3º Domingo da Quaresma

20 de Março de 2022

 

Onde se fizerem os escrutínios preparatórios para o Baptismo dos adultos, neste domingo, podem utilizar-se as orações rituais e as intercessões próprias: p. 1063 do Missal Romano.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada:  Os meus olhos estão sempre fixos no Senhor – M. Faria, BML, 50

Salmo 24, 15-16

Antífona de entrada: Os meus olhos estão voltados para o Senhor, porque Ele livra os meus pés da armadilha. Olhai para mim, Senhor, e tende compaixão porque estou só e desamparado.

 

ou

Ez 36, 23-26

Quando Eu manifestar em vós a minha santidade, hei-de reunir-vos de todos os povos, derramarei sobre vós água pura e ficareis limpos de toda a iniquidade. Eu vos darei um espírito novo, diz o Senhor.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Embora a motivação que leva Moisés a aproximar-se da sarça ardente não seja perfeita, Deus usou-se da sua curiosidade para lhe poder revelar que, no sinal misterioso e paradoxal da sarça ardente, se encontrava Ele mesmo. Assim, os dois entram em diálogo, ficando Moisés a conhecer melhor quem é Deus e, sendo a Palavra de Deus, viva e eficaz, também hoje Ele quer ser o fogo que ardem em nós sem nos consumir, o fogo que nos renova e nos torna cada vez mais nós mesmos, na medida em que permanecermos junto àquele que nos incendeia o coração com o Seu Amor. Deus É: eis o nome de Deus. Deus É fiel a si mesmo, ao Seu amor que nos convida à conversão pessoal pelo arrependimento da nossa vida passada para que Ele possa ser tudo em nós.

 

Oração colecta: Deus, Pai de misericórdia e fonte de toda a bondade, que nos fizestes encontrar no jejum, na oração e no amor fraterno os remédios do pecado, olhai benigno para a confissão da nossa humildade, de modo que, abatidos pela consciência da culpa, sejamos confortados pela vossa misericórdia. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: No diálogo de Moisés com Deus, ele reconhece a missão divina que lhe estava confiada e que Deus já preparava no seu coração pelo desejo de servir o povo de Deus esmagado pelo sofrimento que lhe era imposto pelos egípcios. É na relação pessoal com Deus, e só aí, que Moisés percebe que era chamado a ser Seu instrumento para libertar o povo do Egipto, levando-o da terra da escravidão para a terra que Deus prometeu.

 

Êxodo 3,1-8a.13-15

Naqueles dias, 1Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Ao levar o rebanho para além do deserto, chegou ao monte de Deus, o Horeb. 2Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor numa chama ardente, do meio de uma sarça. Moisés olhou para a sarça, que estava a arder, e viu que a sarça não se consumia. 3Então disse Moisés: «Vou aproximar-me, para ver tão assombroso espectáculo: por que motivo não se consome a sarça?» 4O Senhor viu que ele se aproximava para ver. Então Deus chamou-o do meio da sarça: «Moisés, Moisés!» Ele respondeu: «Aqui estou!» 5Continuou o Senhor: «Não te aproximes daqui. Tira as sandálias dos pés, porque o lugar que pisas é terra sagrada». 6E acrescentou: «Eu sou o Deus de teu pai, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob». Então Moisés cobriu o rosto, com receio de olhar para Deus. 7Disse-lhe o Senhor: «Eu vi a situação miserável do meu povo no Egipto; escutei o seu clamor provocado pelos opressores. Conheço, pois, as suas angústias. 8Desci para o libertar das mãos dos egípcios e o levar deste país para uma terra boa e espaçosa, onde corre leite e mel». Moisés disse a Deus: 13«Vou procurar os filhos de Israel e dizer-lhes: ‘O Deus de vossos pais enviou-me a vós’. Mas se me perguntarem qual é o seu nome, que hei-de responder-lhes?» 14Disse Deus a Moisés: «Eu sou ‘Aquele que sou’». E prosseguiu: «Assim falarás aos filhos de Israel: O que Se chama ‘Eu sou’ enviou-me a vós». 15Deus disse ainda a Moisés: «Assim falarás aos filhos de Israel: ‘O Senhor, Deus de vossos pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob, enviou-me a vós. Este é o meu nome para sempre, assim Me invocareis de geração em geração’».

