TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

UM FEMINISMO CRISTÃO


Mons. Dominique Le Tourneau

Paris


A tarefa que aguarda a Igreja – e o mundo inteiro – no terceiro milénio da Redenção é confiada por João Paulo II à intercessão de Maria, chamada a ser para os cristãos «a Estrela que lhes guia os passos ao encontro do Senhor»1. Maria é «a Estrela da evangelização» que deve guiar os jovens para que eles percorram «as etapas da história como testemunhas maduras e convincentes»2. É para uma mulher que a Igreja se volta continuamente. Para a Mulher, por excelência, a única criatura humana que não foi manchada pelo pecado original, por virtude da escolha que Deus dela fizera para ser a Mãe de seu Filho, nosso Redentor. A Mãe, sem a qual os cristãos não seriam nada, porque Ela nos gerou verdadeiramente para a vida sobrenatural e também porque Deus a constituiu Medianeira de todas as graças: nenhum socorro divino, nenhum auxílio espiritual nos é concedido independentemente d’Ela.

Nenhum feminismo vai tão longe. Nenhum feminismo pode sequer imaginar tal radicalismo. O que faz com que a Igreja católica seja o arquétipo dum são feminismo, desprovido de toda a reivindicação mesquinha e totalmente orientado para a finalidade última do homem, que consiste em reconhecer e amar a Deus, em servi-l'O e glorificá-l'O pelos séculos sem fim. Maria é chamada com toda a propriedade a cheia de graça (Lc 1, 28) e Mãe de Deus 3. «A plenitude de graça, concedida à Virgem de Nazaré, em previsão de que viria a ser a Theotókos, significa, ao mesmo tempo, a plenitude da perfeição daquilo 'que é característico da mulher', daquilo 'que é feminino'» 4.


Igualdade e complementaridade


Eis por que podemos com toda a razão falar de «feminismo cristão». De certo modo, ele recebeu os seus títulos de nobreza com a exortação apostólica Mulieris dignitatem de João Paulo II. Mas tal feminismo não é de hoje. Para ser honesto, é preciso mesmo reconhecer que ele remonta no tempo tão longe como a Criação. Com efeito, desde a origem da humanidade, «Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus: criou-os homem e mulher» (Gen 1, 27), de modo que um e outro possuem igual dignidade diante de Deus: na óptica católica, a mulher não é inferior ao homem nem menos chamada à santidade do que ele. Foram criados «em perfeita igualdade enquanto pessoas humanas, por um lado; mas, por outro, no seu respectivo ser de homem e de mulher» 5. A mulher possui, com o mesmo título que o homem e no mesmo grau, a natureza de ser racional e livre. Foi a um e a outro que Deus atribuiu a missão de submeter a terra (cf. Gen 1, 28) e de trabalhar (cf. Gen 2, 15).

Além disso, a criatura humana é a única na terra que Deus «quis por si mesma» 6. É também isso a causa da dignidade da mulher e do homem, seres que têm relações pessoais com Deus (cf. Gen 3, 9-10). É o mesmo que dizer que a mulher não toma do homem a sua dignidade, nem a recebe do homem nem de uma eventual sujeição a ele: ela possui-a em si mesma, pela sua natureza humana, directamente de Deus, igualmente como o homem.


Quem se abstrai deste relato da criação vê-se na impossibilidade de penetrar o profundo sentido da personalidade da mulher, do que é a sua feminilidade e do papel que ela é chamada a desempenhar na economia da Redenção, e portanto na vida da humanidade.

A vocação da mulher não é uma vocação para a dependência mas para a alteridade, a complementaridade, na igualdade da natureza. A pessoa-homem e a pessoa-mulher não podem realizar-se senão por um dom desinteressado de si, porque ser pessoa «significa tender à sua própria realização», explica João Paulo II. Ele precisa que «o modelo de tal interpretação da pessoa é Deus mesmo como Trindade, como comunhão de Pessoas. Dizer que o homem é criado à imagem e semelhança deste Deus quer dizer também que o homem é chamado a existir para os outros, a tornar-se um dom». E isto diz respeito a todo o ser humano, «seja homem, seja mulher, que o realizam na peculiaridade própria a cada um» (MD 7), «não sendo certamente os recursos pessoais da feminilidade menores que os recursos da masculinidade, mas diversos» (MD 10).

