4º Domingo da Quaresma

27 de Março de 2022

 

Onde se fizerem os escrutínios preparatórios para o Baptismo dos adultos, neste domingo, podem utilizar-se as orações rituais e as intercessões próprias: p. 1063 do Missal Romano.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Alegrai-vos, justos, alegrai-vos, A. F. Santos, BML, 65, 52

cf. Is 66, 10-11

Antífona de entrada: Alegra-te, Jerusalém; rejubilai, todos os seus amigos. Exultai de alegria, todos vós que participastes no seu luto e podereis beber e saciar-vos na abundância das suas consolações.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

No caminho para a Páscoa, a Igreja canta e celebra a sua alegria. Há festa em casa do Pai. Ao passo lento do filho que regressa, corre veloz a misericórdia do Pai que o abraça. Vai à frente o perdão, quando vem longe o arrependimento. Há festa em casa do Pai. Aos filhos escravizados pela desordem ou pelo dever, oferece-se o rosto de um Pai enlouquecido de amor. O resto da parábola, já sabemos e até de cor. Não é bem a história do filho pródigo, mas a parábola do Pai clemente. No centro está o Pai, deixemo-nos abraçar e transformar pela sua misericórdia:

 

Ato Penitencial

 

Senhor, que vindes ao nosso encontro, pelos caminhos por onde nos perdemos,

Senhor, tende piedade de nós!

 

Cristo, que nos renovais e recriais pela força do vosso amor,

Cristo, tende piedade de nós!

 

Senhor, que nos reconciliastes com o Pai,

Senhor, tende piedade de nós!

 

Oração colecta: Deus de misericórdia, que, pelo vosso Filho, realizais admiravelmente a reconciliação do género humano, concedei ao povo cristão fé viva e espírito generoso, a fim de caminhar alegremente para as próximas solenidades pascais. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: A primeira leitura, a propósito da circuncisão dos israelitas, convida-nos à conversão, princípio de vida nova na terra da felicidade, da liberdade e da paz. Essa vida nova do homem renovado é um dom do Deus que nos ama e que nos convoca para a felicidade.

 

Josué 5,9a.10-12

 

Naqueles dias, 9adisse o Senhor a Josué: «Hoje tirei de vós o opróbrio do Egipto». 10Os filhos de Israel acamparam em Gálgala e celebraram a Páscoa, no dia catorze do mês, à tarde, na planície de Jericó. 11No dia seguinte à Páscoa, comeram dos frutos da terra: pães ázimos e espigas assadas nesse mesmo dia. 12Quando começaram a comer dos frutos da terra, no dia seguinte à Páscoa, cessou o maná. Os filhos de Israel não voltaram a ter o maná, mas, naquele ano, já se alimentaram dos frutos da terra de Canaã.

 

A leitura fala-nos do início de uma nova vida do povo eleito, após a longa e dura travessia do deserto. O facto de ter sido escolhida para este tempo, em que o deserto da Quaresma caminha para o seu fim, pode ter um significado simbólico, ligado ao Evangelho do filho pródigo: o regresso à casa paterna, a conversão, o começo de uma vida nova.

9 «Vexame do Egipto». Este pode ser a incircuncisão, de acordo com o contexto (notar que foram aqui suprimidos os vv. 6-8), em que se fala de que Josué procedeu então à circuncisão dos filhos daqueles que tinham saído do Egipto, embora também os egípcios a tivessem praticado. Outros autores pensam que o vexame do Egipto seria a escravidão lá sofrida e as consequentes privações do deserto.

10 «Guilgal». A localização desta Guilgal é incerta, mas supõe-se que ficasse nas proximidades de Jericó. No texto hebraico há um jogo de palavras que podíamos transpor para português da seguinte maneira: «Em Guigal eu fiz o povo galgar o vexame do Egipto». Com efeito, em hebraico gálgal significa roda, e o verbo aqui usado (gallóthi) significa pus a rodar, isto é, «afastei» ou «tirei».

