Anunciação do Senhor

25 de Março de 2022

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Anjo do Senhor anunciou a Maria – M. Simões, NRMS,31

Hebr 10, 5.7

Antífona de entrada: Ao entrar no mundo, o Senhor disse: Eu venho, meu Deus, para fazer a vossa vontade.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Celebramos hoje a Solenidade da Anunciação do Senhor. É a celebração do grande mistério cristão da Encarnação do Verbo de Deus; o momento em que a segunda Pessoa da Santíssima Trindade começa a sua existência humana. O filho de Deus faz-se Filho do Homem.

Deixemos que o Senhor, com o poder do Seu Amor, faça morada em nós, dizendo-lhe: faça-se em mim segundo a tua vontade.

 

Ato Penitencial

 

Comecemos o nosso coração ao gozo da presença de Deus que perdoa todos os nossos pecados.

 

Senhor, Deus do Amor e da Esperança, Tu prometes um Salvador e manda-lo à terra; porém, nós desconfiamos.

Senhor, tende piedade de nós.

 

Jesus Cristo, traz-nos a salvação. Porém, não sabemos aceitá-la nem recebê-la como pessoas simples e agradecidas.

Cisto, tende piedade de nós.

 

Senhor, Maria aceita ser a Mãe do Salvador e faz com que se cumpram as esperanças. Porém, nós continuamos a duvidar.

Senhor, tende piedade de nós.

 

Oração colecta: Deus, Pai santo, que na vossa benigna providência quisestes que o vosso Verbo assumisse verdadeira carne humana no seio da Virgem Maria, concedei-nos que, celebrando o nosso Redentor como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mereçamos também participar da sua natureza divina. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Acaz, rei de Jerusalém, vê vacilar o seu trono devido à aproximação de exércitos inimigos. A sua primeira reação é entrar numa política de alianças humanas. Isaías, pelo contrário, propõe a resolução do problema pela confiança em Deus. Convida o rei a pedir um sinal que seja confirmação da assistência divina. Acaz, por hipocrisia recusa a proposta. Mesmo assim, Isaías, anuncia o grande sinal: “a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será ‘Emanuel’, porque Deus está connosco”.

 

Isaías 7,10-14.8-10

 

Naqueles dias, 10o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: 11“Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas”. 12Acaz respondeu: “Não pedirei, não porei o Senhor à prova”. 13Então Isaías disse: “Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? 14Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será ‘Emanuel’, 8, 10porque Deus está connosco.

 

Este célebre texto messiânico é extraído do início do «Livro do Emanuel», assim chamado pela misteriosa figura central do Immánu-El (connosco Deus), um «menino» descrito com traços que excedem tudo o que a história da monarquia hebraica regista (Is 7,1 – 12,6), daí o seu carácter messiânico, em quem os cristãos vêem uma figura do Salvador.

10-13 Como prova de que o rei Acaz não virá a ser destronado e substituído pelo filho de Tabel, estranho à linhagem davídica (estamos na conjura siro-efraimita contra o rei de Judá), o profeta Isaías propõe ao rei que peça um sinal divino, o mais extraordinário que seja (cf. v. 11). O rei, com hipócrita religiosidade, nega-se a pedir esse sinal, porque não acredita em sinais, em coisas sobrenaturais. Foi por esta ocasião (o que não quer dizer exactamente o mesmo momento) em que o Profeta, dirigindo-se à linhagem (casa) de David, anunciou que o Senhor dará um sinal verdadeiramente extraordinário e que o trono de David se consolidará eternamente (cf. 2Sam 7,16).

