1º Domingo da Quaresma

6 de Março de 2022

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Irmãos convertei o vosso coração – J. P. Lecot, CNPL, pg543

Salmo 90, 15-16

Antífona de entrada: Quando me invocar, hei-de atendê-lo; hei-de libertá-lo e dar-lhe glória. Favorecê-lo-ei com longa vida e lhe mostrarei a minha salvação.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

O Tempo Quaresmal, iniciado na passada quarta-feira com a imposição das cinzas sobre as nossas cabeças, consiste na renovada oportunidade que Deus nos concede de voltarmos a casa; de adentrarmos sem medos e sem rodeios no profundo mistério do seu amor para connosco.

Conversão e luta contra o pecado que nos separa do Amor é o grande desafio deste primeiro Domingo. Sigamos os passos do Senhor, que, na vitória sobre o mal, nos mostrou o caminho a seguir.

 

Oração colecta: Concedei-nos, Deus omnipotente, que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Prostrar-te-ás unicamente perante o Senhor teu Deus; nada nem ninguém tem o direito de exigir a tua adoração: só a Ele pertences inteiramente. Escutemos.

 

Deuteronómio 26, 4-10

Moisés falou ao povo, dizendo: 4«O sacerdote receberá da tua mão as primícias dos frutos da terra e colocá-las-á diante do altar do Senhor teu Deus. 5E diante do Senhor teu Deus, dirás as seguintes palavras: ‘Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egipto com poucas pessoas, e aí viveu como estrangeiro até se tornar uma nação grande, forte e numerosa. 6Mas os egípcios maltrataram-nos, oprimiram-nos e sujeitaram-nos a dura escravidão. 7Então invocámos o Senhor Deus dos nossos pais e o Senhor ouviu a nossa voz, viu a nossa miséria, o nosso sofrimento e a opressão que nos dominava. O Senhor fez-nos sair do Egipto com mão poderosa e braço estendido, 8espalhando um grande terror e realizando sinais e prodígios. 9Conduziu-nos a este lugar e deu-nos esta terra, uma terra onde corre leite e mel. 10E agora venho trazer-Vos as primícias dos frutos da terra que me destes, Senhor’. Então colocarás diante do Senhor teu Deus as primícias dos frutos da terra e te prostrarás diante do Senhor teu Deus».

 

A nossa leitura é tirada da parte final do chamado «Código Deuteronómico» (Dt 12 – 26) e contém a oração ritual a recitar no momento da oferta ao Santuário dos primeiros frutos da terra, as primícias. Esta oração contém o que Gerhard von Rad classificou de «Credo histórico», isto é um resumo do núcleo da fé de Israel, que é fundamentalmente uma confissão de fé nas intervenções salvadoras de Yahwéh na história deste povo, centradas na libertação da escravidão do Egipto e na instalação em Canaã, a terra prometida. Podem ver-se outras profissões de fé semelhantes em: Dt 6, 20-24; Jos 24, 1-13; Ne 9, 6-37; Jr 32, 17-25; Salm 136 (135).

5 «Um arameu errante». Trata-se de Jacob, que personifica a era dos patriarcas, assim chamado quer pelo facto de a migração de Abraão estar ligada com as movimentações de tribos de arameus na zona do Médio Oriente, mas também em razão de ter muitas relações de parentesco com a Mesopotâmia, onde vivia o seu tio Labão, o arameu (Gn 28,1-5), e onde passou longos anos em Aran com as suas mulheres (cf. Gn 29 – 30). Jacob, bem como Isaac e Abraão, levou uma vida semi-nómada, acabando por se estabelecer no Egipto «com uma família pouco numerosa», isto é, um grupo de 70 pessoas (Gn 46,26-27; cf. Ex 1,1-5).