11 «No dia seguinte à Páscoa», isto é, a 16 do mês de Nisan, de acordo com a Lei (cf. Lev 23, 4-14); após a oferta a Deus do primeiro feixe de trigo, já o povo podia começar a comer o trigo novo, ainda quase todo verde. Ainda hoje a gente do campo na Síria e no Egipto gosta de comer, quando ainda verde, o grão de trigo assado.

 

Salmo Responsorial    Sl 33 (34), 2-3.4-5.6-7 (R. 9a)

 

Monição: O salmo 33 vem recordar-nos que quem experimenta a misericórdia divina pode reconhecer e saborear constantemente como o Senhor é bom!

 

Refrão:        Saboreai e vede como o Senhor é bom.

 

A toda a hora bendirei o Senhor,

o seu louvor estará sempre na minha boca.

A minha alma gloria-se no Senhor:

escutem e alegrem-se os humildes.

 

Enaltecei comigo ao Senhor

e exaltemos juntos o seu nome.

Procurei o Senhor e Ele atendeu-me,

libertou-me de toda a ansiedade.

 

Voltai-vos para Ele e ficareis radiantes,

o vosso rosto não se cobrirá de vergonha.

Este pobre clamou e o Senhor o ouviu,

salvou-o de todas as angústias.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A segunda leitura convida-nos a acolher a oferta de amor que Deus nos faz através de Jesus. Só reconciliados com Deus e com os irmãos podemos ser criaturas novas, em quem se manifesta o homem Novo.

 

2 Coríntios 5,17-21

Irmãos: 17Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. As coisas antigas passaram; tudo foi renovado. 18Tudo isto vem de Deus, que por Cristo nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação. 19Na verdade, é Deus que em Cristo reconcilia o mundo consigo, não levando em conta as faltas dos homens e confiando-nos a palavra da reconciliação. 20Nós somos, portanto, embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. 21A Cristo, que não conhecera o pecado, Deus identificou-O com o pecado por causa de nós, para que em Cristo nos tornemos justiça de Deus.

 

Já nas Cinzas, tivemos parte desta leitura. S. Paulo ao fazer a sua defesa perante as acusações dos seus opositores em Corinto, exalta a grandeza do ministério apostólico de que está investido, um ministério de reconciliação com Deus alcançada pelo mistério da Morte e Ressurreição de Cristo (5,14-15).

17 «Nova criatura». Pelo Baptismo dá-se uma transformação radical – regeneração interior (cf. Jo 3,5) – do homem velho (cf. Rom 6,6; Gal 6,15; Col 3,9; Ef 2,15; Tit 3,5). Dá-se como que uma nova criação, no plano da graça, pois passa-se do não ser, do nada e menos que nada (o pecado: «as coisas antigas») para «estar em Cristo», participando da sua vida divina.

18 «Ministério da reconciliação». O contexto não permite que se interprete este ministério no sentido estrito do ministério do perdão exercido no Sacramento da Penitência, embora este se possa ver englobado no conjunto (boa ocasião para rever o motu proprio Misericordia Dei de João Paulo II, sobre alguns aspectos do Sacramento da Penitência, de 7 de Abril de 2002, que quase passou despercebido).

20 «Reconciliai-vos com Deus». É este o insistente convite que a Igreja nos faz em nome de Deus, a mesma exortação que fazia S Paulo, com a plena consciência de que era Deus que exortava por seu intermédio, pois os Apóstolos, como os demais ministros de Cristo, são «embaixadores ao serviço de Cristo», e não apenas ao seu serviço, mas actuando em vez de Cristo e por autoridade de Cristo, como o texto original parece dar a entender com o uso da preposição grega ypér (em favor de, usada no sentido da preposição antí, em vez de; cf. Jo 11,50; Gal 3,13; etc.), como já referimos na Quarta-feira de Cinzas.

