TEMAS LITÚRGICOS

São Josemaria e a reforma litúrgica

do Concílio Vaticano II

O testemunho do Beato Álvaro del Portillo e de D. Javier Echevarria

 

 

 

 

I- Testemunho do Beato Álvaro del Portillo

No livro “Entrevista sobre o Fundador do Opus Dei”,[1] o primeiro sucessor de São Josemaria e que viveu perto do fundador desde 1935 a 1975, responde à pergunta: “como é que o Padre acolheu a reforma litúrgica determinada pelo Concílio?

 

Como sempre, aplicou com obediência e fortaleza todas as disposições sobre essa matéria. Graças à solicitude do seu Fundador, o Opus Dei foi exemplo de fidelidade também no que se refere à práxis litúrgica.

Encarregou alguns sacerdotes da Obra de examinar as diversas possibilidades previstas pela reforma e de determinar e explicar como se aplicavam. Orientou pessoalmente este trabalho e aprovou os resultados. Desta forma, todos os sacerdotes da Obra começaram a aprender as novas rubricas, seguindo o desejo do Santo Padre de que "a Constituição conciliar sobre a Sagrada Liturgia seja posta em prática na sua plenitude e com todo o cuidado".[2]

Foi o primeiro a obedecer às novas disposições litúrgicas e esforçou-se por aprender o novo rito da Missa. Havia muitos anos que outro sacerdote o ajudava habitualmente a Missa: a partir dos anos cinquenta, era o Pe. Javier Echevarría ou eu. Quando se introduziram as mudanças litúrgicas, pediu-nos que não deixássemos de lhe fazer todas as observações que nos parecessem oportunas para o ajudar a aprender bem o novo rito. Mas, apesar da sua boa vontade, notávamos que isso lhe exigia um considerável esforço, porque tinha de mudar hábitos de devoção litúrgica adquiridos durante muitos anos de luta perseverante cheia de amor de Deus.

Eu perguntava-me como poupar ao Padre estas dificuldades, e, na sua presença, mencionei de passagem que outros sacerdotes mais jovens tinham sido autorizados a seguir o rito de S. Pio V e a celebrar a Missa como haviam feito até então. O Padre interrompeu-me imediatamente: afirmou que não queria nenhum privilégio, e proibiu-me de fazer esse pedido. Sabia que eu me dava com as pessoas que estavam a elaborar as novas disposições litúrgicas.

Algum tempo depois, encontrei-me com Mons. Annibale Bugnini, que era o máximo responsável nesse campo e meu bom amigo, tanto que nos tratávamos por tu. Falámos da dificuldade que experimentavam alguns sacerdotes anciãos em adaptar-se ao novo rito, depois de haverem celebrado a Santa Missa pelo rito antigo durante muitos anos; era uma situação conhecida. De passagem, aludi ao caso do nosso Padre, que obedecia de modo exemplar e com profunda alegria. Bugnini disse-me que o Fundador do Opus Dei não tinha por que fazer um esforço desse género, já que muitos outros sacerdotes tinham licença para celebrar pelo rito anterior e ele próprio havia acedido a pedidos similares de pessoas que estavam nessas circunstâncias. Embora eu já lhe tivesse dito que o nosso Fundador não queria outro privilégio senão o de obedecer sempre à Santa Sé, e que até me proibira de pedir qualquer coisa, ele empenhou-se em conceder-me a licença para o nosso Fundador e insistiu-me em que lhe referisse como se dera a nossa conversa.

 

II – Testemunho de D. Javier Echevarria

No livro “Lembrando o Beato Josemaria”,[3] o anterior prelado do Opus Dei (1994-2016), que esteve ao lado do fundador de 1954 a 1975, responde à pergunta: “que sucedeu quando entraram em vigor estas mudanças [resultantes da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II]?”

 

Mons. Escrivá aceitou a reforma com serenidade e obediência, ainda que as mudanças lhe exigissem muito trabalho: não por oposição ou crítica às inovações, mas porque a liturgia estava muito integrada na sua piedade, e tinha conseguido luzes para a sua vida espiritual e o seu ministério sacerdotal até de gestos que podem parecer insignificantes nas rubricas.

