23º Domingo Comum

4 de Setembro de 2022

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Senhor é minha luz e salvação – M. Faria, NRMS, 16

Sl 118, 137.124

Antífona de entrada: Vós sois justo, Senhor, e são rectos os vossos julgamentos. Tratai o vosso servo segundo a vossa bondade.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Quando vamos a uma terra desconhecida, precisamos de um guia, hoje substituído, em parte, pelo GPS, quando está bem regulado.

Para caminharmos da terra ao Céu, no meio de tantos enganos, temos necessidade de alguém que nos oriente, para não nos perdermos.

Jesus Cristo veio à terra para nos restituir a vida da graça que o demónio nos tinha roubado e ensinar-nos o caminho do Céu.

Na Liturgia da Palavra de 23.º Domingo do Tempo Comum, o Senhor Jesus oferece-Se para nosso guia no caminho da eternidade feliz.

 

Acto penitencial

 

Reconheçamos na presença do Senhor que muitas vezes temos prestado atenção aos falsos guias – o demónio, as más companhias e a nossas paixões, em vez de atendermos aos ensinamentos de Jesus que a fé nos oferece.

Peçamos perdão deste descaminho e prometamos emenda de vida, ajudados pelo Senhor Jesus.

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C)

 

•    Senhor Jesus: Escutamos mais facilmente a voz das nossas paixões,

     do que os Vossos ensinamentos e inspirações em nossa consciência.

     Senhor, tende piedade de nós.

 

     Senhor, tende piedade de nós.

 

•    Cristo: Estamos marcados pela cobardia que nos leva a fugir da cruz

     e, por isso, temos sido somos cobardes quando nos pedis sacrifício.

     Cristo, tende piedade de nós.

 

     Cristo, tende piedade de nós.

 

•    Senhor Jesus: Gostamos muito de ser perdoados por Vós das ofensas,

     mas custa-nos muito perdoar àqueles que alguma vez nos ofenderam.

     Senhor, tende piedade de nós.

 

     Senhor, tende piedade de nós.

 

Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,

perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.

 

Oração colecta: Senhor nosso Deus, que nos enviastes o Salvador e nos fizestes vossos filhos adoptivos, atendei com paternal bondade as nossas súplicas e concedei que, pela nossa fé em Cristo, alcancemos a verdadeira liberdade e a herança eterna. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O autor do Livro da Sabedoria diz-nos, sem qualquer atenuante, que só em Deus encontramos a verdadeira felicidade.

Esta certeza deve orientar-nos e fortalecer-nos, quando o Inimigo do homem tenta lançar a confusão dentro de nós.

 

Sabedoria 9,13-19 (gr. 13-18b)

 

13Qual o homem que pode conhecer os desígnios de Deus? Quem pode sondar as intenções do Senhor? 14Os pensamentos dos mortais são mesquinhos e inseguras as nossas reflexões, 15porque o corpo corruptível deprime a alma e a morada terrestre oprime o espírito que pensa. 16Mal podemos compreender o que está sobre a terra e com dificuldade encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem poderá então descobrir o que há nos céus? 17Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios, se Vós não lhe dais a sabedoria e não lhe enviais o vosso espírito santo? 18Deste modo foi corrigido o procedimento dos que estão na terra, os homens aprenderam as coisas que Vos agradam e pela sabedoria foram salvos.

 

A leitura é o final da 2ª parte do livro da Sabedoria (cap. 6 – 9), em que se põe na boca de Salomão, protótipo do homem sábio, o elogio da sabedoria, terminando com uma longa oração (todo o cap. 9), de que lemos aqui os últimos versículos. A Vulgata latina dividiu o último versículo, o 18, em dois (18 e 19).

13-16 «Qual o homem que pode conhecer…?» O homem, entregue só às forças da sua própria razão, não pode descortinar os desígnios inescrutáveis de Deus, pois o seu espírito está prisioneiro da matéria, na linguagem da antropologia filosófica grega aqui adoptada; o corpo é concebido como a morada terrestre do espírito (v. 15).

17-18 «A sabedoria, o santo espírito» é um dom divino para se poder pensar e proceder segundo o pensamento e a vontade de Deus. A história da salvação documenta o bem que é ser guiado pela sabedoria divina, a par do mal que é viver privado dela (cf. capítulos finais do livro da Sabedoria: 10 – 19).

