2º Domingo da Quaresma

13 de Março de 2022

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: É dura a caminhada – M. Faria, NRMS, 06

Salmo 26, 8-9

Antífona de entrada: Diz-me o coração: «Procurai a face do Senhor». A vossa face, Senhor, eu procuro; não escondais de mim o vosso rosto.

 

Ou

cf. Salmo 24, 6.3.22

Lembrai-vos, Senhor, das vossas misericórdias e das vossas graças que são eternas. Não triunfe sobre nós o inimigo. Senhor, livrai-nos de todo o mal.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A liturgia deste 2º Domingo da Quaresma ajuda-nos a tomar consciência da nossa vocação de cristãos, através de dois acontecimentos da história da salvação: aliança de Deus com Abraão e a transfiguração de Jesus.

Confrontados no domingo passado com as realidades da tentação e do mal, somos hoje convidados a sair de nós mesmos, pelos caminhos da fé e da conversão. Este caminho passa pela fidelidade à nova aliança que Deus faz connosco, em Jesus Cristo, fidelidade que implica uma adesão pessoal e a nossa transfiguração em novas criaturas.

 

Oração colecta: Deus de infinita bondade, que nos mandais ouvir o vosso amado Filho, fortalecei-nos com o alimento interior da vossa palavra, de modo que, purificado o nosso olhar espiritual, possamos alegrar-nos um dia na visão da vossa glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Para se aproximar do homem, Deus escolhe Abraão e trava com ele o diálogo que vamos ouvir. Deste diálogo transparece a atitude de fé de Abraão que escuta sem questionar, faz o que Deus lhe pede e muda o rumo da sua vida.

 

Génesis 15,5-12.17-18

Naqueles dias, 5Deus levou Abraão para fora de casa e disse-lhe: «Olha para o céu e conta as estrelas, se as puderes contar». E acrescentou: «Assim será a tua descendência». 6Abrão acreditou no Senhor, o que lhe foi atribuído em conta de justiça. 7Disse-lhe Deus: «Eu sou o Senhor que te mandou sair de Ur dos caldeus, para te dar a posse desta terra». 8Abrão perguntou: «Senhor, meu Deus, como saberei que a vou possuir?» 9O Senhor respondeu-lhe: «Toma uma vitela de três anos, uma cabra de três anos e um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho». 10Abrão foi buscar todos esses animais, cortou-os ao meio e pôs cada metade em frente da outra metade; mas não cortou as aves. 11Os abutres desceram sobre os cadáveres, mas Abraão pô-los em fuga. 12Ao pôr do sol, apoderou-se de Abraão um sono profundo, enquanto o assaltava um grande e escuro terror. 17Quando o sol desapareceu e caíram as trevas, um brasido fumegante e um archote de fogo passaram entre os animais cortados. 18Nesse dia, o Senhor estabeleceu com Abraão uma aliança, dizendo: «Aos teus descendentes darei esta terra, desde o rio do Egipto até ao grande rio Eufrates».

 

Num texto dotado de grande beleza, deixa-se-nos ver como é que a promessa divina de dar em posse a terra de Canaã à descendência da Abraão (Gn 12,7) se haverá de cumprir, apesar de não ter filhos da sua esposa Sara (v. 3); aqui esta promessa aparece rubricada com um tradicional rito de aliança. O comentário que se segue pode bem servir para a lectio divina.

6 «Abrão acreditou». «A fé de Abraão consiste em crer numa promessa humanamente irrealizável. Deus reconheceu-lhe o mérito deste acto (cf. Dt 24,13; Salm 105,31), o que lhe foi atribuído em conta de justiça, já que o «justo» é o homem a quem a sua rectidão e a sua submissão o tornam agradável a Deus. S. Paulo utiliza este texto para provar que a justificação depende da fé e não das obras da Lei; mas a fé de Abraão determina a sua conduta, é princípio de acção, por isso S. Tiago pode invocar o mesmo texto para condenar a fé ‘morta’, sem as obras da fé» (Bíblia de Jerusalém); cf. Rom 4,9-12 e Tg 2,21-23. A fé de Abraão é posta em evidência não apenas aqui, ao crer na promessa de Deus, mas também ao obedecer para deixar a sua terra (Gn 12,4) e para sacrificar o seu filho Isac (Gn 22,1-4).