21 «Deus identificou-o com o pecado», à letra, Deus fê-lo pecado, uma expressão extraordinariamente forte e chocante. A nova tradução da CEP não receia propor a tradução literal: «Àquele que não conhecera o pecado, Deus por nós o fez pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus». Note-se, no entanto, que não se diz que Deus O tenha feito pecador; o que se pretende significar é que Deus permitiu que Jesus viesse a sofrer o castigo que cabia ao pecado. Trata-se aqui duma identificação jurídica, não moral: Cristo tornando-Se a Cabeça e o Chefe duma raça pecadora, toma sobre os seus ombros a responsabilidade, não a de uns pecados alheios, mas a dos pecados da sua raça (de toda a Humanidade), para os expiar, sofrendo a pena devida por eles (cf. Gal 3, 13). O texto torna-se menos duro, se entendemos que Cristo se fez pecado, no sentido de que se fez sacrifício pelo pecado; isto, que pode parecer uma escapatória para evitar a dificuldade de interpretação, tem um certo fundamento no substrato hebraico, pois a palavra ’axam tem este duplo sentido de «violação da justiça» e de «sacrifício de reparação pelo pecado»; com efeito, pelo sacrifício de Cristo tornamo-nos «justiça de Deus», isto é, justos diante de Deus (note-se o jogo com os dois substantivos abstractos – pecado/justiça –, num evidente paralelismo antitético, tão do gosto paulino).

 

Aclamação ao Evangelho        Lc 15, 18

 

Monição: Uma vez mais Jesus fala-nos sobre o Pai e diz-nos que é um Pai que ama de forma gratuita, com um amor fiel e eterno, apesar das escolhas erradas e da irresponsabilidade do filho rebelde. E esse amor misericordioso que lá está, sempre à espera, sem condições, para acolher e abraçar o filho que decide voltar.

 

Cântico: Louvor e glória a Vós – B. Salgado, NRMS, 32

 

Vou partir, vou ter com meu pai e dizer-lhe:

Pai, pequei contra o Céu e contra ti.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 15,1-3.11-32

 

Naquele tempo, 1os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. 2Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». 3Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: 11«Um homem tinha dois filhos. 12O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. 13Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta. 14Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações. 15Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. 16Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! 18Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. 19Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. 20Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. 21Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. 22Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. 23Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejamos, 24porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa. 25Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. 26Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. 27O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. 28Ele ficou ressentido e não queria entrar. Então o pai veio cá fora instar com ele. 29Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. 30E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. 31Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. 32Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’».

 

Alguém considerou a parábola do filho pródigo «o evangelho dos evangelhos». É a mais bela e a mais longa das parábolas de Jesus, impregnada duma finíssima psicologia própria de quem no-la contou, Jesus, que conhece a infinita misericórdia do coração de Deus, que é o seu próprio coração, e que penetra na profundidade da alma humana (cf. Jo 2,25), onde se desenrola o tremendo drama do pecado. «Aquele filho, que recebe do pai a parte do património que lhe corresponde, e abandona a casa para o desbaratar num país longínquo, vivendo uma vida libertina, é, em certo sentido, o homem de todos os tempos, começando por aquele que em primeiro lugar perdeu a herança da graça e da justiça original. A analogia neste ponto é muito ampla. A parábola aborda indirectamente todo o tipo de rupturas da aliança de amor, todas as perdas da graça, todo o pecado» (Encíclica Dives in misericordia, nº 5; ver tb. Catecismo da Igreja Católica, nº 1439).

12 «Dá-me a parte da herança»: segundo Dt 21,17 pertencia-lhe um terço, havendo só dois filhos. O pai podia fazer as partilhas em vida (cf. Sir 30,28ss).

13 «Partiu…»: o pecado do filho foi abandonar o pai, esbanjar os seus bens e levar uma vida dissoluta.

14-16 «Uma grande fome: é a imagem do vazio e insatisfação que sente o homem quando está longe de Deus, em pecado. «Guardar porcos» era uma humilhação abominável para um judeu, a quem estava proibido criar e comer estes animais impuros. Esta situação para um filho duma boa família era absolutamente incrível, o cúmulo da baixeza e da servidão. As «alfarrobas»: o rapaz já se contentaria com uma tão indigesta e indigna comida, mas, na hora de se dar uma ração dessas aos porcos, ninguém se lembrava daquele miserável guardador! Aqui fica bem retratada a vileza do pecado e a escravidão a que se submete o homem pecador (cf. Rom 1,25; 6,6; Gal 5,1). O filho pretendia ser livre da tutela do pai, mas acaba por perder a liberdade própria da sua condição: imagem do pecador que perde a liberdade dos filhos de Deus (cf. Rom 8,21; Gal 4,31; 5,13) e se sujeita à tirania do demónio, das paixões.