 

Moisés encontrava-se numa situação de fugitivo do faraó e refugiado junto de Jetro, sacerdote de Madiã, tendo casado com umas das suas filhas, Séfora. «Madiã» era um reduto de tribos nómadas madianitas, situado a sudeste do golfo de Akabá (Eilat), mas parece mais lógico que Jetro vivesse nalgum oásis da península do Sinai.» O Monte de Deus, o Horeb», na tradição javista habitualmente chamado Sinai, é a montanha de Deus, porque Deus aqui se revela (cf. Ex 19). A sua localização é muito discutida, mas a antiga tradição identificou-o com o djebel Musa (montanha de Moisés: 2.224 metros; S. Jerónimo pensava no Serbal).

2 «O Anjo do Senhor numa chama ardente». É por vezes esta uma forma de designar o próprio Deus, enquanto se manifesta ao homem (cf. Gn 16,7.13). Estamos perante uma forma de expressão deveras estranha para a nossa mentalidade: designar a Deus com o nome do seu mensageiro! No fundo parece haver uma concepção exacta de que nesta vida a criatura não pode ver a Deus, sendo frequente na Sagrada Escritura anotar que não se pode ver a Deus sem morrer (Gn 16,13; 32,31; Ex 33,20; Jz 6,22.23; 13,21-22). Por isso, se diz que Moisés cobriu o rosto (v. 6). No entanto, a existência dos anjos consta claramen­te de outras passagens da S. E.. Notar que o fogo, chama ardente, como elemento menos material, tornou-se um símbolo da santidade divina, da sua transcendência.

5 «Tira as sandálias». Atitude de respeito prescrita para os sacerdotes judeus poderem entrar no santuário e que ainda hoje adoptam os islamitas para entrar num lugar sagrado.

14 «Eu sou ‘Aquele que sou’... O que se chama ‘Eu sou’ enviou-me». Em hebraico «Eu sou» diz-se’ehyéh. Uma forma muito discutida do verbo, mista e arcaica, na terceira pessoa, dá yahwéh, que é a forma que aparece no v. 15, traduzida habitualmente por «Senhor», segundo a tradução grega (Kyrios) adoptada pelos LXX e também preferida pelas traduções modernas que assim evitam ferir a sensibilidade judaica; de facto, os judeus, por respeito, nunca pronunciam o nome de Yahwéh, mas dizem Adonai (Senhor).

Também se discute qual o sentido do nome com que Deus se auto-designa: 1) Uns entendem: Eu sou Aquele que faz existir (dá o ser), isto é, Eu sou o Criador, uma interpretação pouco provável, pois o verbo hebraico correspondente (hayáh) não se usa na conjugação chamada hifil (a forma causativa). 2) Outros traduzem: «Eu serei o que sou», significando assim a imutabilidade e eternidade divina, mas, ainda que o imperfeito hebraico se possa traduzir tanto pelo presente como pelo futuro, não parece legítimo que na mesma frase se use diversa tradução para a mesma forma verbal. 3) Outros preferem uma tradução: «Eu sou porque sou», isto é, em Mim está toda a razão da minha existência, traduzindo o pronome relativo «que» (’axer) não como pronome, mas como conjunção causal, uma coisa pouco frequente. 4) Finalmente, temos aqueles que traduzem: «Eu sou Aquele que sou» (tradução mais habitual), ainda que haja divergências na interpretação; assim: a) uns entendem: Eu sou um ser inefável, indefinível através de qualquer nome, tendo em conta a mentalidade segundo a qual conhecer o nome duma divindade implicava um domínio mágico sobre ela: Deus, com esta maneira de falar, subtraía-se a dar o seu nome, revelando assim a sua transcendência (esta opinião não se coaduna bem com o contexto: v. 15); b) outros entendem: Eu sou Aquele que sou, em contraste com os deuses pagãos que não são, não têm existência real, pois «Eu sou, e serei contigo» (v. 12) para defender, guiar, proteger e salvar o meu povo. c) e também há quem entenda Eu sou Aquele que sou significando Aquele a quem compete a existência sem quaisquer restrições, realidade que a filosofia e a teologia vêm a explicitar dizendo que Deus é o ser necessário e absoluto, o ser a cuja essência pertence a existência, interpretação esta que, embora se coadune com a tradução grega dos LXX, Eu sou Aquele que existe, corresponde mais à reflexão filosófico-teológica do que à mentalidade semítica.

