TEMAS LITÚRGICOS

«A Arca da Aliança foi vista no Céu»

(Assunção da Virgem Santa Maria)

 

 

 

 

 

 

Pedro Boléo Tomé

 

 

Quando vi no novo Missal português o Prefácio IV da Virgem Santa Maria e observei as referências a Maria como «Nova Eva» questionei-me se, na festa da Assunção, haveria alguma referência nos textos da Missa a Maria como a «Arca da Aliança». Talvez possam achar estranha essa minha curiosidade. É que no apocalipse fala-se de que a Arca da Aliança foi vista no Céu.[1] E se se esta é, como nós acreditamos ser, Maria, a Mãe de Jesus, não seria estranho encontrar, nos textos litúrgicos, uma referência à Virgem Maria como a «Nova Arca da Aliança» que João viu no Templo de Deus, no Céu.

Esta minha curiosidade deve-se a dois autores, Scott Han[2] e Brant Pitre[3] que falam das raízes Bíblicas do culto à Virgem Maria. E, para o fazer, dão grande importância à Arca da Aliança.  Mas, para isso, recuam no tempo e ajudam-nos a olhar para a Sagrada Escritura como um judeu do primeiro século o faria. Efetivamente, precisamos de perceber como os judeus do tempo de Jesus olhariam para a Arca da Antiga Aliança. Sabemos que era o sinal preciosíssimo da presença de Deus entre o povo, algo do mais sagrado que o povo poderia experimentar. Mas também sabemos que, aqueles judeus do primeiro século, nunca a tinham visto. Ela estava desaparecida há mais de seis séculos. O Templo de Jerusalém estava, por isso, incompleto. Era uma obra admirável e pela qual eles sentiam um grande amor e estima, mas uma grande dor trespassava todo o israelita piedoso: o «Santo dos Santos» estava vazio. A Arca da Aliança estava perdida e não podia ser encontrada, tal como Jeremias profetizara, até que Deus reunisse todo o povo e mostrasse a sua misericórdia.[4]

Scott Han ajuda-nos a ler o capítulo 11 e 12 do apocalipse com os olhos desses judeus piedosos, que conheciam muito bem as escrituras, que amavam a Arca da Aliança e o que ela significava, e sabiam o poder que possuía no que se referia à arte da guerra. Em concreto, recorda-nos que ao ouvir narrar que o «sétimo Anjo tocou a trombeta»[5] não seria difícil recordarem a conquista de Jericó[6] e as sete voltas dadas no sétimo dia sob o toque de trombetas e como, diante da arca da Aliança, as muralhas caíram com grande estrondo. Parece que João os está a preparar, ao falar da sétima trombeta e das vozes que se ouvem no céu, para algo que está prestes a ocorrer ou a ser-lhes revelado. E eis que diz o texto do Apocalipse:

«Então, abriu-se o Templo de Deus no Céu, e apareceu a Arca da Sua Aliança».

Que efeito teria uma visão como esta para um judeu que acreditou em Jesus? Sim, num Jesus que foi morto e ressuscitou e que, finalmente, subiu ao Céu? É o desvendar final daquilo que esperava: a Arca da Aliança foi levada para o Céu, está, finalmente, no «santo dos santos». E, se ela subiu, é porque nós também estamos chamados a subir ao Céu. Ver a Arca no Céu, encheria de esperança. Tal como ver a Arca da Aliança num campo de batalha. A vitória estava garantida. Deus está do nosso lado. Ela vai à frente. Tal como em Jericó, deita abaixo as muralhas e, ao povo, bastará correr em frente e penetrar na cidade. É o que a Igreja nos diz na festa de hoje: que corramos para o Céu, pois as muralhas que impediam que entrássemos foram derrubadas.[7]

Mas, mais surpreendente ainda é ver como segue o texto do Apocalipse. Sem interrupção, diz-se:

«Apareceu no Céu um sinal grandioso: uma mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça

Qualquer judeu piedoso e conhecedor da Escritura e crente em Jesus perceberia quem era essa mulher e recordaria a sua assunção. Não eram necessárias explicações.

Infelizmente, dois mil anos depois, sim, são necessárias explicações. Talvez, por isso, a antífona de entrada da Missa comece logo com a visão no Céu, não da Arca da Aliança, mas sim, da mulher vestida de sol. É mais compreensível. Mais diretamente aplicável.

Analisei os textos e o Prefácio em busca de referências à Arca que é avistada no Céu sem nada encontrar. Encontrei, sim, abundantes referências à esperança que nos dá, a toda a Igreja[8], ver Maria no Céu (tal como daria a um judeu do primeiro século avistar a Arca). Vejamos, por exemplo, o Prefácio da Assunção:

«Hoje, a Virgem Mãe de Deus foi elevada à glória do céu.