17 «Então, caindo em si…» A degradação a que a loucura do seu pecado o tinha levado fê-lo reflectir (é o começo da conversão) e enveredar pela única saída digna e válida.

18-19 «Vou-me embora»: A tradução latina (surgam) do particípio gráfico (mas não ocioso) do original grego – «levantar-me-ei» – é muito mais expressiva, pois, duma forma viva, indica a atitude de quem começa a erguer-se da sua profunda miséria.

«Pequei contra o Céu e contra ti»: nesta expressão retrata-se a dimensão transcendente do pecado; não é uma simples ofensa a um homem, é ofender a Deus, uma ofensa de algum modo infinita! O filho não busca desculpas, reconhece sinceramente a enormidade da sua culpa.

«Trata-me como um dos teus trabalhadores». É maravilhoso considerar como naquele filho arrependido começa a brotar o amar ao pai; o que ele ambiciona é ir para junto do pai, estar junto a ele é o que o pode fazer feliz! Melhorar a sua situação material não é o que mais o preocupa, pois, para isso, qualquer proprietário da sua pátria o podia admitir como jornaleiro. Por outro lado, não se atreve a pedir ao pai que o admita no gozo da sua antiga condição de filho, porque reconhece a sua indignidade: «já não mereço ser chamado teu filho».

20 «Ainda ele estava longe, quanto o pai o viu». Este pormenor faz pensar que o pai não só desejava ansiosamente o regresso do filho, mas também, muitas vezes, observava ao longe os caminhos, impaciente de ver o filho chegar quanto antes, uma enternecedora imagem de como Deus aguarda a conversão do pecador. «Encheu-se de compaixão»: o verbo grego é muito expressivo e difícil de traduzir com toda a sua força, esplankhnístê: «comoveram-se-lhe as entranhas» (tà splánkhna). «E correu…»: é impressionante o contraste entre o pai que corre para o filho e o filho que simplesmente caminha para o filho – «a misericórdia corre» (comenta Sto. Agostinho); «cobrindo-o de beijos», numa boa tradução que tem em conta a forma iterativa do verbo grego, é uma belíssima e expressiva imagem do amor de Deus para com um pecador arrependido! É assim que a nova tradução da CEP não se limita a dizer beijou-o, mas acrescenta: repetidamente.

21 «Pai, pequei». Apesar de se ver assim recebido pelo pai, o filho não se escusa de confessar o seu pecado e de manifestar a atitude interior que o move a regressar.

22 «A melhor túnica, o anel, o calçado», são uma imagem da graça, o traje nupcial (cf. Mt 22,11-13); assim nos espera o Senhor no Sacramento da Reconciliação, não para nos ralhar, recriminar, mas para nos admitir na sua antiga intimidade, restituindo-nos, cheio de misericórdia, a graça perdida.

23 «Comamos e festejemos», a imagem da Sagrada Eucaristia, segundo um sentido espiritual corrente.

25-32 «O filho mais velho»: esta segunda parte da parábola não se pode limitar a uma censura dos fariseus e escribas (v. 2), cumpridores, mas insensíveis ao amor – o mais velho é que é, no fim de contas, o filho mau –; a parábola é também uma lição para todos, a fim de que imitem a misericórdia de Deus para com um irmão que pecou (cf. Lc 6,36); ele é sempre «o teu irmão» (v. 33), e não há direito de que não se tome a sério a misericórdia de Deus, com aquela despeitada ironia: «esse teu filho» (v 30). A misericórdia de Deus é tão grande, que ultrapassa uma lógica meramente humana; esta segunda parte da parábola põe em evidência a misericórdia de Deus a partir do contraste com a mesquinhez do filho mais velho.

 

Sugestões para a homilia

 

1. «O filho que parte.