A pronúncia do nome divino Jeová não é correcta e procede do século XVI, quando os estudiosos leram as consoantes do tetragrama divino, YHWH (4 consoantes) com as vogais do nome Adonai. Com efeito, quando, a partir do séc. VI p. C. os massoretas colocaram os sinais vocálicos no texto hebraico (que se escrevia só com consoantes), tiveram o cuidado de não colocar no nome de Yahwéh as suas vogais próprias, a fim de que um leitor distraído não pronunciasse o inefável nome divino, mas lesse Adonai. Note-se que o nome de Jesus (Yehoxúa) é teofórico, entrando na sua composição o nome Yahwéh: Yahwéh-salva. É por isso que, quando os cristãos invocam a Jesus, estão a utilizar e a santificar o nome de Yahwéh, e também é por isso que só no nome (na pessoa) de Jesus está a salvação (Act 4,12). Por outro lado, Jesus nunca se dirige Deus com o nome de Yahwéh, ou o seu correspondente Senhor, mas com o nome que indica a distinção pessoal, Pai. Seria absurdo e ridículo pensar que, para alguém se salvar, tenha de usar o nome de Yahwéh no trato com Deus; Jesus, que veio para nos salvar, não impôs a obrigação de usarmos o nome de Yahwéh, como condição de salvação e a Igreja que continua a missão de Jesus nunca urgiu tal tratamento para Deus.

 

Salmo Responsorial    Sl 102 (103), 1-4.6-8.11(R. 8a)

 

Monição: Deus não tinha porque se revelar e manifestar ao Homem. A doação de Deus a cada um de nós é fruto do Seu amor de Pai. Este é um salmo de acção de graças por tudo o que Deus preparou para nós: não esqueças nenhum dos seus benefícios.

 

Refrão:        O Senhor é clemente e cheio de compaixão.

 

Bendiz, ó minha alma, o Senhor

e todo o meu ser bendiga o seu nome santo.

Bendiz, ó minha alma, o Senhor

e não esqueças nenhum dos seus benefícios.

 

Ele perdoa todos os teus pecados

e cura as tuas enfermidades.

Salva da morte a tua vida

e coroa-te de graça e misericórdia.

 

O Senhor faz justiça

e defende o direito de todos os oprimidos.

Revelou a Moisés os seus caminhos

e aos filhos de Israel os seus prodígios.

 

O Senhor é clemente e compassivo,

paciente e cheio de bondade.

Como a distância da terra aos céus,

assim é grande a sua misericórdia para os que O temem.

 

Segunda Leitura

 

Monição: São Paulo exorta ao primado de Cristo na nossa vida pessoal. Diante da Sua passagem pela nossa vida fazendo o Bem que nos salva, não estejamos desatento e adiramos de todo o coração, sem soberba e sem reservas.

 

1 Coríntios 10,1-6.10-12

Irmãos: 1Não quero que ignoreis que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, passaram todos através do mar e na nuvem e no mar, 2receberam todos o baptismo de Moisés. 3Todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual. 4Bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava: esse rochedo era Cristo. 5Mas a maioria deles não agradou a Deus, pois caíram mortos no deserto. 6Esses factos aconteceram para nos servir de exemplo, a fim de não cobiçarmos o mal, como eles cobiçaram. 10Não murmureis, como alguns deles murmuraram, tendo perecido às mãos do Anjo exterminador. 11Tudo isto lhes sucedia para servir de exemplo e foi escrito para nos advertir, a nós que chegámos ao fim dos tempos. 12Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair.

