Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

08 de Dezembro de 2021

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada:  Exulto de alegria no Senhor – M. Silva, CEC (II)

 

Is 61, 10

Antífona de entrada: Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus, que me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu com o manto da justiça, como esposa adornada com suas jóias.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, celebrada em pleno coração do Advento, não só não nos distrai da celebração deste tempo litúrgico, mas torna-a mais intensa.

Com o anúncio profético da Imaculada, a Mulher que esmagará a cabeça da serpente infernal, a promessa da vinda de Cristo para nos salvar, torna-se mais próxima.

Na verdade, a Imaculada Conceição de Maria vem recordar-nos que Deus começou já o processo da nossa libertação.

 

Acto penitencial

 

Nem sempre, nos combates da vida, temos estado do lado da Mulher que luta contra o dragão. Quando pecamos ou cometemos qualquer outra infidelidade a Deus, deixamo-nos arrastar pela serpente.

Reconheçamos as nossas culpas, peçamos humildemente perdão dos pecados e prometamos emenda de vida, ajudados pela misericórdia de Deus.

 

(Tempo de silêncio. Sugerimos o esquema A do Ordinário da Missa)

 

Confessemos os nossos pecados...

Senhor, tende piedade de nós...

Glória a Deus nas alturas...

 

Oração colecta: Senhor nosso Deus, que, pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preparastes para o vosso Filho uma digna morada e, em atenção aos méritos futuros da morte de Cristo, a preservastes de toda a mancha, concedei-nos, por sua intercessão, a graça de chegarmos purificados junto de Vós. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Perante a lamentável situação dos nossos primeiros pais, depois da queda original, Deus anuncia a vinda de uma Mulher que vencerá o dragão infernal.

Maria Imaculada é o sinal maravilhoso da misericórdia de Deus para connosco, animando-nos a recomeçar o caminho da santidade.

 

Génesis 3,9-15.20

9Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?». 10Ele respondeu: «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». 11Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?». 12Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor 13Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi». 14Disse então o Senhor Deus à serpente: «Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Hás-de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida. 15Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar». 20O homem deu à mulher o nome de «Eva», porque ela foi a mãe de todos os viventes.

 

A leitura é extraída do segundo bloco do livro do Génesis, que vai do v. 4b do capítulo 2 até ao fim do capítulo 4, que os estudiosos atribuem à chamada «tradição javista», onde se encontra a narrativa da criação do homem e da mulher, do pecado dos primeiros pais com as suas consequências e da continuidade da vida humana marcada pelo pecado. É evidente que esta narrativa não é um relato jornalístico, pois tudo é descrito numa linguagem simbólica, muito expressiva e densa; a narrativa coloca o leitor perante realidades transcendentes que dizem respeito ao «ser humano» – o adam –, o homem de todos os tempos. O autor sagrado, que deu forma definitiva e inspirada ao Pentateuco, quis dar-nos um panorama coerente da história da salvação – que arranca da eleição divina e se concretiza na aliança e nas promessas de salvação – desenvolvendo-se por etapas correspondentes a um maravilhoso projecto divino, a que não escapa o enigma das origens.

Se perdêssemos de vista este plano divino, que conhecemos pela Revelação, a curiosidade científica poderia levar-nos a ficar atolados nos aspectos arqueológicos e episódicos, como poderia suceder a alguém que, para estudar um monumento antigo, se ficasse no estudo das pedras e na análise dos materiais de construção; por mais científica que fosse a sua análise, ficaria sem se aperceber da harmonia do conjunto, do significado histórico desse monumento e da sua verdade mais profunda. A doutrina da Igreja sobre o pecado original, de que Maria foi isenta por singular privilégio, não se fundamenta na narrativa do Génesis; muito menos se pode partir do estudo das fontes do Génesis para negar a existência desse pecado (uma ridícula ingenuidade, além do mais); a doutrina da fé encontra a sua sólida base na obra redentora de Cristo e nos ensinamentos do Novo Testamento, nomeadamente de S. Paulo; no entanto, a fé projecta grande luz sobre esta narrativa simbólica das origens.

10 «Tive medo porque estava nu; e então escondi-me». Deste modo se descreve, com fina psicologia, o sentimento de culpabilidade e de vergonha que não podia deixar de ser estranho ao primeiro pecado e igualmente ao pecado de todo aquele que não empederniu a sua consciência; esta, que antes de pecar era o aviso de Deus, toma-se depois uma premente censura. Este dar conta da própria nudez parece também indicar, por um lado, a enorme frustração de quem, ao pecar, em vão tinha tentado «ser igual a Deus» e, por outro lado, sugere o descontrolo das tendências instintivas (a concupiscência): depois do primeiro pecado, sentem-se dominados por movimentos e apetites contrários à razão, que tentam esconder (v. 7).

