TEMAS LITÚRGICOS

Adoração do Corpo do Senhor

 

 

 

 

 

Pedro Boléo Tomé

 

 

«Todas as vezes que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequenos, a Mim o fizestes». Como compaginar estas palavras do Senhor com a adoração Eucarística? Se o cristão está chamado a amar o próximo («nisto conhecerão que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros»), onde se inserem, então, as práticas de piedade eucarística? Serão puro pietismo e individualismo?

 

Há uns anos li um relato da conversão de Wick Allison. Converteu-se no guiché militar quando lhe perguntaram qual era sua religião. Percebeu que o exército desejava saber que tipo de funeral deveria preparar para ele. Como quero ser sepultado? Perguntou-se, então. E respondeu: católico. Há anos que estava a procurar dar o passo, agora, aquela pergunta obriga-o a decidir-se. Deus tem caminhos curiosos para nos conduzir. Porém, para ser sincero, não recordava este aspeto caricato. O que sim recordava (já li este livro há muitos anos) foi algo que Allison conta sobre a presença eucarística nos templos católicos:

«O meu irmão mora em Inglaterra. Numa visita que lhe fiz alguns anos depois da minha conversão, disse-me que tinha reservada para mim uma agradável surpresa. Conhecendo o meu interesse pela religião (ele é agnóstico) e o meu gosto pela História (que ele compartilha com entusiasmo), pensava levar-me de carro para ver a igreja saxónica mais antiga de Inglaterra, parte da qual remonta possivelmente ao século VI. Ao chegar, passeámos por uns momentos pelo pequeno cemitério anexo e depois entrámos na minúscula igrejinha, abaixando-nos para poder cruzar o umbral. Tudo ali era pedra nua, húmida e fria. No interior, porém, só experimentei um alarmante sentimento de solidão. Por alguma razão, esse sentimento sobrepujou todas as outras sensações. Depois de contemplar aquele solitário altar de pedra cinzenta durante alguns minutos, compreendi finalmente: a Eucaristia não estava ali presente. Aquela minúscula igreja já não tinha vida. A cadeia de comunhão que deveria ligar-me a mim, um editor nova-iorquino do século XX, aos lavradores que outrora se ajoelhavam sobre essa pedra dura, tinha sido rompida.

Foi ao tomar consciência dessa perda que compreendi quanto tinha recebido do mistério do Sacramento. É só quando nos damos conta do que perdemos que compreendemos o valor do que nos foi dado».[1]

Independentemente do carácter pessoal e subjetivo desta perceção, esta história pode ajudar-nos a olhar para a realidade daquilo que possuímos nas igrejas onde se reserva o Santíssimo Sacramento. Essa presença faz delas lugares de um especial contacto com Deus. Dar-se conta disso foi crucial para a conversão de Edith Stein. Ao ver uma mulher simples entrar numa igreja católica com o saco das compras e, sem mais, ajoelhar e entrar em oração fê-la invejar aquela mulher, pela proximidade que ela tinha com Deus.

Efetivamente, a presença de Cristo no tabernáculo faz do espaço litúrgico católico um espaço ativo permanente, vivo, mesmo nos momentos em que não existe nenhuma ação celebrativa. Ou seja, a presença pessoal de Cristo «hospeda» sempre um tipo de liturgia.

Esta é a fé da Igreja. Mas, não tem os seus riscos? Não poderá levar o cristão a centrar-se em si próprio e na sua ligação pessoal e individual com Deus? Não o levará a esquecer a comunidade e o próximo?