 

A leitura é tirada daquela parte da carta onde Paulo procura dar resposta a um problema prático que então ali se punha: se era lícito ou não comer as carnes que, depois de terem sido oferecidas num templo pagão a um ídolo, eram vendidas na praça, os chamados idolótitos. O Apóstolo, depois de ter explicado os princípios gerais, a saber, que se podiam comer, pois os ídolos não são nada (8,1-6), adverte que era preciso ter em conta aqueles irmãos, fracos e timoratos, que se pudessem vir a escandalizar com isso (8,7-13), e passa a ilustrar a doutrina exposta, primeiro, com o seu exemplo de renunciar a direitos para bem dos fiéis (9,1-27), depois, com as lições da história de Israel (10,1-13): apesar de os israelitas na peregrinação do deserto terem sido favorecidos com tantos prodígios, «a maioria dele não agradou a Deus» e pereceu (v.5). E isto é uma lição para todos nós, para que não venhamos a arvorar-nos em fortes, pois também podemos vir a ser infiéis ao Senhor e a «cair» (v. 12). Os exegetas têm posto em relevo a actualidade dos escritos paulinos, pois S. Paulo, mesmo quando trata de assuntos ocasionais, que não nos dizem respeito, como neste caso, sempre apela para princípios válidos para todos os tempos e lugares.

2 «Na nuvem e no mar receberam todos o baptismo de Moisés», isto é, foram vinculados a Moisés aqueles antigos judeus pelo facto de, sob a sua chefia, se terem salvo com travessia das águas do «Mar» Vermelho e com a «nuvem» (sinal da presença protectora Deus). E isto a tal ponto que ficaram a constituir o que Actos 7,38 chama a «igreja do deserto». Tudo isto era a figura, ou exemplo (vv. 6.11) dos cristãos, baptizados em Cristo e formando o novo e definitivo povo eleito, que é a Igreja.

3 «Alimento espiritual». O maná é chamado espiritual, pelo carácter sobrenatural de que se revestia a sua abundância e por ser também uma figura da SS. Eucaristia. A «bebida espiritual», a água do Êxodo, também é espiritual por milagrosa e pelo seu significado espiritual: uma figura do Espírito que Cristo dá aos crentes (cf. Jo 4,10; 7,37-39; 16,7; 20,22).

4 «O rochedo espiritual que os acompanhava». Parece que S. Paulo se soube aproveitar duma tradição rabínica que consta da Tosefta, segundo a qual a pedra da qual brotou água (Ex 17,6) acompanhava os israelitas na sua peregrinação no deserto. Como os mestres rabinos costumavam identificar este rochedo com Yahwéh (cf. Êx 17,6), a «Rocha de Israel» (Salm 18(17),3), S. Paulo, para quem «esse rochedo era Cristo», insinua não só a preexistência de Cristo, mas também a sua divindade, a sua identificação com Yahwéh.

5 «Caíram mortos». Cf. Nm 14; 26,65.

 

Aclamação ao Evangelho        Mt 4, 17

 

Monição: Estamos já no terceiro Domingo da Quaresma, a meio deste caminho para a Páscoa. Como está a nossa conversão desde o início deste tempo de mudança de vida a Jesus. Não nos esqueçamos que a graça que Deus nos quer dar é sanante e santificante, ou seja, cura os nossos pecados e santifica-nos para que cresçamos para Deus. Arrependamo-nos e deixemos que Deus nos santifique pela oração e sacrifício que nos ajudam a voltarmo-nos para Ele.

 

Cântico: Louvor a Vós Rei da eterna glória – M. Simões, NRMS, 1 (I)

 

Arrependei-vos, diz o Senhor;

está próximo o reino dos Céus.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 13, 1-9

1Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam. 2Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? 3Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. 4E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante». 6Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. 7Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’ 8Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. 9Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».

 

Jesus contraria a opinião corrente de então e de hoje, que atribui todas as desgraças a um castigo de Deus; Ele antes quer que se vejam como um aviso de Deus, por isso aproveita estes acontecimentos para fazer um forte apelo à conversão.

1 «Pilatos mandara derramar o sangue...» Facto apenas conhecido por S. Lucas, mas que estava de acordo com o carácter violento e repressivo do governador romano. Um acto semelhante, o mandar matar uns samaritanos por ocasião duma peregrinação ao Monte Garizim, no ano 35, foi a ocasião para os judeus conseguirem do imperador a destituição de Pilatos, segundo conta Flávio Josefo (cf. Antiquitates, XVIII).