Não resistimos a citar algumas palavras da profunda reflexão antropológica de João Paulo II, nas audiências gerais de Maio de 1980: «Por meio destas palavras (v. 10) desvela-se certa fractura constitutiva no interior da pessoa humana, quase uma ruptura da original unidade espiritual e somática do homem. Este dá-se conta pela primeira vez de que o seu corpo cessou de beber da força do espírito, que o elevava ao nível da imagem de Deus. A sua vergonha original traz em si os sinais duma específica humilhação comunicada pelo corpo. [...] O corpo não está sujeito ao espírito como no estado da inocência original, tem em si um foco constante de resistência ao espírito e ameaça de algum modo a unidade do homem pessoa. [...] A concupiscência, em particular a concupiscência do corpo, é ameaça específica à estrutura da auto-posse e do autodomínio, por meio do qual se forma a pessoa humana».

14 «Hás-de rastejar e comer do pó da terra». Na narrativa, a sentença é dada primeiro contra a serpente, a primeira a fazer mal. Ninguém pense que o autor quer insinuar que dantes as cobras tinham patas: a sentença é proferida contra o demónio tentador; a expressão designa uma profunda humilhação (cf. Salm 71(72),9; Is 49,23; Miq 7,17), infligida contra o demónio, que é o sentenciado, não as serpentes (cf. Apoc 12, em especial os vv. 9 e 17).

15 «Esta te esmagará a cabeça». Todo o versículo constitui o chamado Proto-Evangelho, o primeiro anúncio da boa nova da salvação que se lê na Bíblia. Não se limita esta passagem a anunciar o estado de guerra permanente entre as potências diabólicas – «a tua descendência» – e toda a Humanidade – «a descendência dela». É sobretudo uma vitória que se anuncia. Note-se que essa vitória é expressada não tanto pelo verbo, que no original hebraico é o mesmo para as duas partes em luta (xuf – na Nova Vulgata conterere), mas sim pela parte do corpo atingida nessa luta: a serpente será atingida na cabeça (ferida mortal, daí a tradução «esmagará»), ao passo que a descendência será apenas atingida no calcanhar (ferida leve, daí a tradução «atingirás»).

Mas, pergunta-se, a quem é que designa o pronome «esta» (v. 15)? Segundo o original hebraico, podia ser a descendência da mulher. A verdade, porém, é que esta descendência pecadora fica incapacitada para, por si, vencer o demónio e o pecado em que se precipitara. Assim, o tradutor grego da Septuaginta (inspirado?) referiu o dito pronome ao Messias (traduzindo-o na forma masculina, designando um indivíduo, autós, em vez da forma neutra (designando uma colectividade), autó, referindo este pronome a descendência, (que em grego se diz com a palavra neutra, sperma); esta tradução visava pôr em evidência que quem vence o pecado e o demónio é Ele, o Messias. A tradição cristã, e com ela a tradução da Vetus Latina seguida pela Vulgata, ao traduzir o pronome pelo feminino ipsa conteret caput tuum, aplicou este texto à Virgem Maria, explicitando um sentido (chamado eminente), que entreviu nesta passagem (se tivesse querido designar a descendência – semen – teria empregado o neutro ipsum, e não ipsa).

Eis como se costuma explicar o sentido mariano da passagem: a vitória é prometida à descendência de Eva, mas quem faz possível essa vitória é Jesus Cristo, com a sua obra redentora. Assim, unidos a Cristo, todos somos vencedores, mas Maria é a vencedora de um modo eminente, porque Mãe do Redentor e Mãe de toda a comunidade dos redimidos, a Igreja. O próprio contexto facilita esta referência a Maria: é que, contra tudo o que era de esperar, a profecia aparece dita a Eva, e não a Adão. Segundo o ensino da Igreja (cf. Bula «Ineffablis Deus» do Beato Pio IX), esta vitória de Maria sobre o demónio, inclui a perfeita isenção de toda a espécie de mancha do pecado, incluindo o original.

 

Salmo Responsorial     Sl 97 (98), 1.2-3ab.3cd-4 (R. Ia)

 

Monição: O Espírito Santo coloca em nossos lábios um cântico de louvor ao Altíssimo, pelas maravilhas que operou na Imaculada Conceição.

Na verdade, por mediação de Maria Imaculada, Os confins da terra puderam ver a salvação do nosso Deus.

 

Refrão:        Cantai ao Senhor um cântico novo:

o Senhor fez maravilhas.