14 Esse «sinal» é a virgem que concebe. Muito se tem discutido e escrito sobre este sinal. Uma coisa é certa, é que o crente não pode prescindir de algum sentido messiânico (directo ou indirecto) desta célebre passagem isaiana. De facto, a própria exegese bíblica mostra que estamos no chamado «Livro do Imanuel» (Is 7 – 12), uma secção de carácter vincadamente messiânico por apontar para um descendente de David em quem se concentram as promessas da salvação de Deus, o Imanuel (o Deus connosco); embora, em primeiro plano, possa ser visado o próprio filho do rei Acaz, Ezequias, ele é considerado uma figura ou tipo do Messias. A tradução grega dos LXX (inspirada por Deus?) utilizou um termo específico para designar a virgindade desta mãe, chamando-a parthénos, quando o termo hebraico original não designa mais que a sua idade juvenil: ‘almáh. A célebre tradução grega em que se apoiavam os primeiros apologistas cristãos para demonstrarem aos judeus que Jesus é o Messias prometido, veio a ser rejeitada pelos judeus, que a substituíram por outras versões (ou antes adaptações gregas, Áquila, Símaco e Teodocião), e o dia festivo para comemorar a tradução dos LXX passou a ser um dia de luto para eles. A interpretação mais tradicional defende o sentido literal (não se contentando com o sentido chamado típico ou pleno, suficientes para se garantir o sentido messiânico da passagem) e faz finca-pé em que Deus tinha oferecido pelo Profeta um sinal prodigioso, e eis que o dá; ora esse sinal só é prodigioso se a concepção e o nascimento do Menino acontece sem destruir a virgindade da Mãe; aliás é ela a pôr o nome ao filho, coisa que pertence sempre ao pai (que aqui não aparece). O próprio nome do filho insinua a sua divindade, «Deus connosco» é a mesma personagem extraordinária anunciada em Is 9,5-6: «Deus forte, príncipe da paz...». Bento XVI após ter feito referência a todas as interpretações propostas pela crítica bíblica, que não resolvem definitivamente a identificação de quem é este filho da virgem, apela para uma Palavra de Deus à espera de ser decifrada, uma Palavra do ano 733 a. C., então incompreensível, que acabou por ficar esclarecida no seu sentido mais profundo ao ser cumprida no momento da concepção de Jesus Cristo (Jesus de Nazaré. A Infância de Jesus p. 47).

 

Salmo Responsorial    Sl 39 (40), 7–8a.8b–9.10.11 (R. 8a.9a)

 

 

Refrão:        Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.

 

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,

mas abristes–me os ouvidos;

não pedistes holocaustos nem expiações,

então clamei: «Aqui estou».

 

De mim está escrito no livro da Lei

que faça a vossa vontade.

Assim o quero, ó meu Deus,

a vossa lei está no meu coração».

 

Proclamei a justiça na grande assembleia,

não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.

 

Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,

proclamei a vossa fidelidade e salvação.

Não ocultei a vossa bondade e fidelidade

no meio da grande assembleia.

 

Segunda Leitura

 

Monição: O autor da Carta aos Hebreus relê o Salmo 39, - utilizado pela liturgia desta solenidade – como se fosse uma declaração de intenções do próprio Cristo ao entrar no mundo.

Eis o sentido da minha relação com Deus: mais do que coisas exteriores, Deus quer os corações que se abrem para Ele e O acolhem no único sacrifício que lhe é agradável, o de Jesus Cristo na cruz que celebramos na eucaristia.

 

Hebreus 10,4-10

 

Irmãos: 4É impossível que o sangue de touros e cabritos perdoe os pecados. 5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo disse: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. 6Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. 7Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade’”. 8Primeiro disse: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado”. E, no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. 9Depois acrescenta: “Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade”. Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. 10É em virtude dessa vontade que nós somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.

 

O autor de Hebreus está no final da primeira parte da obra, precisamente quando discorre sobre a superioridade do sacrifício de Cristo relativamente a todos os sacrifícios da Lei Antiga (8,1 – 10,18), sob o ponto de vista da eficácia, argumentando, à boa maneira rabínica, a partir dos Salmos 40,7-9 e 110,1. Perante a ineficácia dos sacrifícios da Antiga Lei, o próprio Deus decide vir à Terra, na pessoa do Filho para poder oferecer, da parte da humanidade (Cristo é perfeito homem), um sacrifício de eficácia infinita (Cristo é perfeito Deus), oferecido de uma vez para sempre (v. 10), e assim aboliu o primeiro culto, o levítico (v. 9). Recorde-se que o Sacrifício do Calvário é único pelo seu infinito valor, o Sacrifício da Missa não é outro sacrifício diferente, mas o mesmo sacrifício que se torna presente sacramentalmente a todos os tempos nos nossos altares, aplicando-nos os méritos do sacrifício da Cruz.