Eu notava o esforço que para ele representava a mudança, tendo em conta que ele levava quarenta anos a seguir o rito anterior. Mas não aceitou excepção alguma, e pedia-me diariamente que não deixasse de o advertir no que fizesse menos bem nas novas rubricas, disposto a mostrar o seu amor à liturgia, com o rito renovado.

Sem que houvesse da sua parte o menor sintoma de rebeldia da sua parte, comentava a um grupo de sacerdotes em 1968: "obedeço com submissão em tudo o que determinaram para a celebração da Santa Missa, mas sinto a falta de tantas rubricas de piedade e de amor que tiraram: por exemplo, não dou o beijo à patena, onde punha tanto amor - toda a minha alma - para que Ele o encontrasse. Mas temos de saber obedecer, vendo a mão de Deus, e tratando o Senhor com delicadeza, sem Lhe roubar nada no tempo”.

Foi uma longa temporada de esforço. Se teimávamos em apresentar-lhe a possibilidade de pedir o privilégio, previsto para sacerdotes de certa idade, opunha-se: por espírito de obediência às normas eclesiásticas, proibiu que se desse um só passo nesse sentido.

Sucedeu uma vez que, estando o Pe. Álvaro del Portillo com Mons. Bugnini, falaram da nova liturgia. Comentou o Pe. Álvaro o trabalho que significava a mudança para o Fundador do Opus Dei. Mons. Bugnini perguntou: "porque não usa o privilégio?" O Pe. Álvaro esclareceu-o de que o Fundador da Obra nos tinha ensinado sempre com a sua própria vida, também agora, a obedecer com submissão; "além disso – acrescentou - "proibiu-me expressamente de te pedir o que for". Mons. Bugnini pediu que lhe dissesse que tinha concedido o privilégio de celebrar a Santa Missa com o rito anterior. Insistiu o Pe. Álvaro em que não lhe pedia nada, e Mons. Bugnini reiterou: "diz a Mons. Escrivá que tu não me pediste nada, porque essa é a verdade; e acrescenta que te comuniquei que celebre como antes, porque tem essa faculdade”.

O Pe. Álvaro transmitiu-lhe este diálogo, e Mons. Escrivá de Balaguer agradeceu a possibilidade que se lhe concedia. Mas, desde então, quando a utilizava, não quis que assistisse à Missa mais que a pessoa que o ajudava.

 

Beato Álvaro del Portillo (1975-1994)

Álvaro del Portillo nasceu em Madrid no dia 11 de março de 1914. Pertenceu ao Opus Dei desde 1935. Fez parte do conselho geral do Opus Dei de 1940 a 1975; de 1940 a 1947 e de 1956 a 1975 foi secretário geral. Foi ordenado sacerdote em 25 de junho de 1944. Doutorou-se em Engenharia Civil, em História (na Faculdade de Filosofia e Letras) e em Direito Canónico.

Tornou-se muito cedo um dos principais apoios do fundador e foi o seu colaborador mais próximo até ao fim da sua vida. Nomeado consultor de diversos organismos da Santa Sé, trabalhou no Concílio Vaticano II, primeiro como presidente da Comissão ante-preparatória para o laicado e depois como secretário da Comissão para a disciplina do clero e como consultor de outras comissões. Os seus livros Fiéis e leigos na Igreja (1969) e Escritos sobre o sacerdócio (1970) são, em boa parte, fruto dessa experiência. Colaborou também na elaboração do novo Código de Direito Canónico, promulgado por S. João Paulo II em 1983.

Em 1975, foi eleito para suceder a Josemaria Escrivá. Quando o Opus Dei foi erigido em prelatura pessoal, o Santo Padre nomeou-o prelado. No dia 6 de janeiro de 1991, foi ordenado bispo, por João Paulo II.