 

Cantai ao Senhor um cântico novo,

pelas maravilhas que Ele operou.

A sua mão e o seu santo braço

Lhe deram a vitória.

 

O Senhor deu a conhecer a salvação,

revelou aos olhos das nações a sua justiça.

Recordou-Se da sua bondade e fidelidade

em favor da casa de Israel.

 

Os confins da terra puderam ver

a salvação do nosso Deus.

Aclamai o Senhor, terra inteira,

exultai de alegria e cantai.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Paulo, na Carta aos fiéis da Igreja de Éfeso, entoa um hino de louvor ao Altíssimo que nos deu toda a espécie de bênçãos em Jesus Cristo.

Esta bênção do Pai, que é o nosso Redentor, veio até nós por mediação de Maria Imaculada.

 

Efésios 1,3-6.11-12

3Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. 4N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. 5Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo, 6para louvor da sua glória e da graça que derramou sobre nós, por seu amado Filho. 11Em Cristo fomos constituídos herdeiros, por termos sido predestinados, segundo os desígnios d’Aquele que tudo realiza conforme a decisão da sua vontade, 12para sermos um hino de louvor da sua glória, nós que desde o começo esperámos em Cristo.

 

Este início da epístola aos Efésios de que é extraída a leitura tem o aspecto de um hino litúrgico e é uma das mais ricas sínteses doutrinais paulinas.

3 «Em Cristo». Toda a graça – «bênçãos espirituais» – que Deus concede ao homem, após o pecado original, incluindo a Imaculada Conceição da Virgem Maria, é concedida pela mediação de Cristo e através da união com Ele.

4-5 «Santos». «Filhos». O objectivo desta eleição eterna de Deus é «sermos santos», isto é, destacados do profano e pecaminoso para servir ao culto e glória divina: «diante d’Ele», isto é, na presença de Deus. Estamos chamados a estar sempre diante de Deus para O glorificar a partir de tudo o que fazemos, dizemos ou pensamos, como ensina o Concílio Vaticano II: «Todos os cristãos são, pois, chamados e devem tender à santidade e perfeição do próprio estado» (LG 42). A santidade está em sermos «participantes da natureza divina» (2Pe 1,4; Rom 12,1), sendo filhos de Deus e vivendo como tais, imitando a Cristo, o Filho de Deus por natureza (cf. Rom 8,15-29; Gal 4,5-7; 1Jo 3,1-3). E o modelo humano mais perfeito de santidade é Maria.

A expressão «santos e irrepreensíveis» faz pensar nas vítimas oferecidas a Deus no Antigo Testamento (cf. Lv 1,3), insinuando-se assim o carácter oblativo e sacrificial de toda a vida do cristão (cf. 1Pe 2,5), bem como a perfeição que devemos pôr em tudo o que fazemos (cf. Mt 5,48), demais que não se trata duma pureza meramente exterior e ritual, mas de um culto em espírito e verdade (cf. Jo 4,23), «na sua presença» (de Deus) «que examina os rins e o coração» (Salm 7,10), isto é, que perscruta o que há de mais íntimo no homem, a sua consciência, afectos e intenções.

 

Aclamação ao Evangelho          Lc 1, 28

 

Monição: Da terra e do Céu levanta-se um coro de louvor e aclamação, em honra de Maria, Imaculada na sua Conceição.

Associemo-nos a este cântico de louvor em honra de Maria, aclamando o Evangelho que nos fala da sua santidade.

 

Aleluia

 

Cântico: Aleluia – J. F. Silva, NRMS,46

 

Avé-Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco,

bendita sois Vós entre as mulheres.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 1,26-38

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». 34Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». 35O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível». 38Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra».

 

A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma singular densidade, pois encerra o mistério mais assombroso da História da Salvação, a Incarnação do Filho eterno de Deus. Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria!

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8,16-26; 9,21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução (salve, na nova tradução), correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26,49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10,5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo do grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêem na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3,14; Jl 2,21-23; Zac 9 9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28,15), Moisés (Ex 3,12) e Gedeão (Jz 6,12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita és tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1,12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1,18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1Sam 1,18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6,8) e Moisés (Ex 33,12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2Sam 7,8-16; Salm 2,7; 88,27; Is 9,6; Jer 23,5; Miq 4,7; Dan 7,14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7,14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1,2; Salm 104,30) e santificadora (cf. Act 2,3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40,34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Nova Vulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal (assim, a nova tradução da CEP propõe: “o que é concebido santo será chamdo Filho de Deus”). «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Gn 1,3; Salm 2,7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este sintagma, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus, que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus (M. Orsatti).

