24º Domingo Comum

11 de Setembro de 2022

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Dai a paz, Senhor – M. Faria, NRMS, 23 

cf. Sir 36, 18

Antífona de entrada: Dai a paz, Senhor, aos que em Vós esperam e confirmai a verdade dos vossos profetas. Escutai a prece dos vossos servos e abençoai o vosso povo.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Hoje, tudo parece perdido: a ovelha, a dracma e o filho. E todos à procura: O pastor, a mulher e o pai. Por fim, a mesma alegria desmedida do encontro. Este é o «coração do evangelho» ou, se quiserem, o «evangelho do coração»! Três parábolas, para uma radiografia do coração de Deus. E um Filho, que é, em tudo, o retrato do Pai... Ele veio ao mundo salvar os pecadores! E eu sou um deles! E nisto está toda a sua festa e toda a nossa alegria! Confiemo-nos à misericórdia do Pai:

 

 

Ato Penitencial

 

“Deus imortal, invisível e único” (I Tim.1,17),

que descestes até nós, para conhecermos a altura e a profundidade do vosso amor,

Senhor, tende piedade de nós!

 

Jesus Cristo que «viestes ao mundo para salvar os pecadores,

dos quais eu sou o primeiro” (I Tim.1,16),

Cristo, tende piedade de nós!

 

Filho do Homem que viestes procurar e salvar o que estava perdido” (Lc.19,10),

Senhor, tende piedade de nós.

 

Oração colecta: Deus, Criador e Senhor de todas as coisas, lançai sobre nós o Vosso olhar; e para sentirmos em nós os efeitos do Vosso amor, dai-nos a graça de Vos servirmos com todo o coração. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Em linguagem humana, a primeira leitura fala-nos dos sentimentos divinos. Deus é rico em misericórdia.

 

Êxodo 32,7-11.13-14

 

Naqueles dias, 7o Senhor falou a Moisés, dizendo: «Desce depressa, porque o teu povo, que tiraste da terra do Egipto, corrompeu-se. 8Não tardaram em desviar-se do caminho que lhes tracei. Fizeram um bezerro de metal fundido, prostraram-se diante dele, ofereceram-lhe sacrifícios e disseram: ‘Este é o teu Deus, Israel, que te fez sair da terra do Egipto’». 9O Senhor disse ainda a Moisés: «Tenho observado este povo: é um povo de dura cerviz. 10Agora deixa que a minha indignação se inflame contra eles e os destrua. De ti farei uma grande nação». 11Então Moisés procurou aplacar o Senhor seu Deus, dizendo: «Por que razão, Senhor, se há-de inflamar a vossa indignação contra o vosso povo, que libertastes da terra do Egipto com tão grande força e mão tão poderosa? 13Lembrai-Vos dos vossos servos Abraão, Isaac e Israel, a quem jurastes pelo vosso nome, dizendo: ‘Farei a vossa descendência tão numerosa como as estrelas do céu e dar-lhe-ei para sempre em herança toda a terra que vos prometi’». 14Então o Senhor desistiu do mal com que tinha ameaçado o seu povo.

 

Este impressionante diálogo entre Deus e Moisés põe em evidência os elementos fundamentais da história da salvação, a saber, a aliança, o pecado, a fidelidade divina e a sua misericórdia. O texto foi escolhido em função do Evangelho: as parábolas da misericórdia.

11 «Moisés procurou aplacar o Senhor». É uma figura de Cristo Mediador, que também subia frequentemente ao monte para orar: Moisés intercede muitas vezes em favor do povo pecador: Ex 5,22-23; 8,4; 9,28; 10,17; Nm 11,2; 14,13-19; 18,22; 21,7. E Deus aceita esta oração, que faz apelo à sua fidelidade à aliança e à sua misericórdia (v. 14).

 

Salmo Responsorial     Sl 50 (51), 3-4.12-13.17.19 (R. Lc 15, 18)

 

Monição: Com o salmista, reconhecemos o nosso pecado e professamos que o nosso Deus é bom e compassivo.

 

 

Refrão:         Vou partir e vou ter com meu pai.