Durante os seus dezanove anos à frente do Opus Dei, o trabalho da prelatura ampliou-se a vinte novos países. Em 1985, fundou em Roma o Centro Académico Romano da Santa Cruz, embrião da atual Universidade Pontifícia da Santa Cruz.

Morreu em Roma no dia 23 de março de 1994. O Papa João Paulo II deslocou-se para rezar junto dos seus restos mortais. Foi beatificado no dia 27 de setembro de 2014 em Madrid, a sua cidade natal. «Destacava-se especialmente o seu amor à Igreja», escreveu o Papa Francisco na mensagem que preparou para a ocasião.

 

D. Javier Echevarría (1995-2016)

Javier Echevarría nasceu em Madrid no dia 14 de junho de 1932. Era o mais novo de oito irmãos. Fez os primeiros estudos em San Sebastián, no colégio dos padres marianistas, e continuou a sua formação na capital de Espanha, no colégio dos irmãos maristas.

Em 1948, conheceu alguns jovens do Opus Dei numa residência de estudantes. No dia 8 de setembro desse ano, sentindo-se chamado por Deus a procurar a santidade na vida quotidiana, pediu a admissão no Opus Dei. Começou os estudos de Direito na Universidade de Madrid e continuou-os em Roma. Doutorou-se em Direito Canónico na Pontifícia Universidade de S. Tomás, em 1953, e em Direito Civil na Pontifícia Universidade Lateranense, em 1955. No dia 7 de agosto desse ano recebeu a ordenação sacerdotal.

Colaborou estreitamente com S. Josemaria Escrivá de Balaguer, de quem foi secretário desde 1953 até à sua morte, em 1975. Quando em setembro desse ano Álvaro del Portillo sucedeu a S. Josemaria, Mons. Javier Echevarría foi nomeado secretário-geral do Opus Dei e, em 1982, vigário geral. Em 1994, após o falecimento do beato Álvaro, foi eleito prelado do Opus Dei e, no dia 6 de janeiro de 1995, na basílica de S. Pedro, foi ordenado bispo por S. João Paulo II.

Desde o princípio do seu ministério como prelado, teve como prioridades a evangelização nos campos da família, da juventude e da cultura. Promoveu o início estável das atividades formativas da prelatura em 16 países, entre outros, Rússia, Cazaquistão, África do Sul, Indonésia e Sri Lanka, e viajou aos cinco continentes para impulsionar a tarefa evangelizadora dos fiéis do Opus Dei e das pessoas que participam nos seus apostolados. Encorajou o início de numerosas iniciativas de promoção social e de cuidados de saúde, especialmente entre pessoas desfavorecidas. Acompanhava com especial interesse algumas iniciativas relacionadas com o atendimento a doentes e imigrantes.

Nas suas viagens de catequese e no seu ministério pastoral, foram temas recorrentes o amor a Cristo na cruz, a caridade fraterna, a importância da graça e da palavra de Deus, a união ao Papa, a vida familiar e o serviço aos outros. Escreveu numerosas cartas pastorais e vários livros de espiritualidade, como Itinerários de vida cristã (2001), Para servir a la Iglesia (2001), Getsemaní (2005), Eucaristia e vida cristã (2005), Viver a Missa (2010) y Creo, creemos (2014). A sua última publicação é uma recompilação de meditações sobre as obras de misericórdia com o título de Misericordia y vida cotidiana (2016).

Foi membro da Congregação para as Causas dos Santos e do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica. Participou nos sínodos de bispos de 2001, 2005 e 2012 e nos dedicados à América (1997) e à Europa (1999).

Faleceu em Roma no dia 12 de dezembro de 2016, devido a uma insuficiência respiratória.

 

 

 

 



[1]Entrevista sobre o Fundador do Opus Dei”, Quadrante, 1994.

[2] Carta enviada em nome do Papa a todos os bispos e outros superiores eclesiásticos, junto com o livro Jubilate Deo, 14 de Abril de 1974.

[3]Lembrando o Beato Josemaria”, DIEL, 2000.


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