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TODOS OS SANTOS

 

 

 

 

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

 

No empenho das ocupações diárias, não nos é fácil ter presente a nossa condição «fetal», ou seja, a consciência de que esta vida é apenas um desenvolvimento em direção à verdadeira vida humana, eterna, no Céu. Todas as nossas categorias mentais sofrem desta limitação, a tal ponto que a mera palavra «eternidade» nos aflige. Porque não conseguimos imaginá-la senão como «muitíssimo tempo» ou um angustioso «tempo sem fim», quando, afinal, já a procuramos na vida terrena: o nosso presente não contém a memória do nosso passado e os nossos projetos imediatos ou alongados? Presente, passado e futuro não estão já unidos intencionalmente na nossa alma?

Esta vida passageira dá-nos a impressão de ser a «nossa» vida, e o Céu o remate, a chegada gloriosa à meta, ao descanso feliz de um longo trajeto, quando a nossa verdadeira vida só então começará. Até lá, mais não foi do que uma gestação, embora consciente e voluntária. E, com a graça de Deus, de bom sucesso. «Deixai-me receber a luz pura», rogava Santo Inácio de Antioquia aos cristãos romanos, indo a caminho do martírio, e, portanto, do Céu. «Quando lá chegar, então serei homem!»

E, também graças a Deus, quando o Senhor nos receber, compreenderemos como tudo serviu para nos conduzir à vida gloriosa, e nenhuma lembrança nos angustiará. «A minha vida é Cristo, e morrer é um lucro». (Fil 1,21)

Tão acostumados à luta, ao esforço diário por defender-nos e vencer dificuldades, e alegrando-nos com cada passo avante, concentramos a nossa esperança na meta «final», e fazemos bem, mas não esqueçamos que ela significa o verdadeiro «começo» da vida em toda a sua plenitude natural e sobrenatural. Ou seja: não estamos feitos para «isto», para sobreviver num mundo tão confuso; belo, mas tantas vezes brutal e caótico; estamos feitos para cuidar de nós e dos outros, enquanto não nascemos para a autêntica felicidade, perene e gloriosa.

Não é estranho que em todos os tempos e civilizações tenha havido «monges», isto é, almas tão ansiosas de uma Vida plenamente humana, definitiva, agora só em preparação, que «morrem» desde já para este mundo. Mas todos sentimos que «isto», «esta vida» não pode ser o nosso fim; a alma e o próprio corpo pedem mais, muito mais! E muito melhor. Sem tal esperança, o mundo seria absurdo, absurda a nossa vida e absurdos todos os nossos amores e sonhos.

A mensagem de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, porém, não consistiu nem consiste apenas em prometer-nos uma eternidade feliz e apontar-nos o Caminho, que é Ele mesmo - e Verdade e Vida -, mas na garantia da nossa participação na própria felicidade divina, tendo-se Ele feito mesmo homem. Tal felicidade é que jamais alguém sonhou, por uma razão evidente: a limitação da imaginação humana. Mas justamente o excesso do prometido é mais um cunho da sua veracidade: de Deus, infinito, só é de esperar o «excessivo», a ultrapassagem de dos nossos maiores sonhos e ambições.

Todos os Santos nos deram o exemplo de sensatez: não é para «isto» que vivemos! Mas é aqui que nos santificamos, e, assim como nós seremos (perfeitos) homens, também o mundo recobrará todo o esplendor e ostentará toda a beleza que a Humanidade lhe incutiu, obedecendo ao mandato do nosso Criador.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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