 

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,

pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.

Lavai-me de toda a iniquidade

e purificai-me de todas as faltas.

 

Criai em mim, ó Deus, um coração puro

e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.

Não queirais repelir-me da vossa presença

e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

 

Abri, Senhor, os meus lábios

e a minha boca anunciará o vosso louvor.

Sacrifício agradável a Deus é um espírito arrependido:

não desprezeis, Senhor, um espírito humilhado e contrito.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A segunda leitura apresenta-nos o testemunho e a experiência de Paulo. Cristo veio salvar os pecadores. E Paulo é o primeiro deles.

 

1 Timóteo 1,12-17

 

Caríssimo: 12Dou graças Àquele que me deu força, Jesus Cristo, Nosso Senhor, que me julgou digno de confiança e me chamou ao seu serviço, 13a mim que tinha sido blasfemo, perseguidor e violento. Mas alcancei misericórdia, porque agi por ignorância, quando ainda era descrente. 14A graça de Nosso Senhor superabundou em mim, com a fé e a caridade que temos em Cristo Jesus. 15É digna de fé esta palavra e merecedora de toda a aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores e eu sou o primeiro deles. 16Mas alcancei misericórdia, para que, em mim primeiramente, Jesus Cristo manifestasse toda a sua magnanimidade, como exemplo para os que hão-de acreditar n’Ele, para a vida eterna. 17Ao Rei dos séculos, Deus imortal, invisível e único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amen.

 

Iniciamos hoje a leitura de textos respigados das chamadas Cartas Pastorais, escritos paulinos dirigidas a pessoas singulares, pastores da Igreja, com normas para a organização das comunidades de Éfeso (1 e 2 Tim) e de Creta (Tit). O texto desta leitura é um maravilhoso hino de acção de graças de Paulo pela sua vocação de Apóstolo, bem consciente da sua indignidade – «blasfemo, perseguidor, violento», embora de boa fé, «por ignorância» (v. 13) – e da grandeza do dom de Deus, uma «graça que superabundou» (v. 14). Esta acção de graças culmina numa doxologia final, de sabor litúrgico (v. 17).

15 «É digna de fé…» Esta fórmula solene, própria das Cartas Pastorais (cf. 1Tim 3,1; 4,9; 2Tim 2,11; Tit 3,8), põe em relevo a importância doutrinal do que se diz neste versículo, um dos pontos centrais da fé cristã: a obra redentora de Cristo, que «por nós homens e pela nossa salvação desceu dos Céus…» (Credo de Niceia). A misericórdia que Deus mostrou para com Paulo é suficiente para inspirar confiança a qualquer pecador que queira arrepiar caminho.

 

Aclamação ao Evangelho        2 Cor 5, 19

 

Monição: Estamos no coração do Evangelho de Lucas. O capítulo 15 é o retrato de Deus, nosso Pai.

 

Aleluia

 

Cântico: Aleluia – C. Silva, OC (pg 534)

 

Em Cristo, Deus reconcilia o mundo consigo

e confiou-nos a palavra da reconciliação.           

 

 

Evangelho

 

Forma longa: São Lucas 15,1-32;          forma breve: São Lucas 15,1-10

 

Naquele tempo, 1os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. 2Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». 3Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: 4«Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? 5Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros 6e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Eu vos digo: 7Assim haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento. 8Ou então, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar? 9Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida’. 10Eu vos digo: Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrependa».

[Jesus disse-lhes ainda: 11«Um homem tinha dois filhos. 12O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. 13Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta. 14Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações. 15Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. 16Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! 18Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. 19Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. 20Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. 21Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. 22Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. 23Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejamos, 24porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa. 25Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. 26Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. 27O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. 28Ele ficou ressentido e não queria entrar. Então o pai veio cá fora instar com ele. 29Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. 30E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. 31Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. 32Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’».]