 

Salmo Responsorial     Sl 89 (90), 3-6.12-14.17 (R. 1)

 

Monição: O Salmo que a Liturgia deste Domingo nos propõe entoar é um hino de louvor à Sabedoria do nosso Deus.

Será uma bela oração para todos os nossos dias, especialmente para aqueles em que o sol está encoberto.

 

 

Refrão:         Senhor, tendes sido o nosso refúgio

                      através das gerações.

 

Vós reduzis o homem ao pó da terra

e dizeis: «Voltai, filhos de Adão».

Mil anos a vossos olhos são como o dia de ontem que passou

e como uma vigília da noite.

 

Vós os arrebatais como um sonho,

como a erva que de manhã reverdece;

de manhã floresce e viceja,

à tarde ela murcha e seca.

 

Ensinai-nos a contar os nossos dias,

para chegarmos à sabedoria do coração.

Voltai, Senhor! Até quando...

Tende piedade dos vossos servos.

 

Saciai-nos desde a manhã com a vossa bondade,

para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias.

Desça sobre nós a graça do Senhor nosso Deus.

Confirmai, Senhor, a obra das nossas mãos.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Paulo, já prisioneiro em Roma, intercede junto de um cristão chamado Filémon, para que perdoe e acolha o antigo escravo Onésimo.

É uma carta que nos inspira como comportarmo-nos, quando nos julgarmos ofendidos por alguém.

 

Filémon 9b-10.12-17

 

Caríssimo: 9bEu, Paulo, prisioneiro por amor de Cristo Jesus, 10rogo-te por este meu filho, Onésimo, que eu gerei na prisão. 12Mando-o de volta para ti, como se fosse o meu próprio coração. 13Quisera conservá-lo junto de mim, para que me servisse, em teu lugar, enquanto estou preso por causa do Evangelho. 14Mas, sem o teu consentimento, nada quis fazer, para que a tua boa acção não parecesse forçada, mas feita de livre vontade. 15Talvez ele se tenha afastado de ti durante algum tempo, a fim de o recuperares para sempre, 16não já como escravo, mas muito melhor do que escravo: como irmão muito querido. É isto que ele é para mim e muito mais para ti, não só pela natureza, mas também aos olhos do Senhor. 17Se me consideras teu amigo, recebe-o como a mim próprio.

 

Agora, provavelmente no seu primeiro cativeiro romano (60-62), S. Paulo escreve ao seu amigo a sua mais breve carta (25 versículos), uma peça de grande valor literário e que revela a sua fina sensibilidade. A leitura respiga apenas 8 versículos dispersos.

9 «Eu Paulo…» A tradução portuguesa suprimiu o adjectivo «velho», com que Paulo se classifica. Trata-se de uma velhice relativa, pois uns 25 anos antes, quando do martírio de Estêvão, é chamado «jovem» (Act 7,58). No 1º cativeiro romano deveria ter entre 50 e 60 anos de idade. Bento XVI, ao proclamar o ano paulino, parte da suposição de que S. Paulo nasceu no ano 7 da era cristã, o que condiz com esta idade. Dada a esperança de vida de então, uma pessoa com mais de 50 anos já se poderia considerar um ancião.

10 Onésimo, um escravo fugitivo do cristão abastado de Colossas, Filémon, a quem S. Paulo baptizou em Roma durante o cativeiro em regime de «custódia líbera», isto é, à solta, mas sempre vigiado por um soldado que se revezava trazendo o seu braço direito atado ao braço esquerdo dele. É por isso que é chamado «este meu filho que gerei na prisão». Onésimo em grego significa proveitoso, útil; S. Paulo brinca com um trocadilho (no v. 11 que não aparece na leitura): «ele outrora foi inútil para ti (porque fugitivo), mas agora é útil para ti e para mim». Toda a carta está repassada da fina sensibilidade do coração de Paulo, e onde não falta até o bom humor.