Apraz-nos citar aqui as palavras de S. João Damasceno sobre Nª Senhora: «Ela é descanso para os que trabalham, consolação dos que choram, remédio para os doentes, porto de refúgio para as tempestades, perdão para os pecadores, doce alívio dos tristes, socorro dos que rezam».

 

Sugestões para a homilia

 

• Maria Imaculada, promessa da Misericórdia divina

• O Céu desce à terra

 

1. Maria Imaculada, promessa da Misericórdia divina

 

A Igreja começou a celebrar o mistério da Imaculada Conceição em 8 de dezembro, em pleno coração do Advento, porque é mais uma nota de Esperança na vinda do Redentor.

Das sombras à luz. Adão e Eva pecaram, desobedecendo gravemente a Deus. Com este ato, voltaram as costas a Deus e à Salvação eterna. Perderam a graça santificante que nos torna filhos de Deus e herdeiros do Céu.

Com o seu pecado, entraram no mundo todos os grandes males Além da perda da participação na vida divina pela graça santificante, com as consequentes perda do Céu e condenação ao inferno, perdemos o dom preter-natural da imortalidade e da integridade, segundo a qual as paixões estavam submetidas à razão humana, cooperando fielmente para o fim com que nos tinham sido concedidas.

Agora, a sexualidade conspirará contra a vida, como tantas vezes acontece, e o apetite de comer e beber, dado para conservar a saúde e a vida, torna-se, muitas vezes, seu inimigo.

Deus procura-nos. Deus ama-nos e quer a nossa felicidade cá na terra e na eternidade. Por isso, vem à procura de Adão e Eva para os ajudar a sair deste abismo. «Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?»

Mas o pecado tinha alterado profundamente as relações de Pai com o filho, do homem com Deus. Adão e Eva escondem-se, porque têm medo d’Ele e da vergonhosa nudez em que se encontram, uma nudez também espiritual e extrema, porque perderam tudo e não se tornaram como deuses, como a serpente lhes tinha prometido. «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me».

Mas quando parecia que tudo está perdido, Deus veio inundar o mundo de esperança, procurando Adão e Eva mergulhados na sua infelicidade.

«Adão respondeu: “A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi”. O Senhor Deus perguntou à mulher: “Que fizeste?” E a mulher respondeu: “A serpente enganou-me e eu comi!».

O demónio, inimigo sinistro. Como origem e fonte destes tempos sombrios causados pelo pecado de Adão e Eva, aparece um rosto sinistro: o demónio, sob a figura de uma serpente malvada.

A existência do demónio é uma verdade de fé guardada no Catecismo da Igreja Católica e que os papas não se têm cansado de recordar, desde Paulo VI ao Papa Francisco, passando por S. João Paulo II e Bento XVI.

Parece que a grande batalha que se trava no mundo de hoje, especialmente dentro da Igreja, é a de tentarem convencer-nos de que ele não existe, pois trata-se apenas duma figura do mal.

Quando, porém, vemos tantos crimes de arrepiante crueldade, tantas injustiças e imoralidades, não podemos esquecer que eles manam de uma fonte, têm um inspirador invisível que não descansa porque, orgulhoso e invejoso como é, não quer que o homem ocupe no Céu o posto que ele deixou por causa da sua soberba.

O Apocalipse revela-nos que houve no Céu um grande combate entre Lusbel – Anjo da Luz – que se tornou Lúcifer, pela sua infidelidade, com os que o seguiram; e S. Miguel, com os Anjos que permaneceram fiéis a Deus. Uma terça parte dos Anjos foi precipitada no abismo do inferno.

Não temos razão para os temer. Para cada demónio temos dois Anjos fiéis; e a única arma dos demónios é o ódio, que só destrói. Somente o amor é capaz construir maravilhas.

«Disse então o Senhor Deus à serpente: “Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Hás de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida.”»

Uma Mulher coopera no resgate. Pela infidelidade a Deus de uma mulher que logo contagiou o homem, entrou o pecado no mundo.

Por uma Mulher – a Virgem fidelíssima ao Senhor – entrará de novo a graça a e a Salvação. Eva foi sinal de desgraça e perdição; Maria, sinal de bênção e resgate.

Deus quer ouvir da boca dos nossos primeiros pais o que se passou, para que tomem consciência do que acaba de lhes acontecer... e encara a serpente, o demónio, fonte de todo o mal no mundo.

Deus anuncia uma Mulher que lutará sem descanso contra serpente e a vencerá, numa luta sem tréguas, sem possibilidade de reconciliação. É uma inimizade perpétua.

