TEMAS LITÚRGICOS

O «hoje» do Natal e da Páscoa

 

 

 

 

Pedro Boléo Tomé

 

 

Este Natal tive a oportunidade de experimentar o «hoje» litúrgico. Na realidade, em cada ano, todos os crentes o experimentam, porém, para mim, este ano foi especial. Foi como que uma descoberta. E graças ao povo cristão e à forma como acorreu à Igreja onde estive a confessar nas vésperas do nascimento de Jesus. Era dia 24 de dezembro, eu tinha estado a confessar naquele mesmo lugar nas tardes anteriores. Tinham sido horas intensas, mas, desta vez, foi diferente. Quando cheguei estavam já quatro padres a confessar e, depois, juntaram-se mais dois. E assisti à chegada de um mar de gente que foi afluindo serenamente ao sacramento da reconciliação. Por vezes, famílias inteiras, que esperavam tranquilamente em oração. E uma constante perpassou por todos aqueles encontros sacramentais com Jesus: o desejo de receber melhor o Menino que ia nascer. Talvez me digam que se tratava apenas de um fenómeno psicológico, uma motivação sentimental derivada da celebração histórica do nascimento de Jesus. Mas, eu toquei algo diferente. Pareceu-me identificar claramente a «graça» deste tempo litúrgico. Pela fé aquelas pessoas percebiam que algo estava, realmente, prestes a acontecer. O carácter sacramental do tempo de Natal era algo que estava no ar, que se sentia. Aquele acontecimento histórico, pela celebração litúrgica, iria ser tornado presente dentro de umas horas. E isso fazia com que as pessoas respondessem, abrissem o seu coração à graça e deixassem entrar Jesus e o seu perdão. E isso era já o Natal. «Foi para isto que Ele veio», vinha-me à cabeça uma e outra vez ao longo daquela tarde, «foi também para esta confissão que Ele quis nascer».

«Hoje nasceu o nosso salvador, Jesus Cristo, Senhor» repetimos no refrão do salmo da noite de Natal. E a Igreja repete esta ideia várias vezes durante a liturgia desse dia. Recordei, então, que S. Agostinho considerava a festa do Natal como um simples aniversário com valor de recordação de um dado histórico, ao contrário da Páscoa que a via como um tempo litúrgico com valor de atualização sacramental. Isto porque, segundo a tradição patrística não se celebravam os nascimentos terrenos, mas sim a data do martírio dos santos (Natalis dies). Porém, lembrei-me também de que apenas um século depois, S. Leão Magno vai aplicar às festas natalícias este mesmo valor sacramental. E é aliás ele próprio que nos diz na liturgia das horas do dia de Natal:

«Hoje, caríssimos irmãos, nasceu o nosso Salvador. Alegremo-nos. Não pode haver tristeza no dia em que nasce a vida, uma vida que destrói o temor da morte e nos infunde a alegria da eternidade prometida».[1]

Assim aconteceu neste Natal. O acontecimento de Cristo foi sacramentalmente transportado até ao nosso «hoje». Era necessário alegrar-nos porque vivíamos uma grande alegria. Vivemo-la não como comemoração passada, mas como acontecimento presente. Ora, tal como dissemos antes, desde o início da Igreja, a consciência dessa sacramentalidade do tempo aplicou-se especialmente à Páscoa.[2]

Como não recordar as nove vezes em que o pregão pascal se refere à noite que se está a viver naquele preciso momento em que ele é cantado! Esta é a noite! Repete-se uma e outra vez: Esta é a noite, em que libertaste do cativeiro do Egipto os filhos de Israel… Esta é noite, em que a coluna de fogo dissipou as trevas do pecado; Esta é a noite que liberta das trevas do pecado e da corrupção do mundo aqueles que hoje por toda a terra creem em Cristo…  etc.

Noite bendita, noite santa, noite verdadeiramente ditosa em que se unem o céu e a terra, o divino e o humano! Noite, portanto, em que o passado se une com o presente. Noite onde, no dizer de Ratzinger, se dá a simultaneidade entre o passado e o presente.[3]

É certo que cada vez que celebramos a Eucaristia celebramos a Páscoa de Cristo e, por isso, entramos nesse «hoje» especial:

«Quando a Igreja celebra o mistério de Cristo, há uma palavra que ritma a sua oração: Hoje!, como um eco da oração que lhe ensinou o seu Senhor e do chamamento do Espírito Santo. Este «hoje» do Deus vivo, em que o homem é chamado a entrar, é a «Hora» da Páscoa de Jesus, que atravessa e sustenta toda a história».[4]

Neste sentido diz Arocena: «Na liturgia, o Espírito projeta o crente para o ponto de encontro do tempo com a eternidade, tornando-o contemporâneo com a Páscoa de Cristo». E conclui: «O hoje eterno de Deus vive na finitude do hoje da cada celebração».[5]

Ora se o homem entra na «Hora» da Páscoa de Jesus em cada celebração eucarística ele fá-lo particularmente na celebração anual do mistério Pascal. O cristão é chamado a viver, a tornar-se presente, na Paixão, Morte e Ressurreição do seu Senhor. E vive-o como um tempo de graça. Como um tempo especial. São dias em que se toca precisamente a sacramentalidade do Tempo. Uma sacramentalidade que nos excede, que, simplesmente, ultrapassa qualquer explicação física e repousa na atuação misteriosa da graça.

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] S. LEÃO MAGNO, Sermo 1 in Nativitate Domini, 1-3: PL 54, 190 -193; Segunda leitura do Oficio de leitura de dia 25 de dezembro.

[2] «A Páscoa não é simplesmente uma festa entre outras: é a «festa das festas», a «solenidade das solenidades», tal como a Eucaristia é o sacramento dos sacramentos (o grande sacramento). Santo Atanásio chama-lhe «o grande domingo», tal como a Semana Santa é chamada no Oriente «a semana maior». O mistério da ressurreição, em que Cristo aniquilou a morte, penetra no nosso velho tempo com a sua poderosa energia, até que tudo Lhe seja submetido», CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA nº 1169

[3] «A liturgia crista não administra apenas o passado, pois há simultaneidade com aquilo que a fundamenta: é essa a verdadeira substância e grandeza da celebração eucarística; ela é sempre mais do que simplesmente ceia – ela é ser arrebatado para a simultaneidade com o mistério de Pascha Cristo, na sua transição/transcendência da tenda da temporalidade para a face de Deus», RATZINGER, J. Introdução ao Espírito da Liturgia, p. 43.

[4], CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA nº 1165

[5] AROCENA, F. M., Teología Litúrgica , p. 73


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