9-10 «Deu-nos esta terra… E agora…» O gesto de oferecer as primícias tem esse sentido de gratidão de quem quer corresponder a tanto amor de Deus com a oferta simbólica, os primeiros frutos da terra. Por outro lado, era uma confissão de fé em Yahwéh, o único que concede a fertilidade, e ao mesmo tempo era uma forma de abjurar os sedutores cultos idolátricos da fertilidade – tão característicos de Canaã – da deusa Astarté. A oração também põe em evidência o forte contraste entre o pobre arameu errante, sem leira nem beira, e o agricultor a desfrutar livremente duma terra ideal – onde corre leite e mel – dada por Deus.

 

Salmo Responsorial    Sl 90 (91), 1-2.10-15 (R. cf. 15b)

 

Monição: O Senhor jamais abandona os seus filhos, e é sobretudo nas dificuldades que se faz próximo, confortando os que n’Ele se refugiam.

 

Refrão:        estai comigo, senhor, no meio da adversidade.

 

Tu que habitas soba a protecção do Altíssimo

e moras à sombra do Omnipotente,

diz ao Senhor: «Sois o meu refúgio e a minha cidadela:

meu Deus, em Vós confio».

 

Nenhum mal te acontecerá

nem a desgraça se aproximará da tua tenda,

porque Ele mandará os seus Anjos

que te guardem em todos os teus caminhos.

 

Na palma das mãos te levarão,

para que não tropeces em alguma pedra.

Poderás andar sobre víboras e serpentes,

calcar aos pés o leão e o dragão.

 

Porque em Mim confiou, hei-de salvá-lo;

hei-de protegê-lo, pois conheceu o meu nome.

Quando me invocar, hei-de atendê-lo,

estarei com ele na tribulação,

hei-de libertá-lo e dar-lhe glória.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Crer em Jesus Cristo é o pórtico para a vida nova que Ele reserva aos que se deixam conquistar pela salvação prometida: o Senhor é, de facto, rico em misericórdia para com todos. Ouçamos o Apóstolo.

 

Romanos 10,8-13

Irmãos: 8Que diz a Escritura? «A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração». Esta é a palavra da fé que nós pregamos. 9Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e se acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo. 10Pois com o coração se acredita para obter a justiça e com a boca se professa a fé para alcançar a salvação. 11Na verdade, a Escritura diz: «Todo aquele que acreditar no Senhor não será confundido». 12Não há diferença entre judeu e grego: todos têm o mesmo Senhor, rico para com todos os que O invocam. 13Portanto, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.

 

A citação do Deuteronómio com que começa o trecho desta leitura, refere-se à proximidade da revelação da salvação de Deus (cf. Dt 30,12-14), ao dizer que não é preciso cruzar os mares nem subir às alturas para a encontrar. Para Israel ela estava encerrada na Thoráh; para os cristãos ela está patente na pregação apostólica da Igreja, e só nos resta aderir a ela interiormente e professá-la externamente. Mas S. Paulo vai mais longe, pois pretende mostrar que a salvação divina é uma realidade acessível a todos, sem distinção de raça ou nação, apenas se exige «crer» (e cita Is 28,16) «e invocar o nome do Senhor» (cita Joel 3,5), o Senhor, que é Jesus.

9 «Se confessares… que Jesus é o Senhor», isto é, que Jesus é Deus. A tradução acrescenta o artigo que não está no original grego, empobrecendo a força da expressão: Jesus é Senhor. Senhor – Kyrios – é a tradução dos LXX para o nome divino de Yahwéh; daí que aplicar este nome a Jesus é fazer uma profissão de fé na sua divindade; este frequente procedimento do N. T. é chamado um deraxe cristológico (uma actualização do A. T. para exprimir quem é Jesus, o mistério da sua pessoa). Note-se como, para ser salvo, se exige uma fé que não se reduz a uma mera confiança – fé fiducial – na obra salvadora de Jesus, pois implica crer naquilo que Ele é objectivamente: Ele salva pelo facto de que é Deus que vem, feito homem, para nos salvar. Doutra forma, a fé seria vazia, por carecer de um fundamento real sólido; que sentido teria então aderir a Cristo sem ter a certeza daquilo que Ele é na realidade? Seria cair num fideísmo idealista e subjectivista, numa fé que não iria para além dum vago e instável sentimento religioso. S. Paulo fala de «crer com o coração» (v. 10), usando a palavra «coração» no sentido semítico, próprio da citação bíblica anterior (v. 8): é a interioridade do ser humano, mais que a mera afectividade, engloba a sua mente (a inteligência e a vontade).

