TEMAS LITÚRGICOS

A Calenda de Natal

 

Pedro Boléo Tomé

 

 

No Natal de 2019 celebrei uma Missa de Natal para famílias na Residência universitária de que sou capelão. Uns dias antes, o responsável pelo coro perguntou-me se se poderia cantar a «Calenda de Natal». Estranhei. Nunca tinha assistido a tal e não recordava bem em que consistia. Investigando um pouco verifiquei que o Secretariado Nacional de Liturgia recomendava essa celebração e que até tinha disponibilizado a partitura online desde 2017.

Olhando para o texto compreendi que se tratava de um anúncio solene do Natal, ao estilo dos que se faziam na antiguidade, com alguma semelhança com o pregão pascal.

Optámos por cantar a «Calenda» no início da Missa, no ambão, tal como se faz na Vigília Pascal com o pregão. Pareceu-me interessante a ligação que se estabeleceu, graças a esse rito, entre essas duas noites santas e essas duas vigílias. E referi essa conexão na homilia, recordando um antigo vilancico em que o Menino Jesus diz para a dona da casa, onde ele se quer alojar, e que o quer instalar no melhor quarto, que não, que o deixe ficar num canto, porque ele havia descido à terra para padecer. Esta é a nossa fé, que o povo plasmou desta e de outras formas na sua piedade como aquele Menino Jesus que vi num museu de Santarém que agarra uma pequena Cruz. Pequena sim, porque o Menino é pequeno, mas do seu tamanho, recordando-nos o porquê do seu nascimento: dar a vida por nós.

São, portanto, duas noites muito próximas. Aliás, como o deixa patente o Prefácio II de Natal onde a ligação da Encarnação do Verbo com o mistério Pascal é explícita: «gerado desde toda a eternidade, começou a existir no tempo, para renovar em Si a natureza decaída, restaurar o universo e reconduzir ao reino dos céus o homem perdido pelo pecado».

Assim, na noite santa do Natal, a Igreja proclama este anúncio tão solene e tão belo:

 «Dia 8 das Calendas de Janeiro. Lua vigésima primeira…

A «Calenda de Natal» começa localizando o nascimento de Jesus Cristo no calendário Juliano, aquele que os romanos utilizavam. «Calenda» é o primeiro dia do mês. A expressão «dia 8 das calendas de janeiro» significa: oito dias antes do primeiro dia de janeiro, ou seja, 25 de dezembro.

Mas, o texto não se limita a citar o calendário romano, passa de imediato, para o calendário lunar utilizado pelos judeus (este ano o Natal calha no 21º dia depois da lua cheia de dezembro).

Então, uma vez ancorados no tempo específico a que se refere o anúncio que se está para dar, olha-se para esse grande acontecimento no contexto da ação criadora de Deus: o início do universo, a criação da terra e do homem, a aliança entre Deus e a criatura que Ele criou à sua imagem:

 

Passados inumeráveis séculos desde a criação do mundo,

quando no princípio Deus criou o céu e a terra e formou o homem à sua imagem;

depois de muitos séculos, desde que o Altíssimo pôs o seu arco nas nuvens como sinal de aliança e de paz»…

E a «Calenda» segue contextualizando o grande acontecimento dentro da história do povo de Israel, desde Abraão a Moisés, passando para a monarquia Davídica de cuja descendência viria o Messias anunciado pelos profetas:

…vinte e um séculos depois da emigração de Abraão, nosso pai na fé, de Ur dos Caldeus;

 treze séculos depois de Israel ter saído do Egipto, guiado por Moisés;

cerca de mil anos depois que David foi ungido rei;

na semana sexagésima quinta, segundo a profecia de Daniel;

 

E volta-se ao momento exato do acontecimento que se vai anunciar recorrendo a acontecimentos históricos datados, precisos, para o alicerçar bem na História: as Olimpíadas que se realizaram, o ano a que corresponde desde a fundação de Roma, qual o imperador romano que se encontrava no poder e o ano do seu reinado, e uma condição que afetou toda a orbe, como algo imprescindível para que tal acontecimento se pudesse dar e que Deus, na sua Providência, fez que acontecesse: havia paz. Toda a orbe se encontrava em paz:

