qUARTA-FEIRA DE CINZAS

1 de Março de 2006

 

Na Missa deste dia benzem-se e impõem-se as cinzas, feitas dos ramos de oliveira (ou de outras árvores), benzidos no Domingo de Ramos do ano anterior.

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Ao nosso Deus, bondade infinita, M. Faria, NRMS 1 (I)

cf. Sab 11, 24-25.27

Antífona de entrada: De todos Vos compadeceis, Senhor, e amais tudo quanto fizestes; perdoais aos pecadores arrependidos, porque sois o Senhor nosso Deus.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

É em função da Páscoa que devemos viver a Quaresma. Hoje iniciamos a caminhada espiritual que nos conduzirá à celebração dos mistérios mais profundos da nossa Redenção. A cerimónia da imposição das cinzas é antiga e muito rica de simbolismo religioso. Recorda-nos a nossa fragilidade, convida-nos a acreditar no Evangelho, estimula-nos à penitência.

 

Omite-se o acto penitencial, porque é substituído pela imposição das cinzas.

 

Oração colecta: Concedei-nos, Senhor, a graça de começar com santo jejum este tempo da Quaresma, para que, no combate contra o espírito do mal, sejamos fortalecidos com o auxílio da temperança. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Deus faz-nos um apelo: convertei-vos! Nós rezamos: perdoai, Senhor! O profeta Joel afirma: Deus teve compaixão do seu povo!

 

Joel 2, 12-18

12Diz agora o Senhor: «Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. 13Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete. 14Quem sabe se Ele não vai reconsiderar e desistir deles, deixando atrás de Si uma bênção, para oferenda e libação ao Senhor, vosso Deus? 15Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. 16Reuni o povo, convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças. Saia o esposo do seu aposento e a esposa do seu tálamo. 17Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: ‘Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo e não entregueis a vossa herança à ignomínia e ao escárnio das nações. Porque diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?’». 18O Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo.

 

Começa a Quaresma com um forte apelo à conversão e com a esperança no perdão do Senhor, extraído do final da primeira parte do livro do profeta Joel (1, 2 – 2, 17). Num estilo solene e apocalíptico, fala de uma invasão de gafanhotos medonhos, mas sem ficar claro se fala em sentido próprio ou figurado. Se a obra é anterior ao exílio de Babilónia, aludiria a invasões de exércitos inimigos; se é posterior, tratar-se ia de alguma praga agrícola. Joel não se detém a denunciar os pecados concretos do povo, como é costume dos grandes profetas. Diante da horrível calamidade apresentada como castigo divino, o profeta apela para uma sincera conversão, a começar pela dos sacerdotes (1, 13).

12-13 «Convertei-vos a Mim de todo o coração». Não basta uma manifestação exterior de dor (rasgar as vestes – v. 13 – era um típico gesto de grande dor ou indignação, entre os judeus: rasgavam violentamente a túnica exterior, do pescoço até à cintura, cf. Gn 37, 29; Mt 26, 65). O coração não significa, na linguagem bíblica, apenas a afectividade. mas toda a interioridade do homem, todas as suas virtualidades, a sua inteligência e a sua vontade. Deus também nos convida a nós, mais fortemente neste tempo da Quaresma, a voltarmo-nos para Ele de todo o coração, isto é, com todas as veras da nossa alma e a rasgar o nosso coração, a dilacerá-lo pela contrição que é essa profunda mágoa de ter ofendido ao Senhor infinitamente bom. Mas esta dor não é dor angustiante e desesperada, porque é cheia de esperança no perdão, pois Ele «é clemente e compassivo, paciente e misericordioso». A Vulgata e a Neovulgata têm «benignus et misericors est, patiens et multæ misericordiæ». «Compassivo», isto é, dotado de piedade e ternura, de compreensão e disposição para perdoar: o termo hebraico «rahum» é derivado de «réhem» (ventre materno), o que sugere que Deus tem entranhas de mãe, sentimentos e coração de mãe para connosco; assim, o seu amor não acaba quando nos portamos mal com Ele; então tem pena de nós, compreende e facilita a reconciliação. Por seu lado, a expressão «misericordioso» à letra, «de muita misericórdia» deixa ver que a misericórdia do Senhor hésed») não é uma bondade qualquer, é a bondade de Quem se mantém fiel a Si próprio (cf. Ez 36, 22); daqui a frequente hendíadis da S. E.: «amor e fidelidade» hésed v-émet»). Este atributo divino tem na sua origem bíblica um matiz jurídico: a fidelidade de Deus à Aliança; uma fidelidade tal que, após o pecado, se mantém, embora já não dentro do mero âmbito legal dum pacto bilateral. Com efeito, mesmo quando o homem rompe a Aliança, Deus continua a manter-se Fiel a Si próprio, ao seu amor gratuito, ao seu dom inicial (cf. Rom 11, 29). O amor de Deus é mais forte do que o nosso desamor, as nossas traições e pecados: «jamais algum pecado do mundo poderá superar este Amor» (João Paulo II em Fátima: 13.05.82; cf. Enc. Dives in misericordia).