8-10 «Como saberei que a vou possuir?» A narrativa alcança uma extraordinária beleza e dramatismo. Com efeito, Abraão, apesar de não ter dúvidas (como se disse para a promessa da descendência: v. 6), pede um sinal a Deus. E Deus não se limita a dar um sinal, mas condescende até ao ponto de mandar dispor as coisas para a celebração de um rito de aliança segundo os costumes da época: manda esquartejar uma vitela, uma cabra e um carneiro. Então havia o costume de selar alianças com este rito, para nós estranho, mas muito significativo: aqueles que faziam um contrato passavam entre as metades a sangrar de animais esquartejados invocando sobre si a mesma sorte daqueles animais sacrificados, caso viessem a falhar ao contrato ou aliança (cf. Jer 34,18-19).

11-12 «Os abutres desceram... Um sono profundo... um grande e escuro terror». Mais uma vez a narrativa apresenta Deus a pôr à prova Abraão, e precisamente na mesma ocasião em que lhe dava um sinal; com efeito, apesar de Abraão ter tudo preparado, Deus atrasa a sua manifestação (vv. 17-18); mas Abraão não desiste de esperar, enquanto ia afugentando as aves de rapina, até que o dia chega ao fim, o momento em que o Patriarca se sente exausto e sobretudo angustiado interiormente, a ponto de se interrogar se tudo isto não teria sido uma ilusão. Matar todos aqueles animais não teria sido uma loucura? Cai a noite – também os místicos falam da «noite escura» –, mas Abraão não arreda pé, porque está certo de que Deus não pode falhar.

17 «Um brasido fumegante e um archote de fogo». Eis senão quando Deus se manifesta nestes dois símbolos que «passaram por entre os animais cortados»: assim Deus é apresentado a dizer-lhe veladamente, mas com a suficiente clareza para um homem de fé, que Ele mantinha firme a sua palavra, que a promessa não deixaria de vir a realizar-se! Note-se que este rito de aliança não é bilateral (como o do Sinai, em Ex 24,6-8); para que se efective aquilo que é mera iniciativa divina, obra de Deus, basta a sua fidelidade; ao homem apenas compete dispor as coisas para que Deus actue – partir os animais – e não estorvar a acção divina – sacudir as aves de rapina. «A chama e o fumo simbolizam a Deus; a chama, por ser brilhante e quase imaterial e o fumo por ser impenetrável à vista, representavam a invisibilidade de Deus; cf. Ex 3,2; 19,18; 24,17» (E. F. Sutcliffe). Os antigos semitas, como os beduínos ainda hoje, utilizavam um forno portátil, com a forma de cone truncado, para cozer o pão; quando estava bem quente tiravam a lenha e introduziam a massa.

18 «Aos teus descendentes darei esta terra, desde a torrente do Egipto…», isto é, desde o wadi El-Arixe, que corre na época das chuvas do Sinai para o Mediterrâneo (não se trata do Nilo); nos tempos de Salomão o povo teve estes limites (cf. 1Re 5,1), uns limites ideais, «até ao Eufrates», no Iraque. Com estas palavras Deus aparece como o Senhor da Terra e o Senhor da História.

 

Salmo Responsorial    Sl 26 (27), 1.7-8.9abc.13-14 (R. 1a)

 

Monição: A vossa face, Senhor, eu procuro”. A vida dos homens é uma caminhada para o Céu, que é a nossa morada, onde veremos Deus face a face. É uma caminhada que, às vezes, se torna áspera e difícil, mas saberemos que Ele é a nossa luz e salvação.  

 

Refrão:        O Senhor é a minha luz e a minha salvação.

 

O Senhor é minha luz e salvação:

a quem hei-de temer?

O Senhor é protector da minha vida:

de quem hei-de ter medo?

 

Ouvi, Senhor, a voz da minha súplica,

tende compaixão de mim e atendei-me.

Diz-me o coração: «Procurai a sua face».

A vossa face, Senhor, eu procuro.

 

Não escondais de mim o vosso rosto,

nem afasteis com ira o vosso servo.

Não me rejeiteis nem me abandoneis,

meu Deus e meu Salvador.

 

Espero vir a contemplar a bondade do Senhor

na terra dos vivos.