Esta Mulher não pode ser Eva, porque, pelo pecado, se tornou aliada dele, tentando Adão e deixando-se iludir por ela.

O Espírito Santo inspirou a Igreja a ver nesta Mulher Maria Imaculada, pois nunca esteve submetida ao império do demónio. Foi concebida sem mácula original e cheia de graça desde o primeiro instante.

«Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar

Maria, sinal de Esperança. O Espírito Santo enriqueceu a Imaculada com todos os dons, como não concedeu a nenhuma outra criatura. Pode a nossa imaginação percorrer a vida dos maiores santos da história, que todos ficam muito longe da santidade e beleza de Maria.

Mas Ela é, sobretudo, para nós sinal de Esperança, como o foi para Adão e Eva e todos os mortais que esperaram do Céu a Salvação.

Sentimo-nos fortes junto d’Ela, porque sabemos que está na nossa frente enfrentando o dragão infernal. Quando nos sentimos tentados e A invocamos, logo ele nos deixa em paz.

Aproximemos as pessoas deste Coração Imaculado, por uma devoção sincera e humilde, e terão encontrado o caminho da Salvação.

S. Paulo aconselha-nos: «Acolhei-vos, portanto, uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para glória de Deus

 

2. O Céu desce à terra

 

Quando chegou o momento escolhido para nos salvar, Deus enviou o Seu Arcanjo S. Gabriel como mensageiro do Céu.

Ave, Imaculada. O Arcanjo começa por saudar Maria como a Imaculada na sua Conceição.

É isto o que significa a expressão “cheia de graça”. Para que isto seja verdade em Nossa Senhora, é preciso que Ela nunca tenha estado privada um só instante desta mesma graça de Deus.

Talvez o Arcanjo comece por lhe recordar este privilégio único, singular, para dizer que ele foi concedido à Virgem de Nazaré porque foi escolhida para ser a Mãe do Redentor.

Unido a este privilégio singular aparece outro: Ela nunca se desviou da vontade do Senhor, nunca cometeu a menor falta, mesmo venial, nem teve qualquer falta de generosidade. É a fidelidade perfeita à vontade do Senhor.

Iluminada pelo Espírito Santo, Nossa Senhora entendeu a mensagem e reagiu com humildade.

«Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo” »

A paz de Deus desce à terra. A perturbação na presença do sobrenatural, da Majestade de Deus, é normal numa criatura que se apercebe dela.

O Arcanjo apressa-se a tranquilizar Maria, perturbada neste momento grandioso e único da história.

«Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela

Maria estava habituada a contemplar a Palavra de Deus e assim procede neste momento. Delicadamente, com profundo respeito, o Arcanjo tranquiliza-A. «Disse-lhe o Anjo: “Não temas, Maria”»

Esta expressão aparece na Sagrada Escritura 365 vezes e Maria há-de repeti-la no primeiro encontro com os Pastorinhos de Fátima, em 13 de maio de 1917.

Maria achou graça diante do Senhor. Toda a vocação é pura graça de Deus. O Altíssimo elege aqueles que quer, nos Seus desígnios de misericórdia, para colaborarem com Ele.

Maria, eleita para ser a Mãe de Deus. Nos Seus desígnios eternos, Deus planeou resgatar-nos para a Salvação, determinando que o Verbo – a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade – assumisse a nossa natureza humana, sem deixar de ser Deus.

Para que Se tornasse verdadeiramente um de nós, precisava de uma Mãe que Lhe comunicasse a participação na nossa condição humana. O que o Arcanjo propõe a Maria é uma verdadeira maternidade, ou seja, conceber e dar á luz. E os termos em que se refere Àquele que d’Ela vai nascer não deixam dúvida de que se trata de um verdadeiro Filho de Deus.

O Verbo desce à nossa condição humana, para nos elevar à Sua condição divina, pela graça santificante que é a participação da natureza divina na criatura racional.

«Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.»

Deus respeita sempre e em tudo a liberdade humana e pede a Maria o seu consentimento livre, para que o mistério se realize.

Maria, sempre Virgem e Mãe. Iluminada pelo Espírito Santo, Maria tomara anteriormente um compromisso de virgindade perpétua. Era uma decisão contra o que as outras jovens pensavam e desejavam, porque os filhos eram considerados uma bênção do Senhor e toda a jovem desejava casar e ter filhos. A esterilidade era considerada uma maldição.

Quando a sua família A destinou para esposa de José – estava noiva dele, no momento da Anunciação – esclareceu-o sobre este compromisso e conquistou o noivo para a sua causa. Também ele se alegrava de assumir este mesmo compromisso.