17-17 «A fim de o recuperares para sempre, não já como escravo, mas... como irmão muito querido». S. Paulo envia a Filémon o escravo fugitivo, tornado agora um irmão, não só pela sua condição de homem - pela natureza - mas também pelo Baptismo - aos olhos do Senhor. Não é para ninguém estranhar que S. Paulo tenha transigido com a estrutura social da escravatura, remetendo um escravo fugitivo ao seu dono, embora com um cartão de recomendação. Abolir de chofre esta instituição social era impossível; por outro lado, o objectivo da missão apostólica não era a revolução social, mas pôr no coração de todos os homens a doutrina e o amor de Cristo, que, quando vividos, são o fermento de renovação da própria sociedade e das suas estruturas.

 

Aclamação ao Evangelho        Sl 118 (119), 135

 

Monição: Nem sempre é fácil descobrir qual a vontade do Senhor a nosso respeito em situações concretas da vida.

O Evangelho ilumina-as, facilitando-nos o caminho. Aclamemo-lo com júbilo.

 

Aleluia

 

Cântico: M. Faria, NRMS, 87

 

Fazei brilhar sobre mim, Senhor, a luz do vosso rosto

e ensinai-me os vossos mandamentos.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 14,25-33

 

Naquele tempo, 25seguia Jesus uma grande multidão. Jesus voltou-Se e disse-lhes: 26«Se alguém vem ter comigo, sem Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. 27Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo. 28Quem de vós, que, desejando construir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que terminá-la? 29Não suceda que, depois de assentar os alicerces, se mostre incapaz de a concluir e todos os que olharem comecem a fazer troça, dizendo: 30‘Esse homem começou a edificar, mas não foi capaz de concluir’. 31E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro a considerar se é capaz de se opor, com dez mil soldados, àquele que vem contra ele com vinte mil? 32Aliás, enquanto o outro ainda está longe, manda-lhe uma delegação a pedir as condições de paz. 33Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo».

 

S. Lucas apresenta «uma grande multidão» da Palestina a seguir Jesus, mas quer que, com as palavras de Jesus, fique bem claro para os seus leitores que há exigências para todos os que O hão-de seguir «até aos confins do mundo» (cf. Act 1,8). É que não se trata apenas de se sentir atraído por uma doutrina superior, mas de seguir Jesus com todas as renúncias que isso implica: «Não pode ser meu discípulo…», insiste por três vezes (vv. 26.27.33). As exigências de Jesus são-nos aqui propostas sem rodeios e em toda a sua crueza e vigor. S. Lucas é o evangelista que mais acentua não só a bondade de Cristo, mas também as suas exigências.

26 «Sem me preferir ao pai...» Esta tradução pretende evitar o chocante idiotismo hebraico, «odiar o pai…», que, mais do que uma força da expressão, é uma forma expressiva, muito ao estilo de Jesus, para chamar a atenção para algo muito importante, de modo a que o ensino fique bem gravado para sempre na memória dos ouvintes. É que seguir a Jesus como seu discípulo não admite meias tintas, concessões ou contemporizações de qualquer espécie: Jesus exige um amor acima de tudo, que só Deus pode exigir, situando-se assim no mesmo plano de Deus, deixando ver a sua divindade. Sendo assim, «odiar…» poderia traduzir-se por «estar disposto a renunciar ao amor de…»; Jesus não revoga o 4º mandamento da Lei de Deus, mas situa-o na justa escala de valores, como se lê em Mt 10,37: «quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim não é digno de Mim». Numa palavra, para seguir a Jesus é preciso estar disposto a sacrificar os afectos humanos mais nobres. A nova tradução da CEP tem: «menosprezar o pai...».

28-32 Estas duas parábolas – a do homem que constrói uma torre e a do rei que vai para a guerra – exclusivas de S. Lucas, demonstram graficamente que seguir a Jesus sem abraçar a sua cruz é afadigar-se a trabalhar para um saco roto: é deitar a perder tudo o que uma pessoa se propôs com o seguimento de Cristo.

33 «Renunciar a todos os seus bens». A radicalidade do seguimento de Cristo tem consequências também no que diz respeito aos bens deste mundo, exige o desprendimento deles, embora não necessariamente o prescindir deles; mas os bens não passam de simples meios para chegar a Deus. Seguir a Jesus é dizer não à mediocridade, a aurea mediocritas dos romanos, exaltada pelo poeta Horácio.