Confia no Senhor, sê forte.

Tem coragem e confia no Senhor.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Embora vivendo neste mundo, não é esta a nossa morada definitiva, lembra-nos São Paulo. Fomos chamados por Deus para que a nossa humanidade possa ser por Ele transfigurada até nos tornarmos semelhantes a Ele.

 

Forma longa: Filipenses 3,17 – 4,1 Forma breve: Filipenses 3,20 – 4,1

Irmãos: [17Sede meus imitadores e ponde os olhos naqueles que procedem segundo o modelo que tendes em nós. 18Porque há muitos, de quem tenho falado várias vezes e agora falo a chorar, que procedem como inimigos da cruz de Cristo. 19O fim deles é a perdição: têm por deus o ventre, orgulham-se da sua vergonha e só apreciam as coisas terrenas. 20Mas] a nossa pátria está nos Céus, donde esperamos, como Salvador, o Senhor Jesus Cristo, 21que transformará o nosso corpo miserável, para o tornar semelhante ao seu corpo glorioso, pelo poder que Ele tem de sujeitar a Si todo o universo. 4,1Portanto, meus amados e queridos irmãos, minha alegria e minha coroa, permanecei firmes no Senhor.

 

O Apóstolo incita os fiéis a viverem como «cidadãos do Céu» (v. 20), segundo o seu exemplo.

17 «Sede meus imitadores». S. Paulo tem a consciência plena de que, com todas as veras da sua alma, é um imitador de Cristo (1Cor 11,1), por isso é que se atreve a falar desta maneira tão arrojada (cf. 4,9; 1Cor 4,16; 1Tes 1,6; 2Tes 3,7.9).

18-21 Os «inimigos da Cruz de Cristo», que «se orgulham da sua vergonha», devem ser, mais provavelmente, os judaizantes, a quem Paulo visa nesta parte da sua carta (cf. 3,1b ss), os quais antepõem ao valor salvífico da Paixão do Senhor a prática do rito da circuncisão, orgulhando-se de um sinal no membro viril, que o pudor e a decência obriga a esconder, e dogmatizam as prescrições alimentares (o ventre), endeusando-as; também poderia ser uma censura dirigida a cristãos moralmente depravados, o que é menos provável, dado o contexto em que Paulo está a falar. Não é deste corpo miserável (com marcas, como as da circuncisão, e com tantas limitações e mazelas) que o cristão se deve orgulhar, mas da sua condição de ressuscitado com Cristo, que lhe garantirá um futuro corpo glorioso, que transcende o próprio «universo» (v. 21).

«A nossa pátria está nossos Céus» (cf. Hbr 13,14; 1Pe 2,11). A verdadeira pátria, da qual andamos como que desterrados, «os degredados filhos de Eva», é o Céu; mas, enquanto aqui «gememos» (cf. 2Cor 5,1-14), não estamos dispensados de cumprir os nossos deveres e exercer os nossos direitos de cidadãos da pátria terrestre; e, se os não cumprimos responsavelmente como cidadãos da pátria terrestre, também não podemos chegar à pátria celeste; por isso, nada é mais falso do que entender a fé cristã como ópio do povo.

 

Aclamação ao Evangelho       

 

Monição: No alto do monte Tabor, depois de ter rezado, Jesus manifesta-se transfigurado diante dos três discípulos Pedro, Tiago e João. A glória de Jesus e a Sua divindade, até aí ocultas, se tornam visíveis, por um instante, aos olhos dos que O acompanhavam.

 

Cântico: Louvor e glória a Vós, J. Santos, NRMS, 40

 

No meio da nuvem luminosa, ouviu-se a voz do Pai:

«Este é o meu Filho muito amado: escutai-O».

 

 

Evangelho

 

São Lucas 9,28b-36

Naquele tempo, 28bJesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte, para orar. 29Enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. 30Dois homens falavam com Ele: eram Moisés e Elias, 31que, tendo aparecido em glória, falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se em Jerusalém. 32Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. 33Quando estes se iam afastando, Pedro disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Não sabia o que estava a dizer. 34Enquanto assim falava, veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra; e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem. 35Da nuvem saiu uma voz, que dizia: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O». 36Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.