4 «A torre de Siloé, ao cair...» Facto também só conhecido por este relato. Siloé é o nome duma piscina a Sueste de Jerusalém, na parte interior da muralha que naquele sítio teria provavelmente algum torreão que então caiu.

5 «Eu digo-vos que não». Deus nem sempre castiga nesta vida os mais culpados. As calamidades e os males que nos sobrevêm podem ser uma prova a que Deus nos sujeita, uma ocasião de expiarmos os nossos pecados e uma chamada à conversão: «se não vos converterdes…»

6-9 Com a parábola (exclusiva de S. Lucas) da figueira sem frutos, o Senhor pretende ensinar que é urgente que nos convertamos: Deus é paciente na sua misericórdia (cf. Pe 3,9; Ez 33,11; Jl 2,13; Sab 11,23), mas não podemos adiar o arrependimento para uma hora que pode já ser tardia. É urgente que dêmos frutos de santidade, pondo de lado a preguiça e o comodismo, que tornam a vida inútil e estéril; Deus não deixa impune a falta de correspondência à cava e ao adubo da sua graça: «mandá-la-ás cortar».

 

Sugestões para a homilia

 

Para quando a tua conversão? Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje!

A meio deste percurso de preparação para a Páscoa é muito bom se conseguirmos rever os propósitos pessoais de conversão inicialmente formulados por cada um com Deus, não apenas por ser o meio de um percurso, mas porque o próprio Jesus nos remete em todas as leituras de hoje para a conversão de vida. Conversão a Deus implica transformação, ou seja, libertar-nos de algo que d’Ele nos afasta e redirecionarmos a nossa vida para Ele. Estamos à espera de quê? Não deixemos para amanhã a conversão que pode acontecer hoje na nossa vida porque amanhã já pode ser tarde… e hoje ainda é tempo!

Esta mudança passa em primeiro lugar por na nossa oração em silêncio identificarmos o que nos escraviza e precisa em nós de ser posto de lado para que Deus passe a ser a prioridade; em segundo lugar passa por pedir insistentemente a Deus - «pedi e ser-vos-á dado» (Mt 7, 7) -, como fez o povo de Israel que, estando como escravo no Egipto, gemia implorando a libertação a Deus que o escutou e teve compaixão (cf. Ex 2, 23-24). A graça de deixar para trás os vícios e más inclinações para viver a virtude contrária a esses males é dom de Deus, por isso peçamos; e em terceiro lugar, a conversão passa por esforçarmo-nos e colocarmos os meios humanos para podermos realmente mudar de vida apoiados e sustentados como filhos de Deus que somos no nosso Pai do Céu.

 

Este é o tempo favorável para a mudança de vida

No evangelho de hoje Jesus evoca dois acontecimentos passados que são interpretados como castigo divino consequente dos pecados das vitimas: a repressão das autoridades romanas dentro do templo e a tragédia de dezoito mortos ao derrubar a torre de Siloé. Quem ouve Jesus considera-se distante dessa culpabilidade das vítimas, ou seja, tem-se por justo e acredito estar a salvo de qualquer um de incidentes provocados por Deus devido à sua culpabilidade. Isto levou-os a considerar não terem nada que necessitasse de conversão, o que Jesus condena: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo» (Lc 13, 2-3). É mais triste quem tem o corpo vivo e a alma morta pelo pecado devido à falta de arrependimento do que quem morre em graça, consciente da sua pequenez diante de Deus e profundamente abandonado no Seu amor. Este é o tempo favorável para voltarmos a falar, a pensar, a agir, a mudar toda a nossa existência e a viver segundo o evangelho. Se Jesus nos convida incisivamente a esta disposição de coração é porque vê ser a nossa felicidade. Assim, no que de nós depende, procuremos responder com um esforço interior na oração pedindo que nos ilumine com a luz da fé para vermos o que necessitamos de deixar converter.