14 «Vai reconsiderar». A expressão é um antropomorfismo com que se fala de Deus à maneira humana, mas de facto Deus não pode reconsiderar e mudar; se, em face da nossa penitência, Deus já não nos castiga e atende às nossas súplicas, a mudança apenas se dá em nós, não em Deus que, sempre tudo tem presente e tudo dispõe, contando com as nossas mudanças. O Profeta fala de Deus à maneira humana, ao dizer também que «Ele se encheu de zelo pela sua terra» (v. 18), em face do apelo feito ao brio do Senhor, numa súplica tão humilde como ousada da parte dos seus «ministros» (parce Domine, parce populo tuo: v. 17).

 

Salmo Responsorial    Sl 50 (51), 3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a)

 

Monição: Ao longo dos séculos os crentes cantaram esta maravilhosa oração de súplica. Reconheçamos nós também que somos pecadores e saibamos que Deus nunca despreza um coração humilhado e contrito.

 

Refrão:         Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.

 

Ou:                Tende compaixão de nós, Senhor,

                      porque somos pecadores.

 

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,

pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.

Lavai-me de toda a iniquidade

e purificai-me de todas as faltas.

 

Porque eu reconheço os meus pecados

e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.

Pequei contra Vós, só contra Vós,

e fiz o mal diante dos vossos olhos.

 

Criai em mim, ó Deus, um coração puro

e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.

Não queirais repelir-me da vossa presença

e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

 

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação

e sustentai-me com espírito generoso.

Abri, Senhor, os meus lábios

e a minha boca cantará o vosso louvor.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A voz de S. Paulo atravessou os séculos e continua hoje a convidar-nos: reconciliai-vos com Deus. Aproveitemos este tempo favorável!

 

2 Coríntios 5, 20 – 6, 2

20Irmãos: Nós somos embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. 21A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus. 6,1Como colaboradores de Deus, nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. 2Porque Ele diz: «No tempo favorável, Eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio». Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação.

 

S. Paulo, ao fazer a sua defesa perante as acusações dos seus opositores em Corinto, exalta a grandeza do ministério apostólico de que está investido, um ministério de reconciliação com Deus alcançada pelo mistério da Morte e Ressurreição de Cristo (5, 14-15).

20 «Reconciliai-vos com Deus». É este o insistente convite que a Igreja nos faz em nome de Deus, a mesma exortação que fazia S. Paulo, consciente de que «é Deus quem vos exorta por nosso intermédio» os Apóstolos, como os demais ministros de Cristo, são «embaixadores de Cristo» não apenas «ao seu serviço», mas actuando «em vez de Cristo e por autoridade de Cristo»; o próprio texto original grego parece dá-lo a entender com a preposição hyper (em favor de), usada com o sentido da preposição antí (em vez de: cf. Jo 11, 50; Gal 3, 13; etc.).