 

Convém, antes de mais, notar um pormenor cronológico omitido na leitura litúrgica, mas nada despiciendo: «cerca de oito dias depois», em vez do habitual «naquele tempo». Com efeito, em todos os três Sinópticos, não é sem razão que se estabelece uma das raras ligações cronológicas entre este relato e o relato da confissão de fé de Pedro e do 1º anúncio da Paixão e Morte de Jesus. É uma ligação de grande alcance teológico: por um lado, a fé de Pedro é confirmada e ilustrada de forma singular com a glória divina que Jesus manifesta na sua Transfiguração; por outro, indica-se que a Cruz é o caminho da glória, como para Jesus, assim para os seus discípulos (per crucem ad lucem).

28 «Subiu ao monte para orar». O monte Tabor (562 m), na Galileia, segundo a tradição, ou, segundo muitos hoje pensam baseados em Mt 17,1 e Mc 9,2 que falam de «um monte elevado», o monte Hermon, sobranceiro a Cesareia de Filipe, no maciço central da Síria (o Antilíbano) com 2.759 metros, a região por onde Jesus então andava (cf. Mc 8,27; 9,1). S. Lucas é o único a notar que Jesus subiu ali para fazer oração; também não diz que se transfigurou, mas que «se alterou o aspecto do seu rosto…», certamente com a preocupação de que os seus primeiros leitores de ambientes greco-romanos não pensassem que se tratava de alguma metamorfose própria das religiões mistéricas. Mas a transfiguração de Jesus não deixa de apontar para a nossa própria transfiguração pela graça do Espírito do Senhor, como diz S. Paulo em 2Cor 3,18: «todos nós…, que reflectimos como num espelho a glória do Senhor vamos sendo transformados na sua própria imagem, cada vez mais gloriosa…».

31 «Falavam da morte d’Ele». Também só o III Evangelho diz o assunto da conversa de Jesus com Moisés e Elias. Falavam da «saída» de Jesus, como se expressa o original grego, que a nossa tradução interpretou como «a morte», mas que também se poderia referir à Ascensão (menos provável); de qualquer modo, o uso do termo grego êxodo (mantido na nova tradução da CEP) pode aludir ao carácter libertador da morte de Jesus, numa alusão à libertação da escravidão do Egipto.

32-33 «Estavam a cair de sono; mas, despertando...» Este pormenor exclusivo de Lucas pressupõe que a Transfiguração se deu de noite, enquanto Jesus fazia oração, pois gostava de orar de noite (cf. Lc 6,12; Mc 6,46). A proposta de Pedro de construir «três tendas» (de ramos), tem na devida conta a diferente dignidade de cada um e pretende prolongar aquele êxtase feliz.

35 «Este é o meu Filho, o meu Eleito». A Transfiguração é um confirmar da fé daquele núcleo duro dos Doze, as «colunas» do Colégio Apostólico; assim, o próprio Pai apresenta Jesus como o seu Filho. S. Lucas, em vez de «o Amado» (cf. Mt 17,5; Mc 9,7), diz: «o meu Eleito», que é mais uma forma (e mais clara) de O designar como o Messias (cf. Lc 23,35; Is 42,1). Comenta S. Tomás de Aquino: «Apareceu toda a Trindade, o Pai na voz, o Filho no homem, o Espírito na nuvem luminosa» (Sum. Th. 3, 45, 4, ad 2).

36 «Guardaram silêncio», por ordem de Jesus (Mc 9,9-10) que pretende, a todo o custo, evitar a agitação popular à sua volta.

 

Sugestões para a homilia

 

“Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O”

“Mestre, como é bom estarmos aqui!” 

 

 

“Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O”

 

“Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O”. Ouvimos estas palavras no momento em que Pedro, João e Tiago, os apóstolos escolhidos por Cristo, encontram-se no Monte Tabor, no momento da Transfiguração: “enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. Dois homens falavam com Ele: eram Moisés e Elias”. Trata-se, portanto, de um momento único, onde Cristo, de certa forma, deseja dizer aos Apóstolos escolhidos ainda mais sobre Si mesmo e a Sua missão. Pedro Tiago e João são os mesmos três Apóstolos que Ele, depois de algum tempo, levará com Ele para Getsémani, para que possam ser testemunhas da angústia do espírito, da aniquilação de Jesus e do suor de sangue que aparece no seu rosto. Agora, no Monte Tabor, estes três Apóstolos tornam-se testemunhamos da exaltação e glorificação de Cristo.

“Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O”. Estas palavras ressoam sobre Cristo pela segunda vez. Neste testemunho o Pai fala do Filho, o seu Eleito, que é da mesma substância que o Pai, de quem é Deus de Deus e Luz da Luz, e tornou-se um homem como cada um de nós, à excepção do pecado. A primeira vez que este testemunho foi pronunciado foi nas margens do rio Jordão, no baptismo de Jesus por João Baptista. João anuncia: "Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo". E uma voz do céu declara: “Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O”. Este episódio – o baptismo de Jesus pelo Baptista – acontece nas margens do Jordão e no início da missão messiânica de Cristo. Agora, a Transfiguração do Senhor acontece no Monte Tabor, antes da paixão que se aproxima, do Getsémani e do Calvário, testemunhando a futura ressurreição, tal como refere São Leão Magno (Sermão 51): “Ele manifestou sua glória perante as testemunhas que escolhera e fez resplandecer como sol o seu corpo igual ao nosso para afastar do coração dos discípulos o escândalo da Cruz (…) e alentou a esperança da Igreja ao revelar, em Si mesmo, a claridade que brilhará um dia em todo o Corpo que o reconhece como sua Cabeça”. Pedro, Tiago e João jamais esquecerão esta “gota de mel” que Jesus lhes ofereceu no meio da sua amargura. Jesus sempre actua assim com os que o seguem. No meio dos maiores padecimentos o Senhor dá-nos o consolo necessário para continuarmos a caminhar.

Assim, esta será uma das razões pelas quais lemos o Evangelho da Transfiguração do Senhor no início da Quaresma, logo no segundo domingo, pois este acontecimento é a antítese das tentações de Jesus no deserto, que escutamos no domingo anterior.

 

“Mestre, como é bom estarmos aqui!” 

 

“Mestre, como é bom estarmos aqui!” Esta é a expressão de êxtase de Pedro, que, frequentemente, se assemelha ao nosso desejo das consolações do Senhor. Mas a Transfiguração lembra-nos que as alegrias semeadas por Deus na vida não são pontos de chegada, mas luzes que Ele nos dá na nossa peregrinação terrena, para que só Jesus seja nossa lei e a Sua Palavra seja o critério que guia a nossa existência. Ele é a única voz que deve ser ouvida, o único a ser seguido, pois Aquele que, subindo a Jerusalém, dará a vida por todos nós também um dia “transformará o nosso corpo miserável, para o tornar semelhante ao seu corpo glorioso, pelo poder que Ele tem de sujeitar a Si todo o universo”, como escutávamos na segunda leitura da Epístola de São Paulo aos Filipenses (Flp 3,21). 

“Mestre, como é bom estarmos aqui!” Esta centelha da glória divina inundou os Apóstolos de uma felicidade tão grande, ao ponto de pedir ao Senhor que prolongasse esta situação. Mas, como dirá mais adiante o evangelista, “não sabia o que estava a dizer”, pois o que é bom, o que importa, não é estar aqui ou ali, mas estar sempre com Cristo, em qualquer parte e vê-lo por trás das circunstâncias em que nos encontramos, incluindo as experiências humanadas tão dolorosas da nossa vida. Se estamos com Jesus, tanto faz que estejamos rodeados dos maiores consolos do mundo ou prostrados na cama de algum hospital. O que importa é somente isto: vê-lo e viver sempre com Ele. Esta é a única coisa verdadeiramente boa e importante na vida presente e futura, pois o Senhor conforta-nos com a esperança do Céu. Assim dizia São Josemaria Escrivá: “no momento da tentação, pensa no Amor que te espera no Céu. Fomenta a virtude da esperança, que não é falta de generosidade” (Caminho, nº 139). Por isso, a experiência da glória que os discípulos tiveram no Tabor é desafio para nos espicaçar na luta diária, já que nada vale tanto na vida como ganhar o Céu.

 

Viver transfigurados

 

A Transfiguração do Senhor é um grande mistério e desafio para a vida da Igreja e de cada cristão no presente. E qual a razão? Porque não se deve pensar que a transfiguração ocorrerá apenas após a morte. A vida e o testemunho de tantos Santos e de pessoas santas ensinam-nos que, se a transfiguração do corpo se realizará no fim dos tempos com a ressurreição do corpo, a transfiguração do coração já se faz agora nesta terra, sempre com a ajuda e apoio das graças que Deus nos concede.

