TEMAS LITÚRGICOS

10 novidades do Missal Português

 

 

Victor Gonzalo

 

 

 

A 14 de abril de 2022 entrou em vigor o novo Missal Português. Baseados na nota pastoral da CEP e numa série de artigos publicados pelo Secretariado Diocesano da Liturgia (da diocese do Porto) na Voz Portucalense destacamos 10 novidades do mesmo.

 

1.     O porquê desta nova edição

A 13 de outubro de 2021 foi aprovado o novo Missal em português pela Sé Apostólica por Decreto da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Esta revisão responde às mudanças introduzidas na terceira edição típica latina, com data de 20 de abril de 2000, publicada em 2002 e, posteriormente, emendada, em 2008.

2.     Alteração das palavras da Consagração?

Estudou-se a mudança das palavras da consagração em conformidade com a edição típica latina em que se diz «pro multis». Porém, foi descartada essa possibilidade e mantém-se como até agora (por todos). No entanto, «a nova edição introduz uma mudança pequena, mas muito significativa no coração palpitante da Oração Eucarística, a Narração da Instituição. O verbo benedicere passa a ser traduzido por bendizer em vez de abençoar. Efetivamente, na Ceia em que nos deixou o memorial do seu sacrifício redentor, Jesus não abençoou nem benzeu o pão ou o cálice, mas dirigiu ao Pai uma oração a bendizê-l’O: bendisse-O. Isso mesmo continuamos a evocar em oração ao Pai na prece central e culminante com que obedecemos ao mandato do Senhor Jesus de celebrar o seu memorial como Ele o instituiu: «O Senhor tomou o pão… e dando graças Vos bendisse. … tomou este sagrado cálice …, dando graças Vos bendisse…».[1]

3.     Pautas musicais para facilitar o canto na celebração

As pautas com a música estão inseridas «nos lugares próprios, onde o canto a reclama, para que na celebração – que deve ser modelar no dia do Senhor e nas festas da comunidade cristã – o canto seja mais a regra do que a exceção».[2] Cantar os diálogos, as aclamações, as orações, os prefácios, as partes mais importantes da oração eucarística tornam-se, assim, algo de normal; o Missal torna-se um instrumento ao serviço de uma pastoral litúrgica em que o canto do presidente e dos ministros, em diálogo com a assembleia celebrante, se torna a proposta comum a cultivar.

4.     Mais alternativas para a celebração

«No Ordinário da Missa dispomos agora de maior variedade nas saudações, no ato penitencial, no convite à oração sobre as oblatas, na introdução ao Pai nosso, nas fórmulas de despedida da assembleia no final da celebração. Também se procurou melhorar o acesso a formulários e preces que agora têm uso mais facilitado, como o rito para a bênção e aspersão (agora nos ritos iniciais) e as várias Orações eucarísticas que passam a figurar no final do Ordinário da Missa, bem no centro do Missal.»[3] 

Isto tem implicações na preparação da celebração, sendo necessário dedicar tempo e atenção para fazer as escolhas necessárias.

5.     Voltar a bater três vezes no peito

Uma particularidade do Ato Penitencial é a de retomar (numa das suas modalidades), na recitação comum da oração «Confesso a Deus todo poderoso…», a prática tradicional de bater três vezes no peito, enquanto se dizem as palavras: «por minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa». Mais do que uma simples nostalgia histórica, esta fórmula tem raízes bíblicas e rituais. Basta lembrar-se da tríplice negação de Pedro e, também, das três vezes em que o Apóstolo afirma o seu amor ao Senhor; ou das três imersões/ infusões batismais invocando as três pessoas da Santíssima Trindade.

6.     A conclusão das orações

Outra novidade é o «retomar da tradicional conclusão plena da Oração coleta: «Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos». Para as restantes orações introduz-se a cláusula mais breve, tornando-as mais fluentes: «Por Cristo, nosso Senhor».[4]

Os bispos portugueses salientam a vantagem de retomar esta forma tradicional, não só por uma maior unidade com a editio typica latina, mas também pela sua riqueza mistagógica: «Estas conclusões, síntese feliz e doxológica da fé da Igreja, laboriosamente formulada nos quatro primeiros Concílios Ecuménicos, são escola da oração. Nelas se modela a regra e dinâmica trinitária, cristológica e pneumatológica: ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo. A expressão final – «pelos séculos dos séculos» –, de sabor bíblico, reaparece no Missal, nas coletas e na doxologia final da Oração Eucarística, a reclamar o «Amen» da adesão e profissão de fé da comunidade crente e orante».[5]

7.     Prefácios

O texto é sempre ladeado da música, entendendo-se como «normal» o canto do prefácio. Nos protocolos iniciais ou, quando é o caso, no próprio corpo do prefácio, a menção à mediação de Cristo deixa de ser «por Cristo nosso Senhor» e passa a ser «por nosso Senhor Jesus Cristo»: evita-se assim a fórmula da conclusão breve das orações, induzindo os menos atentos a «Amens» fora do sítio.

Na última linha do «protocolo final [transição para o Santo], o texto passa a ser: «dizendo (cantando) numa só voz:» (no Missal de 1992 dizia-se sempre «cantando…»).

Após o Prefácio X dos Domingos do Tempo Comum, incluem-se no Ordinário da Missa os Prefácios I, II e III da Santíssima Eucaristia que, no Missal Anterior, eram mais difíceis de localizar na secção das Missas «ad diversa». No Ordinário da Missa só se apresentam 4 prefácios da Virgem Santa Maria (contra 5 do Missal cessante) mas dá-se a indicação para outros 3, oportunamente localizados na secção Santoral. Como novidade, há um novo Prefácio dos Santos Mártires.

8.     Orações Eucarísticas

Nas orações eucarísticas passa a haver indicações claras para as intervenções dos possíveis concelebrantes. Outra mudança, que já assinalámos antes, diz respeito ao término da doxologia final da OE: em vez de «…agora e para sempre» passa a dizer-se ou cantar-se «… por todos os séculos dos séculos». Esta alteração na doxologia final da OE traz consigo uma modificação da música. Também muda a melodia oficial para o «Amen».

9.     Orações sobre o povo no final das missas de Quaresma

Para todos os dias da Quaresma estão previstas «Orações sobre o povo», retomando-se, assim, uma tradição do Rito Romano. Advirta-se também que a conclusão foi modificada: em vez de «abençoe-vos, Deus todo poderoso…» passa a dizer-se «a bênção de Deus todo poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo, desça sobre vós e permaneça para sempre».

10.  Enriquecimento do Missal com novos formulários para as Missas e notas hagiográficas dos santos

Há novas missas no Santoral, acompanhando a evolução do Calendário; foi enriquecido o Comum de Nossa Senhora com seis novos formulários cujos conteúdos foram, em geral, tomados da Colectio Missarum de BMV de 1989; as missas rituais foram completadas com os formulários entretanto publicados nos Pontificais e Rituais; há novos formulários nas Missas para diversas necessidades e votivas.

Por fim, a parte do Missal Romano dedicada ao próprio dos Santos foi enriquecida com breves notas hagiográficas que apresentam de forma muito breve o perfil biográfico de cada santo. Era uma solicitação de muitos sacerdotes que têm assim, diante dos olhos, uma informação fundamental que, eventualmente, poderão partilhar com os demais fiéis.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] CEP, nota pastoral, Celebrar e viver melhor a Eucaristia, n. 9

[2] Ibid. n. 5.

[3] Ibíd. n. 4

[4] Ibíd. n. 7.

[5] Ibíd. n. 7.


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