21 «Deus identificou-o com o pecado», à letra, Deus fê-lo pecado, uma expressão extraordinariamente forte e chocante. Note-se, no entanto, que não se diz que Deus O tenha feito pecador; o que se pretende significar é que Deus permitiu que Jesus viesse a sofrer o castigo que cabia ao pecado. Trata-se aqui duma identificação jurídica, não moral: Cristo tornando-Se a Cabeça e o Chefe duma raça pecadora, toma sobre os seus ombros a responsabilidade, não a de uns pecados alheios, mas a dos pecados da sua raça (a raça humana), para os expiar sofrendo a pena devida por eles (cf. Gal 3, 13). O texto torna-se menos duro, se entendemos que Cristo se fez pecado, no sentido de que se fez sacrifício pelo pecado; isto, que pode parecer uma escapatória para evitar a dificuldade de interpretação, tem um certo fundamento no substrato hebraico, pois a palavra axam tem este duplo sentido de «violação da justiça» e de «sacrifício de reparação pelo pecado»; com efeito, pelo sacrifício de Cristo tornamo-nos «justiça de Deus», isto é, justos diante de Deus (note-se o jogo com os dois substantivos abstractos – pecado/justiça –, num evidente paralelismo antitético, tão do gosto paulino).

6, 2 «Este é o tempo favorável». S. Paulo cita aqui Isaías 49, 8, em que se classifica assim o momento em que aprouve à misericórdia divina libertar os israelitas do cativeiro. O Apóstolo diz que «agora» é que é o tempo realmente favorável, o tempo em que Jesus Cristo nos redimiu do cativeiro do pecado (cf. Gal 4, 4-5). A expressão paulina é ainda mais expressiva e rica do que a da versão grega de Isaías (LXX): agora é que é o momento singularmente oportuno, em que apraz à misericórdia divina realizar a nossa salvação. Não há dúvida que a Liturgia pretende fazer uma acomodação deste texto ao tempo santo da Quaresma.

 

Aclamação ao Evangelho        cf. Sl 94, 8ab

 

Monição: Jesus ensina os seus discípulos os meios concretos para nos renovarmos espiritualmente: esmola, oração, jejum. Estas práticas de penitência tão evangélicas devem ser vividas com simplicidade, sem ostentação, sem vaidade, confiando apenas na bondade do Pai celeste que conhece a nossa vida íntima e nos dará a recompensa!

 

 

Cântico: M. Simões, NRMS 1 (I)

 

Se hoje ouvirdes a voz do Senhor,

não fecheis os vossos corações.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 6, 1-6.16-18

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1«Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. 2Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 3Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, 4para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 5Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 16Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa».

 

Os versículos da leitura evangélica são tirados do Sermão da Montanha de S. Mateus; por focarem práticas tipicamente judaicas, não têm paralelos nos outros evangelistas, que se dirigem a cristãos na sua maioria vindos dos gentios.

1 «As vossas boas obras» letra, a vossa justiça), isto é, os actos tradicionais da boa piedade judaica, a esmola, a oração e o jejum. Jesus de modo algum os suprime ou diminui o seu valor, pelo facto de serem actos de piedade pessoal individual, mas exige que todos estes actos se façam sempre com rectidão de intenção, isto é, com uma sincera piedade, com o fim de agradar a Deus, e não por ostentação, ou para se receber o aplauso humano.

6 «Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto». Segundo estas palavras de Jesus, desde crianças, fomos ensinados a rezar não apenas comunitariamente, mas também, a sós: «no teu quarto» O Senhor ensina aqui a necessidade da oração individual (o que não quer dizer individualista). Deus chama os homens à salvação, fazendo-os entrar dentro do Povo de Deus, a sua Igreja, mas chama-os um a um (nominatim: Jo 10, 3); daqui que são imprescindíveis tanto a oração púbica, que manifesta o carácter de família e povo que somos em Cristo, como a oração a sós, que manifesta a resposta pessoal e intransferível de cada um de nós ao seu Pai celeste. Por sua vez, Jesus não se limitou a pregar a necessidade da oração individual, pois Ele deu este mesmo exemplo (cf. Mt 14, 23; Mc 1, 35; Lc 5, 16; 6, 12; 9, 18; 11, 1.28-29), que foi seguido pelos Apóstolos (cf. Act 10, 9-16). Também a experiência pessoal de todos os santos e dos que tomam a sério a fé cristã nos diz que é imprescindível este tipo de oração, que consiste em se recolher para, a sós, falar com Deus, frequentemente. A esta oração recolhida e íntima nos convida hoje o Senhor e a Liturgia nesta Quaresma, que agora começa.