Consequentemente, podemo-nos interrogar: como é que são as pessoas transfiguradas?  Poderá existir inúmeras respostas, contudo são aqueles que seguem a Cristo na sua vida e na sua morte, que se deixam inspirar por Ele e inundar a vida das graças que Ele nos dá. São, de igual modo, aqueles cujo alimento é cumprir a vontade do Pai, os que se deixam conduzir pelo Espírito Santo, os que estão dispostos a dar tudo sem exigir nada em troca, aqueles que vivem a amar e a perdoar.

 

Fala o Santo Padre

 

«A Transfiguração de Cristo indica-nos a perspetiva cristã do sofrimento.

 O sofrimento não é sadomasoquismo: ele é uma passagem necessária, mas transitória.

O ponto de chegada para o qual somos chamados é luminoso como o rosto de Cristo transfigurado: n’Ele encontram-se a salvação, a luz, o amor ilimitado de Deus.»

Neste segundo domingo de Quaresma, a liturgia faz-nos contemplar o evento da Transfiguração, no qual Jesus concede que os discípulos Pedro, Tiago e João sintam a glória da Ressurreição: um pedaço de céu na terra. O evangelista Lucas (cf. 9, 28-36) mostra-nos Jesus transfigurado no monte, lugar da luz, símbolo fascinante da singular experiência reservada aos três discípulos. Eles sobem à montanha com o Mestre, veem-no imergir-se na oração e, a uma certa altura, «o seu rosto transformou-se» (v. 29). Habituados a vê-lo quotidianamente na simples aparência da sua humanidade, diante daquele novo esplendor, que envolve também toda a sua pessoa, ficam surpreendidos. E ao lado de Jesus aparecem Moisés e Elias, que falam com Ele do seu próximo “êxodo”, ou seja, da sua Páscoa de morte e ressurreição. É uma antecipação da Páscoa. Então, Pedro exclama: «Mestre, é bom estarmos aqui!» (v. 33). Ele gostaria que aquele momento de graça nunca acabasse!

A Transfiguração dá-se num momento específico da missão de Cristo, ou seja, depois que Ele confidenciou aos discípulos que devia «sofrer muito [...] ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar» (v. 22). Jesus sabe que eles não aceitam esta realidade — a realidade da cruz, a realidade da morte de Jesus — e então quer prepará-los para suportar o escândalo da paixão e da morte de cruz, a fim de que saibam que este é o caminho pelo qual o Pai celestial fará chegar à glória o seu Filho, ressuscitando-o dentre os mortos. E esta será também a senda dos discípulos: ninguém alcança a vida eterna, a não ser seguindo Jesus, carregando a própria cruz na vida terrena. Cada um de nós tem a sua cruz. O Senhor mostra-nos o fim deste percurso, que é a Ressurreição, a beleza, carregando a própria cruz.

Portanto, a Transfiguração de Cristo indica-nos a perspetiva cristã do sofrimento. O sofrimento não é sadomasoquismo: ele é uma passagem necessária, mas transitória. O ponto de chegada para o qual somos chamados é luminoso como o rosto de Cristo transfigurado: n’Ele encontram-se a salvação, a bem-aventurança, a luz, o amor ilimitado de Deus. Mostrando assim a sua glória, Jesus assegura-nos que a cruz, as provações e as dificuldades com as quais nos debatemos têm a sua solução e superação na Páscoa. Por isso, nesta Quaresma, subamos também nós ao monte com Jesus! Mas de que modo? Com a oração. Subamos ao monte com a oração: a prece silenciosa, a oração do coração, a oração, sempre à procura do Senhor. Permaneçamos alguns momentos em recolhiment0, um pouquinho todos os dias, fixemos o olhar interior na sua face e deixemos que a sua luz nos invada e se irradie na nossa vida.