Mas eis que o Arcanjo lhe propõe agora ser Mãe e Ela é inocente, sem experiência de qualquer falta, mas não é ingénua e sabe que a maternidade, naturalmente, é incompatível com a virgindade perpétua. Afinal, que quer Deus da sua vida: que seja Virgem, ou Mãe? É neste contexto, e não para discutir as condições de aceitação do convite do Altíssimo, que Ela pergunta ao Arcanjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». A pergunta manifesta um propósito de continuar neste caminho virginal, se for essa a vontade de Deus.

Concebeu pela força do Espírito Santo. Com um sorriso, o Arcanjo terá respondido: Deus quer as duas coisas. Pela única vez em toda a história da humanidade, em Maria, a maternidade e a virgindade perpétua são possíveis.

Ela não conceberá como qualquer outra mulher, pela entrega a um homem, mas pela força do Espírito Santo. Jesus, enquanto verdadeiro Homem, terá Mãe, mas não terá pai.

«O Anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus.”»

Um sinal do Céu, como garantia. Nas grandes teofanias, Deus enviava sempre um sinal, para que as pessoas estivessem certas de que tudo vinha da parte d’Ele. Moisés viu a sarça no Sinai a arder, sem se consumir. Gedeão pediu a prova do velo de lã – enxuto de uma vez e molhado, de outra, em contraste coma terra onde estava colocado –, para ter a certeza de que se tratava de verdadeira aparição; e Zacarias ficou mudo até ao nascimento de João Batista.

O Arcanjo anuncia também um prodígio, como selo de autenticidade desta mensagem. Isabel e Zacarias tinham pedido a Deus um filho, sem o conseguirem obter. Mas agora, já fora de todas as probabilidades humanas, quando a natureza da mulher dizia não à maternidade, em virtude da idade avançada, vai ser mãe.

«E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível».

Maria, Mãe da fidelidade. Logo que Maria sabe o que o Altíssimo quer d’Ela, entrega-se generosamente à vontade de Deus.

Tudo está ainda envolto em denso mistério, mas Ela confia inteiramente no Senhor, como proclamará no cântico do Magnificat, em casa de Isabel.

Para nos entregarmos à vontade do Senhor não precisamos de estar à espera de ver tudo claro, sem qualquer sombra.

A entrega é um ato de confiança em Deus... e confiar é entregar-se sem ver, sem compreender, apenas seguro na confiança que alguém nos merece.

 «Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”».

 

Fala o Santo Padre

 

«O eis-me abre a Deus, enquanto o pecado fecha, isola,

leva-nos a permanecer sós connosco mesmos.»

Hoje, a Palavra de Deus apresenta-nos uma alternativa. Na primeira Leitura há o homem que, nos primórdios, diz não a Deus e no Evangelho há Maria que, na Anunciação, diz sim a Deus. Em ambas as Leituras é Deus quem procura o homem. Mas no primeiro caso vai ter com Adão, depois do pecado, e pergunta-lhe: «Onde estás?» (Gn 3, 9), e e ele responde: «Ocultei-me» (v. 10). No segundo caso, ao contrário, vai ter com Maria, sem pecado, a qual responde: «Eis a serva do Senhor!» (Lc 1, 38). Eis-me é o oposto de ocultei-me. O eis-me abre a Deus, enquanto o pecado fecha, isola, leva-nos a permanecer sós connosco mesmos.

Eis-me é a palavra-chave da vida! Assinala a passagem de uma vida horizontal, centrada em nós e nas nossas necessidades, para uma vida vertical, projetada para Deus. Eis-me significa estar disponível para o Senhor, é a cura para o egoísmo, mas é o antídoto contra uma vida insatisfeita, à qual falta sempre algo. Eis-me é o remédio contra o envelhecimento do pecado, é a terapia para permanecer jovem dentro. Eis-me significa acreditar que Deus conta mais que o meu ego. Significa escolher apostar no Senhor, dócil às suas surpresas. Por isso, dizer-lhe eis-me é o maior louvor que lhe podemos oferecer. Por que não começar assim os dias, com um “eis-me, Senhor”? Seria bom dizer todas as manhãs: “Eis-me, Senhor, que hoje se cumpra em mim a tua vontade!”. Di-lo-emos na prece do Angelus, mas juntos podemos repeti-lo já agora: Eis-me, Senhor, que hoje se cumpra em mim a tua vontade!