 

Sugestões para a homilia

 

Quarta-feira de cinzas

Esmola, oração, jejum

Quarta-feira de cinzas

Hoje iniciamos a caminhada espiritual que nos conduzirá à festa anual da Páscoa: os cristãos professam a fé em Jesus Cristo que por nós morreu e ressuscitou. É cheio de simbolismo o rito das cinzas. Já era uma forma de penitência muito usada no Povo da Antiga Aliança. É curioso saber que as cinzas que hoje impomos sobre a cabeça, são provenientes dos ramos utilizados no Domingo da Paixão, do ano passado, lembrando a glória de Jesus entrando triunfalmente em Jerusalém. A Liturgia faz-nos um forte apelo! «Arrependei-vos e acreditai no Evangelho!» ou ainda «lembra-te que és pó e ao pó da terra hás-de voltar.» As cinzas fazem-nos pensar na caducidade da nossa vida terrena. As cinzas fazem-nos pensar que precisamos de nos arrepender dos nossos pecados.

Esmola, oração, jejum

«Quando deres esmola!»

A nossa sociedade dá muito apreço a certos valores, como por exemplo, a solidariedade. Nas grandes catástrofes, as pessoas gostam de socorrer os habitantes das áreas afectadas. Mas há outros gestos de amor fraterno mais escondidos e que espiritualmente têm um valor evangélico elogiado por Jesus. As obras de misericórdia fazem parte do caminho de perfeição indicado por Jesus nas bem-aventuranças! Não socorremos os pobres para que o mundo nos estime e elogie publicamente, mas porque pela fé reconhecemos nos irmãos o próprio Deus. «O Pai vê o que fazemos no segredo e recompensará a nossa generosidade!»

«Quando rezardes»

A oração é a força que vence a Deus. Jesus também orou. O Evangelho mostra-nos muitas vezes Jesus orando no silêncio da noite, na solidão do deserto. Somos convidados a uma oração humilde, confiante, mais intensa. A nossa intimidade com Deus é favorecida pelo silêncio, pela privacidade. «Entra no teu quarto, fecha a porta e Deus Pai te dará a recompensa.»

«Quando jejuardes»

O jejum é uma terapia e uma fonte de cura. Espiritualmente a força do jejum é descrita pela Bíblia. Lembremos a grande cidade de Nínive, que Deus não destruiu, porque os seus habitantes jejuaram! Jesus também jejuou, santificando deste modo a nossa observância quaresmal. Também neste caso, nada de ostentação exterior! «Não desfigurar o rosto! Não apresentar um ar sombrio!» Pelo contrário, «perfuma a cabeça! O Pai sabe tudo e dar-te-á a recompensa!»

Alegria, irmãos! Pratiquemos jubilosamente estes três meios de penitência que o Evangelho ensina!

Resgatemos os nossos pecados com obras de misericórdia!

Rezemos por toda a humanidade!

Perfumemos a vida espiritual com a virtude da temperança!

Resumindo: reparte pelos pobres a tua renúncia quaresmal e Deus Pai te recompensará na Ressurreição dos justos!

 

 

Fala o Santo Padre

 

«Se a carne tem como destino o pó, o espírito é feito para a imortalidade.»

1. «Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum. Convocai a assembleia, reuni o povo. Determinai uma santa assembleia» (Jl 2, 15-16).

Estas palavras do profeta Joel esclarecem a dimensão comunitária da penitência. Sem dúvida, o arrependimento não pode partir senão do coração que, segundo a antropologia bíblica, é a sede das profundas intenções do homem. Porém, os actos penitenciais devem ser vividos também juntamente com os membros da comunidade.