 

A leitura de hoje, na sua forma longa, engloba todo o cap. 15 de S. Lucas, com as três parábolas da misericórdia divina; todas as três põem em evidência a alegria que Deus sente com o reencontro com o pecador, representado na ovelha perdida (vv. 4-7), na dracma perdida (8-10) e no filho perdido (11-32). Nas duas primeiras Deus é representado à procura do pecador; na terceira, no impressionante acolhimento que lhe presta. Estas parábolas são exclusivas do Evangelho de S. Lucas; a parábola da ovelha perdida também aparece em Mt 18,10-14, mas num outro sentido: visa o cuidado que os chefes da Igreja devem pôr em não deixar que se perca nenhum dos pequeninos, isto é, aqueles fiéis que pela sua fragilidade correm mais risco de se perderem.  

Alguém considerou a parábola do filho pródigo «o evangelho dos evangelhos». É a mais bela e a mais longa das parábolas de Jesus, impregnada duma finíssima psicologia própria de quem no-la contou, Jesus, que conhece a infinita misericórdia do coração de Deus, que é o seu próprio coração, e que penetra na profundidade da alma humana (cf. Jo 2,25), onde se desenrola o tremendo drama do pecado. «Aquele filho, que recebe do pai a parte do património que lhe corresponde, e abandona a casa para o desbaratar num país longínquo, vivendo uma vida libertina, é, em certo sentido, o homem de todos os tempos, começando por aquele que em primeiro lugar perdeu a herança da graça e da justiça original. A analogia neste ponto é muito ampla. A parábola aborda indirectamente todo o tipo de rupturas da aliança de amor, todas as perdas da graça, todo o pecado» (Encíclica Dives in misericordia, nº 5; ver tb. Catecismo da Igreja Católica, nº 1439).

12 «Dá-me a parte da herança»: segundo Dt 21,17 pertencia-lhe um terço, havendo só dois filhos. O pai podia fazer as partilhas em vida (cf. Sir 30,28ss).

13 «Partiu…»: o pecado do filho foi abandonar o pai, esbanjar os seus bens e levar uma vida dissoluta.

14-16 «Uma grande fome: é a imagem do vazio e insatisfação que sente o homem quando está longe de Deus, em pecado. «Guardar porcos» era uma humilhação abominável para um judeu, a quem estava proibido criar e comer estes animais impuros. Esta situação para um filho duma boa família era absolutamente incrível, o cúmulo da baixeza e da servidão. As «alfarrobas»: o rapaz já se contentaria com uma tão indigesta e indigna comida, mas, na hora de se dar uma ração dessas aos porcos, ninguém se lembrava daquele miserável guardador! Aqui fica bem retratada a vileza do pecado e a escravidão a que se submete o homem pecador (cf. Rom 1,25; 6,6; Gal 5,1). O filho pretendia ser livre da tutela do pai, mas acaba por perder a liberdade própria da sua condição: imagem do pecador que perde a liberdade dos filhos de Deus (cf. Rom 8,21; Gal 4,31; 5,13) e se sujeita à tirania do demónio, das paixões.

17 «Então, caindo em si…» A degradação a que a loucura do seu pecado o tinha levado fê-lo reflectir (é o começo da conversão) e enveredar pela única saída digna e válida.

18-19 «Vou-me embora»: A tradução latina (surgam = levantar-me-ei) do particípio gráfico (mas não ocioso) do original grego – «levantando-me, vou ter...» – é muito mais expressiva do que a tradução litúrgica, pois, duma forma viva, indica a atitude de quem começa a erguer-se da sua profunda miséria. A nova tradução da CEP tem: «Vou levantar-me, vou ter com meu pai e dizer~lhe».

«Pequei contra o Céu e contra ti»: nesta expressão retrata-se a dimensão transcendente do pecado; não é uma simples ofensa a um homem, é ofender a Deus, uma ofensa de algum modo infinita! O filho não busca desculpas, reconhece sinceramente a enormidade da sua culpa.

«Trata-me como um dos teus trabalhadores». É maravilhoso considerar como naquele filho arrependido começa a brotar o amor ao pai; o que ele ambiciona é ir para junto do pai, estar junto a ele é o que o pode fazer feliz! Melhorar a sua situação material não é o que mais o preocupa, pois, para isso, qualquer proprietário da sua pátria o podia admitir como jornaleiro; assim a parábola não descreve uma atitude interesseira do filho, mas a humildade e a contrição de quem se reconhece pecador. Por outro lado, ele não se atreve a pedir ao pai que o admita no gozo da sua antiga condição de filho, porque reconhece a sua indignidade: «já não mereço ser chamado teu filho».