 

Aclamação ao Evangelho        Mt 4, 4b

 

Monição: As tentações de que Jesus Cristo é alvo têm uma única finalidade: afastar o Filho de Deus daquele projecto de vida e libertação para o qual havia sido enviado e, desse modo, evitar o resgate da humanidade decaída.

O maligno exerce sobre os homens esse fascínio de serem deuses de si mesmos, sem referência filial ao Deus único e verdadeiro, fechados sobre os esquemas deste mundo e à mercê das suas ilusórias conquistas.

Em Jesus, tendo permanecido firmes em Deus diante das seduções do mal, seremos vencedores.

Louvemos o Senhor, cantando!

 

Cântico: Louvor e glória a Vós – B. Salgado, NRMS, 32

 

Nem só de pão vive o homem,

mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 4,1-13

Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-Se das margens do Jordão. Durante quarenta dias, esteve no deserto, conduzido pelo Espírito, e foi tentado pelo diabo. Nesses dias não comeu nada e, passado esse tempo, sentiu fome. O diabo disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’». O diabo levou-O a um lugar alto e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra e disse-Lhe: «Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’». Então o demónio levou-O a Jerusalém, colocou-O sobre o pináculo do Templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’». Jesus respondeu-lhe: «Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». Então o diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação, retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.

 

Uma consideração superficial desta narrativa poderia levar o leitor a cair numa de duas tentações de pólos opostos: ou a de ficar na literalidade do relato, que parece descrever umas tentações de gula, de ambição do poder, de vaidade e presunção, ou então a de não querer ver nada para além da teologia do evangelista. Quem olhar para o relato imbuído do preconceito de que não existe o diabo, nem a tentação diabólica, não terá mais remédio do que refugiar-se na fácil solução da negação do seu valor histórico, apelando para a teologia do evangelista, para ficar no simbolismo e significado teológico destas tentações. Por outro lado, quem se aferrar a uma mentalidade fundamentalista para salvar a todo o custo o sentido histórico literal de cada pormenor da narrativa, partindo de que esta é uma crónica jornalística, adoptará uma posição redutora da riqueza teológica do texto e virá a cair em interpretações pueris e até incoerentes, como, por ex., a de imaginar Jesus a ser transportado pelo diabo para um ponto donde pudesse ver todos os reinos da terra (v. 4), como para o pináculo do Templo, onde «o colocou», segundo reza o texto (v. 9).

É indiscutível que Jesus foi sujeito à tentação (cf. Hbr 4,15). Na Escritura a palavra «tentação» tem dois sentidos, tanto em grego, como em hebraico – peirasmós/massá –, a saber, o de «sedução» para praticar o mal, e o de «provação» que põe à prova a virtude e a fidelidade da criatura a Deus. Aqui, Jesus aparece claramente a ser tentado pelo demónio; muitas vezes, especialmente na hora da sua Paixão, é sujeito à prova (cf. Lc 22,28.40-46; 23,35.37.49, etc.). Não obsta à realidade da tentação – a que Jesus não foi poupado – o significado simbólico dos elementos da narrativa, como o número «40» (tempo prolongado: cf. 1Re 19,8; Ex 16,35; 24,18; 34,28…) e o «deserto» (lugar de solidão, abandono e perigo e também de encontro com Deus). Alguém escreveu que este relato recapitula toda a oposição, exterior e interior, que Jesus teve de enfrentar para cumprir a sua missão de acordo com a vontade do Pai.