Especialmente nos momentos difíceis, a seguir a uma desventura ou a um perigo, a Palavra de Deus, pela boca dos profetas, costumava convocar os fiéis para uma mobilização penitencial: todos estão convocados, sem qualquer excepção, desde os idosos até às crianças; todos unidos, para implorar de Deus a misericórdia e o perdão (cf. Jl 2, 16-18).

2. A Comunidade cristã escuta este forte convite à conversão, no momento em que se prepara para empreender o itinerário quaresmal, que começa com o antigo rito da imposição das cinzas.

Sem dúvida este gesto, que alguns poderiam considerar de outros tempos, está em contraste com a mentalidade do homem moderno, mas isto leva-nos a aprofundar o seu sentido, descobrindo a sua singular força de impacto.

Impondo as cinzas sobre a cabeça dos fiéis, o celebrante repete: «Recorda-te que tu és pó, e em pó te hás-de tornar». Voltar a ser pó é a sorte que, aparentemente, irmana homens e animais. Porém, o ser humano não é apenas carne, mas também espírito; se a carne tem como destino o pó, o espírito é feito para a imortalidade. Além disso, o crente sabe que Cristo ressuscitou, derrotando a morte também no seu corpo. Ele caminha na esperança, rumo a esta perspectiva.

3. Portanto, receber as cinzas sobre a cabeça significa reconhecer-se como criatura, feita de terra e destinada para a terra (cf. Gn 3, 19); significa, ao mesmo tempo, proclamar-se pecador, necessitado do perdão de Deus, para poder dar nova vida à esperança do encontro definitivo com Cristo, na glória e na paz do Céu.

Esta perspectiva de alegria compromete os cristãos a fazer todo o possível para antecipar no tempo presente um pouco da paz futura. Isto pressupõe a purificação do coração e o fortalecimento da comunhão com Deus e os irmãos. Esta é a finalidade da oração e do jejum para os quais, diante das ameaças da guerra que incumbem sobre o mundo, convidei os fiéis. Com a oração, pomo-nos totalmente nas mãos de Deus e somente dele esperamos a paz autêntica. Com o jejum, preparamos o coração para receber do Senhor a paz, dom por excelência e sinal privilegiado da vinda do seu Reino.

4. Porém, a oração e o jejum devem ser acompanhados de obras de justiça; a conversão deve traduzir-se em acolhimento e solidariedade. A este propósito, o antigo Profeta admoesta: «O jejum que aprecio é este (...): abrir as prisões injustas, desatar os nós do jugo, deixar ir livres os oprimidos, quebrar toda a espécie de jugo» (Is 58, 6).

Não haverá paz na terra, enquanto perdurarem as opressões dos povos, as injustiças sociais e os desequilíbrios económicos ainda hoje existentes. Mas para as grandes e desejáveis mudanças estruturais, não são suficientes iniciativas e intervenções exteriores; exige-se sobretudo a conversão do coração de todos ao amor.

5. «Convertei-vos a mim de todo o vosso coração» (Jl 2, 12). Poderíamos dizer que a mensagem da celebração de hoje se concentra nesta profunda exortação de Deus à conversão do coração.

Este convite é repetido pelo apóstolo Paulo, na segunda Leitura: «Suplicamo-vos, pois, em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus... Este é o tempo favorável; este é o dia da salvação» (2 Cor 5, 20; 6, 2).

Caros Irmãos e Irmãs, eis o momento favorável para revermos a nossa atitude em relação a Deus e aos irmãos. Eis o dia da salvação, em que devemos examinar profundamente os critérios que nos orientam na nossa conduta quotidiana.

Senhor, ajudai-nos a voltar com todo o nosso coração para Vós, Caminho que conduz para a salvação, Verdade que liberta e Vida que não conhece a morte.

João Paulo II, Roma, 5 de Março de 2003

 

Bênção das cinzas

 

Depois da homilia, o sacerdote, de pé, diz com as mãos juntas:

 

Irmãos caríssimos: Oremos fervorosamente a Deus nosso Pai, para que Se digne abençoar com a abundância da sua graça estas cinzas que vamos impor sobre as nossas cabeças, em sinal de penitência.