É urgente renovar a vida segundo a vontade de Deus. Queira cada um de nós o que Deus quer porque é um descanso viver a morrer todos os dias por ir contra o próprio querer, esquecendo o que se queria e querendo o que Deus quer. Na nossa vida existirão frutos de santidade, pela presença de Deus em nós, ou não haverá nada de bem. No evangelho Jesus fala dos frutos desta conversão servindo-se da parábola de uma figueira plantada numa vinha (cf. Lc 13, 6-9). Deus tem paciência e misericórdia de nós dando-nos tempo para a conversão, para a mudança interior e exterior de forma a não desperdiçar este tempo oportuno. É tempo de corresponder ao amor de Deus com o nosso amor de filhos, começando por dar algum pequenino passo na fidelidade ao tempo de oração diária, tendo-o bem planeado e antecipado no contexto de tudo o resto do nosso dia-a-dia e abrindo o nosso coração a Deus como filhos que sabemos que este Pai só quer o maior bem para nós.

 

A conversão não é só interior: uma mudança total

Não tenhamos ilusões porque não basta termos a caderneta dos sacramentos e da oração preenchida com checks. A vida cristã é muito mais do que um conjunto de requisitos a cumprir. Ser cristão é ser filho de Deus no seguimento de Jesus, o que significa reconhecer Deus presente na nossa vida e viver de acordo com a sua presença na fidelidade ao verdadeiro amor, que se distingue de falsos conceitos de amor presentes que, embora invocando-os com o termo amor, não o são. Assim reconhecendo que Deus é fiel, sejamos também fieis e tenhamos como critério da nossa vida do dia-a-dia a Sua vontade que a Igreja nos ensina ao propor a virtude como caminho de santidade.

 

Fala o Santo Padre

 

«O vinhateiro diz ao dono: «Senhor, deixa-a mais este ano». A possibilidade da conversão não é ilimitada. Podemos pensar nesta Quaresma: o que devo fazer para me aproximar mais ao Senhor, para me converter, e “cortar” o que não está bem? »

O Evangelho deste terceiro domingo de Quaresma (cf. Lc 13, 1-9) fala-nos da misericórdia de Deus e da nossa conversão. Jesus conta a parábola da figueira estéril. Um homem plantou uma figueira na sua vinha, e no verão vai muito confiante procurar o seu fruto mas não o encontra, pois aquela árvore é estéril. Levado por aquela desilusão que se repetiu por três anos, pensa em cortar a figueira, para plantar outra árvore. Chama então o camponês que está na vinha e manifesta-lhe a sua insatisfação, intimando-lhe que corte a árvore, para que não ocupe inutilmente o terreno. Mas o vinhateiro pede ao dono que tenha paciência e que conceda um ano de tempo, durante o qual ele mesmo se preocupará por dedicar um cuidado mais atento e delicado à figueira, para estimular a sua produtividade. Esta é a parábola. O que representa esta parábola? O que representam as personagens desta parábola?

O dono representa Deus Pai e o vinhateiro é imagem de Jesus, enquanto a figueira é símbolo da humanidade indiferente e árida. Jesus intercede junto do Pai a favor da humanidade — e fá-lo sempre — pedindo-lhe para aguardar e conceder ainda mais tempo, a fim de que ela possa produzir os frutos do amor e da justiça. A figueira que o dono da parábola quer extirpar representa uma existência estéril, incapaz de doar, incapaz de praticar o bem. É símbolo de quem vive para si mesmo, satisfeito e tranquilo, instalado nas próprias comodidades, incapaz de dirigir o olhar e o coração para quantos estão ao seu lado em condições de sofrimento, pobreza e dificuldade. A esta atitude de egoísmo e de esterilidade espiritual, contrapõe-se o grande amor do vinhateiro em relação à figueira: pede ao dono que espere, ele tem paciência, sabe esperar, dedica-lhe o seu tempo e o seu trabalho. Promete ao dono que terá um cuidado especial para com a árvore infeliz.