20 «Ainda ele estava longe, quanto o pai o viu». Este pormenor faz pensar que o pai não só desejava ansiosamente o regresso do filho, mas também, muitas vezes, observava ao longe os caminhos, impaciente de ver o filho chegar quanto antes, uma enternecedora imagem de como Deus aguarda a conversão do pecador. «Encheu-se de compaixão»: o verbo grego é muito expressivo e difícil de traduzir com toda a sua força, esplankhnístê: «comoveram-se-lhe as entranhas» (tà splánkhna). «E correu…»: é impressionante o contraste entre o pai que corre para o filho e o filho que simplesmente caminha para o pai – «a misericórdia corre» (comenta Sto. Agostinho); «cobrindo-o de beijos», numa boa tradução que tem em conta a forma iterativa do verbo grego, é uma belíssima e expressiva imagem do amor de Deus para com um pecador arrependido! A nova tradução da CEP tem: «beijou-o repetidamente».

21 «Pai, pequei». Apesar de se ver assim recebido pelo pai, o filho não se escusa de confessar o seu pecado e de manifestar a atitude interior que o move a regressar.

22 «A melhor túnica, o anel, o calçado», são uma imagem da graça, o traje nupcial (cf. Mt 22,11-13); assim nos espera o Senhor no Sacramento da Reconciliação, não para nos ralhar, recriminar, mas para nos admitir na sua antiga intimidade, restituindo-nos, cheio de misericórdia, a graça perdida.

23 «Comamos e festejemos», a imagem da Sagrada Eucaristia, segundo um sentido espiritual corrente.

25-32 «O filho mais velho»: esta segunda parte da parábola não se pode limitar a uma censura dos fariseus e escribas (v. 2), cumpridores, mas insensíveis ao amor – o mais velho é que é, no fim de contas, o filho mau –; a parábola é também uma lição para todos, a fim de que imitem a misericórdia de Deus para com um irmão que pecou (cf. Lc 6,36); ele é sempre «o teu irmão» (v. 33), e não há direito de que não se tome a sério a misericórdia de Deus, com aquela despeitada ironia: «esse teu filho» (v 30). A misericórdia de Deus é tão grande, que ultrapassa uma lógica meramente humana; esta segunda parte da parábola põe em evidência a misericórdia de Deus a partir do contraste com a mesquinhez do filho mais velho.

 

Sugestões para a homilia

 

1. Perdidos e achados

2. Imitadores de Deus

 

 

1. Perdidos e achados

 

Perdidos e achados: as três parábolas da misericórdia. O «bezerro de metal fundido», de que fala a 1ª Leitura, tornou-se símbolo de todas as formas de adoração de ídolos, que são deuses falsos, inexistentes. As pessoas, desde sempre, gostam de ver, tocar, adorar imagens. Hoje em dia, o «bezerro de ouro» assume muitas figuras: são as grandes riquezas, o prestígio, o culto idolátrico por personagens do mundo da música e do desporto, muito raramente os «benfeitores» da humanidade. Estes objetos de veneração, por vezes histérica, não nos garantem qualquer tipo de felicidade autêntica e, muito menos, a salvação.

Quando a fé começa a esfriar e a esmorecer, as pessoas procuram substitutos para ela: algo de palpável, visível, ilusoriamente eficaz contra os males que as apoquentam. Vale-nos a fidelidade do nosso Deus único, invisível, que permanece no seu mistério. Jesus mostra-nos o rosto de Deus, não feito por mãos humanas nem simples representação dos nossos desejos terrenos mesquinhos. Alternativa aos «bezerros de ouro» é Deus, Pai do pródigo e do outro irmão. Deus Pai não abandona o filho que quis abandonar o Pai. Diz-nos o Evangelho que escutámos, que o Senhor busca o que se perdeu, o abraça quando ele se arrepende e regressa a casa, esquece a ofensa e festeja, iniciando-se um novo recomeço. Esta é a imagem autêntica do verdadeiro Deus único, que merece ser adorado, só Ele, porque permanece amigo e presente quando nos ausentamos d’Ele e vamos atrás de divindades ocas e ilusórias. O nosso, é um Deus dos «perdidos e achados», dos que querem recomeçar.

