A PALAVRA DO PAPA

O SACERDOTE NA EUROPA DE HOJE *



Queridos Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio!


Preocupação pelos sacerdotes


1. Sinto-me feliz por retomar as audiências com os Bispos da França durante as suas visitas ad limina. É com alegria que vos recebo, Bispos das províncias de Tolosa e de Montpellier. Agradeço ao Mons. Émile Marcus, Arcebispo de Tolosa, as suas amáveis palavras, rejubilando pelo espírito de colaboração que existe entre as vossas duas províncias, colaboração amplamente facilitada pelos vínculos históricos e pela presença do Instituto católico e do seminário diocesano de Tolosa, que acolhe sobretudo seminaristas de toda a região. Como responsável da Comissão episcopal dos ministros ordenados, Mons. Marcus acaba de me apresentar as vossas interrogações e preocupações em relação ao futuro do clero, recordando a situação particularmente alarmante que o vosso país atravessa e da qual as relações quinquenais das dioceses da França infelizmente dão testemunho. Elevo ao Senhor uma oração incessante para que os jovens aceitem a chamada ao sacerdócio – especialmente ao sacerdócio diocesano – e se comprometam no seguimento de Cristo, deixando tudo como os apóstolos, como nos recordava oportunamente o texto do Evangelho da Missa com que inicia este ano o tempo ordinário (cf. Segunda-feira da primeira semana, Mc 1, 14-20).


A identidade sacerdotal


2. Por conseguinte, é sobre esta questão do sacerdócio diocesano, fundamental para as Igrejas locais, que desejo falar convosco hoje. Compreendo perfeitamente que, como os sacerdotes, por vezes vós podeis sentir-vos desanimados perante a situação e as perspectivas do futuro, mas eu gostaria de vos convidar a não perder a esperança e a comprometer-vos de maneira cada vez mais resoluta em favor do sacerdócio. Mesmo se é bom ser realistas perante as dificuldades, não se deve ceder contudo ao desânimo, nem contentar-se em olhar para as cifras e para a diminuição do número dos sacerdotes, do qual por outro lado não nos podemos sentir totalmente responsáveis. De facto, como realçava justamente a Carta aos católicos da França publicada pela vossa Conferência episcopal em 1996, que continua sempre actual, a crise que a Igreja vive deve-se em grande medida à repercussão, tanto no âmbito da própria instituição eclesial como na vida dos seus membros, das mudanças sociais, das novas formas de comportamento, da perda dos valores morais e religiosos e duma atitude consumista amplamente difundida. Com a ajuda de Cristo e conscientes da nossa herança, devemos contudo, na adversidade, propor incessantemente aos jovens a vida sacerdotal, como um compromisso generoso e uma fonte de felicidade, procurando renovar e reconfirmar a pastoral das vocações.

O que pode afastar a juventude, muitas vezes marcada por uma vida fácil e superficial, é em primeiro lugar a imagem do sacerdote, cuja identidade, na sociedade moderna, é pouco afirmada e cada vez menos clara, e cuja tarefa é também cada vez mais pesada. É fundamental reafirmar esta identidade, mostrando de maneira mais clara as características da figura do sacerdote diocesano. De facto, como podem os jovens sentir-se atraídos por uma forma de vida se não vêem a sua grandeza e a sua beleza, e se os próprios sacerdotes não se preocupam em exprimir o seu entusiasmo pela missão da Igreja? Homem entre os seus irmãos, separado para os servir melhor, o sacerdote encontra a sua alegria e o seu equilíbrio de vida na sua relação com Cristo e no seu ministério. Ele é o pastor do rebanho, que guia o povo de Deus, que celebra os sacramentos, que ensina e anuncia o Evangelho, garantindo também uma paternidade espiritual pelo acompanhamento dos fiéis. Em tudo isto, ele é ao mesmo tempo testemunha e apóstolo que, mediante os diferentes actos do seu ministério, manifesta o seu amor a Cristo, à Igreja e aos homens.

A importância, a diversidade e o peso da missão que os sacerdotes da actual geração devem assumir dão a impressão de um ministério clamoroso e, sem dúvida, não atraem sempre os jovens ao seguimento dos seus antecessores. A respeito disto, gostaria de saudar a coragem, o zelo e a tenacidade dos sacerdotes, que realizam o seu ministério em condições com frequência muito difíceis, no meio de uma sociedade onde eles não são como tal reconhecidos. Faço votos por que eles não desanimem, mas encontrem em Cristo a tenacidade para cumprir a missão que lhes foi confiada! Dou graças, juntamente com eles, pela sua fidelidade, sinal do seu amor profundo a Cristo e à Igreja. Que eles nunca esqueçam que mediante os actos do seu ministério tornam presente a ternura de Deus e comunicam aos homens a graça de que têm necessidade! Transmiti-lhes o afecto do Sucessor de Pedro, que os acompanha quotidianamente com a sua oração! Convidai-os a que, nos encontros com os jovens e nas suas homilias, dêem testemunho da felicidade que se tem em seguir Cristo no sacerdócio diocesano! A minha afectuosa oração tem presente de maneira especial os sacerdotes idosos ou doentes, que, pela sua vida de intercessão e um ministério à medida das suas forças, continuam a servir a Igreja, de outra forma.


