TEMAS LITÚRGICOS

Missal das Missas da Virgem Santa Maria:

Bodas de Prata

 

Pedro Boléo Tomé

 

 

 

«Infundi, Senhor, a vossa graça em nossas almas, para que nós que, pela anunciação do anjo, conhecemos a encarnação de Cristo, vosso Filho, pela sua paixão e sua cruz, com a intercessão da Virgem Santa Maria, alcancemos a glória da ressurreição…». 

Assim reza a Igreja na Colecta da festa da Virgem Santa Maria do Rosário. Numa pequena oração vemos resumidos os principais mistérios de Cristo. E é precisamente este o objetivo desta festa do Rosário (e podemos pensar também na visão pastoral e piedosa de Outubro como mês do rosário). Assim o diz a pequena introdução da nova edição do Missal Romano em português ao referir que esta festa se trata de um convite a meditar os mistérios de Cristo em companhia da Virgem Maria que foi associada de modo muito especial à encarnação, à vida pública, à paixão e à ressurreição do Filho de Deus.

Meditar os mistérios de Cristo em companhia da Virgem Maria eis o que a Igreja faz sempre que celebra a memória da Mãe do Senhor. E desde sempre. E fá-lo em consciência, inspirada pelo Espírito Santo. Neste sentido, é bem conhecido o apelo do Concílio Vaticano II de fomentar «generosamente o culto da Santíssima Virgem, sobretudo o culto litúrgico»[1]. Tendo isto em conta, há já algum tempo que tinha o objetivo de escrever uma coleção de artigos sobre a Virgem Maria e a forma como ela é abordada e referida na Liturgia. No último número, aproveitei a festa da Assunção de Nossa Senhora e levantei o tema de Maria como a Arca da Nova Aliança e a sua trasladação ao Céu e construí o artigo como uma busca dessa relação e significados nos textos eucológicos[2] e na Liturgia da Palavra dessa celebração. Pensando aprofundar em temas marianos dentro da liturgia consultei, então, o Missal da Virgem Santa Maria e surpreendi-me com o facto de, precisamente no passado dia 15 de agosto, termos celebrado as bodas de prata da sua tradução e publicação em português.[3] Vi nessa coincidência um apelo para prosseguir com este projeto mariano de artigos litúrgicos.

 

A Colectânea de Missas da Virgem Santa Maria

Trata-se de um «conjunto de celebrações que comemoram os acontecimentos da salvação realizados pelo Senhor na Santíssima Virgem, tendo em vista os mistérios de Cristo e da Igreja».[4] São textos recolhidos da tradição litúrgica da Igreja e destinam-se, sobretudo, aos santuários marianos. Assim, esta colectânea pode ser menos conhecida ou estar, inclusive, esquecida apesar dos seus 25 anos de existência. Porém, ela destina-se não apenas aos santuários, mas também a todas as comunidades que celebram a missa de Nossa Senhora nos sábados do Tempo Comum e pode ser também utilizada nos dias em que se permitem as missas facultativas.

A memória de Santa Maria no sábado é antiquíssima, remonta aos finais do século VIII quando, nos mosteiros carolíngios se começou a dedicar o sábado a Nossa Senhora. Esse costume estendeu-se rapidamente por toda a Europa e plasmou-se nos livros litúrgicos de muitas Igrejas particulares e ordens religiosas. Mais tarde, na reforma litúrgica tridentina, esta memória é inserida no Missal Romano.

S. João Paulo II aprovou e promulgou a referida “Colectânea de Missas” que recolhe formulários procedentes dessas Igrejas particulares e Institutos Religiosos e também do próprio Missal Romano.

A este propósito vale a pena realçar que a Igreja promove o culto litúrgico da Bem-aventurada Virgem Maria, mas tem um cuidado extremo de sublinhar que é em virtude da sua íntima participação na história da Salvação em união estreita com o seu Filho Jesus Cristo:

«Na verdade, a Igreja, ao celebrar a função da Mãe do Senhor na obra da redenção ou os seus privilégios, celebra, sobretudo, os acontecimentos da salvação em que, por desígnio salvífico de Deus, a Virgem Maria interveio na perspectiva do mistério de Cristo».[5] 

E é nessa linha que se insere a sua memória ao sábado. Precisamente, como véspera do Dies Domini, o Dia do Senhor: 

«Assim, enquanto se preparam para celebrar a memória semanal da ressurreição do Senhor, contemplam com veneração a Virgem Santa Maria, que, «no grande sábado», quando Cristo jazia no sepulcro, sustentada pela fé e pela esperança, só ela, entre os discípulos, esperou vigilante a ressurreição do Senhor».[6]

O decreto de promulgação desta colectânea declara que «pode ser considerada como um apêndice do Missal romano». Neste sentido ela foi estruturada precisamente à maneira do Missal Romano, com Missal e Leccionário, pelo que o volume que recolhe os textos eucológicos (Missal) inclui também todo o ordinário da Missa, bem como uma secção final de «Bênçãos solenes».

 

Os formulários para o Tempo Comum

Depois de apresentar formulários para o Advento, Natal, Quaresma e Páscoa (que trataremos nos próximos artigos), o missal contém três secções de formulários tendo em conta o aspecto do mistério que celebram:

Secção I: inclui onze formulários que celebram a memória da Mãe de Deus sob títulos tomados principalmente da Sagrada Escritura ou que exprimem a relação de Maria com a Igreja (Mãe do Senhor, Nova Mulher (Eva), Santo Nome de Maria, Templo do Senhor, Sede de Sabedoria, etc).

Secção II: consta de nove formulários, em que a Mãe do Senhor é venerada sob títulos que recordam a sua intervenção na vida espiritual dos fiéis (mãe e medianeira da graça, mestra de oração, mãe do bom conselho, causa da nossa alegria, mãe da santa esperança, etc).

Secção III: propõe oito formulários que celebram a memória de Santa Maria sob títulos que evocam a sua misericordiosa intercessão em favor dos fiéis (rainha e mãe de misericórdia, auxílio dos cristãos, Nossa Senhora das Mercês, saúde dos enfermos, rainha da paz, porta do Céu, etc).

De salientar que cada formulário é «precedido por uma introdução de índole histórica, litúrgica e pastoral (de cerca de uma página), na qual se explica brevemente a origem da memória ou título da Santíssima Virgem, se indicam por vezes as fontes do formulário e se ilustra a doutrina que emerge dos textos bíblicos e eucológicos».[7]

Por fim, salientar a riqueza e beleza dos preliminares destes volumes (missal e leccionário) que apresentam como que um pequeno manual sobre a veneração da Virgem Maria na liturgia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] LG 67

[2] Eucologia é o conjunto de orações de um livro litúrgico ou de uma celebração.

[3] O decreto de publicação desta «Coletânea de Missas da Virgem Santa Maria» da Sagrada Congregação do Culto Divino tem data de 15 de agosto de 1986. 

[4] MARQUES, D. António Francisco, Apresentação da Colectânea de Missas da Virgem Santa Maria, 15 de agosto de 1997.

[5] COLECTÂNEA DE MISSAS DA VIRGEM SANTA MARIA, Preliminares, n. 6

[6] Ibid, n. 36

[7] Ibid, n. 26


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