2. O filho que fica.

3. Era uma vez um pai.

4. O Pai de misericórdia.

 

 

1.  Todos discípulos missionários

 

1. «O filho que parte. Era «o mais novo»; tinha todo o futuro pela frente e uma vida ainda por realizar. Mas decide partir; na bagagem leva muita saúde, força física, pernas para andar e uma cabeça que lhe acena independência e liberdade. Possui uma boa herança para construir a sua vida e o seu caminho longe da casa paterna. Para quê tutelas e paternalismos? Por isso parte; vai cheio de sonhos pela estrada fora ao encontro da vida em país distante. Sente-se livre, a vida pertence-lhe e a idade também; pode fazer o que lhe dá na real gana. E faz mesmo. E o que lhe apetece fazer é gozar a vida. Os «amigos da onça» ajudam, o prazer convida e a vida corre às mil maravilhas, ou melhor, corria até ao momento em que o presente se torna indigência e o futuro um pesadelo. Só então acorda do sonho e exclama: «Quantos jornaleiros em casa de meu pai... e eu aqui a morrer de fome!»

Este foi um momento crucial porque foi um momento de verdade; e a verdade estava ali diante dele, nua e crua: longe da casa paterna, encontrava-se agora com a herança esbanjada e a vida destruída. A sua suposta liberdade tornou-se em escravatura e a sua independência jazia nos caprichos dum patrão explorador.

«Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. Pôs-se a caminho e foi ter com o pai.»

Regressou, foi abraçado e houve festa com e por alguém que o esperava.

 

2. O filho que fica. Quem não o esperava era o irmão «mais velho», o tal que tinha o futuro assegurado, sem correr os riscos das grandes aventuras. Este assentara a vida na segurança que a casa paterna lhe oferecia; vive no realismo e no bom senso de quem não quer perder o presente com veleidades futuras. Trabalhava, o pai era bom e o trabalho compensador; ao fim de contas, o irmão mais novo partira com a sua herança, e, portanto, tudo o resto seria dele. Fechado sobre si mesmo, a casa paterna era refúgio na segurança da virtude e do bom comportamento.

Diz-nos o Evangelho que este andava fora a trabalhar quando o irmão regressa à casa que já não lhe pertencia, para comer o vitelo que não ajudara a criar. E foi então que lhe invadiram as perguntas: Irmão? Que irmão? Esse que sujou a imagem e bom nome de família? Que não ouviu conselhos de ninguém? Que se arruinou numa vida dissoluta? E, por isso, recusava-se a entrar em casa e na festa do irmão que regressara.

 

3. Era uma vez um pai. O Evangelho fala-nos também de um pai que tinha estes dois filhos, o que parte e o que fica, o distante e o perto, o que se perde de si e o que se perde do irmão, o que se afasta para regressar com uma história triste e desfeita e o que, sempre ali, percorreu o caminho do afastamento fraterno. Quando o mais novo entra em casa, o mais velho anda fora.

Jesus contou esta parábola precisamente numa altura em que os fariseus e os escribas murmuravam: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». Jesus conta-lhes então três parábolas para perguntar: Qual é o homem que não vai em busca da ovelha que se perdeu? Qual é a mulher que não varre a casa toda em busca da moeda perdida?

E Jesus acrescentou: «Pois Eu digo-vos: Haverá mais alegria no céu por um só pecador que se arrepende do que pelos noventa e nove justos».

 

4. O Pai de misericórdia. Esta passagem do Evangelho, embora seja conhecida como a parábola do filho pródigo, é sobretudo a parábola do pai de misericórdia, porque mais do que chamar a atenção para o regresso do filho que se perdera, a parábola evidencia o coração misericordioso de um pai sempre disposto a acolher em seus braços qualquer um dos seus filhos.

Ao contar-nos esta parábola, Cristo estava a falar da minha história com Deus e da minha história com os irmãos; mas estava, sobretudo, a contar a história dum pai que continua à espera e tem um nome: Pai de Misericórdia

 

 

Oração Universal

 

Confiando no amor misericordioso do Pai, que abre os braços para acolher todos os homens, peçamos por nós e pelo mundo inteiro.

 

R. Senhor, aumenta a nossa fé.

 

1.      Pelo abraço da fé, entre todas as Igrejas cristãs,

e pelo abraço da compaixão entre todos os crentes.

Oremos, irmãos.