Neste caso concreto, convém advertir que as tentações de Jesus aqui descritas não são de modo algum uma tentação ocasional, nem sequer um ataque mais violento; foram um duelo mortal e decisivo entre dois inimigos irredutíveis. Assim, estas tentações não vão dirigidas a fazer cair Jesus em meras faltas pessoais (gula, avareza, vaidade); mas são mesmo um ataque frontal, com o fito de fazer gorar toda a obra de Jesus. S. Lucas apresenta-nos o diabo a querer tirar a limpo até que ponto Jesus era o «Filho de Deus» (vv. 3 e 10), segundo lhe constaria da teofania do Jordão (cf. Lc 3,23). Por outro lado, o maligno aparece a tentar Jesus precisamente no núcleo da sua missão messiânica, para tentar desviá-lo do plano divino para os seus planos diabólicos, de modo a que esta missão acabasse por vir a ser desvirtuada. Tentemos agora ver o alcance destas tentações:

3-4 Na primeira tentação, Jesus aparece tentado a enveredar pelo caminho da satisfação das esperanças materialistas do povo, que esperava um messias que lhe trouxesse bem-estar, riqueza, prosperidade, fertilidade, pão e prazer.

5-6 Na segunda tentação, Jesus é tentado a mover-se na linha das esperanças populares num messias político, vitorioso, dominador dos opressores romanos e senhor do mundo inteiro; trata-se da tentação que Jesus sentiu de se desviar do plano do Pai, a instauração do Reino de Deus, para se dedicar à instauração dum reino temporal, um plano aparentemente mais eficaz e bem mais sedutor.

9-12 Na terceira tentação, com aquele «atira-te daqui abaixo», é feito a Jesus um apelo diabólico a ir atrás da expectativa judaica, que pensava que o messias desceria espectacularmente do céu, à vista de todo o povo. Mas Jesus renuncia decididamente à fácil tentação de ser um messias milagreiro e espectacular, e diz não à proposta de uma actuação com base no triunfo pessoal, no mero êxito humano.

Não devemos estranhar que S. Lucas inverta a ordem de S. Mateus para as duas últimas tentações, o que em nada diminui o valor do relato. A fonte pode ser a mesma, mas parece que Lucas coloca a última tentação em Jerusalém devido ao alto valor simbólico que quer dar à Cidade Santa e ao Templo no seu Evangelho. Ninguém foi testemunha das tentações de Jesus, pois se trata de coisas que se passaram apenas no seu espírito; mas também é compreensível que Jesus abrisse o seu coração aos discípulos, quando lhes falava da natureza do Reino de Deus e lhes explicava em particular as parábolas (cf. Mc 4,34: seorsum autem discipulis suis disserebat omnia). O que é certo é que, para além das hipóteses que possam formular os críticos, ninguém poderá provar que estamos em face de meras criações teológico-narrativas dos evangelistas.

O alcance teológico desta narrativa nos três Sinópticos (em Marcos há apenas uma brevíssima alusão: 1,12-13) é grande. Com efeito, as grandes personagens bíblicas foram «tentadas» e também o povo de Israel, no seu conjunto, especialmente durante a sua peregrinação pelo deserto, a caminho da terra prometida. Ora, em Jesus cumpre-se tudo o que estava em toda a Escritura (cf. Lc 24,44); por outro lado, a vida de Jesus torna-se também um modelo para os cristãos e para toda a Igreja, que virá a ser tentada pelos poderes diabólicos, que nunca deixarão de pôr à prova a sua fidelidade e de os seduzir para o mal; os caminhos da Igreja não podem ser nunca os da glória terrena e do êxito fácil, mas os da humildade e do sacrifício, os árduos e escondidos caminhos da santidade.

13 «O diabo... retirou-se… até certo tempo». É uma observação exclusiva de Lucas, e foi no momento da Paixão de Jesus (sem podermos excluir outros) quando em força avançou o diabo, o poder das trevas (cf. Lc 22,53. E também foi então a grande derrota do demónio e a vitória definitiva do Senhor, que nos mereceu a graça de também podermos sair vitoriosos das nossas tentações. S. João Crisóstomo comenta: «uma vez que o Senhor tudo fazia e sofria para o nosso ensinamento, também quis ser conduzido ao deserto e ali travar combate contra o diabo, a fim de que os baptizados, se, depois do Baptismo, vierem a sofrer as piores tentações, não se perturbem com isso, como se se tratasse duma coisa que não era de esperar. Não, não há que se perturbar com isso, mas sim permanecer firmes e suportá-lo generosamente como a coisa mais natural do mundo» (Homilia sobre S. Mateus, 13).