Talvez movidos por esse possível obstáculo, alguns esforçam-se por olhar para a eucaristia reduzindo-a apenas à celebração sacramental:

«É habitual considerar que a transubstanciação (a transformação do pão e do vinho), a adoração do Senhor através do Sacramento, o culto eucarístico com custódia e procissão – tudo isso seriam equívocos medievais que devem ser abandonados de uma vez por todas. Os dons eucarísticos seriam para comer e não para se olharem, temos de ouvir estes e outros tópicos».[2]

Daí que seja oportuno recordarmos: de onde vem a presença eucarística no tabernáculo? Ela é, claramente, um prolongamento da celebração eucarística. «Não se trata de uma prática «piedosa» que nos encerra num intimismo solitário como numa fuga do mundo para estar com o Senhor; trata-se de permanecer com o Senhor contemplando o seu amor presente no Corpo entregue por nós, como um desejo de entrar em comunhão real com Ele, comendo a sua carne e bebendo o seu sangue. Em outras palavras, é a manifestação do nosso amor por Ele, do «cuidado» que manifestamos para com o seu corpo sacramental e eclesial; Esse corpo das sagradas Espécies e o do Seu Corpo chagado no irmão[3]

Este autor realçava a ligação íntima que existe entre cuidar do Corpo Eucarístico do Senhor e o cuidado do Corpo Eclesial do Senhor. Não existe verdadeiro amor à Eucaristia quando não se ama o irmão e, sobretudo, o irmão que sofre. Aliás, como já o dizia S. João Crisóstomo, num famoso sermão:

«Desejas honrar o corpo de Cristo? Não o desprezes quando o contemples nu nos pobres, nem o honres aqui no templo com lenços de seda se, ao sair, o abandonas no seu frio e na sua nudez».[4]

Angelo Lameri recorda a famosa passagem dos Actos dos Apóstolos: «Perseveravam na doutrina dos Apóstolos, na união fraterna, na fração do pão e nas orações». E olha para ordem em que são enunciados estes elementos: a união fraterna é anterior à celebração da eucaristia. A eucaristia pressupõe essa união, a existência de uma comunidade. E faz-nos olhar para o nome dado à Eucaristia: fração do pão, partir o pão. Este gesto de partir subentende uma partilha. É partido para ser compartilhado. Aliás, assim o vai designar a Didaché: Klasma (partido, bocado, pedaço). Logo, Eucaristia implica comunhão fraterna, caridade. Não podia ser de outra forma: se celebramos o memorial da morte e ressurreição do Senhor, sentir-nos-emos interpelados a dar a vida com Cristo pelos irmãos. 

Ora, o que se diz da Eucaristia em geral, aplica-se também à adoração eucarística em particular. Que efeitos poderá ter a comunhão íntima, verdadeira, autêntica com o Senhor presente no sacrário senão o de sermos com Ele co-redentores, dilatarmos o nosso coração e possuirmos os seus mesmos sentimentos?

Muito ilustrativa desse efeito é a seguinte história das irmãs da caridade:

«Até 1973 tínhamos adoração do Santíssimo depois do retiro, uma vez por semana. Este ano houve uma petição unânime das irmãs:

- Queremos ter adoração todos os dias!

- Como vamos ter adoração todos os dias? – disse eu, fazendo o papel do diabo – como vamos ter adoração diária com tanto trabalho que temos entre mãos?

Mas, elas insistiram e deu-me uma grande alegria que o fizessem. Assim, foi. Começámos a ter adoração diária e posso-vos assegurar, com sinceridade, que, desde então, comprovei como na nossa comunidade há um amor mais íntimo para com Jesus, mais compreensão entre todas, um amor com mais compaixão para com os pobres… e duplicámos o número de vocações».[5]

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] ALLISON. W., Uma luta, um dom, em Jornadas Espirituais, p. 17

[2] RATZINGER, J. Introdução ao Espírito da Liturgia, p. 63.

[3] LAMERI, A, adoración y reserve eucarística, in BERLANGA A. Adorar a Dios en la Liturgia, p. 300.

[4] S. JOÃO CRISÓSTOMO, Homilias sobre o Evangelho de Mateus, 50, 3-4: PG 58, 508-509.

[5] MADRE TERESA DE CALCUTÁ, intervenção no Congresso Eucarístico de 1985 em Nairobi.


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