 

 

2. Imitadores de Deus

 

Ovelha perdida, dracma, filho perdido. A alegria do pastor, a alegria da mulher, a alegria do pai! A alegria de Deus, representado nessas figuras! Jesus, que nos diz como é Deus, Jesus é como o Pai, quer que sejamos como Deus e como Ele. Mostra-nos isso mesmo, ao responder, com as três parábolas, à acusação de que «acolhe os pecadores e come com eles». O Senhor pratica e apregoa a cultura da misericórdia, incitando-nos a imitar nada menos que o próprio Deus: «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36).

Como Deus misericordioso, queremos alegrar-nos com o recomeço de toda e qualquer pessoa «difícil»: dando acolhimento aos que «caíram», sem olharmos mais à «honra» da família ou da instituição do que à possível reabilitação do «delinquente»; buscando, com imaginação e fantasia, e sem descanso nem desistência, caminhos de acesso à reconciliação entre desavindos; tentando sanar feridas antigas de querelas do passado. Devemos exercitar a misericórdia também com a nossa própria pessoa: nem sempre fomos heróis, cometemos erros e omissões graves, mas isso não é motivo para ficarmos paralisados. O que há a fazer é reconhecer os factos, arrependermo-nos, e não esquecer que «é errando que se aprende».

Deus não desiste de nós, em circunstância nenhuma, como não desistiu do povo de Israel (1ª Leitura). Não desistamos d’Ele, por mais que Lhe tenhamos sido infiéis e ingratos. Para o Senhor, não há «casos perdidos». Estamos sempre a tempo de reconhecermos o que o Pai do pródigo quis/quer fazer ver ao outro filho: «Tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu». Ou antes: «Eu estou sempre contigo e tudo o que é teu é meu: as tristezas causadas pelo pecado e as alegrias do abraço da reconciliação e do novo começo».

 

Fala o Santo Padre

 

«Jesus acolhe os pecadores e come com eles. É o que nos acontece, em cada Missa, em cada igreja:

Jesus está feliz por nos acolher na sua mesa, onde se oferece por nós.

Esta é a frase que poderíamos escrever nas portas das nossas igrejas:

“Aqui Jesus acolhe os pecadores e convida-os para a sua mesa”»

O Evangelho de hoje (Lc 15, 1-32) começa com alguns que criticam Jesus, vendo-o na companhia de publicanos e pecadores, e dizem com desdém: «Ele acolhe os pecadores e come com eles» (v. 2). Na realidade esta frase revela-se um anúncio maravilhoso. Jesus acolhe os pecadores e come com eles. É o que nos acontece, em cada Missa, em cada igreja: Jesus está feliz por nos acolher na sua mesa, onde se oferece por nós. Esta é a frase que poderíamos escrever nas portas das nossas igrejas: «Aqui Jesus acolhe os pecadores e convida-os para a sua mesa». E o Senhor, respondendo aos que o criticavam, conta três parábolas, três parábolas maravilhosas, que mostram a sua predileção por aqueles que se sentem distantes dele. Hoje seria bom que cada um de vós pegasse no Evangelho, o Evangelho de Lucas, capítulo 15, e lesse as três parábolas. São maravilhosas.