 

Sugestões para a homilia

 

Só diante do Senhor teu Deus te prostrarás

Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo

Não tentarás o Senhor teu Deus

 

A Palavra deste I Domingo da Quaresma constitui, como em todos os momentos da nossa vida, um apelo veemente a recentrarmos os passos do caminho, percorridos ou a percorrer, perante o olhar atento, misericordioso e justo do nosso Deus.

Quaresma é tempo privilegiado de conversão ao essencial, e o essencial é Deus. Não há dúvidas de que a facilidade com que nos desviamos desse centro é grande. Mas é precisamente por essa razão que, uma e outra vez, as que forem necessárias, o Senhor vem no encalço de cada um de nós para nos encorajar a não desistir da santidade.

É perante um Deus que não abandona os homens, embora pecadores e ingratos, que estamos quando contemplamos o rosto de Jesus Cristo. E é diante do Amor que salva, redime e ressuscita para a eternidade, que Satanás procura incansavelmente confundir, dividir, destruir e condenar os distraídos e incautos.

A primeira leitura de hoje, retirada do Livro do Deuteronómio, recorda como é fundamental ao homem colocar-se debaixo da poderosa mão de Deus, ser-Lhe fiel e não buscar subterfúgios que o façam cair na idolatria, fonte de ignominia e escravidão.  Ao Senhor, Deus libertador e salvador, é devida toda a honra, toda a adoração, todo o louvor e gratidão, sem meios-termos.

Na segunda leitura, o Apóstolo São Paulo pede aos romanos a ousadia de professarem a fé em Jesus Cristo, na certeza de que é nessa expressão fiduciária que se concretiza a justiça de Deus. N’Ele está a fonte da salvação e d’Ele advém para o homem, outrora sucumbido ao poder do pecado e da morte, a esperança feliz de que não vive para a morte, mas para a vida: «Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.»

O Evangelho apresenta-nos, da pena de São Lucas, o episódio das tentações de Jesus no deserto, logo após o Baptismo no Rio Jordão. Este relato impele-nos a sair do conforto arrumado das nossas abstracções e conceitos, em vista de irmos ao encontro da humanidade do Filho de Deus, também Ele provado no deserto para nos conquistar a vitória sobre o inimigo.

As tentações de Jesus representam a idolatria e a ilusão de que o efémero, sediado na fugacidade deste horizonte finito que é o tempo e o espaço onde tantas vezes nos deixamos enredar por acontecimentos, ideologias e teimosias caprichosas e vazias, seria uma espécie de eterno aqui, lugar em que as minhas circunstâncias e os meus interesses individuais ou colectivos se transformam em divindades a cultuar.

À tentação satânica e idolátrica – fama, poder, riqueza –  o Filho de Deus responde com total fidelidade e adesão ao Pai. Mostra-nos, na sua firmeza, como podemos e devemos viver sem esmorecer, recusando cair nas ciladas do maligno, certos de que é precisamente na adversidade que o Senhor está junto de nós e não permite que lhe sucumbamos. 

Cheio do Espírito, Jesus é conduzido pelo mesmo Espírito à afirmação da soberania de Deus perante o tentador, mentiroso e soberbo. Saibamos também nós, cônscios dos limites próprios da nossa natureza, arrependidos dos nossos pecados, voltar de novo o olhar para Aquele que é o nosso refúgio e a nossa cidadela e vivamos santamente este tempo oportuno.

 

Fala o Santo Padre

 

«Jesus é tentado três vezes pelo diabo:

três caminhos que o mundo sempre propõe, prometendo grandes sucessos, três sendas para nos enganar:

a avidez da posse, a glória humana, e a instrumentalização de Deus. São três caminhos que nos levarão à ruína.»