5 «Formaste-Me um corpo». O texto segue a tradução dum manuscrito da Septuaginta, mas no original hebraico temos «abriste-me os ouvidos»; a tradução grega, mais rica em sentido messiânico, foi a utilizada nos primeiros tempos da Igreja, por isso é considerada sagrada como texto inspirado por Deus.

7 «Eis-me aqui». Palavras do Salmo 40 (39) que o autor inspirado aplica a Jesus, e que a Liturgia hoje põe no coração do Filho de Deus, ao incarnar no seio da Santíssima Virgem, que diz também «eis aqui a serva do Senhor» (Lc 1,38).

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 1, 14ab

 

Monição: Maria foi questionada se queria ser Mãe de Jesus, o Deus que salva... E, assim, o Filho de Deus será introduzido no templo mais formoso que conhecemos. Um templo construído pelas mãos de Deus e que se chama Maria.

 

Cântico: Louvor e glória a Vós – J. F. Silva, NRMS, 1 (I)

 

O Verbo fez–Se carne e habitou entre nós

e nós vimos a Sua glória.

 

 

Evangelho

 

Lucas 1,26-38

 

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”. 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim”. 34Maria disse ao Anjo: “Como será isto, se eu não conheço homem?”. 35O Anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível”. 38Maria disse então: “Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra”.

 

A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma densidade tal, que cada palavra encerra uma riqueza e profundidade impressionante, o que condiz bem com o acontecimento mais assombroso e transcendente da História, a Incarnação do Filho eterno de Deus, quando o Eterno entra no tempo, o Criador se faz criatura! Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria!

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8,16-26; 9,21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia» (a nova tradução da CEP tem salve); cf. Mt 26,49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10,5); seria de preferir a tradução (como a italiana e a espanhola): «alegra-te» – a tradução literal do imperativo grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêem na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3,14; Jl 2,21-23; Zac 9,9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28,15), Moisés (Ex 3,12) e Gedeão (Jz 6,12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita és tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Nova Vulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1,12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1,18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1Sam 1,18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6,8) e Moisés (Ex 33,12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2Sam 7,8-16; Salm 2,7; 88,27; Is 9,6; Jer 23,5; Miq 4,7; Dan 7,14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7,14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1,2; Salm 104,30) e santificadora (cf. Act 2,3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; para a nova tradução da CEP propõe-se: «te envolverá»); o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40,34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Nova Vulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». Assim também a nova tradução que propõe: «o que é concebido santo». de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2,7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino, mas a nova tradução propõe serva. Com efeito, Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus, que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus (M. Orsatti).

 

Sugestões para a homilia

 

A Solenidade da Anunciação do Senhor, “festa conjunta de Cristo e da Virgem: do Verbo que se faz filho de Maria, e da Virgem que se converte em Mãe de Deus” (MC 6), celebrada nove meses antes do Natal, tem início nos primeiros séculos do cristianismo. É provável que, no século IV, ela já fosse celebrada na Palestina, pois naquelas datas foi erigida uma Igreja bizantina em Nazaré, o lugar onde a tradição coloca a casa de Maria. Muito rapidamente, durante o século V, a festa será difundida pelo Oriente cristão, para depois ser transmitida ao Ocidente, tendo sido introduzida na Igreja romana pelo Papa Sérgio I, no final do século VII com uma solene procissão na Basílica de Santa Maria Maior.

Nesta Solenidade celebra-se o anúncio mais importante da nossa história: o Filho eterno do Pai entra na história. É o encontro pessoal de Deus com o homem, tão pessoal que a Palavra eterna, o Filho do Pai, Se faz homem na carne de Maria, uma rapariga humilde do povo de Israel, e encarna na nossa raça... Desde então, “a história não é mais uma simples sucessão de séculos, anos, dias, mas sim o tempo de uma presença que lhe dá pleno significado e abertura a uma sólida esperança” (Bento XVI, Audiência, 12/12/2012). Pois o Filho de Deus torna-Se homem para que este se converta em Filho de Deus.