 

2.      Pelo abraço da paz e da liberdade,

entre todas as nações, povos, raças e culturas.

Oremos, irmãos.

 

3.      Pelo abraço do perdão entre pais e filhos,

e pelo abraço da reconciliação entre irmãos.

Oremos, irmãos.

 

4.      Pelo abraço de ajuda e da consolação,

a todos os que se veem em necessidade e aflição.

Oremos, irmãos.

 

5.      Pelo abraço de missão, nesta Igreja da Diocese do Porto,

para que se alargue a todos os que estão fora de casa e a ela querem voltar.

Oremos irmãos.

 

6.      Pelo nosso abraço universal em Cristo,

aberto aos abraços de todos os filhos de Deus.

Oremos, irmãos.

 

P- Senhor, escutai a nossa oração,

para que vivamos sempre e cada vez mais a alegria da comunhão convosco.

Nós vo-Lo pedimos por vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

R/ Amem.

 

 

 

Prefácio:

 

Prefácio e Oração Eucarística da Reconciliação II

¨

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Clamai pelo Senhor – M. Luís, CAC, pg 138

 

Oração sobre as oblatas: Ao apresentarmos com alegria estes dons de vida eterna, humildemente Vos pedimos, Senhor, a graça de os celebrar com verdadeira fé e de os oferecer dignamente pela salvação do mundo. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Santo: A. F. Santos – BML, 27

 

Monição da Comunhão

 

Com o perdão, o filho mais novo recuperou a comodidade. Mas o pai recuperou o seu coração. Deus é assim... Na comunhão, Cristo partilha connosco o abraço da sua alegria!

 

Cântico da Comunhão: Quem come deste pão – J. S. Bach/C. Silva, OC pg 216

Lc 15, 32

Antífona da comunhão: Alegra-te, meu filho, porque o teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado.

 

Cântico de acção de graças: Provai e vede como o Senhor é bom – J. Santos, NRMS, 1 (I)

 

Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, luz de todo o homem que vem a este mundo, iluminai os nossos corações com o esplendor da vossa graça, para que pensemos sempre no que Vos é agradável e Vos amemos de todo o coração. Por Nosso Senhor.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Esta é a semana para vestir, revestir e investir na alegria! Vestir os nus. Visitar os enfermos. Perdoar as injúrias. Suportar com paciência as fraquezas do próximo. Eis o apaixonante programa da compaixão, para esta semana do Pai!

 

 

 

Bênção final:

 

Deus, Pai de misericórdia,

conceda a todos vós, como ao filho pródigo,

a alegria do regresso a sua casa.

R. Amen.

 

Cristo, exemplo de oração e de vida,

vos guie nos caminhos da Quaresma

à autêntica conversão espiritual.

R. Amen.

 

O Espírito de sabedoria e de fortaleza

vos confirme na luta contra o maligno,

para que possais celebrar com Cristo o triunfo pascal.

R. Amen.

 

Abençoe-vos Deus todo-poderoso, Pai, Filho + e Espírito Santo.

R. Amen.

 

Cântico final: Salve ó Cruz – M. Faria, 20 cânticos para a missa

 

 

Homilias Feriais

 

4ª SEMANA

 

2ª Feira, 28-III: A renovação pessoal e da sociedade

Is  65, 17-21 / Jo 4, 43-54

Olhai que vou criar novos céus e nova terra…Vai haver alegria e júbilo sem fim.

A renovação da face da terra é uma excelente promessa (LT). Jesus contribuiu para essa renovação, ressuscitando o filho do funcionário real (EV).

Esta renovação consiste em sair do pecado e das suas consequências, em que a humanidade se encontra, em abandonar as coisas velhas, feitas de lágrimas, aflições, mortes (LT). Na Quaresma podemos contribuir para esta renovação pessoal, evitando o pecado, rezando ao Espírito Santo para que renove a face da terra e contribuindo com a nossa renovação pessoal.

 

3ª Feira, 29-III: Os poderes da água viva

Ez 47, 1-9 / Jo 5, 1-3. 6-16

É que, aonde chegar, a água, tornará tudo são, e haverá vida em todo o lugar que o rio atingir.