Na primeira parábola ele diz: «Qual é o homem dentre vós que, possuindo cem ovelhas e tendo perdido uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai à procura da que se tinha perdido, até a encontrar?» (v. 4) Qual de entre vós? Uma pessoa de bom senso não o faz: faz dois cálculos e sacrifica uma para manter as noventa e nove. Deus, ao contrário, não se resigna, Ele preocupa-se por ti, precisamente por ti que ainda não conheces a beleza do seu amor, por ti, que ainda não aceitaste Jesus no centro da tua vida, tu que não podes vencer o teu pecado, por ti que talvez ainda não acreditas no amor por causa das coisas más que aconteceram na tua vida. Na segunda parábola, tu és aquela pequena moeda que o Senhor não se resigna a perder e procura incansavelmente: Ele quer dizer-te que és precioso aos seus olhos, que és único. Ninguém te pode substituir no coração de Deus. Tu tens um lugar, és tu, e ninguém te pode substituir; e eu também, ninguém me pode substituir no coração de Deus. E na terceira parábola Deus é o pai que espera o regresso do filho pródigo: Deus espera sempre por nós, não se cansa, não desanima. Porque somos nós, cada um de nós, o filho abraçado de novo, a moeda reencontrada, aquela ovelha que acariciamos e colocada aos ombros. Ele espera todos os dias que nos apercebamos do seu amor. Tu dizes: «Mas eu comportei-me mal, tive muitos comportamentos maus!». Não tenhas medo: Deus ama-te, Ele ama-te tal como és e sabe que só o Seu amor pode mudar a tua vida.

Mas este amor infinito de Deus por nós, pecadores, que é o coração do Evangelho, pode ser rejeitado. É o que faz o filho mais velho da parábola. Ele não entende o amor naquele momento e tem em mente mais um dono do que um pai. É um risco para nós também: acreditar num deus mais rigoroso do que misericordioso, um deus que derrota o mal com o poder e não com o perdão. Não é assim, Deus salva com o amor, não com a força; propondo-se e não impondo-se. Mas o filho mais velho, que não aceita a misericórdia do seu pai, fecha-se, comete um erro pior: ele presume que é justo, presume que é atraiçoado e julga tudo com base no seu conceito de justiça. Então ele zanga-se com o irmão e reprova o pai: «Mataste o bezerro gordo agora que este teu filho voltou» (cf. v. 30). Este teu filho, não o chama meu irmão, mas o teu filho. Ele sente-se como um filho único. Também nós erramos quando achamos que temos razão, quando achamos que os maus são os outros. Não nos consideremos bons, porque sozinhos, sem a ajuda de Deus que é bom, não sabemos como vencer o mal. Hoje não vos esqueçais, peguem no Evangelho e lede as três parábolas de Lucas, capítulo 15. Vai fazer-vos bem, será saudável para vós.

Como se derrota o mal? Aceitando o perdão de Deus e o perdão dos irmãos. Acontece todas as vezes que nos confessamos: lá recebemos o amor do Pai que vence o nosso pecado: ele desaparece, Deus esquece-se dele. Deus, quando perdoa, perde a memória, esquece os nossos pecados, esquece. Deus é tão bom connosco! Não como nós, que depois de dizer «não importa», na primeira oportunidade nos lembramos com os juros dos males sofridos. Não, Deus cancela o mal, renova-nos e assim faz renascer em nós a alegria, não a tristeza, não as trevas no coração, não a suspeita, mas a alegria.

Irmãos e irmãs, coragem, com Deus nenhum pecado tem a última palavra. Nossa Senhora, que desata os nós da vida, nos liberte da pretensão de nos crermos justos e nos faça sentir a necessidade de procurar o Senhor, que está sempre à nossa espera para nos abraçar, para nos perdoar.

 Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, 15 de setembro de 2019

 

Oração Universal

 

P - A Deus, nosso Pai, rico em misericórdia, confiemos as preocupações e as necessidades do seu Povo em oração.

 

R. Ouvi-nos, Senhor.

 

1. Pela Igreja de Jesus Cristo:

para que cresça sempre como Casa de Comunhão. Oremos, irmãos.

 

2. Pelos responsáveis no governo das nações:

para que promovam o crescimento do mundo,

como casa de Paz para todos os povos. Oremos, irmãos.

 

3. Pelo bom êxito do novo ano escolar, laboral e pastoral:

para que o regresso à escola, se torne para todos

uma graça de alegria e sabedoria. Oremos, irmãos.