 

Sugestões para a homilia

 

• Jesus, nosso Guia

• A caminho do Céu

 

1. Jesus, nosso Guia

 

Afirmar que Jesus é o Salvador quer dizer que Jesus é Aquele que nos liberta das trevas da ignorância, da incerteza e dos enganos sobre o que verdadeiramente nos interessa e nos conduz à felicidade eterna.

O texto do Livro da Sabedoria começa por tentar desapegar-nos do nosso modo de olhar a vida presente, para nos deixarmos guiar pelo Senhor.

A vontade de Deus e a nossa. É muito importante para nós saber qual é a vontade de Deus a nosso respeito, numa situação concreta da vida. Corremos o perigo de confundir o que Deus quer com o que nos agrada, com o que nós queremos.

Precisamos de nos desprender interiormente da nossa vontade, dos nossos interesses e gostos, para aceitar o que Ele quer.

Muitas das crises de fé surgem desta falta de aceitação da vontade de Deus a nosso respeito. Recusamo-nos ver qual é a Sua vontade.

Os desígnios de Deus. Deus tem um projeto de amor e de felicidade para cada um de nós. Criou-nos para sermos felizes, também nesta vida, e para nos acolher na felicidade do Céu para sempre.

Mas não podemos tomar os desígnios de Deus pelos nossos planos, que muitas vezes são rasteiros, mesquinhos, terrenos, e não passam além das nuvens.

«Qual o homem que pode conhecer os desígnios de Deus? Quem pode sondar as intenções do Senhor? Os pensamentos dos mortais são mesquinhos e inseguras as nossas reflexões»

Corações ao alto. Acontece, porém, que a felicidade enganosa com que sonhamos – boa comida e todos os prazeres que a vida nos pode oferecer; importância social e muito dinheiro para crescer aos olhos dos outros – não é a que Deus quer para cada um dos Seus filhos.

«Mal podemos compreender o que está sobre a terra e com dificuldade encontramos o que temos ao alcance da mão

Mas não é esta felicidade enganosa que o Senhor quer para nós, porque só sacia os sentidos e o nosso orgulho.

Peçamos luz ao Senhor.  Com humildade, devemos pedir ao Senhor que nos ilumine e nos mostre qual é a Sua vontade, porque este é o interesse verdadeiro, a única coisa que nos interessa.

Foi para nos ajudar a ver mais longe, corrigindo o nosso olhar míope, que o Senhor nos deu a luz da fé. Quando olhamos as coisas a esta luz, vemos que o que nos parecia bom, por vezes não o é; e também acontece o contrário.

«Quem poderá então descobrir o que há nos céus? Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios, se Vós não lhe dais a sabedoria e não lhe enviais o vosso espírito santo?»

Para nos guiarmos com verdade na vida presente, o Senhor deixou-nos ajudas indispensáveis que passam pela humildade de consultar, de rezar e estudar os problemas.

Deste modo, não nos desviamos do caminho da vida que nos deve levar às portas do Céu.

 

2. A caminho do Céu

 

Olhadas com superficialidade humana, as exigências de Jesus Cristo no Evangelho deixam-nos a impressão, num primeiro olhar, que nos indicam um caminho contrário à felicidade que procuramos.

Seguir Jesus Cristo. Deus quer de nós um amor apreciativamente sumo. Amar a Deus sobre todas as coisas significa, na prática, que deixamos, embora com sacrifício, até as coisas que mais apreciamos, para fazermos a vontade de Deus.

Nenhum amor na nossa vida pode ser superior ao amor de Deus, quando precisamos de tomar uma decisão. De acordo com esta verdade, não se pode, por um falso pretexto de amor humano, abandonar-se ao pecado e afastar-se de Deus. Neste caso, o próprio amor humano que nos serve de pretexto é falso como Judas.

«Se alguém vem ter comigo, sem Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo

Só amamos verdadeiramente as pessoas, quando colocamos Deus em primeiro lugar nas nossas escolhas. O amor humano nunca nos pode separar de Deus.

Com a cruz da vida aos ombros. A cruz é tudo o que contraria a nossa vontade ou sensibilidade: feitio das pessoas, custo do trabalho sonhos não realizados, etc.