Desde o princípio do mundo, a água, embora uma criatura humilde, é fonte de vida e fertilidade. A Escritura, ao ver que o Espírito Santo paira sobre as águas, dá-lhe relevo. É o que se verifica na profecia de Ezequiel (LT).

A água adquire também um poder medicinal curativo (EV). Passa a ser a água viva, de qual Jesus fala à samaritana, e que recebe esses méritos pela paixão e morte de Cristo. O sangue e a água, que brotaram do lado aberto do Crucificado, são tipos do Baptismo e da Eucaristia, sacramentos da vida nova.

 

4ª Feira, 30-III: A comunicação da vida sobrenatural

Is 49, 8-15 / Jo 5, 17-30

Tal como o Pai ressuscita dos mortos e os faz viver, assim o Filho faz viver aqueles que entende.

Deus amou de tal modo o mundo, que lhe entregou o seu Filho único, para que tivéssemos vida sobrenatural. O seu amor é enormemente mais forte do que o de uma mãe para os seus filhos (LT), pois estas nunca os esquecem.

Para nos conceder a vida sobrenatural, dá-nos os alimentos adequados (LT), concretizados na palavra de Deus: quem ouve a minha palavra tem a vida eterna (EV). Comunica-nos igualmente a sua vida, especialmente através dos sacramentos, obras primas de Deus, na Nova e eterna Aliança.

 

5ª Feira, 31-III: As intercessões de Moisés e de Jesus

Ex 32, 7-14 / Jo 6, 31-47

Moisés: Deixai cair a vossa ardente indignação, renunciai ao castigo que quereis dar ao vosso povo.

Depois do terrível acto de adoração do bezerro de ouro (LT), Moisés tornou-se um poderoso intercessor diante de Deus, para salvar o povo, que o Senhor lhe tinha confiado.

Agora, o intercessor é Cristo, que se ofereceu ao Pai, uma vez por todas, morrendo como intercessor sobre o altar da Cruz, para realizar a favor dos homens uma redenção eterna. Ele quis deixar à Igreja um sacrifício visível, perpetuando a sua memória até ao fim dos séculos, aplicando a sua eficácia salvífica à remissão dos pecados, que nos cometemos com bastante frequência.

 

6ª Feira, 1-IV: A cooperação na Paixão de Cristo

Sab 2, 1. 12-22 / Jo 7, 1-2. 10, 25-30

Se esse justo é filho de Deus, Deus estará ao seu lado. Condenemo-lo a morte infame, pois ele diz que será socorrido.

Estes pensamentos dos ímpios (LT), são uma profecia do que viria a acontecer na paixão de Cristo: os judeus procuravam dar-lhe a morte (EV).

O Senhor aceitou livremente a sua paixão e morte, para cumprir a vontade do Pai e por amor dos homens, a quem o Pai queria salvar. Todos nós beneficiamos dos méritos da sua Paixão e, ao mesmo tempo, somos chamados a associar-nos ao seu sacrifício. O mesmo aconteceu com a sua Mãe, embora em sumo grau. Ficou associada mais intimamente ao mistério do sacrifício redentor do seu Filho.

 

Sábado, 2-IV: O Cordeiro Pascal

Jer 11, 18-20 / Jo 7, 40-53

Eu era como dócil cordeiro levado ao matadouro, sem saber da conjura que teciam contra mim.

Foi João Baptista que aplicou a Jesus esta profecia do ‘Cordeiro de Deus’. Com efeito, Jesus é, ao mesmo tempo, o servo sofredor, que se deixa levar ao matadouro (LT), sem qualquer palavra e carregando sobre os seus ombros os pecados de todos, e o Cordeiro pascal, símbolo da redenção de Israel na primeira Páscoa.

A morte de Cristo na Cruz é, ao mesmo tempo, o sacrifício pascal por meio do Cordeiro, que tira o pecado mundo, e o sacrifício da Nova Aliança, que restabelece a comunhão entre Deus e os homens.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:       Nuno Miguel Westwood

Nota Exegética:                Geraldo Morujão

Homilias Feriais:               Nuno Romão

Sugestão Musical:            José Carlos Azevedo

 


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