, NRMS 29

Mt 4, 4

Antífona da comunhão: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.

 

ou

Salmo 90, 4

O Senhor te cobrirá com as suas penas, debaixo das suas asas encontrarás abrigo.

 

Cântico de acção de graças: A toda a hora bendirei o Senhor, M. Valença, NRMS 60

 

Oração depois da comunhão: Saciados com o pão do Céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade, nós Vos pedimos, Senhor: ensinai-nos a ter fome de Cristo, o verdadeiro pão da vida, e a alimentar-nos de toda a palavra que da vossa boca nos vem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Alimentados com o pão celestial e com a Palavra de Deus, voltamos às nossas casas muito mais fortalecidos e preparados para vencer as tentações, perseverando na prática do bem e evitando todo o pecado. A ajuda do Senhor não nos faltará.

 

Cântico final: É dura a caminhada, M. Faria, NRMS 6 (II)

 

 

Homilias Feriais

 

1ª SEMANA

 

feira, 6-III: Caminhos de vida eterna.

Lev. 19, 1-2. 11-18 / Mt. 25, 31-46

Fala a toda a assembleia dos filhos de Israel e diz-lhes: Sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo!

Este é o convite que o Senhor nos recorda nesta Quaresma: Atreve-te a ser santo! (cf. Leit.). Ao mesmo tempo indica-nos os caminhos para atingirmos esta meta, que é pedida a todos os baptizados, e que consiste em cumprir os mandamentos: o cumprimento do Decálogo é um caminho de vida (cf. CIC, 2057).

Para tornar ainda mais acessível o nosso caminho para a vida eterna diz-nos que o que fizermos ao próximo o fazemos também a Ele (cf. Ev.). Esforcemo-nos por viver melhor as obras de misericórdia que Jesus nos indica.

 

feira, 7-III: Conversão: o perdão do próximo.

Is. 55, 10-11 / Mt. 6, 7-15

Assim é a palavra que sai da minha boca: não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade.

Na Quaresma preparamo-nos para receber abundantes graças de Deus (como a chuva e a neve que caiem do céu: cf. Leit.). A nossa conversão consiste em ouvir a palavra de Deus e que produza o seu efeito (cf.Leit.).

Um aspecto dessa palavra de Deus é a oração do Pai nosso, que contém tudo o que podemos pedir a Deus: «é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho» (Tertuliano). O comentário final de Jesus é sobre o perdão: procuremos perdoar de todo o coração os nossos irmãos, pois se lhe perdoarmos as suas faltas também o nosso Pai nos perdoará.

 

feira, 8-III: O apelo à conversão e a Confissão sacramental.

Jon. 3, 1-10 / Lc. 11, 29-32

Ergue-te e vai à grande cidade de Nínive e proclama-lhe a mensagem que te direi.

Os habitantes da cidade de Nínive aceitaram bem o pedido de conversão que lhes foi dirigido pelo Senhor, através do profeta Jonas (cf.Leit e Ev.). E Jesus invoca a sua autoridade para fazer o mesmo pedido (cf. Ev.).

O sacramento da Penitência é o sacramento por excelência da conversão, «porque realiza sacramentalmente o apelo à conversão e o esforço de regressar à casa do Pai, da qual o pecador se afastou pelo pecado» (CIC, 1423). Preparemo-nos para recebê-lo com muita piedade nesta Quaresma.

 

feira, 9-III: Conversão e oração de petição.

Est. 14, 1. 3-5. 12-14 / Mt. 7, 7-12

Pedi, e dar-vos-ão. Procurai, e achareis. Batei, e hão-de abrir-vos.

A nossa penitência interior no tempo da Quaresma pode assumir expressões muito variadas. A Escritura e os Santos Padres insistem sobretudo no jejum, na oração e na esmola. A palavra de Deus anima-nos hoje à oração de petição, cheia de confiança (cf. Leit e Ev.). Como somos pecadores, sabemos que nos afastamos de Deus. A oração de petição é, de algum modo, um regresso a Ele, uma conversão.

A rainha Ester é um belo exemplo desta oração confiada: «Vinde socorrer-me, que eu estou só e só em vós tenho auxílio, pois sinto ao alcance da mão o perigo que me espreita» (Leit.).

 

feira, 10-III: Conversão pessoal e bem da sociedade.

Ez. 18, 21-28 / Mt. 5, 20-26

Se o pecador se arrepender de todas as faltas que tiver cometido... há-de viver e não morrerá.

A Quaresma é um tempo de conversão, tempo de arrependimento, que nos conduzirá de novo à vida (cf. Leit.) e à reconciliação com Deus, através da reconciliação com o nosso irmão (cf. Ev.).

A nossa conversão interior está igualmente ligada ao esforço por introduzir nas instituições e condições de vida as correcções convenientes, quando induzem ao pecado, para que estejam conformes com as normas da justiça e favorecerem o bem, em vez de se lhe oporem (cf. CIC, 1888). Assim, a sociedade se reconciliará com Deus.

 

Sábado, 11-III: Heroicidade na caridade.

Deut. 26, 16-19 / Mt. 5, 43-48

Pois eu digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos céus.

Moisés lembrava ao povo que deveria pôr em prática os preceitos e sentenças do Senhor, cumprindo-os com todo o coração e com toda a alma (cf. Leit.).

Entre os preceitos de Jesus está o amor ao próximo, levado até ás últimas consequências: amar os inimigos e rezar por eles (cf. Ev.). Exige heroicidade, mas foi aquilo que Ele próprio viveu. Na Paixão, não se defendeu e disse a Pedro que deixasse a espada na bainha; perdoou a quem o ofendeu. Façamos o mesmo pois, o perdão testemunha também que, no nosso mundo, o amor é mais forte que o pecado (cf. CIC, 2844).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:    Alfredo Melo

Nota Exegética:             Geraldo Morujão

Homilias Feriais:            Nuno Romão

Sugestão Musical:         Duarte Nuno Rocha


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