Com efeito, o Evangelista Lucas insiste sobre o facto de que Jesus se transfigurou «enquanto orava» (v. 29). Imergiu-se num diálogo íntimo com o Pai, no qual ressoavam também a Lei e os Profetas — Moisés e Elias — e enquanto aderia com todo o seu ser à vontade de salvação do Pai, inclusive a cruz, a glória de Deus invadiu-o transparecendo até do lado de fora. Irmãos e irmãs, é assim: a oração em Cristo e no Espírito Santo transforma a pessoa a partir de dentro e pode iluminar os outros e o mundo circunstante. Quantas vezes encontramos pessoas que iluminam, que emanam luz dos olhos, que têm um olhar luminoso! Rezam, e a oração faz isto: torna-nos resplandecentes com a luz do Espírito Santo!

Sigamos com alegria o nosso itinerário quaresmal. Demos espaço à oração e à Palavra de Deus, que a liturgia nos propõe abundantemente nestes dias. A Virgem Maria nos ensine a permanecer com Jesus até quando não o entendemos nem o compreendemos. Por isso, somente permanecendo com Ele veremos a sua glória.

   Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 17 de março de 2019

 

Oração Universal

 

Iluminados pela transfiguração de Jesus,

façamos subir até ao Pai as nossas súplicas

pela Igreja, pelo mundo e por nós próprios,

dizendo (ou: cantando), com humildade:

R. Ouvi-nos, Senhor.

Ou: Salvai, Senhor, o vosso povo.

Ou: Abençoai, Senhor, a vossa Igreja.

 

1.      Para que as Igrejas do Oriente e do Ocidente

tenham confiança no Senhor, como Abraão,

e ensinem aos homens a fé que receberam,

oremos.

 

2.      Para que o nosso Bispo N., os presbíteros e os diáconos,

como os Apóstolos que viram Jesus transfigurado,

escutem o Pai, que os convida à santidade, oremos.

 

3.      Para que os cristãos procurem o rosto de Deus,

na vida activa, na caridade e na oração,

e não esqueçam que a sua pátria está nos Céus, oremos.

 

4.      Para que os homens e as mulheres que têm medo

do sofrimento, da doença e da morte

descubram Cristo, luz do mundo e salvação, oremos.

 

5.      Para que os membros da nossa assembleia

saibam estar ao lado dos mais necessitados,

para os ouvir em silêncio e lhes dar as mãos, oremos.

 

(Outras intenções: crianças da catequese e catequistas; fiéis defuntos ...).

 

Senhor, nosso Deus, que, no monte da transfiguração,

nos mandastes escutar o vosso Filho,

dignai-Vos ouvir as nossas súplicas e conceder-nos os bens que Vos pedimos.

Por Cristo Senhor nosso.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Jesus tomou consigo – C. Silva, OC pg 145

 

Oração sobre as oblatas: Esta oblação, Senhor, lave os nossos pecados e santifique o corpo e o espírito dos vossos fiéis, para celebrarmos dignamente as festas pascais. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

A transfiguração do Senhor

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Depois de anunciar aos discípulos a sua morte, manifestou-lhes no monte santo o esplendor da sua glória, para mostrar, com o testemunho da Lei e dos Profetas, que pela sua paixão alcançaria a glória da ressurreição.

Por isso, com os Anjos e os Santos do Céu, proclamamos na terra a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: A. Cartageno – ENPL, 15

 

Monição da Comunhão

 

Em cada Santa Missa, Jesus dá-nos o Seu Corpo e Sangue, para que, em certo modo, possamos saborear aqui na terra a situação final, quando o nosso corpo mortal será transfigurado à imagem do corpo glorioso de Cristo.

 

Cântico da Comunhão: Habitarei para sempre – C. Silva, OC pg

Mt 17, 5

Antífona da comunhão: Este é o meu Filho muito amado, no qual pus as minhas complacências. Escutai-O.

 

Cântico de acção de graças: Sois o meu refúgio – M. Simões, NRMS, 29

 

Oração depois da comunhão: Alimentados nestes gloriosos mistérios, nós Vos damos graças, Senhor, porque, vivendo ainda na terra, nos fazeis participantes dos bens do Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Habitados pelo Espírito Santo desde o baptismo, conscientes da Sua acção em nós ao longo da vida, deixemos que Ele nos vá aos poucos transfigurando para que as nossas palavras e atitudes deixem transparecer a nossa filiação divina.

