RECORTE

 

MISSÃO NA CIDADE

 

Mons. José Rafael Espírito Santo

 Vigário Regional do Opus Dei

 

 

Um amigo apanhou, há dias, um táxi. O motorista, talvez por vê-lo trajado de clérigo, abriu o jogo. Era marxista-leninista, tinha reservas relativamente à Igreja. Foi-as dizendo. O meu amigo ouviu-o com gosto e disse-lhe no fim: «Alguns colegas seus pedem-me uma bênção. Também quer?» – «Não quero uma. Quero duas bênçãos: uma para mim e outra para o meu carro».

 

Às vezes podemos, sem o esperar, sentir este desejo de ter Deus por perto. Como uma espécie de saudade do afecto da mãe, que incluía tudo: a ternura e o apelo a portar-se bem. As mães são assim e temos saudades delas. Também a nostalgia de Deus faz desejar o «bálsamo» de bem que é uma bênção, mesmo a quem ande afastado.

Em Novembro, Lisboa vai ter uma «presença» diferente, a quem a cidade poderá fazer o pedido do taxista. A partir do dia 5 viverá o ICNE (Congresso Internacional para a Nova Evangelização), convocado pelo Patriarcado de Lisboa. Uma presença de bem para as pessoas e coisas que tecem a vida da capital.

O evento foi longamente preparado, e tudo aponta para que aconteça com qualidade. D. José Policarpo detalhou a sua finalidade em três documentos («Missão na Cidade» em 2003, e recentemente «A Igreja na Cidade» e a mensagem às comunidades cristãs. O olhar fresco que neles traça mereceria maior eco na opinião pública.

O ICNE multiplicar-se-á em actividades, momentos de um diálogo aberto entre a Igreja e a Cidade sobre as propostas válidas e optimistas da fé para os problemas dos lisboetas.

Problemas fundos, que vão além da pobreza, da desertificação, da insegurança, dos desequilíbrios do tecido social, da exclusão. Embora com acentuada expressão económica e social, as angústias de hoje alimentam-se da profunda «crise de civilização» diagnosticada de modo certeiro pela nossa Conferência Episcopal em 2001: «a defesa do exercício da liberdade, sem exigência da respectiva responsabilidade». Sobretudo, nas questões relativas à vida privada. Ora, cultivar a irresponsabilidade num aspecto da vida, compromete toda a educação para a responsabilidade. «Como queremos, então, promover a responsabilidade pessoal e colectiva, na economia, nas obrigações fiscais, na fidelidade aos deveres profissionais, na circulação rodoviária e no respeito pelos bens que são da comunidade?»

Perspicaz foi, pois, o nosso taxista em querer a bênção para o táxi. A acção benéfica era para ele – melhorando-o por dentro – mas também sobre o carro, sobre aquilo que o insere profissionalmente na cidade. Se não o levar a afinar o taxímetro, abreviar percursos, respeitar passageiros, conduzir com segurança, aligeirar tensões em hora de ponta – para que servirá a bênção? Mas se o fizer, não estará a curar a «crise de civilização» onde ela nasce, nas opções íntimas?

O que foi dito do taxista poderia igualmente ser dito do lojista, da assistente de produção, do comissionista, da gerente comercial, do carteiro, da decoradora de interiores. De facto, como sugere o Cardeal Patriarca, a santidade é para exprimir «na vida, na carne e no sangue das nossas opções e dos nossos ideais». A separação da fé e da vida é «a maior fragilidade da Igreja».

O ICNE incitará todos à união pessoal com Deus. Porque «a oração – assegura D. José Policarpo – pode representar uma força decisiva para a vida da cidade». Por isso propôs audazmente a todos os que puderem a participação diária na Eucaristia durante os dias do Congresso.

O ICNE são nove dias. A sua mensagem está projectada para a vida diária. Na grande «prova dos nove» da existência corrente.

 

Expresso, 29-XI-05

 

 

 

 


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