E esta similitude do vinhateiro manifesta a misericórdia de Deus, que nos concede um tempo para a conversão. Todos temos necessidade de nos converter, de dar um passo em frente, e a paciência de Deus, a misericórdia, acompanha-nos nisto. Não obstante a esterilidade, que às vezes marca a nossa existência, Deus tem paciência e oferece-nos a possibilidade de mudar e fazer progressos no caminho do bem. Mas a dilação implorada e concedida na expetativa de que a árvore finalmente frutifique indica também a urgência da conversão. O vinhateiro diz ao dono: «Senhor, deixa-a mais este ano» (v. 8). A possibilidade da conversão não é ilimitada; por conseguinte é necessário colhê-la imediatamente; caso contrário perder-se-ia para sempre. Podemos pensar nesta Quaresma: o que devo fazer para me aproximar mais ao Senhor, para me converter, e “cortar” o que não está bem? “Não, esperarei a próxima Quaresma”. Mas estarei vivo na próxima Quaresma? Pensemos hoje, cada um de nós: o que devo fazer face a esta misericórdia de Deus que me espera e perdoa sempre? O que devo fazer? Podemos confiar infinitamente na misericórdia de Deus, mas sem abusar dela. Não devemos justificar a preguiça espiritual, mas aumentar o nosso esforço para corresponder prontamente a esta misericórdia com sinceridade de coração.

No tempo de Quaresma, o Senhor convida-nos à conversão. Cada um de nós deve sentir-se interpelado por esta chamada, corrigindo algo na própria vida, no modo de pensar, de agir e viver as relações com o próximo. Ao mesmo tempo, devemos imitar a paciência de Deus que confia na capacidade que todos têm de se poderem “reerguer” e retomar o caminho. Deus é Pai e não apaga a chama ténue, mas acompanha e ampara quem é débil para que se fortaleça e ofereça o seu contributo de amor à comunidade. A Virgem Maria nos ajude a viver estes dias de preparação para a Páscoa como um tempo de renovação espiritual e de abertura confiante à graça de Deus e à sua misericórdia.

     Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 24 de março de 2019

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs em Cristo:

Oremos ao Deus vivo,

que revelou a Moisés o seu nome santo,

e intercedamos pelas necessidades da Igreja e do mundo,

dizendo (ou: cantando), confiadamente:

 

R. Kýrie, eléison.

Ou: Renovai-nos, Senhor, com a vossa graça.

Ou: Salvador do mundo, salvai-nos.

 

1. Pela Igreja, atenta à voz do Senhor que lhe fala,

como falou a Moisés, na sarça ardente,

para que proclame com alegria a Boa Nova,

oremos.

 

2. Pelas vítimas de todas as violências,

da opressão, da fome e dos maus tratos,

para que sejam ouvidas pelo Senhor, que faz justiça,

oremos.

 

3. Pelos cristãos que neste tempo da Quaresma

se arrependem e convertem ao Senhor,

para que aprendam a perdoar e a ser bons,

oremos.

 

4. Pelos doentes e por todos os que sofrem

e pelos que não têm ninguém que os escute,

para que se unam à paixão do Salvador

oremos.

 

5. Por todos os que o Senhor aqui reuniu,

para que nos faça chegar um dia junto d’Ele

e nos sacie dos bens da sua casa,

oremos.

(Outras intenções: Cáritas nacional e diocesana; crianças que têm fome ...).

 

Deus de bondade infinita,

usai de paciência para connosco

e fazei que a palavra que escutámos

dê fruto abundante em nossas vidas.

Por Cristo Senhor nosso.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: A minha alma tem sede - M. Carneiro, NRMS, 40

 

Oração sobre as oblatas: Concedei, Senhor, por este sacrifício, que, ao pedirmos o perdão dos nossos pecados, perdoemos também aos nossos irmãos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Santo: J. F. Silva – NRMS, 14

 

Monição da Comunhão

 

Recebemos o próprio Deus como alimento para fortalecer o nosso caminho de conversão a que Deus hoje nos chama. Agradeçamos por Ele vir a nós na Sagrada Comunhão e assim nos transformar mais n’Ele.

 

Cântico da Comunhão: Amai como Eu vos amei – J. Santos, NRMS, 87

Salmo 83, 4-5

Antífona da comunhão: As aves do céu encontram abrigo e as andorinhas um ninho para os seus filhos, junto dos vossos altares, Senhor dos Exércitos, meu Rei e meu Deus. Felizes os que moram em vossa casa e a toda a hora cantam os vossos louvores.