Uma sã exaltação do papel da mulher leva a reconhecer que ela é chamada «a levar à família, à sociedade civil, à Igreja, alguma coisa de característico, que lhe é próprio e que só ela pode dar: a sua delicada ternura, a sua generosidade incansável, o seu amor ao concreto, a sua agudeza de engenho, a sua capacidade de intuição, a sua piedade profunda e simples, a sua tenacidade… A feminilidade não é autêntica se não reconhece a formosura dessa contribuição insubstituível e não a incorpora na própria vida» 7.

Na descrição do Génesis, a mulher «é colocada como um outro eu» (MD 6) na humanidade comum ao homem e à mulher. Chamados a não serem senão «uma só carne» (Gen 2, 24), eles reproduzem entre si de certa maneira a unidade na distinção que existe no seio da Santíssima Trindade.

Esta unidade entre os dois, «que corresponde à dignidade da imagem e da semelhança de Deus em ambos» (MD 10), está ameaçada pelas consequências do pecado original. «Sentir-te-ás atraída para o teu marido, e ele dominar-te-á» (Gen 3, 16) marca uma constante ameaça de ruptura da unidade, ameaça «mais grave para a mulher» na medida em que o «domínio» se opõe radicalmente ao dom de si desinteressado característico da pessoa. Este domínio «indica a perturbação e a perda fundamental, que na 'unidade dos dois' possuem o homem e a mulher» (MD 10).

Esta alteração da dignidade natural da mulher afecta também o homem: desvalorizando a mulher, o homem desvaloriza-se a si mesmo, pois rompe a igualdade, «que é conjuntamente dom e direito que derivam do próprio Deus Criador» (MD 10). A mulher não poderia reencontrar-se plenamente procurando «imitar o homem», querendo «apropriar-se das características masculinas, em detrimento da sua própria 'originalidade' feminina». Se ela cedesse a essa tentação, há razão para pensar que, longe de se realizar, a mulher «poderia, pelo contrário, deformar e perder aquilo que constitui a sua riqueza essencial» (MD 10). «Desenvolvimento, maturidade, emancipação da mulher, não devem significar uma pretensão de igualdade – de uniformidade – com o homem, uma imitação do modo de agir varonil. Isso não seria uma aquisição, seria uma perda para a mulher, não porque ela seja mais ou menos que o homem, mas porque é diferente» 8.


A maternidade como dom


Uma dessas diferenças essenciais, sobre a qual o Santo Padre se pronuncia longamente, é evidentemente a maternidade. É, no entanto, uma dimensão da feminilidade febrilmente combatida por certos grupos de pressão que se manifestaram ruidosamente na Conferência das Nações Unidas sobre a Mulher, que teve lugar em Pequim em 1996, e que tiveram um apoio inesperado junto da União Europeia. O documento final não menciona a palavra «mãe» senão apenas quinze vezes, treze de forma negativa, duas de forma neutra e uma única de modo positivo em relação à maternidade. Esta única menção bastou para bloquear os debates durante dois dias, recusando a União Europeia que o modelo da maternidade seja proposto às jovens como uma das funções que elas podem ser levadas a assegurar na sociedade. Os países africanos, onde a maternidade é uma honra, declararam que, se os países europeus tinham problemas com as mães, era um problema regional, mas que não devia impor-se ao resto do mundo. Aliás, é interessante notar a afirmação seguinte, proferida nos trabalhos preparatórios da Conferência das Nações Unidas sobre a população: «Para serem eficazes a longo prazo, os programas do planning familiar não deveriam visar somente reduzir a fertilidade a partir das funções existentes dos dois sexos, mas antes visar mudar estas funções para reduzir a fertilidade».