 

4. Por todos nós aqui presentes:

para que saibamos perdoar, acolher e voltar o coração

para Deus e para os outros. Oremos, irmãos.

 

5. Por todos os jovens que irão participar na Jornada Mundial da Juventude

para que, experimentando a alegria da comunhão,

se levantem apressadamente para socorrer os mais frágeis. Oremos, irmãos.

 

P - Pai de Misericórdia e Deus de toda a consolação, que quereis a conversão dos pecadores e não a sua morte, vinde em auxílio do vosso Povo, para que em Vós encontre a vida. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Onde há caridade e amor – M. Luís, CNPL, pg 766

 

Oração sobre as oblatas: Ouvi, Senhor, com bondade as nossas súplicas e recebei estas ofertas dos vossos fiéis, para que os dons oferecidos por cada um de nós para glória do vosso nome sirvam para a salvação de todos. Por Nosso Senhor...

 

Prefácio:

 

Oração Eucarística da Reconciliação I com prefácio próprio

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Santo: A. Cartageno – COM, (pg 189)

 

Monição da Comunhão

 

Que o gesto de comungar seja o sinal verdadeiro e eficaz da nossa comunhão em Cristo, da nossa aceitação dos fracos e pecadores. Cristo veio salvar os pecadores e eu sou o primeiro deles.

 

Cântico da Comunhão:  A paz vos deixo – J. F. Silva, NRMS, 1(II)

Sl 35, 8

Antífona da comunhão: Como é admirável, Senhor, a vossa bondade! Na sombra das vossas asas se refugiam os homens.

Ou:    Sl 35, 8

O cálice de bênção é comunhão no Sangue de Cristo; e o pão que partimos é comunhão no Corpo do Senhor.

 

Cântico de acção de graças: Louvado seja o meu Senhor – J. Santos, NRMS, 30 

 

Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, concedei que este sacramento celeste nos santifique totalmente a alma e o corpo, para que não sejamos conduzidos pelos nossos sentimentos mas pela virtude vivificante do vosso Espírito. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Depois da festa em Casa do Pai, partimos para a vida na companhia de Cristo. Ide em paz...

 

Cântico final: Vós sereis meus amigos – M. Faria, NRMS, 29

 

 

Homilias Feriais

 

24ª SEMANA

 

2ª Feira, 12-IX: Santíssimo Nome de Maria.

1 Cor 11. 17-20 / Lc 7, 1-10

Na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e disse: Isto é o meu Corpo. Fazei isto em memória de mim.

Para construir a nossa vida sobre fundamentos sólidos, escutemos a palavra de Deus e punhamo-la em prática. O centurião acreditou na palavra do Senhor (EV) e o seu servo ficou curado. Pode servir o exemplo de Nossa Senhora, de quem lembramos hoje o dia do Santíssimo Nome de Maria, que nos serve de exemplo: faça-se em mim segundo a vossa Palavra. Aqui estou, Senhor, para fazer a vossa vontade (SR)

Apoiemos a nossa vida sobre a Eucaristia (LT) e agradeçamos à nossa Mãe. O Corpo e o Sangue de Cristo são fruto do seu Sim, e do Espírito Santo.

 

3ª Feira, 13-IX: A Misericórdia do Senhor.

1 Cor 12, 12-14. 27-31 / Lc 7, 11-17

E vinha com a viúva bastante gente da cidade. Ao vê-la, o Senhor compadeceu-se e disse-lhe: Não chores.

Jesus veio carregar com as nossas misérias sobre os seus ombros, veio compadecer-se dos que sofrem, como a viúva de Naim (EV). Jesus faz da misericórdia um dos temas principais da sua pregação. São muitos os lugares em que se manifesta o seu amor-misericórdia sob uma espécie sempre nova. Procuremos ser igualmente misericordiosos com os outros (LT).

O Senhor é bom, é eterna a sua misericórdia (SR). Para imitarmos bem o Senhor procuremos igualmente ser misericordiosos para com os outros.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Nuno Westwood

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                   Nuno Romão

Sugestão Musical:                José Carlos Azevedo

 


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