 

Cântico final: Já não sou que vivo – Az. Oliveira, NRMS, 48

 

 

Homilias Feriais

 

2ª SEMANA

 

2ª Feira,14-III: Para bem viver a misericórdia.

Dan 9, 4-10  / Lc 6, 36-38

Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso.

Para sermos misericordiosos, como Jesus nos pede (EV), precisamos, em primeiro lugar, reconhecer que somos pecadores como os demais. Assim o lembra Daniel: Nós pecámos, deixámos os vossos mandamentos e as vossas leis (LT). Assim seremos mais compreensivos com os defeitos do próximo. Recebamos o sacramento da misericórdia, e seremos igualmente misericordiosos.

Recorramos ao Coração Sacratíssimo de Jesus e peçamos-lhe um coração à medida do seu. No nosso Deus está a misericórdia e o perdão (SR).

 

3ª Feira, 15-III: Conversão e boas obras.

Is 1, 1-10. 16-20 / Mt 23, 1-12

Fazei e observai tudo quanto vos disserem, mas não procedais segundo as suas obras, pois eles dizem e não fazem.

Jesus começou primeiro a fazer e, só depois, a ensinar. Por isso, contrasta com a actuação dos fariseus e dos escribas (EV), que impunham um fardo pesado, que eles não carregavam, enquanto que Jesus carrega com os nossos pecados.

A nossa conversão deve ser acompanhada pelas boas obras, senão os nossos propósitos seriam estéreis. Precisamos uma prática de aprendizagem: Aprendei a fazer o bem (LT). É necessário que a nossa conversão seja acompanhada por sinais sensíveis, gestos e obras de penitência. Ao homem recto Deus fará ver a salvação (SR).

 

4ª Feira, 16-III: Quaresma e serviço à sociedade.

Jer 18, 18-20 / Mt 20, 17-28

Eles hão-de condená-lo à morte, para que o escarneçam e crucifiquem.

O profeta Jeremias sofreu algumas conjuras (LT). O mesmo aconteceu com Jesus (EV). Nos nossos dias acontece o mesmo. Os adversários de Deus atacam a Igreja e as suas instituições, pagando o bem com o mal.

Esquecem que os ensinamentos de Cristo têm como finalidade tornar a sociedade mais digna. O Filho do homem veio para servir e dar a vida por todos (EV). Do mesmo modo, todos os cristãos devem trabalhar para o bem da sociedade, através do seu trabalho e da sua vida familiar exemplar. Vós sois o nosso refúgio (SR)

 

5ª Feira,17-III: Os benefícios da Cruz

Jer 17, 5-10 / Lc 16, 19-31

Então, ó Pai, rogo-te que mandes Lázaro à minha casa paterna, pois tenho cinco irmãos…Que ele os previna

O homem rico da parábola, bem como os seus cinco irmãos (EV), nunca se lembraram de Deus, nem dos pobres. Confiando nos seus bens materiais, o seu coração ficou longe de Deus (LT). Feliz quem confia no Senhor. É semelhante à árvore plantada à beira da água (LT e SR).

A cruz, depois de abraçada pelo Senhor, é o símbolo da vitória. Como diz Jesus: quem sofre os infortúnios aqui, por amor a Deus, terá as consolações na outra vida. Os outros, que receberam aqui tudo, nada terão depois na outra vida.

 

6ª Feira, 18-III: Como Jesus nos acolhe.

Gen 37, 3-4, 12-13, 17-28 / Mt 21, 33-43, 45-46

Mas, ao verem o filho, os agricultores disseram entre si: este é o herdeiro.

Esta parábola dos agricultores (EV), pode aplicar-se também a José, a quem os irmãos venderam como escravo (LT e SR) e, mais tarde, o rei entregou-lhe o domínio do seu território. Mas aplica-se especialmente ao próprio Jesus,

Jesus foi enviado à terra para nos salvar, ensinando os caminhos da vida eterna e curando muitos doentes, etc. Em troca, recebeu uma cruz. Lutemos para evitar os nossos pecados, procuremos acolhê-lo bem na nossa Comunhão, nas contrariedades, na nossa oração, quando trabalhamos, etc.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:       Bruno Barbosa

Nota Exegética:                Geraldo Morujão

Homilias Feriais:               Nuno Romão

Sugestão Musical:            José Carlos Azevedo

 


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