 

E depois de alguns momentos de oração em silêncio, diz uma das orações seguintes:

 

Senhor nosso Deus, que Vos compadeceis daquele que se humilha e perdoais àquele que se arrepende, ouvi misericordiosamente as nossas preces e derramai a vossa bênção sobre os vossos servos que vão receber estas cinzas, para que, fiéis à observância quaresmal, mereçam chegar, de coração purificado, à celebração do mistério pascal do vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

ou

 

Deus de infinita bondade, que não desejais a morte do pecador mas a sua conversão, ouvi misericordiosamente as nossas súplicas e dignai-Vos abençoar estas cinzas que vamos impor sobre as nossas cabeças, para que, reconhecendo que somos pó da terra e à terra havemos de voltar, alcancemos, pelo fervor da observância quaresmal, o perdão dos pecados e uma vida nova à imagem do vosso Filho ressuscitado, Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

O sacerdote asperge as cinzas com água benta, sem dizer nada.

 

Imposição das cinzas

 

Em seguida, o sacerdote impõe as cinzas a todos os presentes que se aproximam dele, dizendo a cada um:

 

Mc 1, 15

Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.

 

Ou

cf. Gen 3, 19

Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás-de voltar.

 

Entretanto, canta-se um cântico apropriado, por exemplo:

 

cf. Joel 2, 13

Antífona: Mudemos as nossas vestes pela cinza e o cilício. Jejuemos e choremos diante do Senhor, porque Deus é infinitamente misericordioso e perdoa os nossos pecados.

 

ou

cf. Joel 2, 17; Est 13, 17

Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo, para que possa cantar sempre os vossos louvores.

 

ou

Salmo 50, 3

Lavai-me de toda a iniquidade, Senhor.

 

Pode repetir-se esta antífona depois de cada versículo ou estrofe do salmo 50. Compadecei-Vos de mim, ó Deus.

 

Responsório

cf. Bar 3, 2; Salmo 78, 9

V.  Renovemos a nossa vida,

reparemos o mal que fizemos,

para que não nos surpreenda o dia da morte

e nos falte o tempo para nos convertermos.

R.  Ouvi-nos, Senhor, e tende compaixão de nós,

porque somos pecadores.

 

V.  Ajudai-nos, Senhor, para glória do vosso nome;

perdoai as nossas culpas e salvai-nos.

R.  Ouvi-nos, Senhor, e tende compaixão de nós,

porque somos pecadores.

 

Terminada a imposição das cinzas, o sacerdote lava as mãos. O rito conclui-se com a oração universal ou oração dos fiéis. Não se diz o Credo.

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Ao darmos início ao tempo santo da Quaresma,

oremos para que todos os homens se convertam

e tomem parte na renovação pascal, dizendo:

 

Dai-nos, Senhor, um coração novo.

 

1.  Por todos os fiéis da Santa Igreja:

para que, neste tempo favorável da Quaresma,

se reconciliem uns com os outros e com Deus,

oremos, irmãos.

 

2.  Pelos governantes das nações:

para que sirvam lealmente o bem comum

e façam verdadeiros esforços pela paz,

oremos, irmãos.

 

3. Por todos os cristãos,

para que se convertam e acreditem no Evangelho,

oremos, irmãos.

 

4. Pelos doentes, pelos pobres, pelos idosos

e por todos os que os socorrem,

oremos, irmãos.

........

 

Senhor nosso Deus, rico de misericórdia,

Vós nos chamais à conversão de coração:

Dai-nos a alegria de sermos salvos

E guiai-nos pela força do Espírito Santo para a festa jubilosa da Páscoa!