Somos naturalmente tentados a fugir do que nos custa sacrifício, por causa da repugnância natural que temos do sacrifício. E se não estivermos atentos, fabricaremos facilmente uma desculpa para esta fuga, justificando o nosso procedimento.

«Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo

Seguimos Jesus Cristo com ela aos ombros quando, embora com custo, a levamos sem nos revoltarmos nem queixarmos.

Não devemos ordinariamente procurar o sacrifício, as doenças e complicações da vida. Havemos de usar a inteligência e os outros dotes recebidos de Deus para isso.

Mas quando nos deixamos apanhar por uma espécie de obsessão de fugir de tudo o que nos custa, acabamos por fugir do próprio Deus, da Sua vontade, ao fugirmos da cruz.

Às vezes também pode meter-se aqui a procura de nós mesmos, chamando a atenção dos outros sobre o que estamos a padecer, com as queixas e lamentações, para nos tornarmos o centro das atenções.

Quando precisarmos de ajuda devemos pedi-la com simplicidade, mas havemos de evitar tornarmo-nos o centro do mundo.

Começar as coisas e concluí-las. A nossa grande construção no tempo presente é alcançar a salvação eterna. «Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?»

Dentro deste levar a cruz, está o avaliar as próprias forças, para não deixarmos as coisas incompletas. Entre estas ajudas está a oração humilde e confiada.

Para isso temos de começar por medir forças e recursos. Logo veremos que, sem a ajuda de Deus que no-la dá na oração e nos Sacramentos, não conseguiremos alcançá-la.

A importância do perdão. Por vezes, a cruz de perdoar as ofensas recebidas é o que temos de mais difícil na nossa vida. Refugiamo-nos em falsas razões de honra, de bom senso e não sei que mais.

S. Paulo escreveu a Filémon, quando estava prisioneiro em Roma. Este rico Senhor tinha sido roubado por um escravo – Onésimo – que depois fugiu.

Mais tarde converteu-se, foi batizado por S. Paulo e reenviado ao seu antigo senhor, com uma carta de recomendação.

Com palavras encantadoras, S. Paulo escreve: «Se me consideras teu amigo, recebe-o como a mim próprio

Maria acolhe generosamente a cruz de cada dia: as dúvidas de José, antes de o anjo lhe ter revelado o mistério que se passava n’Ela, o desconforto de Belém, a fuga para o Egito, a viuvez precoce e a morte de Jesus, porque colocou sempre e em tudo em primeiro lugar, a vontade de Deus.

Peçamos a sua ajuda materna, para A imitarmos a seguir este caminho do Céu.

 

Fala o Santo Padre

 

«No caminho para Jerusalém, com estas exigências, o Senhor quer preparar os seus discípulos

para a festa da irrupção do Reino de Deus, libertando-os deste obstáculo perigoso que é,

em última instância, uma das piores escravidões: viver para si mesmo.»

Disse-nos o Evangelho que «seguiam com [Jesus] grandes multidões» (Lc 14, 25). À semelhança daquelas multidões que se aglomeravam no percurso de Jesus, também vós viestes em grande número para acolher a sua mensagem e segui-Lo. Mas, como bem sabeis, não é fácil seguir os passos de Jesus. Vocês não repousaram e tantos de vós, passaram aqui a noite. Realmente o evangelho de Lucas lembra-nos, hoje, as exigências deste compromisso.

É importante notar que estas indicações são dadas no quadro da subida de Jesus para Jerusalém, entre a parábola do banquete – onde o convite é aberto a todos, especialmente às pessoas rejeitadas que vivem nas ruas e nas praças, nas encruzilhadas – e as três parábolas ditas da misericórdia, onde se organiza a festa quando a pessoa perdida é reencontrada, quando aquele que parecia morto é recebido, festejado e devolvido à vida pela possibilidade dum novo recomeço. Qualquer renúncia cristã só tem sentido à luz da alegria e da festa do encontro com Jesus Cristo.