As paradas são de monta. É, portanto, importante lembrar o que constitui a dignidade e a especificidade da mulher. A maternidade, escreve João Paulo II, é «o fruto da união matrimonial entre um homem e uma mulher» (MD 18). Ela não é um simples processo fisiológico, mas faz intervir o ser da mulher na sua mais profunda intimidade e corresponde à estrutura psico-física da feminilidade. Ora, faz ainda ressaltar o Pontífice Romano, se o homem e a mulher – o pai e a mãe – são ambos os pais do novo ser humano, da nova pessoa, ao qual eles contribuíram para dar a vida, «a maternidade da mulher constitui uma 'parte', aliás a mais empenhativa, deste comum ser progenitores» (MD 18). Por este facto, o homem contrai «especial responsabilidade para com a mulher»: é sujeito de obrigações especiais para com a sua esposa. Eis porque «nenhum programa de 'paridade de direitos' das mulheres e dos homens é válido, se não se tiver isto presente de modo verdadeiramente essencial» (MD 18).


Deus confiou o homem à mulher


Ao relato da criação da mulher, «não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele» (Gen 2, 18), o Papa faz o seguinte comentário: «Deus Criador confiou o homem à mulher. Sem dúvida, o homem foi confiado a cada homem, mas de modo particular à mulher, porque precisamente a mulher parece possuir, graças à experiência especial da sua maternidade, uma sensibilidade específica para com o homem e para com tudo o que constitui o seu verdadeiro bem, a começar pelo valor fundamental da vida». E o Santo Padre exclama: «Como são grandes as possibilidades e as responsabilidades da mulher neste campo, numa época em que o progresso da ciência e da técnica nem sempre é inspirado e pautado pela verdadeira Sabedoria, com o risco inevitável de 'desumanizar' a vida humana, sobretudo quando ela exige um amor mais intenso e um acolhimento mais generoso!» 9.

A doutrina da Igreja católica reclama alto e bom som que cessem as discriminações contra a mulher e se milite com constância contra a mentalidade que não vê nela senão «um objecto de compra-venda, ao serviço do interesse egoísta e exclusivo do prazer» 10.

Fá-lo com tanto mais ardor quanto, para ela, «na hierarquia da santidade, está precisamemte a 'mulher', Maria de Nazaré, que é 'figura' da Igreja. Ela 'precede' a todos no caminho rumo à santidade; na sua pessoa 'a Igreja já atingiu a perfeição, pela qual existe sem mácula e sem ruga'» (MD 27). É em Maria e por Maria que o ser humano – todo o ser humano – tem acesso a Deus e, por Ele, à santidade, quer dizer, pode realizar-se em plenitude.

1 JOÃO PAULO II, Carta apostólica Tertio millenio ineunte, 10 de Novembro de 1994, n. 59.

2 JOÃO PAULO II, Mensagem para a Jornada mundial da Juventude de Agosto de 1997, 26 de Novembro de 1995, n. 8.

3 Cf. CONCÍLIO DE ÉFESO, do ano 431.

4 JOÃO PAULO II, Exortação apostólica Mulieris dignitatem, 15 de Agosto de 1988, n. 5 (MD).

5 Catecismo da Igreja católica, n. 369.

6 CONCÍLIO VATICANO II, Const. past. Gaudium et spes, n. 24.

7 Temas actuais do Cristianismo, entrevistas com o Fundador do Opus Dei, Mons. Josemaría Escrivá, 3.ª ediçãp, Lisboa 1984, n. 87.

8 Ibidem.

9 JOÃO PAULO II, Exort. Apost. Christifideles laici, 30 de Dezembro de1988, n. 51.

10 JOÃO PAULO II, Exort. Apost. Familiaris consortio, 22 de Novembro de 1981, n. 24.


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