Por Jesus Cristo, nosso Senhor.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Acolhe Deus de bondade, F. da Silva, NRMS 13

 

Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, este sacrifício, com o qual iniciamos solenemente a Quaresma, e fazei que, pela penitência e pela caridade, nos afastemos do caminho do mal, a fim de que, livres de todo o pecado, nos preparemos para celebrar fervorosamente a paixão de Cristo, Vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio da Quaresma III p. 463 ou IV p. 464 [598-710]

 

Santo: F. da Silva, NRMS 38

 

Monição da Comunhão

 

Com o salmista rezemos: «Criai em mim, ó Deus um coração puro! Não retireis de mim o vosso espírito de santidade!» Com espírito de fé e de amor adoremos a presença de Jesus dentro de nós!

 

Cântico da Comunhão: O Senhor me apontará o caminho, F. da Silva, NRMS 69

Salmo 1, 2-3

Antífona da comunhão: Aquele que medita dia e noite na lei do Senhor dará fruto a seu tempo.

 

Oração depois da comunhão: Senhor, fazei que este sacramento nos leve a praticar o verdadeiro jejum que seja agradável a vossos olhos e sirva de remédio aos nossos males. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Somos convidados à conversão, a mudar a nossa vida! Saibamos repetir a todos os que nos rodeiam, que iniciámos «o tempo favorável, o tempo da salvação!» (2 Cor 6, 2)

 

Cântico final: Da morte e do pecado, J. Santos, NRMS 29

 

A bênção e imposição das cinzas pode fazer-se também fora da Missa. Nesse caso, convém que preceda uma liturgia da palavra, utilizando a antífona de entrada, a oração colecta, as leituras e seus cânticos, como na Missa. Depois da homilia, procede-se à bênção e imposição das cinzas. O rito conclui com a oração universal.

 

 

Homilias Feriais

 

TEMPO DA QUARESMA

 

CINZAS

 

feira, 2-III: Os caminhos da vida.

Deut. 30, 15-20 / Lc. 9, 22-25

Pois quem quiser salvar a própria vida há-de perdê-la; mas quem quiser perder a vida por minha causa há-de salvá-la.

Diante de nós temos dois caminhos: um que conduz à vida e outro que leva à perdição (cf. Leit. e Ev.). A Quaresma é uma boa oportunidade para a nossa conversão, que nos levará a escolher mais vezes o caminho da vida.

Como salvar a vida? Precisamos levar a cabo uma rotura com o pecado, ganhar aversão ao mal, sentir repugnância pelas más acções que cometemos. Além disso, cheios de esperança na misericórdia divina e confiantes na ajuda da graça (cf. CIC, 1431).

 

feira, 3-III: Será necessário jejuar?

Is. 58, 1-9 / Mt. 9, 14-15

Virão dias em que o noivo lhes será tirado; nessa altura é que hão-de jejuar.

Se estamos muito unidos a Deus na nossa vida o jejum perde um dos seus motivos (cf. Ev.), embora haja outros. Mas, devido às nossas fraquezas, é necessário jejuar (cf. Ev.), para voltarmos à graça de Deus e para estarmos mais unidos a Ele.

O jejum exprime a conversão em relação a nós próprios: libertar-nos das várias escravidões que nos manietam; em relação a Deus: vivendo a justiça, dando a Deus o que lhe é devido, vivendo os mandamentos; em relação ao próximo: evitando brigas e discussões, vivendo as obras de misericórdia (cf. Leit.).

 

Sábado, 4-III: Jesus quer curar as nossas feridas.

Is. 58, 9-14 / Lc. 5, 27-32

Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas aqueles que estão doentes.

Como todos somos pecadores precisamos aproximar-nos do médico divino, para que Ele nos cure as doenças de cada um de nós (cf. Ev.).

O profeta Isaías convida-nos a um exame sobre dois pontos. Em primeiro lugar, o cuidado pelo dia do Senhor, recuperando o seu significado profundo, defendendo-o de todos os ataques, organizando a vida pessoal e da família. E depois, uma melhor vivência da caridade: cuidado com os gestos e palavras, a atenção às necessidades do próximo, a dedicação de tempo aos problemas dos outros...

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:    José Roque

Nota Exegética:             Geraldo Morujão

Homilias Feriais:            Nuno Romão

Sugestão Musical:         Duarte Nuno Rocha

 

 


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