A primeira exigência convida-nos a verificar as nossas relações familiares. A vida nova que o Senhor nos propõe parece incómoda e transforma-se numa injustiça escandalosa para quantos creem que é possível limitar ou reduzir o acesso ao Reino dos Céus apenas aos laços de sangue, à pertença a um grupo determinado, a um clã ou a uma cultura particular. Quando o «parentesco» se torna a chave decisiva e determinante de tudo o que é justo e bom, acaba-se por justificar e até mesmo «consagrar» alguns comportamentos que levam à cultura dos privilégios e da exclusão: favoritismos, clientelismos e, consequentemente, corrupção. A exigência do Mestre faz-nos elevar o olhar, dizendo: quem não for capaz de ver o outro como um irmão, deixar-se comover pela sua vida e situação, independentemente da sua origem familiar, cultural e social, «não pode ser meu discípulo» (Lc 14, 26). O seu amor e dedicação são um dom gratuito, invocado por todos e para todos.

A segunda exigência mostra-nos a dificuldade de seguir o Senhor, quando se pretende identificar o Reino dos Céus com os próprios interesses pessoais ou com o fascínio duma ideologia qualquer que acaba por instrumentalizar o nome de Deus ou a religião para justificar atos de violência, a segregação e até o homicídio, o exílio, o terrorismo e a marginalização. A exigência do Mestre encoraja-nos a não manipular o Evangelho com tristes reducionismos, mas construir a história na fraternidade e solidariedade, no respeito gratuito da terra e dos seus dons contra todas as formas de exploração, encorajando-nos a viver o «diálogo como um caminho, a colaboração comum como conduta, o conhecimento mútuo como método e critério» (Documento sobre a fraternidade humana, Abu Dabhi, 4 de fevereiro de 2019); não cedendo à tentação de certas doutrinas incapazes de ver o bom grão e o joio crescerem juntos enquanto se espera o Senhor da messe (cf. Mt 13, 24-30).

E, quanto à última exigência, como pode ser difícil partilhar a vida nova que o Senhor nos oferece, quando nos sentimos continuamente impelidos a buscar a justificação em nós mesmos, crendo que tudo provenha exclusivamente das nossas forças e daquilo que possuímos! Quando a corrida para acumular riqueza se torna molesta e oprimente – como ouvimos na primeira Leitura –, exacerbando o egoísmo e o uso de meios imorais. A exigência do Mestre é um convite a recuperar a memória agradecida e tomar consciência de que a nossa vida e as nossas capacidades, mais do que conquista pessoal, são fruto de um dom (cf. Francisco, Exort. ap. Gaudete e exsultate, 55) tecido por Deus e pelas mãos silenciosas de muitas pessoas, cujos nomes só conheceremos na manifestação do Reino dos Céus.

Com estas exigências, o Senhor quer preparar os seus discípulos para a festa da irrupção do Reino de Deus, libertando-os deste obstáculo perigoso que é, em última instância, uma das piores escravidões: viver para si mesmo. É a tentação de se fechar no seu pequeno mundo, que acaba por deixar pouco espaço aos outros: os pobres já não entram, deixa-se de ouvir a voz de Deus, não mais se rejubila com doce alegria do seu amor, perde-se o entusiasmo de fazer o bem. Quando se fecham, muitas pessoas podem aparentemente sentir-se em segurança, mas acabam por se transformar em pessoas ressentidas, lamurientas, sem vida. Esta não é a opção duma vida digna e plena, não corresponde ao desígnio de Deus a nosso respeito, não é a vida no Espírito que jorra do coração do Cristo ressuscitado (cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 2).

No caminho para Jerusalém o Senhor, com estas exigências, convida-nos a elevar o olhar, ajustar as prioridades e sobretudo criar espaços para que Deus seja o centro e o fulcro da nossa vida.

Se olharmos ao nosso redor, quantos homens e mulheres, jovens, crianças sofrem e estão literalmente privados de tudo! Isto não faz parte do plano de Deus. Como é urgente este convite de Jesus a morrer para os nossos confinamentos, os nossos orgulhosos individualismos, a fim de deixar triunfar o espírito de fraternidade – este dimana do lado aberto de Jesus Cristo, donde nascemos como família de Deus – e cada qual possa sentir-se amado, porque compreendido, aceite e valorizado na sua dignidade. «Perante a dignidade humana espezinhada, muitas vezes fica-se de braços cruzados ou então abanam-se os braços, impotentes diante da força obscura do mal. Mas o cristão não pode ficar de braços cruzados, indiferente, nem de braços a abanar, fatalista! Não... O crente estende a mão, como Jesus faz com ele» (Francisco, Homilia por ocasião do Dia Mundial dos Pobres, 18 de novembro de 2018).