Maria acrescenta: «Faça-se em mim segundo a tua palavra». Não diz: “Faça-se em mim segundo a minha vontade”, mas “segundo a tua”. Não põe limites a Deus. Não pensa: “Dedico-me um pouco a Ele, despacho-me e depois faço o que eu quiser”. Não, Maria não ama o Senhor quando lhe apetece, de modo descontínuo. Vive confiando completamente em Deus. Eis o segredo da vida. Tudo pode quem confia totalmente em Deus. Contudo, caros irmãos e irmãs, o Senhor sofre quando lhe respondemos como Adão: “Tive medo e ocultei-me”. Deus é Pai, o mais terno dos pais, e deseja a confiança dos filhos. No entanto, quantas vezes suspeitamos d’Ele, suspeitamos de Deus! Pensamos que possa mandar-nos alguma provação, privar-nos da liberdade, abandonar-nos. Mas trata-se de um grande engano, é a tentação das origens, a tentação do diabo: insinuar a desconfiança em Deus. Maria vence esta primeira tentação com o seu eis-me! E hoje olhemos para a beleza de Nossa Senhora, que nasceu e viveu sem pecado, sempre dócil e transparente a Deus.

Isto não quer dizer que para Ela a vida foi fácil, não! Permanecer com Deus não resolve magicamente os problemas. Recorda-o a conclusão do Evangelho de hoje: «O anjo afastou-se d’Ela» (v. 38). Afastou-se: é um verbo forte. O anjo deixa a Virgem sozinha, numa situação difícil. Ela sabia de que modo singular se tornaria Mãe de Deus — o anjo dissera-lhe — mas o anjo não o tinha explicado aos demais, unicamente a Ela. E os problemas começaram imediatamente: pensemos na situação irregular segundo a lei, no tormento de São José, nos planos de vida que saltaram, no que as pessoas teriam dito... Mas diante dos problemas Maria tem confiança em Deus. É deixada pelo anjo, mas acredita que com Ele, n’Ela, permaneceu Deus. E fia-se. Tem confiança em Deus. Está convicta de que com o Senhor, não obstante de modo inesperado, tudo correrá bem. Eis a atitude sábia: não viver dependendo dos problemas — quando um acaba, apresenta-se outro — mas confiando em Deus, fiando-se d’Ele todos os dias: Eis-me! “Eis-me” é a palavra. “Eis-me” é a oração. Peçamos à Imaculada a graça de viver assim!

 Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 8 de dezembro de 2018

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos caríssimos:

Bendigamos a Deus, que nos enviou

a grande bênção prometida a nossos pais

e, por intercessão da Virgem Imaculada,

nossa Padroeira, peçamos (cantando), com alegria:

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

1. Pela santa Igreja, presente em toda a terra, e aqui a celebrar a Eucaristia,

para que não se deixe enganar pelo Demónio e seja fiel esposa de Cristo,

oremos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

1.      Pelo Santo Padre, pelos Bispos e Presbíteros, com os fiéis que os ajudam,

para que Deus, que os chamou e escolheu, os torne bons pastores da Grei,

oremos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

2.      Pelos fiéis cristãos do mundo inteiro, especialmente pelos perseguidos,

para que reconheçam na Virgem Imaculada o sinal prometido por Deus,

oremos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

4. Pelos governantes e pelas autoridades da nossa terra e demais servidores,

para que pensem sobretudo nos mais pobres e sirvam o bem dos cidadãos,

oremos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

5. Por todas as mulheres que estão prestes a receber o dom da maternidade,

para que saibam acolher e agradecer o dom da vida que Deus lhes entrega,

oremos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

6. Pelos que cederam à tentação do Inimigo e pelos que vivem em pecado,

para que se arrependam e recebam o perdão, recomeçando a vida de fé,

oremos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

Senhor, nosso Deus e nosso Pai, que convocastes e reunistes estes vossos filhos

para celebrarem os louvores da Virgem Imaculada,

fazei que, olhando para Ela, aprendam a imitá-l’A e a progredir na santidade.

Por Cristo Senhor nosso.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

A fidelidade de Maria proclamada no Evangelho, despertou em cada um de nós desejos de sermos também fiéis.

Sabendo que precisamos de ajuda, Jesus, pelo ministério do sacerdote, prepara agora para nós o Alimento da Eucaristia que nos dará forças.

 

Cântico do ofertório: Cantai um cântico novo – J. Santos, NRMS, 10

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai, Senhor, o sacrifício de salvação que Vos oferecemos na solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria e, assim como acreditamos que, por vossa graça, ela foi isenta de toda a mancha, sejamos nós, por sua intercessão, livres de toda a culpa. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

O mistério de Maria e da Igreja

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, e louvar-Vos, bendizer-Vos e glorificar-Vos na Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria.