 

Os textos da Missa desta solenidade focam-se na contemplação do Verbo feito carne. O salmo 39 (40) evocado na antífona de entrada, no salmo responsorial e na segunda leitura é o fio condutor de toda a celebração: Eis que venho, Senhor, para fazer a vossa vontade!

Narra-nos São Lucas, no Evangelho deste dia (Lc 1, 26-38), que a alegria da salvação tem início num lugar remoto da Galileia, numa cidade periférica, Nazaré, no anonimato da casa de uma jovem de nome Maria, da casa de David, desposada com um artesão de nome José.

Do Céu chega, através do mensageiro celeste – Gabriel -, a alegria incandescente a casa de Maria: Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo. E depois o anjo anuncia-lhe a maternidade que tornará visível a invisibilidade de Deus... revela-lhe que foi escolhida para ser mãe de Jesus, o Deus que salva. O seu filho será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo. Nada do que acontecerá será obra dos homens mas de Deus que no Espírito Santo manifestará o seu poder.

Maria fica perturbada, não tanto pela aparição do anjo, mas com esta Palavra que lhe cai nos ouvidos e no coração. Certamente deseja servir a Deus com todo o seu coração e com toda a sua alma; mas quem é Ela para merecer esses elogios? O que é que fez na sua breve existência? E mais: como será isto, se eu não conheço homem?... Então o anjo explica a Maria que essa concepção terá a ver com a intervenção de Deus, pois o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus... E é assim que Maria entende e se submete à vontade de Deus: eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.

 

Como Maria, também nós podemos estar desorientados. Como acontecerá isto em tempos cheios de feridas? Feridas da fraternidade e da comunidade; feridas na vida diárias de muitas famílias marcadas pela precariedade e a insegurança; feridas nos jovens pela falta de oportunidades reais, pelos fracassos e pelas recordações tristes... Mas, na verdade, Deus é Aquele que toma a iniciativa e escolhe inserir-se, como fez com Maria, nas nossas casas, nas nossas lutas do dia a dia, repletas de ansiedades e, ao mesmo tempo, de desejos. E é aí que se cumpre o anúncio mais bonito que podemos ouvir: alegra-te, o Senhor está contigo... E mais: nada é impossível a Deus.

A minha e a tua vida, como a de Maria, é lugar onde Deus se quer revelar aos homens. E, mesmo que nos pareça que, no viver de cada dia, nada de novo e interessante acontece que possa prender a atenção de Deus, Deus olha para nós e, apesar da nossa pobreza, desafia-nos a retirar o impedimento da nossa vontade e deixar que Ele faça o que é impossível aos nossos olhos.

Como Maria também eu e tu podemos abrir-nos à iniciativa de Deus e dizer-Lhe: faça-se em mim segundo a tua vontade! E fazer da nossa vida uma vida cheia de alegria: alegria que gera vida, que gera esperança... alegria que se torna solidariedade, hospitalidade e misericórdia para com todos.

 

Deus chama, mas não se impõe. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão bem-aventurada...E nós? Que o duplo “Sim” de Cristo e de Maria se converta em programa de vocação, entrega e serviço tornando Deus presente aqui e agora.

 

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs em Cristo:

Unidos, pela fé, à Virgem Maria,

em cujo seio o Verbo Se fez carne para a salvação do mundo,

façamos subir ao Pai as nossas súplicas,

dizendo (ou: cantando), com alegria:

R. Interceda por nós a Virgem cheia de graça.

Ou: Interceda por nós a Mãe do Verbo Encarnado.

 

1.      Para que a Igreja, dispersa pelo mundo,

anuncie fielmente Jesus Cristo,

concebido no seio da Virgem Maria, por obra do Espírito Santo,

oremos, por intercessão de Maria.

 

2.      Para que o Papa Francisco, os bispos, os presbíteros e os diáconos,

amem a Deus de todo o coração

e exerçam o seu ministério imitando a Cristo,

oremos, por intercessão de Maria.