Importância da vida espiritual


3. As urgências da missão e as múltiplas solicitações dos homens fazem com que os sacerdotes, muito pouco numerosos, corram o risco de negligenciar deixar debilitar a sua vida espiritual; de igual modo, eles devem conciliar as exigências da existência quotidiana, do ministério, da formação permanente e do seu tempo de repouso para restabelecer as forças, a fim de não pôr em perigo o seu equilíbrio de vida humana e afectiva. O mais importante, antes de tudo, para o sacerdote é a edificação e o crescimento da sua vida espiritual, fundada numa relação quotidiana com Cristo, estruturada pela celebração eucarística, pela Liturgia das Horas, pela lectio divina e pela oração. É esta relação que faz a unidade do ser sacerdotal e do ministério. Quanto mais pesado é o fardo, tanto mais importante é estar próximo do Senhor para encontrar nele as graças necessárias para o serviço pastoral e para o acolhimento dos fiéis. De facto, é a experiência espiritual pessoal que permite viver na fidelidade e reavivar incessantemente o dom recebido pela imposição das mãos (cf. 2 Tim 1, 6). De igual modo, como recordei na exortação apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis, as respostas à crise do ministério que muitos países conhecem encontra-se num acto de fé total ao Espírito Santo (cf. n. 1), numa estruturação cada vez mais forte da vida espiritual dos próprios sacerdotes, que os mantenha num andamento exigente no caminho da santidade (cf. nn. 19-20), e numa formação permanente, que é como a alma da caridade pastoral (cf. nn. 70-71). É tarefa vossa vigiar por que os membros do presbitério baseiem a sua missão numa vida de oração regular e fiel, e na prática do sacramento da penitência.


Fraternidade sacerdotal


4. Os sacerdotes, sobretudo os mais jovens, sentem a necessidade de uma experiência sacerdotal fraterna, até mesmo de uma vida comunitária, para se manterem e atenuar as dificuldades que alguns podem sentir face à inevitável solidão ligada ao ministério; mesmo se, por vezes de modo paradoxal, vivem o seu ministério de maneira demasiado individual. Animo-os a desenvolver o seu desejo de vida fraterna e de mútua colaboração, que não pode deixar de fortalecer a comunhão no seio do presbitério diocesano, em redor do Bispo. Compete-vos, com os membros do vosso conselho episcopal, tomar em consideração este desejo, propondo aos sacerdotes inserções ministeriais nas quais eles possam, se for possível, estabelecer vínculos fortes com os colegas. Convido-vos, também a vós, a estar sempre mais perto dos vossos sacerdotes, que são os vossos primeiros colaboradores. É, antes de mais, com eles que deveis desenvolver incessantemente uma relação pastoral e fraterna forte, assinalada por uma confiança recíproca e pela proximidade afectuosa. Seria bom que, com intervalos regulares, como já alguns fazem, pudésseis visitar os sacerdotes, verificando desta forma as suas condições de vida e de ministério, e manifestando a vossa atenção pela realidade quotidiana da sua existência.

De igual modo, animo os sacerdotes, de todas as gerações, a estarem sempre mais próximos uns dos outros, a desenvolver a sua fraternidade sacerdotal e as colaborações pastorais, sem receio das diferenças, nem das sensibilidades específicas, que podem ser benéficas para o dinamismo da Igreja local. Neste espírito, a participação numa associação sacerdotal constitui uma ajuda preciosa. Quanto mais fortes forem os vínculos de comunhão e de unidade entre o Bispo e os seus sacerdotes, e entre os próprios sacerdotes, tanto maior será a coesão diocesana, e tanto mais forte será o sentido da missão comum e os jovens poderão sentir mais o desejo de fazer parte do presbitério. A vida fraterna dos ministros da Igreja é sem dúvida alguma uma forma concreta de propor a fé e de chamar os fiéis a desenvolver relações renovadas, a viver antes de mais no amor que nos é dado pelo Senhor. Pois é desse modo, como diz o Apóstolo, que seremos reconhecidos como discípulos e que poderemos anunciar a Boa Nova do Evangelho. Mais ainda, nesta semana de oração pela unidade dos cristãos, como deixar de nos sentirmos responsáveis pela unidade no seio do próprio presbitério, como exortava Santo Inácio de Antioquia: «O vosso presbitério, digno da sua reputação, digno de Deus, deve estar ligado ao Bispo como as cordas da cítara; desta forma, na sintonia dos vossos sentimentos e na harmonia da vossa caridade, cantareis Jesus Cristo [...]. Por conseguinte, é útil que estejais numa unidade perfeita, para serdes sempre partícipes de Deus» (Carta aos Efésios, IV, 1-2).