A Palavra de Deus, que ouvimos, convida-nos a retomar o caminho, ousando dar este salto qualitativo e adotar esta sabedoria do desapego pessoal como base para a justiça e a vida de cada um de nós; pois, juntos, podemos lutar contra todas estas idolatrias que nos levam a focalizar a nossa atenção nas seguranças ilusórias do poder, da carreira e do dinheiro e na busca de glórias humanas.

As exigências que Jesus indica deixam de ser gravosas quando começamos a saborear a alegria da vida nova que Ele mesmo nos propõe: a alegria que brota de saber que Ele é o primeiro a sair à nossa procura pelas encruzilhadas dos caminhos, quando estamos perdidos como aquela ovelha ou aquele filho pródigo. Possa este humilde realismo – é um realismo, realismo cristão –  incitar-nos a assumir os grandes desafios, e vos conceda o desejo de tornar o vosso lindo país num lugar onde o Evangelho se faz vida, e vida para a maior glória de Deus.

Comprometamo-nos e façamos nossos os planos do Senhor.

Papa Francisco, Homilia, Antananarivo, Madagáscar, 8 de setembro de 2019

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos:

Como não conhecemos os planos do Senhor,

mas acreditamos que Ele nos ama e nos escuta,

façamos subir até Ele a nossa oração universal.

Oremos (cantando), confiadamente:

 

     Senhor, misericórdia.

 

1.     Pela santa Igreja católica e apostólica e pelos seus filhos,

e por quem procura sinceramente Deus noutras religiões,

     oremos, irmãos.

 

     Senhor, misericórdia.

 

2.     Pelos presbíteros ao serviço do povo cristão e pelos fiéis,

que imitam Jesus na pobreza e castidade e levam a Cruz,

     oremos, irmãos.

 

     Senhor, misericórdia.

 

3.     Pelos homens preocupados com a justiça e pela verdade,

e pelos que devem fazer escolhas difíceis, por fidelidade,

oremos, irmãos.

 

     Senhor, misericórdia.

 

4.     Pelos que vivem oprimidos pelo trabalho, ou sem amigos,

     e pelos casais cristãos em crise, ou em risco de separação,

     oremos, irmãos.

 

     Senhor, misericórdia.

 

5.     Pelos que, entre nós, estão mais tristes, e pelas famílias,

e pelos que mais precisam de oração e da nossa amizade,

     oremos, irmãos.

 

     Senhor, misericórdia. 

 

6.     Pelo nosso Pároco, P. Manuel, que o Senhor chamou a Si,

     afim de que, pela Sua misericórdia infinita, o acolha no Céu,

     oremos, irmãos.

 

     Senhor, misericórdia.

 

7.     Por todas as almas que são agora purificadas das suas faltas,

     principalmente pelos que os seus familiares já esqueceram,

     oremos, irmãos.

 

     Senhor, misericórdia.

 

Senhor, nosso Deus e nosso Pai,

para quem se dirigem os nossos passos,

ajudai-nos a olhar para o vosso Filho,

que, levando a sua Cruz,

nos abriu já o caminho da Vida.

Ele que vive e reina

por todos os séculos dos séculos.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Jesus Cristo é muito exigente para connosco, quando nos propomos segui-l’O com fidelidade, porque nos ama.

Depois de nos falar desta exigência na Mesa da Palavra, prepara para nos fortalecer o Alimento Divino do Seu Corpo e Sangue.

 

Cântico do ofertório: O pão e o vinho que Vos trazemos – B. Salgado, NRMS, 12 (I)

 

Oração sobre as oblatas: Senhor nosso Deus, fonte da verdadeira devoção e da paz, fazei que esta oblação Vos glorifique dignamente e que a nossa participação nos sagrados mistérios reforce os laços da nossa unidade. Por Nosso Senhor...