 

Cântico de acção de graças: Como o veado – B. Salgado/M. Simões, NRMS, 38

 

Oração depois da comunhão: Recebemos o penhor da glória eterna e, vivendo ainda na terra, fomos saciados com o pão do Céu. Nós Vos pedimos, Senhor, a graça de manifestarmos na vida o que celebramos neste sacramento. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

«Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor» Ef 5,10. Com esta exortação de São Paulo e com o convite à conversão pessoal deste III Domingo da Quaresma, não sejamos indiferentes e deixemos, com a nossa colaboração e esforço pessoal, que Deus nos transforme.

 

Cântico final: Ó Cruz bendita – M. F. Borda, NRMS, 43

 

 

Homilias Feriais

 

3ª SEMANA

 

2ª Feira, 21-III: A vontade de Deus e os seus frutos.

2 Reis 5, 1-5 / Lc 4, 24-30

Vai banhar-te e ficarás curado. Então Naamã desceu e mergulhou sete vezes no Jordão e ficou purificado.

Lemos hoje o milagre da cura de Naamã (LT). Embora se tenha recusado a fazer o que lhe indicou o profeta, a seguir obedeceu e ficou curado (LT).

Nós ficamos também curados, porque Cristo morreu na Cruz para ficarmos limpos. S. Paulo lembra que nós, no momento do baptismo, mergulhamos na água, morremos para o pecado, saímos da água e ressuscitamos com Cristo. A nossa alma tenha sempre sede do Deus vivo (SR). Na sua oração no Jardim das Oliveiras, Jesus conforma-se plenamente com a vontade do Pai e nós ficámos santificados.

 

3ª Feira, 22-III: A misericórdia de Deus e a nossa.

Dan 3, 25. 34-43 / Mt 18, 21-35

Não nos deixeis ficar envergonhados, mas tratai-nos segundo a vossa misericórdia

Azarias, em nome do povo de Deus, invoca a misericórdia divina, para que não o abandone e não anule a aliança estabelecida (LT). A parábola interroga-nos sobre o modo como vivemos a misericórdia com os outros (EV).

Antes da referida parábola, S. Pedro considerava grande o número de sete vezes para perdoar, e Deus diz-lhe que é preciso perdoar sempre. Para isso teremos que pedir a Deus que nos ensine a perdoar. Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me (SR). Perdoemos do fundo do coração (EV), e não só externamente.

 

4ª Feira, 23-III: A Sabedoria e os mandamentos.

Deut 4, 1. 5-9 / Mt 5, 17-19

Mas aquele que os praticar e ensinar (os mandamentos) será tido como grande no reino dos Céus.

Moisés pede ao povo, em nome de Deus, que cumpra as leis e os preceitos do Senhor, ao entrar na terra prometida, e que os ensinem aos seus descendentes. Assim darão exemplo aos povos vizinhos (LT). Deus envia à terra a sua palavra (SR).

 Quem cumpre os mandamentos adquire a sabedoria e encara os acontecimentos com os ‘olhos de Deus’, com visão sobrenatural. E, ao contrário do que muitos pensam, os preceitos de Deus são justos e muito melhores do que quaisquer outros. E são a chave que abre a porta para a vida eterna (LT).

 

5ª Feira, 24-III: A escuta da palavra de Deus e a nossa felicidade

Jer 7, 23-28 / Lc 11, 14-23

Escutai a minha voz. Segui o caminho que vou traçar-vos, a fim de serdes felizes. Mas eles não ouviram nem prestaram atenção

Jesus dirige a sua palavra aos homens, indicando os caminhos da felicidade (LT). E, para os que se afastaram do caminho, oferece a sua vida para resgatá-los.

Por vezes, a nossa resposta à sua palavra consiste em fechar o nosso coração, arranjando várias desculpas. Pensemos que o Senhor nos fala através da sua Palavra, contida nas Escrituras, e das pessoas e dos acontecimentos de cada dia. Estejamos mais atentos à voz do Senhor (SR). E imitemos Nossa Senhora, que meditava e conservava todas as coisas no seu coração.

 

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:       Tomás de A. E. Castel-Branco

Nota Exegética:                Geraldo Morujão

Homilias Feriais:               Nuno Romão

Sugestão Musical:            José Carlos Azevedo

 


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