A desigualdade do número de sacerdotes entre as dioceses não deixa de aumentar. A nova organização da Igreja na França, doravante dividida em províncias, pode permitir, a este nível, colaborações interessantes, para uma melhor repartição sacerdotal em função das necessidades, para uma cooperação ao nível dos serviços diocesanos e nas diferentes instâncias administrativas. A este propósito, desejo saudar as dioceses que já vivem esta partilha fraterna, agradecendo aos sacerdotes que aceitam, pelo menos por um período, deixar a sua diocese, à qual permanecem legitimamente ligados, para servir a Igreja nas zonas com menor presença ministerial, com a preocupação de construir verdadeiras comunidades sacerdotais, numa disponibilidade particularmente eloquente.


O celibato eclesiástico


5. No mundo actual, a questão do celibato eclesiástico e da castidade a ele ligada é muitas vezes, tanto para os jovens como para outros fiéis, uma pedra de escândalo, sujeito a numerosas incompreensões na opinião pública. Gostaria de me congratular, em primeiro lugar, pela fidelidade dos sacerdotes, que se esforçam por viver plenamente esta dimensão fundamental da sua vida sacerdotal, mostrando desta forma ao mundo que Cristo e a missão podem preencher uma existência e que a adesão ao Senhor, na doação total das suas faculdades de vida, constitui um testemunho prestado ao absoluto de Deus e uma participação particularmente fecunda para a construção da Igreja. Convido os sacerdotes a permanecerem vigilantes em relação às seduções do mundo e a fazerem regularmente um exame de consciência, a fim de viverem cada vez mais profundamente na fidelidade ao seu compromisso, que os conforma com Cristo, casto e totalmente dedicado ao Pai, e que é uma importante contribuição para o anúncio do Evangelho. Qualquer atitude contrária a este compromisso constitui para a comunidade cristã e para todos os homens um contra-testemunho. É vossa tarefa estar atentos às condições afectivas da vida dos sacerdotes e às suas eventuais dificuldades. Sabeis por experiência que os jovens sacerdotes, como todos os seus contemporâneos, são marcados ao mesmo tempo por um extraordinário entusiasmo e pelas fragilidades da sua época, que bem conheceis. É bom acompanhá-los com muito cuidado, nomeando talvez um sacerdote de grande sabedoria para os apoiar nos primeiros anos ministeriais. Uma ajuda psicológica e espiritual apropriada pode revelar-se também necessária, para não deixar demorar situações que poderiam, com o tempo, revelar-se perigosas. De igual modo, nos casos em que os sacerdotes tenham um modo de vida que não está conforme com o seu estado, é necessário convidá-los expressamente à conversão. A castidade no celibato tem um valor inestimável. Ela constitui uma chave importante para a vida espiritual dos sacerdotes, para o seu compromisso na missão e para a sua justa relação pastoral com os fiéis, que não deve basear-se em primeiro lugar nos aspectos afectivos, mas na responsabilidade que lhes incumbe no ministério. Identificando-se assim com Cristo, eles tornam-se cada vez mais disponíveis para o Pai e para as moções do Espírito Santo.


A necessária colaboração dos leigos


6. Perante as tarefas cada vez mais pesadas que os sacerdotes devem enfrentar, é importante ajudá-los a discernir as prioridades e a favorecer as colaborações confiantes com os leigos, no respeito das responsabilidades que competem a cada um. Conheço a alegria e a felicidade que eles sentem no seu ministério, no anúncio da Palavra de Deus, nos contactos directos com os homens, as mulheres e as crianças, na partilha das responsabilidades com os leigos. Que há de melhor para um pastor do que ver os fiéis crescer em humanidade e na fé, e ocupar o seu lugar na Igreja e na sociedade?

A crescente descristianização é o maior desafio do momento, que vos convido a superar, mobilizando para esta finalidade todos os sacerdotes das vossas dioceses. A urgência é para a missão, na qual todos os discípulos do Senhor devem participar, na evangelização de um mundo que, não só já não conhece os aspectos fundamentais do dogma cristão, necessários para uma existência cristã e para uma participação frutuosa na vida sacramental, mas que, em grande medida, perdeu a memória dos elementos culturais do cristianismo.


7. (.....)

Ao recomendar-vos a vós, bem como aos sacerdotes, diáconos e todo o povo cristão que vos está confiado, à protecção materna da Virgem Maria, Mãe da Igreja e nossa Mãe, concedo-vos de coração, assim como a todos os vossos diocesanos, a Bênção apostólica.

**Discurso de 24-I-04, ao grupo de Bispos franceses das províncias eclesiásticas de Tolosa e de Montpellier, em visita “ad limina Apostolorum”.

Título e subtítulos da Redacção da CL.


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