 

3.      Para que em Cristo, servo obediente,

que veio ao mundo para fazer a vontade do Pai,

ofereçamos a Deus a nossa própria vida,

oremos, por intercessão de Maria.

 

4.      Para que aos pobres e aos que têm fome

seja dado o pão de cada dia

e nos seus rostos vejamos o de Cristo,

oremos, por intercessão de Maria.

 

5.      Para que a Virgem Santa Maria, Mãe do ‘Emanuel’,

que nos foi dada por seu Filho como nossa Mãe,

nos acompanhe quer na vida quer na morte,

oremos, por intercessão de Maria.

 

6.      Para que os cristãos de todas as Igrejas,

particularmente os da nossa Diocese,

imitem Cristo no seu modo de viver,

oremos, por intercessão de Maria.

 

(Outras intenções).

 

Infundi, Senhor, a vossa graça em nossas almas,

para que a anunciação do Anjo,

que nos revelou a encarnação do vosso Filho,

e a intercessão da Virgem Santa Maria

nos levem a contemplar a vossa glória. Por Cristo Senhor nosso.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Louvada seja na terra, A. F. Santos, NRMS, 33-34

 

Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, os dons da vossa Igreja, que reconhece a sua origem na Encarnação do vosso Filho e fazei-lhe sentir a alegria de celebrar nesta solenidade os mistérios do seu Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Prefácio

 

O mistério da Encarnação

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor. Pela Anunciação do mensageiro celeste, a Virgem Imaculada acolheu com fé a vossa Palavra e pela acção admirável do Espírito Santo trouxe em seu ventre com amor inefável o Primogénito da nova humanidade, que vinha cumprir as promessas feitas a Israel e revelar-Se ao mundo como a esperança de todos os povos.

Por isso com os Anjos, que adoram a vossa majestade e exulta eternamente na vossa presença, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

Santo, Santo, Santo...

 

Santo: C. Silva – COM, (pg 193)

 

Monição da Comunhão

 

Deus promete e cumpre. Promete um Salvador e envia-O à terra. Torna-se realidade a esperança do Povo.

O mesmo Jesus nos reúne agora neste banquete e diz-nos que aquele que comer o Seu Pão não morrerá para sempre. Acolhamos Jesus como Maria o acolheu.

 

Cântico da Comunhão: Louvemos o Senhor, cantemos ao Senhor – J. Santos, NRMS, 81

Is 7,14

Antífona da comunhão: A Virgem conceberá e dará à luz um Filho e o seu nome será Emanuel, Deus connosco.

 

Cântico de acção de graças: Magnificat – B. Terreiro, CNPL 600

 

Oração depois da comunhão: Confirmai em nós, Senhor, os mistérios da verdadeira fé, para que, tendo proclamado que Jesus Cristo, concebido da Virgem Maria, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cheguemos, pelo poder da sua ressurreição, às alegrias da vida eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Graças à generosidade de Maria, Deus pôde encontrar um lugar na terra. Já não podemos olhar para a história sem ver Deus dentro dela. Que Maria nos ajude a procurar sempre e em tudo a vontade de Deus.

 

Cântico final: Avé Maria Senhora – J. F. Silva, NRMS, 81

 

 

Homilia FeriaL

 

Sábado, 26-III: Os sacrifícios agradáveis a Deus.

Os 6, 1-6 / Lc 18, 9-14

Pois eu quero o amor e não sacrifícios, o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.

Estas palavras do profeta (LT) concordam inteiramente com as palavras de Jesus na parábola (EV). O fariseu orgulhava-se de oferecer vários sacrifícios e o publicano manifestava humildemente o seu amor, através da contrição.

Mas, não haverá sacrifícios agradáveis a Deus? Todas a actividades humanas, as orações, iniciativas, a vida conjugal e familiar, o trabalho de cada dia, quando vividos no Espírito de Deus, e até as provações da vida, sofridas pacientemente, se transformam em sacrifício espiritual, agradável a Deus. Ele quer misericórdia e não sacrifícios. (SR)

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:       Avelino dos Santos Mendes

Nota Exegética:                Geraldo Morujão

Homilia Ferial:                   Nuno Romão

Sugestão Musical:            José Carlos Azevedo

 


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