Vós a preservastes de toda a mancha do pecado original, para que, enriquecida com a plenitude da vossa graça, fosse a digna Mãe do vosso Filho. Nela destes início à santa Igreja, esposa de Cristo, sem mancha e sem ruga, resplandecente de beleza e santidade. Dela, Virgem puríssima, devia nascer o vosso Filho, Cordeiro inocente que tira o pecado do mundo. Vós a destinastes, acima de todas as criaturas, a fim de ser, para o vosso povo, advogada da graça e modelo de santidade.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos com alegria a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: C. Silva - OC (pg 537)

 

Saudação da Paz

 

Combatendo a serpente infernal, Maria Imaculada convida-nos a instaurar no mundo uma era de paz e de alegria.

Disponibilizemo-nos a trabalhar neste seu desejo, procurando estar em paz com Deus, connosco mesmos e com as outras pessoas.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Quando aceitou ser a Mãe do Filho de Deus que assumiu a nossa natureza, Maria tornou possível quer O recebêssemos na Sagrada Eucaristia.

Peçamos-lhe ajuda neste dia, para comungarmos de cada vez com mais pureza, humildade e devoção.

 

Cântico da Comunhão: É celebrada a vossa glória – A. F. Santos, BML, 33

 

Antífona da comunhão: Grandes coisas se dizem de vós, ó Virgem Maria, porque de vós nasceu o sol da justiça, Cristo nosso Deus.

 

Cântico de acção de graças: Feliz és Tu porque acreditaste – C. Silva, OC

 

Oração depois da comunhão: O sacramento que recebemos, Senhor, cure em nós as feridas daquele pecado, do qual, por singular privilégio, preservastes a Virgem Santa Maria, na sua Imaculada Conceição. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Fomentemos em nós a devoção à Conceição Imaculada de Maria, como caminho para vivermos melhor este Advento, preparando o Natal.

 

Cântico final: Desde toda a eternidade – M. Carneiro, NRMS, 18

 

 

Homilias Feriais

 

5ª Feira, 9-XII: Forças para os combates

Is 41, 13-20 / Mt 11, 11-15

Os que esperam no Senhor, recuperam as forças…sem se fatigarem, caminham sem se cansarem.

O Messias promete novas forças a quem anda exausto, e robustecerá aquele que fraqueja (LT). Por isso, Jesus nos convida a ir ter com Ele: Vinde a mim todos os que vos afadigais (EV). Aquilo que realmente pesa são os nossos pecados, os nossos problemas que queremos resolver sem a ajuda de Deus.

O Senhor é quem quer tornar o homem mais leve: dá esperança aos desanimados, ajuda aos que se queixam da dureza da vida. O Senhor é bom para com todos (SR).

 

6ª Feira, 10-XII: A felicidade e a palavra de Deus.

Is 48, 17-19 /  Mt 11,16-19

Se tivesses atendido as minhas ordens, o teu bem estar seria como um rio e a tua prosperidade como as ondas do mar.

Segundo o profeta, a nossa felicidade estaria ligada ao acolhimento da palavra de Deus (LT). No entanto, chegou o Messias, nem Ele nem João Baptista tiveram bom acolhimento (LT) .

 Procuremos aproveitar cada vez melhor os ensinamentos do Senhor, procurando levá-los à prática, para adquirirmos uma maior confiança nEle, para apreciarmos melhor os tesouros de bondade, de ternura que derramou sobre nós. E rejeitemos completamente o comportamento dos ímpios e os conselhos deles (SR).

 

Sábado, 11-XII: Elias, o Precursor do Senhor,

Sir 48, 1-4. 9-11 / Mt 17, 10-13

Como brilhaste Elias, pelos teus prodígios. Foste preparado em ordem ao futuro.

Nas Leituras (EV e LT) é recordada a figura do profeta Elias, que realizou grandes prodígios, graças ao poder divino: ressuscitou o filho da viúva de Sarepta, fez descer o fogo de Deus sobre o monte Carmelo, etc. O seu nome significa: o Senhor é o meu Deus!

Todos estes prodígios são, no entanto, uma pequena parte daquilo que o Messias realizou. Mas agora o fogo passa a ser o fogo do Espírito Santo, que queimará todas as impurezas do nosso coração. Se Elias restaurou tantas coisas (EV), o Messias vem restaurar tudo. Deus do Universo, vinde de novo (SR).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:       Fernando Silva

Nota Exegética:                Geraldo Morujão

Homilias Feriais:               Nuno Romão

Sugestão Musical:            José Carlos Azevedo

 


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