 

… na Olimpíada cento e noventa e quatro;

no ano setecentos e cinquenta e dois da fundação de Roma;

no ano quarenta e dois do império de César Octávio Augusto;

estando todo o orbe em paz,

 

E, então, depois de gerado todo este clímax, comunica-se a grande notícia:

 

Jesus Cristo, Deus eterno e Filho do eterno Pai,

querendo consagrar o mundo com a sua piedosíssima vinda,

concebido pelo Espírito Santo,

nove meses depois da sua conceição,

nasceu em Belém de Judá, da Virgem Maria, feito homem:

Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne»

 

Fiquei surpreendido pois, no final daquela cerimónia, foram muitos os comentários à «Calenda de Natal». Todos positivos, mas manifestando alguma surpresa. Algumas pessoas, já entradas em anos, católicos praticantes, referiam nunca terem assistido ou ouvido falar sequer da «Calenda». Algum terá comentado que só se lembrava das «calendas gregas». Já agora, fui verificar o porquê dessa expressão. Como se sabe, ela utiliza-se para expressar que algo ficou perdido para sempre. Ora, se os romanos designavam a «calenda» como o primeiro dia do mês, os gregos não utilizavam essa designação, embora o termo tenha origem grega e signifique anunciar. Por isso, deixar para as calendas gregas é, simplesmente, deixar para um dia que não existe.

Mas, porque nunca teriam essas pessoas ouvido falar da «Calenda de Natal»? Talvez por pertencer à antiga hora de prima do breviário (que, entretanto, foi suprimida na reforma litúrgica) e, depois, ter passado a integrar uma vigília de Natal da liturgia das horas.[1] Ora, tendo nós em Portugal o hábito de consoar, não parece que tenham sido muitas as paróquias e comunidades a optar por essa possibilidade, daí que se desconhecesse esse costume.

Porém, existe uma modalidade que não implica realizar uma vigília prévia à Missa de Natal e que se pode utilizar. Aliás, é até recomendada pelo Secretariado Nacional da Liturgia. Trata-se daquela utilizada no Pontificado de João Paulo II:

«A Calenda era cantada nos ritos iniciais da Missa da Noite de Natal, na Basílica de São Pedro no Vaticano. Após a saudação e monição inicial, cantava-se a Calenda. Terminada esta, entoava-se o Glória a Deus nas alturas, omitindo-se o Ato Penitencial e o Kyrie. Esta parece-nos ser a opção mais indicada para a generalidade das comunidades em que não há celebração comunitária do Ofício de Leituras antes da Missa da Noite de Natal.

O canto da Calenda, na forma mais elaborada, requer alguma competência musical e ensaio prévio. Pode ser cantada por um cantor, ou por um diácono, ou até, na falta dessas alternativas, pelo próprio sacerdote que preside à celebração (se for capaz de o fazer de forma condigna!).

Quanto ao lugar para o canto, em analogia com o Precónio Pascal e o Anúncio das Festas Móveis (na Epifania), parece-me adequado o ambão. É o lugar do «Hoje» da Palavra. Entretanto, se houver reticências a esta sugestão, prepare-se uma estante para o cantor, em lugar visível e, se necessário, devidamente sonorizado[2]



[1] A Calenda integra o Martirológio Romano. Atualmente, a leitura do Martirológio está prevista para o final das Laudes, a seguir à oração conclusiva da Hora, ou para o final de qualquer Hora Menor (Martirológio, p. 27, n. 1, 5). No Natal, porém, o Martirológio propõe o canto do anúncio solene do Natal no ofício de Vigília (pág. 27) que, desejavelmente, deve preceder a Missa da Noite (cf. rubrica no final do Ofício de Leituras do Natal do Senhor). A Calenda seria o último elemento desse Ofício, seguindo-se a Procissão de entrada da Missa, a qual prosseguiria com o canto do Glória (omitindo-se os demais ritos iniciais da Missa) e a Oração Coleta. Assim se fez no Vaticano durante o Pontificado de Bento XVI.

[2] Resposta do SNL a uma consulta do director do coro da Residência Universitária de Montes Claros em 2020.


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