O Evangelho deste primeiro domingo de Quaresma (cf. Lc 4, 1-13) narra a experiência das tentações de Jesus no deserto. Depois de ter jejuado por quarenta dias, Jesus é tentado três vezes pelo diabo, o qual primeiro o convida a transformar uma pedra em pão (v. 3); em seguida mostra-lhe do alto os reinos da terra, sugerindo-lhe que pode tornar-se um messias poderoso e glorioso (vv. 5-6); e por fim o conduz ao ponto mais alto do templo de Jerusalém e o exorta a lançar-se, para manifestar de maneira espetacular o seu poder divino (vv. 9-11). As três tentações indicam três caminhos que o mundo sempre propõe, prometendo grandes sucessos, três sendas para nos enganar: a avidez da posse — ter, ter e ter — a glória humana, e a instrumentalização de Deus. São três caminhos que nos levarão à ruína.

O primeiro, a avidez da posse. É sempre esta a lógica insidiosa do diabo. Ele começa pela natural e legítima necessidade de se nutrir, de viver, de se realizar, de ser feliz, para nos impelir a acreditar que tudo isto é possível sem Deus, aliás, até contra Ele. Mas Jesus opõe-se, dizendo: «Está escrito: “Nem só de pão vive o homem”» (v. 4). Recordando o longo caminho do povo eleito através do deserto, Jesus afirma que deseja abandonar-se com plena confiança à providência do Pai, que cuida sempre dos seus filhos.

A segunda tentação: o caminho da glória humana. O diabo diz: «Se te prostrares diante de mim, tudo será teu» (v. 7). Podemos perder qualquer dignidade pessoal, deixamo-nos corromper pelos ídolos do dinheiro, do sucesso e do poder, contanto que alcancemos a nossa autoafirmação. E saboreamos a emoção de uma alegria vazia que esvaece imediatamente. E isto leva-nos até a comportarmo-nos como “pavões”, a vaidade, mas tudo isto acaba. Por isso Jesus responde: «Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto» (v. 8).

E a terceira tentação: instrumentalizar Deus em próprio benefício. Ao diabo que, citando as Escrituras, o convida a pedir a Deus um milagre extraordinário, Jesus opõe de novo a firme decisão de permanecer humilde e confiante diante do Pai: «Não tentarás ao Senhor, teu Deus» (v. 12). E assim rejeita a tentação talvez mais subtil: de querer “puxar Deus para o nosso lado”, pedindo-lhe graças que na realidade servem e servirão para satisfazer o nosso orgulho.

Estes são os caminhos que se apresentam diante de nós, com a ilusão de poder obter o sucesso e a felicidade. Mas, na realidade, eles são totalmente alheios ao modo de agir de Deus: aliás, de facto, separam-nos de Deus porque são obra de Satanás. Jesus, enfrentando estas provações, vence três vezes a tentação para aderir plenamente ao projeto do Pai. E indica-nos os remédios: a vida interior, a fé em Deus, a certeza do seu amor e de que Deus nos ama, que é Pai, e com esta certeza venceremos qualquer tentação.

Contudo há um aspeto sobre a qual gostaria de chamar a atenção, algo interessante. Jesus ao responder ao tentador não entra em diálogo, mas responde aos três desafios só com a Palavra de Deus. Isto ensina-nos que com o diabo não se dialoga, não se deve dialogar, só se lhe responde com a Palavra de Deus.

Por consequente, aproveitemos a Quaresma, como um tempo privilegiado para nos purificar, para experimentar a presença consoladora de Deus na nossa vida.

A materna intercessão da Virgem Maria, ícone de fidelidade a Deus, nos ampare no nosso caminho, ajudando-nos a rejeitar sempre o mal e a acolher o bem.

  Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 10 de março de 2019

 

Oração Universal

 

Caríssimos irmãos:

Oremos pela Igreja, pelo mundo e por nós próprios,

Para que saibamos resistir a Satanás,

Respondendo-lhe com as palavras de Jesus,

E digamos, humildemente:

 

1.  Pelo Papa e pelos bispos a ele unidos,

para que a Palavra, que é viva e eficaz,

os sustente, os encoraje e lhes dê força,

oremos, irmãos.