 

Santo: C. Silva/A. Cartageno – COM, (pg 194)

 

Saudação da Paz

 

A falta de fidelidade às exigências de Deus causa a falta e paz no íntimo de nós e com os nossos irmãos.

Para saborearmos a verdadeira paz, temos de começar dentro de nós, vivendo com fidelidade as exigências do Senhor na nossa vida.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Quando nos propomos construir a torre da nossa santidade pessoal ou ganhar a batalha da fidelidade a Deus, deve entrar nos nossos projetos a Sagrada Comunhão, pois Jesus disse: Sem Mim nada podereis fazer

Com esta convicção que nos dá a fé, com profunda humildade e amor generoso, aproximemo-nos do Banquete Sagrado.

 

Cântico da Comunhão: Como o Veado anseia – M. Luís, CNPL,

Sl 41, 2-3

Antífona da comunhão: Como suspira o veado pela corrente das águas, assim minha alma suspira por Vós, Senhor. A minha alma tem sede do Deus vivo.

Ou:    Jo 8, 12

Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor; quem Me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida.

 

Cântico de acção de graças: Hóstia Santa, penhor de Salvação – M. Simões, NRMS, 6 (II)

 

Oração depois da comunhão: Senhor, que nos alimentais e fortaleceis à mesa da palavra e do pão da vida, fazei que recebamos de tal modo estes dons do Vosso Filho que mereçamos participar da sua vida imortal. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Para os nossos empreendimentos de santidade, não nos esqueçamos de contar com a ajuda de Deus.

 

Cântico final: Eu quero viver na tua alegria – H. Faria, NRMS, 11-12

 

 

Homilias Feriais

 

23ª SEMANA

 

2ª Feira, 5-IX: A fé e as nossas lutas.

1 Cor 5, 1-8 / Lc 6, 6-11

Jesus disse ao homem: estende a mão. Ele assim fez, e a mão ficou curada.

Quando não conseguimos eliminar os nossos defeitos, ou nos aparecem obstáculos difíceis, o Senhor pede-nos que façamos um pequeno esforço. Estende a tua mão (EV). Pede-nos que nos esforcemos um pouco mais e que acreditemos nEle, pois a Deus nada é impossível. Alegrem-se os que em Vós confiam (SR).

A fé cristã ajudará a reformar a própria vida para um novo modo de actuar. Celebremos a festa, não com fermento velho, nem com o fermento da malícia e perversidade, mas com os ázimos da pureza e da verdade (LT).

 

3ª Feira, 6-IX: As transformações espirituais

1 Cor 6, 1-11 / Lc 6, 12-19

Mas fostes purificados, fostes santificados, fostes justificados pelo nome do Senhor Jesus e pelo espírito de Deus.

A vida de muitos cristãos de Corinto era moralmente má, mas foi-se transformando graças à acção do Espírito Santo (LT). Curando as nossas feridas, o Espírito Santo renova-nos interiormente por uma transformação espiritual, ilumina-nos e fortalece-nos para vivermos como filhos da luz. O Senhor tem amor ao seu povo (SR).

Do mesmo modo, Jesus cura todos os que lhe apresentam. Mas também se dão igualmente muitas transformações espirituais. Para isso, precisamos aproximar-nos um pouco mais de Jesus. Toda a multidão procurava tocar-lhe (EV).

 

4ª Feira, 7-IX: Bem-aventuranças.

1 Cor 7, 25-31 /  Lc 6, 20-26

Felizes de vós, os pobres, os que estais agora cheios de fome; os que agora chorais.

Ao falar das bem-aventuranças (EV), Jesus ensina-nos que uma pessoa pode viver no meio da pobreza, da dor e do abandono e, ao mesmo tempo, ser feliz já aqui na terra e, depois, na vida eterna. Inclina-te diante do teu Senhor (SR).

S. Paulo recorda-nos que o cenário deste mundo é passageiro (LT), isto é, a felicidade aqui na terra é sempre fugaz, não dura sempre. O importante é conseguir a felicidade eterna através dos acontecimentos aqui na terra, aprendendo a ser felizes com as coisas ‘más’, como, por exemplo, a paixão de Cristo, que nos salvou a todos.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Fernando Silva

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                   Nuno Romão

Sugestão Musical:                José Carlos Azevedo

 


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