Ela é a aurora e a imagem da Igreja triunfante,

ela é sinal de consolação e esperança para o nosso povo peregrino (…)»

Depois de analisar os textos da Missa lembrei-me, por fim, de olhar para as leituras da Missa. A minha surpresa foi grande. Tudo aquilo que tinha procurado em vão nos textos da Missa estava, agora, patente nas leituras e nos salmos.

Temos a sorte de ter duas Missas, uma da vigília e outra do dia, por isso, as referências duplicam-se. Na Missa da vigília a primeira leitura é retirada do Primeiro Livro das Crónicas que relata a trasladação da Arca da Aliança para o «lugar que (David) lhe tinha preparado». Descrevem-se todos os cuidados e rituais, as celebrações e a forma festiva com que a Arca foi trasladada. Está subentendido, claramente, um anúncio da trasladação da Nova Arca da Aliança para o «lugar que (Deus) lhe tinha preparado» e toda a celebração que os Anjos lhe fizeram, aliás como as antífonas da Missa proclamam.[9]

Já o salmo recorda a procura da Arca como o lugar sagrado onde Deus quer habitar junto dos homens e o enorme privilégio que o povo de Israel tem por Deus o ter escolhido:

O Senhor escolheu Sião,

preferiu-a para sua morada:

«É este para sempre o lugar do meu repouso,

aqui habitarei, porque o escolhi».

E eis que a ideia de fundo desta solenidade se torna presente também por referência à Arca da Aliança. A esperança de estar na presença de Deus e a exortação a preferi-Lo a tudo o resto:

«Ouvimos dizer que a arca estava em Éfrata,

encontrámo-la nas campinas de Jaar.

Entremos no seu santuário,

prostremo-nos a seus pés

Ver a Arca da Aliança no Céu é, portanto, uma chamada a ir até onde se encontra, a entrar no seu santuário e a prostrar-se a seus pés. Com tudo o que isso implica:

«Revistam-se de justiça os vossos sacerdotes,

exultem de alegria os vossos fiéis».

Já na Missa do dia a primeira leitura vai ser, precisamente, a leitura do Livro do Apocalipse que já referimos. Porém, o que me surpreendeu foi ver o Evangelho da visitação de Nossa Senhora. Isto porque Brant Pitre e Scott Hahn são da opinião que Lucas tem muito presente a ideia de que Maria é a Nova Arca da Aliança ao narrar tanto os acontecimentos da anunciação como os da visitação. Não temos oportunidade de explorar todos os paralelismos, mas, se pegarmos no texto do segundo livro de Samuel, que narra a trasladação da Arca até Jerusalém[10], vemos como David se levanta e vai até às montanhas da Judeia (tal como Maria); David admite que é indigno de receber a Arca com termos muito semelhantes aos de Isabel perante Maria; David «dança» diante da Arca, tal como João Batista (no seio de sua mãe) diante de Maria; a Arca permanece três meses naqueles montes, tal como Maria. Pitre assinala, então, que a narração da visitação seria para os judeus do primeiro século como que a revelação da Nova Arca da Aliança. Aquela Nova Arca transportava, efetivamente, a Nova Lei (o próprio Verbo Encarnado), o Novo Maná (o Pão da Vida), o Sacerdote eterno, que oferecerá o sacrifício agradável a Deus para redenção dos homens.[11] E se aqueles judeus que convieram com ela, a viram nas campinas de Jaar ou em Efratá, e em tantos outros lugares de Israel, hoje, nesta festa litúrgica, vemo-la no Céu, no lugar que Deus preparou para ela e para onde nós, também, somos chamados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Cfr. Ap 11,19 e 12,1

[2] HAHN, S., Hail, Holy Queen, The Mother of God in the Word of God, 2001

[3] PITRE, B., Jesus and the jewish roots of Mary, unveiling the Mother of the Messiah, 2018

[4] 2 Mac 2, 4-8

[5] Ap 11, 14

[6] Cfr. Js 5, 13 – 6, 21

[7] «Deus todo-poderoso e eterno, que elevastes à glória do céu em corpo e alma, a imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, concedei-nos a graça de aspirarmos sempre às coisas do alto, para merecermos participar da sua glória» diz a Coleta da Missa do dia.

[8] É importante referir que aquilo que se diz da Arca e da Mulher do Apocalipse se aplica, simultaneamente, à Virgem Maria e à Igreja. Porém, divergir para essa similitude alargaria muito este artigo.

[9] «Exultemos de alegria do Senhor ao celebrar este dia de festa em honra da Virgem Maria. Na sua Assunção alegram-se os anjos e cantam louvores ao Filho de Deus»: Antífona de entrada da Missa do dia.

[10] Cfr. 2 Sam 6, 1 ss

[11] Dentro da Arca encontravam-se as Tábuas da Lei, uma taça com o Maná e a vara de Araão (símbolo do sacerdócio levítico).


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