 

2. Por todos aqueles que são tentados pelo poder,

Pelo dinheiro, pela violência e pela maldade,

Para que lhes saibam resistir com fortaleza,

oremos, irmãos.

 

3. Pelos emigrantes e estrangeiros maltratados

    E pelos que vivem errantes e sem pátria,

    Para que o Senhor os defenda dos perigos.

    Oremos, irmãos.

 

4. Por todos os homens e mulheres que crêem em Deus

    E pelos que o procuram de todo o coração,

    Para que só a Ele sirvam e a Ele se entreguem,

Oremos, irmãos.

 

5. Pelos cristãos e movimentos desta Paróquia,

    Para que se deixem conduzir pelo Espírito,

    Na oração, no perdão mútuo, no amor aos pobres,

    Oremos, irmãos.

   

Senhor nosso Deus e nosso Pai, escutai as súplicas dos vossos filhos,

Que vos querem servir e adorar,

E, em comunhão com Jesus, que foi tentado,

permiti que saibamos proclamar que só Vós sois nosso Deus e nosso Pai.

Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

 

 

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Caminho pelo deserto, J. Santos, NRMS, 69

 

Oração sobre as oblatas: Fazei que a nossa vida, Senhor, corresponda à oferta das nossas mãos, com a qual damos início à celebração do tempo santo da Quaresma. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

As tentações do Senhor

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Jejuando durante quarenta dias, Ele santificou a observância quaresmal e, triunfando das insídias da antiga serpente, ensinou-nos a vencer as tentações do pecado, para que, celebrando dignamente o mistério pascal, passemos um dia à Páscoa eterna.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: C. Silva - OC (pg 537)

 

Monição da Comunhão

 

Ao comungarmos o Corpo do Senhor, façamo-lo com a consciência de que só Ele é o alimento que pode matar a nossa fome de sentido e plenitude; Ele é Pão da Vida e Palavra da Salvação.

 

Cântico da Comunhão: Nem só de pão vive o homem – M. Simões, CEC (I), 91

Mt 4, 4

Antífona da comunhão: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.

 

ou

Salmo 90, 4

O Senhor te cobrirá com as suas penas, debaixo das suas asas encontrarás abrigo.

 

Cântico de acção de graças: O Senhor cobrir-te-á – F. Santos, BML, 55

 

Oração depois da comunhão: Saciados com o pão do Céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade, nós Vos pedimos, Senhor: ensinai-nos a ter fome de Cristo, o verdadeiro pão da vida, e a alimentar-nos de toda a palavra que da vossa boca nos vem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Crer e confiar plenamente em Deus, bem como adorá-Lo de todo o coração, são os grandes imperativos deste primeiro Domingo da Quaresma.

Que, a exemplo de Jesus, possamos viver os próximos dias e semanas numa experiência do encontro renovado com o Pai - superando as tentações, os obstáculos e as desesperanças – e acolhendo com alegria e gratidão a sua graça e o seu perdão.

 

Cântico final: Corri, Senhor, pela estrada larga… – M. Carneiro, NRMS, 13

 

 

Homilias Feriais

 

1ª SEMANA

 

2ª Feira, 7-III: Os caminhos de salvação.

Lev 19, 1-2. 11-18 / Mt 25, 31-46

Vinde benditos de meu Pai, recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo

Quem quiser salvar-se, deve esforçar-se por cumprir os mandamentos (LT). Os mandamentos de Deus são claros, iluminam os olhos (SR).

A segunda parte do Decálogo refere-se ao amor fraterno (LT e EV). Na Cruz, Jesus pede perdão ao Pai por todos aqueles que O ofendem. É uma bela lição de caridade para com o próximo. Pede-nos que O saibamos descobrir em cada pessoa que nos rodeia: perdoando, compreendendo, etc. Peçamos-lhe que no nosso coração, como no dEle, caibam igualmente as virtudes e os defeitos do próximo.

 

3ª Feira, 8-III: A vontade de Deus e o perdão das ofensas.

Is 55, 10-11 / Mt 6, 7-15

Orai, pois, deste modo: Pai nosso, que estais nos céus…

Devemos rezar confiadamente a oração que o Senhor nos ensinou, o Pai nosso (EV), que contém tudo o que podemos pedir a Deus, e que é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho. Os justos clamaram e o Senhor os ouviu (SR).

As Leituras de hoje recomendam duas petições. A primeira «seja feita a vossa vontade», pede que acolhamos a palavra que sai da boca de Deus e que a cumpramos (LT). A segunda «perdoai-nos as nossas ofensas» é o resultado do seu sacrifício reparador na Cruz. Agradeçamos ao Senhor, manifestando-lhe a contrição pelos nossos pecados.

 

4ª Feira, 9-III: A mensagem divina para a Quaresma.

Jonas 3, 1-10 / Lc 11, 29-32

Ergue-te e vai à cidade de Nínive e proclama-lhe a mensagem que te direi.

Na Quaresma recebemos uma mensagem de Deus, como aconteceu com os habitantes de Nínive, que nos convida à conversão e ao arrependimento (LT e EV).

Reconheçamos os nossos pecados, pensando nos sofrimentos de Jesus. Peçamos perdão pelos nossas ofensas e negligências, manifestemos o nosso arrependimento, fazendo o propósito de cumprirmos os pequenos deveres de cada momento e recebamos o sacramento da Penitência, que concretiza o apelo de Jesus à conversão e o esforço por regressar à casa do Pai, do qual nos afastamos. Apagai os meus pecados (SR).

 

5ª Feira, 10-III. A conversão e a oração.

Est. 14, 1. 3-5. 12-14 / Mt 7, 7-12

Pois todo aquele que pede, recebe, ao que bate, abrir-se-á.

A oração é uma das formas de vivermos a penitência quaresmal, junto com o jejum e a esmola. O coração, assim decidido, aprende a orar na fé pois, sendo Jesus a Porta, diz-nos para batermos nela (EV).

A rainha Ester é um bom exemplo desta oração: Vinde socorrer-me, que eu estou só e só em Vós tenho auxílio, pois ouvistes as palavras da minha boca (SR). Sinto ao alcance da mão o perigo que me espreita (LT). Peçamos ao Senhor que nos socorra nos momentos de tentação. Assim o ladrão arrependido conseguiu que o Senhor lhe abrisse as portas do Céu.

 

6ª Feira, 11-III A conversão pessoal e a repercussão na sociedade.

Ez 18, 21-28 / Mt 5, 20-26

Se o pecador se arrepender de todas as faltas que tiver cometido, há-de viver e não morrerá.

A Quaresma é tempo de conversão e de arrependimento, que nos conduzirá de novo à vida (LT) e à reconciliação com Deus, através da reconciliação com os nossos irmãos (EV). A conversão está igualmente ligada ao esforço por introduzir as correcções convenientes nas instituições e condições de vida. No Senhor está a misericórdia (SR).

Por um lado, as famílias têm uma palavra na melhora das condições do ambiente à sua volta. Ao mesmo tempo, sempre se podem denunciar as «estruturas de pecado» que atacam o bem comum dos cidadãos e também a justiça.

 

Sábado, 12-III: Heroicidade na caridade.

Deut 26, 16-19 /  Mt 5, 43-48

Pois eu digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por quem vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus.

Moisés lembrava ao povo que vivesse os preceitos e sentenças do Senhor, cumprindo-os com todo o coração e com toda a alma (LT). Hei-de cumprir os vossos preceitos. Não me desampareis jamais (SR).

Jesus pede aos discípulos uma nova forma de viver a caridade: amar os inimigos e rezar por eles (EV). Assim o viveu Ele, e assim nos pede para sermos bons filhos de Deus. No Sermão da Montanha, já tinha proibido o ódio e a vingança. Na Cruz pede ao Pai que perdoe aos que O insultam, pois não sabem o que fazem, e oferece a vida por todos.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:       Fábio Jorge A. Carvalho

Nota Exegética:                Geraldo Morujão

Homilias Feriais:               Nuno Romão

Sugestão Musical:            José Carlos Azevedo

 


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